Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Pablo Neruda
Te Amo
Amante, te amo e me amas e te amo,
são curtos os dias, os meses, a chuva, os trens;
são altas as casas, as árvores, e somos mais altos;
se acerca na areia a espuma que quer beijar-te;
transmigram as aves dos arquipélagos
e crescem em meu coração tuas raízes de trigo.
Não há dúvida, amor meu, que a tempestade de setembro
caiu com seu ferro oxidado sobre tua cabeça
e quando, entre rajadas de espinhos te vi caminhando indefesa,
tomei tua guitarra de âmbar, pus-me a teu lado,
sentindo que eu não podia cantar sem tua boca,
que eu morria se não me olhasses chorando na chuva.
Porque os quebrantos de amor à beira do rio,
porque a cantata que em pleno crepúsculo ardia em minha sombra,
por que se encerraram em ti, chillaneja* fragrante,
e restituíram o dom e o aroma que necessitava
minha roupa gasta por tantas batalhas de inverno?
são curtos os dias, os meses, a chuva, os trens;
são altas as casas, as árvores, e somos mais altos;
se acerca na areia a espuma que quer beijar-te;
transmigram as aves dos arquipélagos
e crescem em meu coração tuas raízes de trigo.
Não há dúvida, amor meu, que a tempestade de setembro
caiu com seu ferro oxidado sobre tua cabeça
e quando, entre rajadas de espinhos te vi caminhando indefesa,
tomei tua guitarra de âmbar, pus-me a teu lado,
sentindo que eu não podia cantar sem tua boca,
que eu morria se não me olhasses chorando na chuva.
Porque os quebrantos de amor à beira do rio,
porque a cantata que em pleno crepúsculo ardia em minha sombra,
por que se encerraram em ti, chillaneja* fragrante,
e restituíram o dom e o aroma que necessitava
minha roupa gasta por tantas batalhas de inverno?
984
José Saramago
15
Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
938
José Saramago
29
Levantou-se então um grande vento que varreu de estrema a estrema entre o mar e a fronteira a terra dos homens
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
1 159
José Saramago
29
Levantou-se então um grande vento que varreu de estrema a estrema entre o mar e a fronteira a terra dos homens
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
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José Saramago
29
Levantou-se então um grande vento que varreu de estrema a estrema entre o mar e a fronteira a terra dos homens
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores
Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme
As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror
Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs
Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu
E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus
E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta
E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado
E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris
Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas
Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna
O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies
A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados
Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono
Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
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José Saramago
17
A mais terrível arma da guerra do desprezo foi o elefante
Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu
Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas
E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais
Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar
E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações
Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens
Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim
Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga
Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue
Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra
Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público
Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu
Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas
E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais
Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar
E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações
Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens
Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim
Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga
Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue
Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra
Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público
Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
1 040
José Saramago
14
Nos quatro pontos cardeais os vigias defendem o sono cansado da tribo ou rebanho de gente que vagueia pelos campos
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
1 012
José Saramago
14
Nos quatro pontos cardeais os vigias defendem o sono cansado da tribo ou rebanho de gente que vagueia pelos campos
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
1 012
Ana Martins Marques
guarda-roupa
seu vestido de verão
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você
Da série “Arquitetura de interiores”
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você
Da série “Arquitetura de interiores”
1 303
Stela do Patrocínio
Meu nome verdadeiro é caixão enterro
Meu nome verdadeiro é caixão enterro
Cemitério defunto cadáver
Esqueleto humano asilo de velhos
Hospital de tudo quanto é doença
Hospício
Mundo dos bichos e dos animais
Os animais: dinossauro camelo onça
Tigre leão dinossauro
Macacos girafas tartarugas
Reino dos bichos e dos animais é o meu nome
Jardim Zoológico Quinta da Boa Vista
Um verdadeiro jardim zoológico
Quinta da Boa Vista
Cemitério defunto cadáver
Esqueleto humano asilo de velhos
Hospital de tudo quanto é doença
Hospício
Mundo dos bichos e dos animais
Os animais: dinossauro camelo onça
Tigre leão dinossauro
Macacos girafas tartarugas
Reino dos bichos e dos animais é o meu nome
Jardim Zoológico Quinta da Boa Vista
Um verdadeiro jardim zoológico
Quinta da Boa Vista
1 014
Ana Martins Marques
Relógio
De que nos serviria
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
1 869
Ana Martins Marques
sala
na sala decorada
pela noite
e pelo imenso desejo,
nossas xícaras
lascadas
Da série “Arquitetura de interiores”
pela noite
e pelo imenso desejo,
nossas xícaras
lascadas
Da série “Arquitetura de interiores”
811
Ana Martins Marques
jardim
a mesa de lata
a cobra verde da mangueira
os canteiros bobos de manjericão
e mato
as rosas enrugadas como tias
atraindo formigas como xícaras mal lavadas
os brinquedos esquecidos
estragando-se de espaço
servidos todos de seu alimento
de sol e nuvem
Da série “Arquitetura de interiores”
a cobra verde da mangueira
os canteiros bobos de manjericão
e mato
as rosas enrugadas como tias
atraindo formigas como xícaras mal lavadas
os brinquedos esquecidos
estragando-se de espaço
servidos todos de seu alimento
de sol e nuvem
Da série “Arquitetura de interiores”
731
José Saramago
12
Um dos resultados da catástrofe foi que de uma hora para a outra os animais domésticos deixaram de o ser
A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante
Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou no portão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés
Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido
E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras
Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores
Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora
A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante
Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou no portão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés
Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido
E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras
Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores
Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora
963
José Saramago
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Um dos resultados da catástrofe foi que de uma hora para a outra os animais domésticos deixaram de o ser
A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante
Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou no portão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés
Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido
E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras
Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores
Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora
A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante
Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou no portão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés
Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido
E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras
Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores
Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora
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José Saramago
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Nenhumas armas a não ser os toscos paus arrancados dificilmente aos ramos mais baixos das árvores e as pedras roladas colhidas nos leitos das ribeiras
Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando
Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la
Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar
E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos
Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado
Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens
Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas
Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido
Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada
Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando
Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la
Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar
E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos
Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado
Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens
Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas
Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido
Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada
Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
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José Saramago
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Não admira que fosse preciso reaprender a linguagem simplificada da fome e do frio
E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha
Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis
Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais
Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam
Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas
E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria
Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres
Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se
Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito
E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias
Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim
Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo
Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha
Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis
Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais
Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam
Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas
E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria
Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres
Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se
Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito
E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias
Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim
Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo
Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
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José Saramago
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Não admira que fosse preciso reaprender a linguagem simplificada da fome e do frio
E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha
Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis
Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais
Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam
Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas
E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria
Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres
Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se
Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito
E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias
Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim
Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo
Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha
Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis
Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais
Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam
Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas
E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria
Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres
Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se
Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito
E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias
Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim
Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo
Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
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José Saramago
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E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
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José Saramago
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E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
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José Saramago
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E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
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José Saramago
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Muito perto do lugar escolhido para o novo acampamento as quatro mulheres que transportavam o fogo gritaram de desespero
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
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José Saramago
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A cidade que os homens deixaram de habitar está agora sitiada por eles
Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada
Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita
Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente
São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito
Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão
De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade
E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não
Na cidade apenas vivem os lobos
Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro
Nada acontece antes da noite
Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum
O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue
Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias
E caçadas aos lobos
Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada
Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita
Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente
São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito
Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão
De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade
E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não
Na cidade apenas vivem os lobos
Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro
Nada acontece antes da noite
Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum
O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue
Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias
E caçadas aos lobos
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José Saramago
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Todas as calamidades haviam caído já sobre a tribo ao ponto de se falar da morte com esperança
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
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