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Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Manuel de Santa Maria Itaparica

Manuel de Santa Maria Itaparica

Canto Quinto

XIII

Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.

XIV

Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.

XV

Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.

XVI

E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.

(...)

XVIII

Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.

(...)

XXII

Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.

XXIII

Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são às vezes verdadeiros.

(...)


Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).

In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.138-141. (Textos, 2
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Gilka Machado

Gilka Machado

Verão

A Primavera veio
e se foi, mas deixou tremendo em cada seio
um rebento de amor. O Verão se acentua,
e, de manhã, bem cedo,
vêm dos silêncios amplos e sombrios
dos versudos moitais,
vêm do arvoredo,
murmúrios
macios
de cicios...
Há um mistério, um segredo
que sai dos íntimos refolhos
da alma dos animais,
das plantas, do minério,
– amoroso mistério
que as mulheres relatam pelos olhos.

Parece mais redonda
a curva da montanha, a curva da onda...
Por onde quer que a luz dos olhos entre
estranha tumescência encontra em cada ventre;
o claro e escampo céu, sobre as coisas aberto
da terra está mais perto
e está mais lindo,
como que pesado, como que caindo,
das entranhas contendo nos profundos
desvãos a gravidez de novos mundos.

Verão!
Que maravilha!
– a luz fervilha
em tudo:
nota-se do silêncio no veludo
uma palpitação
de existência no embrião;
partículas de Sol a água envolve, rolando,
partículas de Sol tremem, de quando em quando,
na fronderia, no ar;
partículas de Sol pululam pela estrada
que trilho, iluminada...
Creio que a luz esteja a desovar,
sinto-a vivendo, sinto-a vibrando
na minha pele, em cada membro, a cada
instante, e vago contaminada,
pelo gérmens vitais da procriação solar.

O dia lembra uma exaustão de amor...
Verão! Que acídia, que langor!...
Quem me dera também me desdobrar assim
como esse azul etéreo
que paira sobre mim
num lírico elastério!...
Por ti, Verão, todo meu corpo sente
ânsia de se expandir indefinidamente,
ânsia de se esticar, de se esticar
como as montanhas, como o mar,
em curvas lentas, no semiústo ambiente;
ânsia de distender
uma serpente
que carrego enroscada no meu ser.

Quero amor, quero ardência! A ti me exponho.
Verão, sou toda fecundidade!
– O calor me penetra, o Sol me invade
o senso,
e tudo em torno a mim se torna mais extenso,
tudo em que os olhos ponho:
o céu, o oceano, a mata...
E enquanto em gestação a Terra se dilata,
Dilata-se minha alma à gestação do Sonho.


Publicado no livro Mulher Nua (1922).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992. p. 237-239
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Gilka Machado

Gilka Machado

Verão

A Primavera veio
e se foi, mas deixou tremendo em cada seio
um rebento de amor. O Verão se acentua,
e, de manhã, bem cedo,
vêm dos silêncios amplos e sombrios
dos versudos moitais,
vêm do arvoredo,
murmúrios
macios
de cicios...
Há um mistério, um segredo
que sai dos íntimos refolhos
da alma dos animais,
das plantas, do minério,
– amoroso mistério
que as mulheres relatam pelos olhos.

Parece mais redonda
a curva da montanha, a curva da onda...
Por onde quer que a luz dos olhos entre
estranha tumescência encontra em cada ventre;
o claro e escampo céu, sobre as coisas aberto
da terra está mais perto
e está mais lindo,
como que pesado, como que caindo,
das entranhas contendo nos profundos
desvãos a gravidez de novos mundos.

Verão!
Que maravilha!
– a luz fervilha
em tudo:
nota-se do silêncio no veludo
uma palpitação
de existência no embrião;
partículas de Sol a água envolve, rolando,
partículas de Sol tremem, de quando em quando,
na fronderia, no ar;
partículas de Sol pululam pela estrada
que trilho, iluminada...
Creio que a luz esteja a desovar,
sinto-a vivendo, sinto-a vibrando
na minha pele, em cada membro, a cada
instante, e vago contaminada,
pelo gérmens vitais da procriação solar.

O dia lembra uma exaustão de amor...
Verão! Que acídia, que langor!...
Quem me dera também me desdobrar assim
como esse azul etéreo
que paira sobre mim
num lírico elastério!...
Por ti, Verão, todo meu corpo sente
ânsia de se expandir indefinidamente,
ânsia de se esticar, de se esticar
como as montanhas, como o mar,
em curvas lentas, no semiústo ambiente;
ânsia de distender
uma serpente
que carrego enroscada no meu ser.

Quero amor, quero ardência! A ti me exponho.
Verão, sou toda fecundidade!
– O calor me penetra, o Sol me invade
o senso,
e tudo em torno a mim se torna mais extenso,
tudo em que os olhos ponho:
o céu, o oceano, a mata...
E enquanto em gestação a Terra se dilata,
Dilata-se minha alma à gestação do Sonho.


Publicado no livro Mulher Nua (1922).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992. p. 237-239
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Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Advertência

Europeu!
Nos tabuleiros de xadrez da tua aldeia,
na tua casa de madeira, pequenina, coberta de hera,
na tua casa de pinhões e beirais, vigiada por filas de cercas
[paralelas, com trepadeiras moles balançando
[e florindo;
na tua sala de jantar, junto do fogão de azulejos, cheirando a
[resina de pinheiro e faia,
na tua sala de jantar, em que os teus avós leram a Bíblia e
[discutiram casamentos, colheitas e enterros,
entre as tuas arcas bojudas e pretas, com lãs felpudas e linhos
[encardidos, colares, gravuras, papéis
[graves e moedas roubadas ao inútil
[maravilhoso;
diante do teu riacho, mais antigo que as Cruzadas, desse teu
[riacho serviçal, que engorda trutas e
[carpas;

Europeu!
Em frente da tua paisagem, dessa tua paisagem com estradas,
[quintalejos, campanários e burgos, que
[cabe toda na bola de vidro do teu
[jardim;
diante dessas tuas árvores que conheces pelo nome- o carvalho
[do açude, o choupo do ferreiro, a tília
[da ponte — que conheces pelo nome
[como os teus cães, os teus jumentos e as
[tuas vacas;

Europeu! filho da obediência, da economia e do bom senso,
tu não sabes o que é ser Americano!
Ah! os tumultos do nosso sangue temperado em saltos e disparadas
[sobre pampas, savanas, planaltos,
[caatingas onde estouram boiadas tontas,
[onde estouram batuques de cascos, tropel
[de patas, torvelinho de chifres!
Alegria virgem das voltas que o laço dá na coxilha verde,
Alegria virgem de rios-mares, enxurradas, planícies cósmicas,
[picos e grimpas, terras livres, ares livres,
[florestas sem lei!
Alegria de inventar, de descobrir, de correr!
Alegria de criar o caminho com a planta do pé!

Europeu!
Nessa maré de massas informes, onde as raças e as línguas se
[dissolvem,
o nosso espírito áspero e ingênuo flutua sobre as cousas, sobre
[todas as cousas divinamente rudes, onde
[bóia a luz selvagem do dia americano!


Publicado no livro Toda a América (1926).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.187-188. (Manancial, 44
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