Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Manuel Bandeira
Voz de Fora
Como da copa verde uma folha caída
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
1 471
Manuel Bandeira
Voz de Fora
Como da copa verde uma folha caída
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
1 471
Manuel Bandeira
Solau do Desamado
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar.
Já das assomadas raia
O clarão dilucular,
E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia,
— Céu puro de teu sonhar,
Veste o quimão de cambraia,
Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia
Do ermo balcão do solar
Como uma ardente azagaia
O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar...
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacanéias de invejar.
Tenho lacaio e lacaia.
Como um boi ao meu jantar!
Castelã donosa e gaia,
Acode ao meu suspirar
Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh'alma blasfema e guaia,
Minh'alma que vais danar,
Dona Olaia, Dona Olaia!
— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar...
Tem pena de meu penar.
Já das assomadas raia
O clarão dilucular,
E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia,
— Céu puro de teu sonhar,
Veste o quimão de cambraia,
Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia
Do ermo balcão do solar
Como uma ardente azagaia
O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar...
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacanéias de invejar.
Tenho lacaio e lacaia.
Como um boi ao meu jantar!
Castelã donosa e gaia,
Acode ao meu suspirar
Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh'alma blasfema e guaia,
Minh'alma que vais danar,
Dona Olaia, Dona Olaia!
— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar...
1 465
Marina Colasanti
Mais que o pólen
Olho as abelhas
empenhadas nas flores.
Que gosto sentem elas
me pergunto.
Talvez não seja gosto
o que as atrai
talvez nas asas
nas patinhas
nos infinitos pelos
do seu corpo
estejam
mais que pólen
armazenando o perfume.
empenhadas nas flores.
Que gosto sentem elas
me pergunto.
Talvez não seja gosto
o que as atrai
talvez nas asas
nas patinhas
nos infinitos pelos
do seu corpo
estejam
mais que pólen
armazenando o perfume.
1 101
Marina Colasanti
Mais que o pólen
Olho as abelhas
empenhadas nas flores.
Que gosto sentem elas
me pergunto.
Talvez não seja gosto
o que as atrai
talvez nas asas
nas patinhas
nos infinitos pelos
do seu corpo
estejam
mais que pólen
armazenando o perfume.
empenhadas nas flores.
Que gosto sentem elas
me pergunto.
Talvez não seja gosto
o que as atrai
talvez nas asas
nas patinhas
nos infinitos pelos
do seu corpo
estejam
mais que pólen
armazenando o perfume.
1 101
Marina Colasanti
Matisse em flor
O gerânio que
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
1 168
Marina Colasanti
Na encosta são
Os ciprestes
na encosta
não são árvores.
Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na encosta
não são árvores.
Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 008
Marina Colasanti
Na encosta são
Os ciprestes
na encosta
não são árvores.
Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na encosta
não são árvores.
Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 008
Marina Colasanti
O perigo é quando
No ano de mil quinhentos e quarenta e dois
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
1 127
Marina Colasanti
Ao largo
Um homem nada
Só
em mar aberto.
Metade do seu corpo nada
em água
metade do seu corpo nada
em céu
e ele todo em azul nada
e mais nada.
Um homem quando nada
não é barco
é casco e passageiro ao mesmo tempo
é moinho de vento
em movimento.
Um homem não tem vela
que o impulsione
tem a esteira de espuma
que o acompanha
e o hélice dos pés que adiante
o leva.
Um homem nada
só
em mar aberto
linha reta traçada
sempre em frente
como se houvesse meta
em seu percurso
ou porto adiante
ou terra.
E adiante é mar somente
e mar às costas
sem ponto de chegada
que se veja
e sem medida outra
que não seja
a braçada.
Só
em mar aberto.
Metade do seu corpo nada
em água
metade do seu corpo nada
em céu
e ele todo em azul nada
e mais nada.
Um homem quando nada
não é barco
é casco e passageiro ao mesmo tempo
é moinho de vento
em movimento.
Um homem não tem vela
que o impulsione
tem a esteira de espuma
que o acompanha
e o hélice dos pés que adiante
o leva.
Um homem nada
só
em mar aberto
linha reta traçada
sempre em frente
como se houvesse meta
em seu percurso
ou porto adiante
ou terra.
E adiante é mar somente
e mar às costas
sem ponto de chegada
que se veja
e sem medida outra
que não seja
a braçada.
1 079
Marina Colasanti
Pobre seria sem elas a porcelana chinesa
Porque ia chover
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
971
Marina Colasanti
Pobre seria sem elas a porcelana chinesa
Porque ia chover
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
971
Marina Colasanti
Águas de verão
Através da chuva
meu olhar se encharca
com a roxa enxurrada
roxa aguada
roxa cor
da buganvília
em flor.
meu olhar se encharca
com a roxa enxurrada
roxa aguada
roxa cor
da buganvília
em flor.
1 173
Marina Colasanti
Águas de verão
Através da chuva
meu olhar se encharca
com a roxa enxurrada
roxa aguada
roxa cor
da buganvília
em flor.
meu olhar se encharca
com a roxa enxurrada
roxa aguada
roxa cor
da buganvília
em flor.
1 173
Marina Colasanti
De encrespado dorso
Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 094
Marina Colasanti
De encrespado dorso
Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 094
Marina Colasanti
Como nada
No quinto degrau
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour
e sem disfarces
morte
nua
plantada como nada
em meio à escada.
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour
e sem disfarces
morte
nua
plantada como nada
em meio à escada.
1 219
Marina Colasanti
Todo dia, à caça
Na savana da tv
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
1 088
Marina Colasanti
Dois talhos de luz
Na taça de vidro
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
1 143
Marina Colasanti
Entre nosso olhar e
A luz sobre o lago é
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 083
Marina Colasanti
No túmulo de inox
Morto
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
1 088
Marina Colasanti
E rainúnculos
Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 131
Marina Colasanti
Por instantes
Aquela fruteira
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
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Marina Colasanti
Quando fomos a Delfos
Eu estava encharcada de cortisona
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
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