Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Angela Santos
Alto Mar
Deixo-me em sossego,
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...
Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir
Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....
Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz
e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos
além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...
Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir
Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....
Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz
e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos
além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.
1 114
Angela Santos
Dança do
Sol
Esperei o sol
chegar
sabendo que como flor desabrochando
a ele se abriria o coração
E no meio da dança
eu então me vi
qual adoradora da estrela-rainha,
evocar teu nome.
e claramente à luz do meu dia
límpidos emergiram
contornos, sinais, nuances da alma
que te fazem estar dentro e fora de mim
É à luz do sol
que o coração vive e se dá em oferenda
à mulher amada e ao chão que pisa.
esse lugar que de longe me chama
a cumprir o que foi
inscrito em minha sina.
Esperei o sol
chegar
sabendo que como flor desabrochando
a ele se abriria o coração
E no meio da dança
eu então me vi
qual adoradora da estrela-rainha,
evocar teu nome.
e claramente à luz do meu dia
límpidos emergiram
contornos, sinais, nuances da alma
que te fazem estar dentro e fora de mim
É à luz do sol
que o coração vive e se dá em oferenda
à mulher amada e ao chão que pisa.
esse lugar que de longe me chama
a cumprir o que foi
inscrito em minha sina.
656
Angela Santos
A Nossa Casa
Entrando,
a luz a domina,
a canela e o jasmim
se fundem e expandem
a nossa casa ...
Dentro
as paredes reflectem
a luz que a ilumina
e se derrama pelo chão...
Nossos livros, nossos quadros
musica, fotografias
nossa cama, nossas marcas
pelos cantos
Fora
colhem o dia e respiram
as flores,
e o serra da estrela, saltita
ao ver-te passar o umbral..
a nossa casa...
Abre-se a porta
a luz anuncia a chegada...
a rede baloiça,
acendo um cigarro
e deitas-te a meu lado...
A tarde serena cai
sobre as Buganvilias
e os coqueirais
e algo em nós se ilumina...
a mesma luz se derrama
nos brancos lençóis de linho
onde acordas tu e eu...
a luz de todas as manhãs
adentrando nossa casa,
invadindo nossas vidas...
a luz a domina,
a canela e o jasmim
se fundem e expandem
a nossa casa ...
Dentro
as paredes reflectem
a luz que a ilumina
e se derrama pelo chão...
Nossos livros, nossos quadros
musica, fotografias
nossa cama, nossas marcas
pelos cantos
Fora
colhem o dia e respiram
as flores,
e o serra da estrela, saltita
ao ver-te passar o umbral..
a nossa casa...
Abre-se a porta
a luz anuncia a chegada...
a rede baloiça,
acendo um cigarro
e deitas-te a meu lado...
A tarde serena cai
sobre as Buganvilias
e os coqueirais
e algo em nós se ilumina...
a mesma luz se derrama
nos brancos lençóis de linho
onde acordas tu e eu...
a luz de todas as manhãs
adentrando nossa casa,
invadindo nossas vidas...
1 171
Angela Santos
A Nossa Casa
Entrando,
a luz a domina,
a canela e o jasmim
se fundem e expandem
a nossa casa ...
Dentro
as paredes reflectem
a luz que a ilumina
e se derrama pelo chão...
Nossos livros, nossos quadros
musica, fotografias
nossa cama, nossas marcas
pelos cantos
Fora
colhem o dia e respiram
as flores,
e o serra da estrela, saltita
ao ver-te passar o umbral..
a nossa casa...
Abre-se a porta
a luz anuncia a chegada...
a rede baloiça,
acendo um cigarro
e deitas-te a meu lado...
A tarde serena cai
sobre as Buganvilias
e os coqueirais
e algo em nós se ilumina...
a mesma luz se derrama
nos brancos lençóis de linho
onde acordas tu e eu...
a luz de todas as manhãs
adentrando nossa casa,
invadindo nossas vidas...
a luz a domina,
a canela e o jasmim
se fundem e expandem
a nossa casa ...
Dentro
as paredes reflectem
a luz que a ilumina
e se derrama pelo chão...
Nossos livros, nossos quadros
musica, fotografias
nossa cama, nossas marcas
pelos cantos
Fora
colhem o dia e respiram
as flores,
e o serra da estrela, saltita
ao ver-te passar o umbral..
a nossa casa...
Abre-se a porta
a luz anuncia a chegada...
a rede baloiça,
acendo um cigarro
e deitas-te a meu lado...
A tarde serena cai
sobre as Buganvilias
e os coqueirais
e algo em nós se ilumina...
a mesma luz se derrama
nos brancos lençóis de linho
onde acordas tu e eu...
a luz de todas as manhãs
adentrando nossa casa,
invadindo nossas vidas...
1 171
Angela Santos
Travessia
Duvidas
devoram a lava derramada
e sulcos há agora no lugar por onde
ainda ontem jorravam
rios de incandescências
Leio-me nas marcas
impressas pela torrente
e saudade é o que eu sinto já
Entre as duas margens
sente-se a corrente e atravessa-la
está ainda inscrito
no ímpeto que me lança à margem de lá.
Vejo-me de branco imprimindo as marcas
dos meus pés na areia de um outro lugar…
mas é tão fugaz essa imagem branca
de pés caminhando ao longo da praia
como se uma onda invadindo a orla
de manso levasse as marcas e o trilho
desenhado em sonhos que eu quis sonhar.
Aqui, nesta margem
onde a sós me deito com o que sonhei
propaga-se em ondas o tremor do um vulcão
que invade em silencio o chão que é o meu
e deixo-me ficar quieta à escuta do que agora
vibra e ecoa em mim.
Duvidas e vontades, escavam meu peito,
lanço o meu olhar lá para outra margem
esperando um sinal, o derradeiro aceno
que não sei se virá, e não sei se o quero
e se vier não sei o que me trará,
sei que vou ficar e imprimir
pegadas nas areias finas do meu frio mar.
devoram a lava derramada
e sulcos há agora no lugar por onde
ainda ontem jorravam
rios de incandescências
Leio-me nas marcas
impressas pela torrente
e saudade é o que eu sinto já
Entre as duas margens
sente-se a corrente e atravessa-la
está ainda inscrito
no ímpeto que me lança à margem de lá.
Vejo-me de branco imprimindo as marcas
dos meus pés na areia de um outro lugar…
mas é tão fugaz essa imagem branca
de pés caminhando ao longo da praia
como se uma onda invadindo a orla
de manso levasse as marcas e o trilho
desenhado em sonhos que eu quis sonhar.
Aqui, nesta margem
onde a sós me deito com o que sonhei
propaga-se em ondas o tremor do um vulcão
que invade em silencio o chão que é o meu
e deixo-me ficar quieta à escuta do que agora
vibra e ecoa em mim.
Duvidas e vontades, escavam meu peito,
lanço o meu olhar lá para outra margem
esperando um sinal, o derradeiro aceno
que não sei se virá, e não sei se o quero
e se vier não sei o que me trará,
sei que vou ficar e imprimir
pegadas nas areias finas do meu frio mar.
1 068
Angela Santos
Sinais
Nas
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
1 211
Angela Santos
Puros Sangue
Desgarra-se
do meu peito
sem freio o potro selvagem
e galopa ao compasso
do que em mim te quer e pensa...
Que de sentir e saber
é seu galope, seu trote
e à vista do puro sangue,
que em teu peito saltita
se desgarra mais ainda.
Esses dois potros selvagens,
se reconhecem no cheiro,
no galope que os parelha,
no fogo, na crina ao vento...
Selvagens potros de fogo
exaltam na liberdade
centelhas de uma outra vida....
Pégasos da nossa memória
centauros foram um dia
Livres e soltos
no teu e no meu peito desgarram,
potros de fogo, selvagens
do nosso ser a medida.
do meu peito
sem freio o potro selvagem
e galopa ao compasso
do que em mim te quer e pensa...
Que de sentir e saber
é seu galope, seu trote
e à vista do puro sangue,
que em teu peito saltita
se desgarra mais ainda.
Esses dois potros selvagens,
se reconhecem no cheiro,
no galope que os parelha,
no fogo, na crina ao vento...
Selvagens potros de fogo
exaltam na liberdade
centelhas de uma outra vida....
Pégasos da nossa memória
centauros foram um dia
Livres e soltos
no teu e no meu peito desgarram,
potros de fogo, selvagens
do nosso ser a medida.
1 112
Eduardo Valente da Fonseca
Ó vagarosa noite
Ó vagarosa noite a vir de manso
profunda e densa pela cidade toda.
A estas horas onde em outros lados
floresce amoroso o sol por sobre terras?
Ó alegria de me ser em tudo.
ó humildes irmãos do grande mundo
deitados sobre o sonho como quem
aguarda o belo tempo de haver tudo!
profunda e densa pela cidade toda.
A estas horas onde em outros lados
floresce amoroso o sol por sobre terras?
Ó alegria de me ser em tudo.
ó humildes irmãos do grande mundo
deitados sobre o sonho como quem
aguarda o belo tempo de haver tudo!
1 023
Geraldo Pinto Rodrigues
Pélvicas Angras
Pélvicas angras
aonde veleja
meu barco ébrio
entre suores.
Meu barco púbico
roçando o porto
de tuas ancas,
nos desesperos.
Se a quilha agito
qual um corcel,
nos descampados
já faço água
neste batel
desgovernado
nos teus desmandos.
Só sigo a viagem,
mais confortado,
quando fundeio
nos teus abraços.
Enfim, assédios
de muitos frêmitos
me desintegram
nos teus penhascos!
aonde veleja
meu barco ébrio
entre suores.
Meu barco púbico
roçando o porto
de tuas ancas,
nos desesperos.
Se a quilha agito
qual um corcel,
nos descampados
já faço água
neste batel
desgovernado
nos teus desmandos.
Só sigo a viagem,
mais confortado,
quando fundeio
nos teus abraços.
Enfim, assédios
de muitos frêmitos
me desintegram
nos teus penhascos!
1 042
Anjo Hazel
Soneto à Musa Materializada
Ah, menina
de sorriso meigo...
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...
Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.
Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...
Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.
de sorriso meigo...
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...
Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.
Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...
Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.
1 094
Eduardo Valente da Fonseca
Deve-se amar o perto
O homem
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.
958
Eduardo Valente da Fonseca
Deve-se amar o perto
O homem
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.
958
Alfonsina Storni
A Carícia Perdida
Sai-me dos
dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?
dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?
1 233
Cláudia Marczak
O Sexo é Sagrado
O sexo é
sagrado,
como salgadas são as gotas de suor
que brotam dos meus poros
e encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
onde me torno uma deusa enlouquecida
sentindo teus pelos sobre a minha pele.
Neste instante já não sou nada,
somente corpo,
boca,
pele,
pêlos,
línguas,
bocas.
E a vida brota da semente,
dos poucos segundos de êxtase.
Tuas mãos como um brinquedo
passeiam pelo meu corpo.
Não revelam segredos
desvendam apenas o pudor do mundo,
descobrem a febre dos animais.
Então nos tornamos um
ao mesmo tempo em que
a escuridão explode em festa.
A noite amanhece sem versos,
com a música do seu hálito ofegante.
O sol brota de dentro de mim.
Breves segundos.
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.
Eu fui feliz.
sagrado,
como salgadas são as gotas de suor
que brotam dos meus poros
e encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
onde me torno uma deusa enlouquecida
sentindo teus pelos sobre a minha pele.
Neste instante já não sou nada,
somente corpo,
boca,
pele,
pêlos,
línguas,
bocas.
E a vida brota da semente,
dos poucos segundos de êxtase.
Tuas mãos como um brinquedo
passeiam pelo meu corpo.
Não revelam segredos
desvendam apenas o pudor do mundo,
descobrem a febre dos animais.
Então nos tornamos um
ao mesmo tempo em que
a escuridão explode em festa.
A noite amanhece sem versos,
com a música do seu hálito ofegante.
O sol brota de dentro de mim.
Breves segundos.
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.
Eu fui feliz.
1 093
Joaquim Pessoa
Outono
Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
2 319
Angela Santos
Fontes
No
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
1 031
Angela Santos
Fontes
No
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
1 031
Angela Santos
Fontes
No
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
1 031
Eduardo Valente da Fonseca
De onde vem a cidade
quando passeio á noite pela cidade recolhida em íntimo silencio,
olho admirado as ruas e as árvores
e interrogo enigmático sobre os olhos cerrados dos homens citadinos
o serem eles o sentido disto tudo.
E penso nas formosas flores públicas plantadas para todos,
penso na janela clara aberta sobre o mar,
nas avenidas livres fechando junto ao céu....
então maciamente vou,
espantado de estar na vida a ser um homem
e a cumprir o tempo de ser grande,
descerrar as pálpebras descidas dos humanos irmãos emparedadas
e mostrar-lhes porque existem avenidas,
de onde vêm as casas e as fábricas
e porquê quando rente á madrugada
um pássaro cantando entre o cimento e as flores
na tenra primavera da cidade
pode encher de frescura e de sentido e vida.
olho admirado as ruas e as árvores
e interrogo enigmático sobre os olhos cerrados dos homens citadinos
o serem eles o sentido disto tudo.
E penso nas formosas flores públicas plantadas para todos,
penso na janela clara aberta sobre o mar,
nas avenidas livres fechando junto ao céu....
então maciamente vou,
espantado de estar na vida a ser um homem
e a cumprir o tempo de ser grande,
descerrar as pálpebras descidas dos humanos irmãos emparedadas
e mostrar-lhes porque existem avenidas,
de onde vêm as casas e as fábricas
e porquê quando rente á madrugada
um pássaro cantando entre o cimento e as flores
na tenra primavera da cidade
pode encher de frescura e de sentido e vida.
1 001
Angela Santos
Spring Cleaning
Há
dias em que se acorda com o ímpeto da limpeza e ordenação
do espaço que nos rodeia. De repente nos damos conta do que ao
longo do tempo sem têm acumulado ao nosso redor, silenciosamente
e já sem utilidade, papeis e objetos.
E sem saber
como nem porquê, despertamos para as coisas mais ou menos inúteis
que por esquecimento, preguiça, ou pelo simples hábito
de as ver naquele lugar, fomos deixando invadir o nosso espaço,
isso que agora só vemos como lixo.
Até
as idéias viram lixo e nesses momentos em que a irreprimível
vontade de colocar as coisas no seu lugar reaparece, sentimos que é
necessário agendar, priorizar, limpar os gavetões mesmo
os da memória e da vida.
Abrindo
os armários, damos conta de que aquele vestido já não
condiz com a cor que trazemos por dentro, e aquele amontoado de papeis
com informação, só foi útil num determinado
momento; aquele outro objeto que alguém nos ofereceu, juntamente
com outros que fomos acumulando, ao longo do tempo, hoje os olhamos
e sentimos estarem somente ocupando espaço, fora da gente.
Até
o odor de coisas velhas assoma, e no ambiente que nos rodeia parece
estar faltando alguma coisa. Dá vontade de queimar incenso, colocar
flores por toda a casa.
E olhando
as estantes onde repousam meus livros, meus velhos discos de vinil e
os modernos Cds, me pareceu não ser aquele o local ideal para
os deixar e logo ali imaginei o espaço ideal para onde gostaria
de transladá-los. Assim acontece a quem compartilhando o espaço
onde vive, precisa se habituar a todos esses objetos que não
chegam pela sua própria mão ou escolha. Conviver é
ceder e a partilha de espaço nos obriga a respeitar a forma como
os outros o ocupam também.
Organizar
o espaço...ordenar a vida. Naquele momento isso me pareceu importante
movida pela vontade de refrescar e renovar. Aqui onde estou a desorganização,
é um estado quase permanente. Me incomoda a organização
excessiva. É como se um certo "fora de ordem" se tenha tornado
imprescindível ao meu equilíbrio. A organização
rígida é algo que afronto dentro de mim. Inconscientemente
vejo nessa excessiva ordenação das coisas, um modo de
ficar presa aos lugares, e eu sei que ainda não piso o lugar
onde quero criar raízes. Vivo numa dimensão "inter-espacial",
entre o lugar real e o lugar das projeções. Entre os dois
procuro lançar a ponte que torne o espaço da projeção
nesse outro o lugar : o da realidade vivida.
E porque
de limpeza, de ordenação de refrescar, se pretendia aludir,
me vem á memória a muito comum frase entre os ingleses
: "Spring Cleaning", a refrescada geral a dar a tudo com o anuncio
da Primavera. Tudo isto vem ao caso, porque neste lado do mundo, já
se sente que a Primavera em breve se anunciará e com ela chegará
o emergir silencioso das coisas em germinação, aguardando
o momento de irromperem.
"Spring
Cleaning", poderia ser esse o nome a dar a esse ímpeto que
despertou comigo, hoje: refrescar, renovar, retirar do caminho objetos
que nos prendem ao ontem, sobretudo ao ontem que murchou, desimpedir
o caminho de impecilhos que nos tolhem o caminhar , mudar atitudes,
romper com indecisões, olhar as pessoas nos olhos, colocar os
pingos nos "is", escrever preto no branco e mais importante que tudo
: cumprir o inadiável, com a mesma força misteriosa com
que irrompem as coisas acoitadas no seio da terra, que explodem com
a chegada da Primavera.
dias em que se acorda com o ímpeto da limpeza e ordenação
do espaço que nos rodeia. De repente nos damos conta do que ao
longo do tempo sem têm acumulado ao nosso redor, silenciosamente
e já sem utilidade, papeis e objetos.
E sem saber
como nem porquê, despertamos para as coisas mais ou menos inúteis
que por esquecimento, preguiça, ou pelo simples hábito
de as ver naquele lugar, fomos deixando invadir o nosso espaço,
isso que agora só vemos como lixo.
Até
as idéias viram lixo e nesses momentos em que a irreprimível
vontade de colocar as coisas no seu lugar reaparece, sentimos que é
necessário agendar, priorizar, limpar os gavetões mesmo
os da memória e da vida.
Abrindo
os armários, damos conta de que aquele vestido já não
condiz com a cor que trazemos por dentro, e aquele amontoado de papeis
com informação, só foi útil num determinado
momento; aquele outro objeto que alguém nos ofereceu, juntamente
com outros que fomos acumulando, ao longo do tempo, hoje os olhamos
e sentimos estarem somente ocupando espaço, fora da gente.
Até
o odor de coisas velhas assoma, e no ambiente que nos rodeia parece
estar faltando alguma coisa. Dá vontade de queimar incenso, colocar
flores por toda a casa.
E olhando
as estantes onde repousam meus livros, meus velhos discos de vinil e
os modernos Cds, me pareceu não ser aquele o local ideal para
os deixar e logo ali imaginei o espaço ideal para onde gostaria
de transladá-los. Assim acontece a quem compartilhando o espaço
onde vive, precisa se habituar a todos esses objetos que não
chegam pela sua própria mão ou escolha. Conviver é
ceder e a partilha de espaço nos obriga a respeitar a forma como
os outros o ocupam também.
Organizar
o espaço...ordenar a vida. Naquele momento isso me pareceu importante
movida pela vontade de refrescar e renovar. Aqui onde estou a desorganização,
é um estado quase permanente. Me incomoda a organização
excessiva. É como se um certo "fora de ordem" se tenha tornado
imprescindível ao meu equilíbrio. A organização
rígida é algo que afronto dentro de mim. Inconscientemente
vejo nessa excessiva ordenação das coisas, um modo de
ficar presa aos lugares, e eu sei que ainda não piso o lugar
onde quero criar raízes. Vivo numa dimensão "inter-espacial",
entre o lugar real e o lugar das projeções. Entre os dois
procuro lançar a ponte que torne o espaço da projeção
nesse outro o lugar : o da realidade vivida.
E porque
de limpeza, de ordenação de refrescar, se pretendia aludir,
me vem á memória a muito comum frase entre os ingleses
: "Spring Cleaning", a refrescada geral a dar a tudo com o anuncio
da Primavera. Tudo isto vem ao caso, porque neste lado do mundo, já
se sente que a Primavera em breve se anunciará e com ela chegará
o emergir silencioso das coisas em germinação, aguardando
o momento de irromperem.
"Spring
Cleaning", poderia ser esse o nome a dar a esse ímpeto que
despertou comigo, hoje: refrescar, renovar, retirar do caminho objetos
que nos prendem ao ontem, sobretudo ao ontem que murchou, desimpedir
o caminho de impecilhos que nos tolhem o caminhar , mudar atitudes,
romper com indecisões, olhar as pessoas nos olhos, colocar os
pingos nos "is", escrever preto no branco e mais importante que tudo
: cumprir o inadiável, com a mesma força misteriosa com
que irrompem as coisas acoitadas no seio da terra, que explodem com
a chegada da Primavera.
672
Angela Santos
Entrelinhas
Ali
naquele instante em que não paramos,
não vimos
que não há dias iguais
no seu aparente igual suceder
Um banco de jardim
um sol morno
a tarde que lenta cai,
rodopiando em correrias
uma criança, um cão
e lá longe a linha do horizonte
fundindo tons de azul
Aqui, fixando um sol laranja
dois amantes se entreolham
e tocam num gesto subtil,
seus dedos se enlaçam
e de repente o corpo respira desejo.
E enchem a vida
os quotidianos, vulgares, ínfimos sinais
passamos, e passamos adiante
sem decifrar na superfície do acontecer
que nada se repete,
que não há dias iguais.
naquele instante em que não paramos,
não vimos
que não há dias iguais
no seu aparente igual suceder
Um banco de jardim
um sol morno
a tarde que lenta cai,
rodopiando em correrias
uma criança, um cão
e lá longe a linha do horizonte
fundindo tons de azul
Aqui, fixando um sol laranja
dois amantes se entreolham
e tocam num gesto subtil,
seus dedos se enlaçam
e de repente o corpo respira desejo.
E enchem a vida
os quotidianos, vulgares, ínfimos sinais
passamos, e passamos adiante
sem decifrar na superfície do acontecer
que nada se repete,
que não há dias iguais.
1 043
Fernando Pinto do Amaral
Escotomas
Não sei
o que é um espírito. Ninguém
conhece a fundo a luz do seu abismo
enquanto o vento, à noite, vai abrindo
as infinitas portas de uma casa
vazia. A minha voz
procura responder a outra voz,
ao choro dos espectros que celebram
a sua missa negra, o seu eterno
sobressalto. Num ermo
da cidade magoada escuto ainda
o rumor de um oráculo,
a febre de um adeus que se prolonga
no estertor dos ponteiros de um relógio,
nesse ritmo feroz, na pulsação
do meu sangue exilado que recorda
um abrigo divino. pai nosso, que estás
entre o céu e a terra, conduz-me
ao precipício onde hibernou a alma
e ensina-me a romper a madrugada
como se a minha face fosse
um estilhaço da tua
e nela derretessem, por milagre,
estas gotas de gelo ou de cristal
que não sabem ser lágrimas.
o que é um espírito. Ninguém
conhece a fundo a luz do seu abismo
enquanto o vento, à noite, vai abrindo
as infinitas portas de uma casa
vazia. A minha voz
procura responder a outra voz,
ao choro dos espectros que celebram
a sua missa negra, o seu eterno
sobressalto. Num ermo
da cidade magoada escuto ainda
o rumor de um oráculo,
a febre de um adeus que se prolonga
no estertor dos ponteiros de um relógio,
nesse ritmo feroz, na pulsação
do meu sangue exilado que recorda
um abrigo divino. pai nosso, que estás
entre o céu e a terra, conduz-me
ao precipício onde hibernou a alma
e ensina-me a romper a madrugada
como se a minha face fosse
um estilhaço da tua
e nela derretessem, por milagre,
estas gotas de gelo ou de cristal
que não sabem ser lágrimas.
1 994
Fernando Tavares Rodrigues
Corpo
Que não
seja estátua!
Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.
Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Possa ainda ser espuma.
(Traga o encanto de ser
impossívekl e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada.
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.
Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...
seja estátua!
Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.
Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Possa ainda ser espuma.
(Traga o encanto de ser
impossívekl e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada.
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.
Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...
1 106
Angela Santos
Os Cinco Sentidos
Olho a nuvem
que lesta se move
em direcção a quê?…
de que me vale saber
se noutro lugar é já água
que sobre a terra árida que vive à espera
se derrama
Sinto o vento que passa
e os meus cabelos desgrenha.
De onde vem?
de que me serve a resposta
Se a penso não sentirei
o que como uma carícia
se roça em mim no momento
em que senti e não pensei
Conto as horas…
é isso o tempo?
como vê-lo aprisionado
e medi-lo passo a passo
num mecanismo fechado
Provo o fruto amadurado
e dos meus cinco sentidos
ensaio aquele que chega
pela via do palato
As mãos sentem e provam
os olhos falam e sentem
os ouvidos prendem e ecoam
memórias, lugares e sons
O olfacto lembra e desenha
uma cama, um corpo trémulo que suspira
que me leva a esquecer porquês
e no tempo me perder
lembrando outra vez o vento
quando era só uma carícia
Se esta é a vibração
que nos devolve ao que somos
é ela a justa medida
que em cada gesto pulsa,
e celebrando os sentidos
dá o próprio sentido à Vida
que lesta se move
em direcção a quê?…
de que me vale saber
se noutro lugar é já água
que sobre a terra árida que vive à espera
se derrama
Sinto o vento que passa
e os meus cabelos desgrenha.
De onde vem?
de que me serve a resposta
Se a penso não sentirei
o que como uma carícia
se roça em mim no momento
em que senti e não pensei
Conto as horas…
é isso o tempo?
como vê-lo aprisionado
e medi-lo passo a passo
num mecanismo fechado
Provo o fruto amadurado
e dos meus cinco sentidos
ensaio aquele que chega
pela via do palato
As mãos sentem e provam
os olhos falam e sentem
os ouvidos prendem e ecoam
memórias, lugares e sons
O olfacto lembra e desenha
uma cama, um corpo trémulo que suspira
que me leva a esquecer porquês
e no tempo me perder
lembrando outra vez o vento
quando era só uma carícia
Se esta é a vibração
que nos devolve ao que somos
é ela a justa medida
que em cada gesto pulsa,
e celebrando os sentidos
dá o próprio sentido à Vida
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