Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Daniel Varoujan
Campo maduro
A minha terra é dourada...
Parece chama.
O grão se queima
e não se consome.
A minha terra é dourada...
o céu é de fogo,
o solo é imóvel
sob as estrelas.
A minha terra é dourada...
As espigas em quatro filas
revestiram-se
de sombra e sol.
A minha terra é dourada...
Passam como relâmpagos,
no meio das espigas,
as abelhas e os zangões.
A minha terra é dourada...
Do mar, das ondas de ouro
voa o pardal
levado pelo vento.
Dorme, terra dourada,
dorme, campo maduro,
colherei o teu ouro
com a foice de prata.
(Tradução de Carlos Freire, in Babel de Poemas, editora L&PM, 2004)
818
Daniel Varoujan
Campo maduro
A minha terra é dourada...
Parece chama.
O grão se queima
e não se consome.
A minha terra é dourada...
o céu é de fogo,
o solo é imóvel
sob as estrelas.
A minha terra é dourada...
As espigas em quatro filas
revestiram-se
de sombra e sol.
A minha terra é dourada...
Passam como relâmpagos,
no meio das espigas,
as abelhas e os zangões.
A minha terra é dourada...
Do mar, das ondas de ouro
voa o pardal
levado pelo vento.
Dorme, terra dourada,
dorme, campo maduro,
colherei o teu ouro
com a foice de prata.
(Tradução de Carlos Freire, in Babel de Poemas, editora L&PM, 2004)
818
Daniel Varoujan
Campo maduro
A minha terra é dourada...
Parece chama.
O grão se queima
e não se consome.
A minha terra é dourada...
o céu é de fogo,
o solo é imóvel
sob as estrelas.
A minha terra é dourada...
As espigas em quatro filas
revestiram-se
de sombra e sol.
A minha terra é dourada...
Passam como relâmpagos,
no meio das espigas,
as abelhas e os zangões.
A minha terra é dourada...
Do mar, das ondas de ouro
voa o pardal
levado pelo vento.
Dorme, terra dourada,
dorme, campo maduro,
colherei o teu ouro
com a foice de prata.
(Tradução de Carlos Freire, in Babel de Poemas, editora L&PM, 2004)
818
Jean-Joseph Rabearivelo
O boi branco
Esta constelação em forma de cruz, é ela o Cruzeiro do Sul?
Eu prefiro chamá-la Boi-branco, como os Árabes.
Ele vem de um parque que se estende às margens da noite
e se enfurna entre duas Vias Lácteas.
O rio de luz não tem aplacado sua sede,
e ei-lo que bebe avidamente do golfo das nebulosas.
Sendo um efebo cego nas regiões do dia,
ele nada tem podido acariciar com seus cornos;
mas, agora que as flores nascem nas pradarias da noite
e que a lua brota de um salto como um touro,
seus olhos recobram a visão, e ele parece mais forte que os bois azuis
e os bois selvagens que dormem em nossos desertos.
Le boeuf-blanc
Cette constellation en forme de croix est-elle l’Étoile du Sud?
Je préfère l’appeler Boeuf-blanc, comme les Arabes.
Il vient d’un parc s’étendant au bord du soir
et s’engage entre deux voies lactées.
Le fleuve de la lumière ne l’a pas désaltéré,
et le voici qui boit avidement au golfe des nébuleuses.
Etant un éphèbe aveugle dans les régions du jour,
il n’a pu rien y caresser avec ses cornes;
mais, maintenant que des fleurs naissent aux prairies de la nuit
et que la lunes les broute en bondissant comme une taure,
ses yeux recouvrent la vue, et il paraît plus fort que les boeufs bleus
et les boeufs sauvages qui dorment dans nos déserts.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 083
Jean-Joseph Rabearivelo
O boi branco
Esta constelação em forma de cruz, é ela o Cruzeiro do Sul?
Eu prefiro chamá-la Boi-branco, como os Árabes.
Ele vem de um parque que se estende às margens da noite
e se enfurna entre duas Vias Lácteas.
O rio de luz não tem aplacado sua sede,
e ei-lo que bebe avidamente do golfo das nebulosas.
Sendo um efebo cego nas regiões do dia,
ele nada tem podido acariciar com seus cornos;
mas, agora que as flores nascem nas pradarias da noite
e que a lua brota de um salto como um touro,
seus olhos recobram a visão, e ele parece mais forte que os bois azuis
e os bois selvagens que dormem em nossos desertos.
Le boeuf-blanc
Cette constellation en forme de croix est-elle l’Étoile du Sud?
Je préfère l’appeler Boeuf-blanc, comme les Arabes.
Il vient d’un parc s’étendant au bord du soir
et s’engage entre deux voies lactées.
Le fleuve de la lumière ne l’a pas désaltéré,
et le voici qui boit avidement au golfe des nébuleuses.
Etant un éphèbe aveugle dans les régions du jour,
il n’a pu rien y caresser avec ses cornes;
mais, maintenant que des fleurs naissent aux prairies de la nuit
et que la lunes les broute en bondissant comme une taure,
ses yeux recouvrent la vue, et il paraît plus fort que les boeufs bleus
et les boeufs sauvages qui dorment dans nos déserts.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 083
Jean-Joseph Rabearivelo
O boi branco
Esta constelação em forma de cruz, é ela o Cruzeiro do Sul?
Eu prefiro chamá-la Boi-branco, como os Árabes.
Ele vem de um parque que se estende às margens da noite
e se enfurna entre duas Vias Lácteas.
O rio de luz não tem aplacado sua sede,
e ei-lo que bebe avidamente do golfo das nebulosas.
Sendo um efebo cego nas regiões do dia,
ele nada tem podido acariciar com seus cornos;
mas, agora que as flores nascem nas pradarias da noite
e que a lua brota de um salto como um touro,
seus olhos recobram a visão, e ele parece mais forte que os bois azuis
e os bois selvagens que dormem em nossos desertos.
Le boeuf-blanc
Cette constellation en forme de croix est-elle l’Étoile du Sud?
Je préfère l’appeler Boeuf-blanc, comme les Arabes.
Il vient d’un parc s’étendant au bord du soir
et s’engage entre deux voies lactées.
Le fleuve de la lumière ne l’a pas désaltéré,
et le voici qui boit avidement au golfe des nébuleuses.
Etant un éphèbe aveugle dans les régions du jour,
il n’a pu rien y caresser avec ses cornes;
mais, maintenant que des fleurs naissent aux prairies de la nuit
et que la lunes les broute en bondissant comme une taure,
ses yeux recouvrent la vue, et il paraît plus fort que les boeufs bleus
et les boeufs sauvages qui dorment dans nos déserts.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 083
Itamar Assumpção
Abobrinhas não
Cansei de ouvir abobrinhas
vou consultar escarolas
prefiro escutar salsinhas
pedir consolo às papoulas
e às carambolas
pedir um help ao repolho
indagar umas espigas
aprender com pés de alho
sobre bugalhos
ouvir dicas das urtigas
e dessas tulipas
um toque pro miosótis
um palpite pro alpiste
uma luz da flor de lótus
pedir alento ao cipreste
e pra dama da noite
pedir conselho à serralha
sugestão pro almeirão
idéias para azaléias
opinião para o limão, pimentão
abobrinhas não
911
Frank O'Hara
Três árias
para Norman Bluhm
1.
Tantas coisas no ar! fuligem,
bolas de elefante, uma nuvem chinesa
que já desabou por completo, um gato
girado pelo rabo
e as sensações
dos mortos que batem e se esbarram
dentro dos meus olhos cansados
2.
Lá nas profundezas vive um passarinho
que só cantarola, um canto de coragem
e temperança; administra uma fundição
e como é firme ao pegar as coisas! arranca-as
do limo e depois – oh! céus! – numa travessura
ele as joga no caldeirão da feiura
e já um pôr do sol vem nomeando
os álamos que, aguados, só veem a si mesmos
3.
Ah ser um anjo (se anjos houvesse!) e subir
direto ao céu e dar uma olhada e depois
descer
não estar coberto com aço e alumínio
fulgurantemente feio nas distâncias puras e estalando e
estourando, arfando
mas ser parte do topo das árvores e do azul, invisível,
na escuridão iridescente ao longe,
silencioso, ouvindo ao
ar tornar-se não ar tornar-se ar de novo
:
Three airs
to Normam Bluhm
1.
So many things in the air! soot,
elephant balls, a Chinese cloud
which is entirely collapsed, a cat
swung by its tail
and the senses
of the dead which are banging about
inside my tired red eyes
2.
In the deeps there is a little bird
and it only hums, it hums of fortitude
and temperance, it is managing a foundry
how firmly it must grasp things! tear them
out of the slime and then, alas! It mischievously
drops them into the cauldron of hideousness
there is already a sunset naming
the poplars which see only, watery, themselves
3.
Oh to be an angel (if there were any!), and go
straight up into the sky and look around and then
come down
not to be covered with steel and aluminum
glaringly ugly in the pure distances and clattering and
buckling, wheezing
but to be part of the treetops and the blueness, invisible,
the iridescent darkness beyond,
silent, listening to
the air becoming no air becoming air again
1 177
Frank O'Hara
Três árias
para Norman Bluhm
1.
Tantas coisas no ar! fuligem,
bolas de elefante, uma nuvem chinesa
que já desabou por completo, um gato
girado pelo rabo
e as sensações
dos mortos que batem e se esbarram
dentro dos meus olhos cansados
2.
Lá nas profundezas vive um passarinho
que só cantarola, um canto de coragem
e temperança; administra uma fundição
e como é firme ao pegar as coisas! arranca-as
do limo e depois – oh! céus! – numa travessura
ele as joga no caldeirão da feiura
e já um pôr do sol vem nomeando
os álamos que, aguados, só veem a si mesmos
3.
Ah ser um anjo (se anjos houvesse!) e subir
direto ao céu e dar uma olhada e depois
descer
não estar coberto com aço e alumínio
fulgurantemente feio nas distâncias puras e estalando e
estourando, arfando
mas ser parte do topo das árvores e do azul, invisível,
na escuridão iridescente ao longe,
silencioso, ouvindo ao
ar tornar-se não ar tornar-se ar de novo
:
Three airs
to Normam Bluhm
1.
So many things in the air! soot,
elephant balls, a Chinese cloud
which is entirely collapsed, a cat
swung by its tail
and the senses
of the dead which are banging about
inside my tired red eyes
2.
In the deeps there is a little bird
and it only hums, it hums of fortitude
and temperance, it is managing a foundry
how firmly it must grasp things! tear them
out of the slime and then, alas! It mischievously
drops them into the cauldron of hideousness
there is already a sunset naming
the poplars which see only, watery, themselves
3.
Oh to be an angel (if there were any!), and go
straight up into the sky and look around and then
come down
not to be covered with steel and aluminum
glaringly ugly in the pure distances and clattering and
buckling, wheezing
but to be part of the treetops and the blueness, invisible,
the iridescent darkness beyond,
silent, listening to
the air becoming no air becoming air again
1 177
Frank O'Hara
Três árias
para Norman Bluhm
1.
Tantas coisas no ar! fuligem,
bolas de elefante, uma nuvem chinesa
que já desabou por completo, um gato
girado pelo rabo
e as sensações
dos mortos que batem e se esbarram
dentro dos meus olhos cansados
2.
Lá nas profundezas vive um passarinho
que só cantarola, um canto de coragem
e temperança; administra uma fundição
e como é firme ao pegar as coisas! arranca-as
do limo e depois – oh! céus! – numa travessura
ele as joga no caldeirão da feiura
e já um pôr do sol vem nomeando
os álamos que, aguados, só veem a si mesmos
3.
Ah ser um anjo (se anjos houvesse!) e subir
direto ao céu e dar uma olhada e depois
descer
não estar coberto com aço e alumínio
fulgurantemente feio nas distâncias puras e estalando e
estourando, arfando
mas ser parte do topo das árvores e do azul, invisível,
na escuridão iridescente ao longe,
silencioso, ouvindo ao
ar tornar-se não ar tornar-se ar de novo
:
Three airs
to Normam Bluhm
1.
So many things in the air! soot,
elephant balls, a Chinese cloud
which is entirely collapsed, a cat
swung by its tail
and the senses
of the dead which are banging about
inside my tired red eyes
2.
In the deeps there is a little bird
and it only hums, it hums of fortitude
and temperance, it is managing a foundry
how firmly it must grasp things! tear them
out of the slime and then, alas! It mischievously
drops them into the cauldron of hideousness
there is already a sunset naming
the poplars which see only, watery, themselves
3.
Oh to be an angel (if there were any!), and go
straight up into the sky and look around and then
come down
not to be covered with steel and aluminum
glaringly ugly in the pure distances and clattering and
buckling, wheezing
but to be part of the treetops and the blueness, invisible,
the iridescent darkness beyond,
silent, listening to
the air becoming no air becoming air again
1 177
Nizâr Qabbânî
sobre o amor marinho
sou o teu mar, senhora minha,
e não me perguntes da viagem
nem do tempo da partida e da chegada:
só tens de
esquecer os impulsos da terra
e obedecer às leis do mar
e entrar-me como peixe enfurecido;
racha o navio em dois pedaços
e o horizonte em dois pedaços
e a minha vida em dois pedaços
Nizâr Qabbânî
(tradução de André Simões)
999
Vasko Popa
Caracol estrelado
Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
883
Vasko Popa
Caracol estrelado
Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
883
Vasko Popa
Caracol estrelado
Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
883
Tite de Lemos
God (short) story
Tudo o que eu como
e tudo pelo que eu sou comido.
A essência das flores
e a flor da essência das flores.
O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.
O rinoceronte
e o unicórnio.
As estações do ano
e a paralisia infantil.
A boca das coisas
e o ânus das coisas.
A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.
O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía.
761
Tite de Lemos
God (short) story
Tudo o que eu como
e tudo pelo que eu sou comido.
A essência das flores
e a flor da essência das flores.
O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.
O rinoceronte
e o unicórnio.
As estações do ano
e a paralisia infantil.
A boca das coisas
e o ânus das coisas.
A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.
O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía.
761
Tite de Lemos
God (short) story
Tudo o que eu como
e tudo pelo que eu sou comido.
A essência das flores
e a flor da essência das flores.
O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.
O rinoceronte
e o unicórnio.
As estações do ano
e a paralisia infantil.
A boca das coisas
e o ânus das coisas.
A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.
O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía.
761
Tite de Lemos
God (short) story
Tudo o que eu como
e tudo pelo que eu sou comido.
A essência das flores
e a flor da essência das flores.
O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.
O rinoceronte
e o unicórnio.
As estações do ano
e a paralisia infantil.
A boca das coisas
e o ânus das coisas.
A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.
O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía.
761
Tite de Lemos
um último poema é uma fragata
um último poema é uma fragata
avizinhando-se do cais do porto
uma canção que nos consola e mata
alegremente o coração já morto
lembra-me gypsies, margaridas; chuvas
ressurreições. A brisa bruxa acorda
as donzelas princesas e as viúvas
senhoras dos seus mestres e seus corpos
os adeuses têm gosto de suspiros
são doces brevidades souvenirs
ursinhos de pelúcia esquecimentos.
Quando nos visitar a inconhecida
visitante estaremos, longe, ausentes
e ao mesmo tempo sempre, sempre, aqui.
.
.
.
avizinhando-se do cais do porto
uma canção que nos consola e mata
alegremente o coração já morto
lembra-me gypsies, margaridas; chuvas
ressurreições. A brisa bruxa acorda
as donzelas princesas e as viúvas
senhoras dos seus mestres e seus corpos
os adeuses têm gosto de suspiros
são doces brevidades souvenirs
ursinhos de pelúcia esquecimentos.
Quando nos visitar a inconhecida
visitante estaremos, longe, ausentes
e ao mesmo tempo sempre, sempre, aqui.
.
.
.
755
Tite de Lemos
Altamira's gift
Esboça um caçador a sua caça
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores
872
Tite de Lemos
Altamira's gift
Esboça um caçador a sua caça
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores
872
Tite de Lemos
áspera Prisma lápice cria'anza
áspera Prisma lápice cria'anza
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap
? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar
os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo
nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas
: prisma. Ver
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap
? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar
os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo
nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas
: prisma. Ver
824
Lucebert
eu desligo uma revolução
eu desligo uma revolução
eu desligo uma pequena revolução deleitável
eu não sou mais da terra
eu sou de novo da água
eu carrego capacetes espumantes na cabeça
eu carrego fantasmas fotógrafos na cabeça
em minhas costas descansa uma sereia
em minhas costas descansa o vento
o vento e a sereia cantarolam
os capacetes espumantes sussurram
os fantasmas fotógrafos despencam
eu desligo uma pequena deleitável revolução revoluteante
e despenco e sussuro e cantarolo
:
ik draai een kleine revolutie af
ik draai een kleine mooie revolutie af
ik ben niet langer van land
ik ben weer water
ik draag schuimende koppen op mijn hoofd
ik draag schietende schimmen in mijn hoofd
op mijn rug rust een zeemeermin
op mijn rug rust de wind
de wind en de zeemeermin zingen
de schuimende koppen ruisen
de schietende schimmen vallen
ik draai een kleine mooie ritselende revolutie af
en ik val en ik ruis en ik zing
Lucebert, "O domador de animais" (pintura a óleo, 1959).
.
.
.
656
Hilda Hilst
O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
1 194