Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Renata Trocoli
Sem Titulo V
De noite, olhando para o céu tão limpo
e coberto de estrelas brilhantes,
com uma brisa soprando meus cabelos,
pude perceber que falta você esta fazendo.
Senti a brisa como se fosse suas mãos a me acariciar,
sempre me olhando com jeitinho apaixonado,
olhos brilhantes
e com seu sorriso discreto
estampado no rosto.
Lembrei de seus abraços.
Lembrei de quando me colocava em seus braços
e me dizia baixinho que me amava.
Lembrei de como você sorria feliz ao me ver,
e como meu coração pulava de felicidade
por ter você a meu lado.
A dor da separação ainda cala meu coração,
e me impede de não derramar mais lágrimas por você.
Eu que tinha tanto medo de magoar seu coração,
acabei magoada e ferida por aquele que tanto amava,
que tanto queria bem.
Senti como se o destino houvesse me traído,
fazendo com que tenha que viver longe de você.
Você não compreendia minha dor
de não estar a teu lado sempre,
e apavorou-se ao sentir seu coração tão envolvido
por um sentimento tão fora de seu controle.
Eu temia o pior, e ele aconteceu.
A separação veio,
a dor tomou lugar da alegria,
e você foi embora.
Me deixando machucada e infeliz,
sem ser ao menos dizer nada...
e coberto de estrelas brilhantes,
com uma brisa soprando meus cabelos,
pude perceber que falta você esta fazendo.
Senti a brisa como se fosse suas mãos a me acariciar,
sempre me olhando com jeitinho apaixonado,
olhos brilhantes
e com seu sorriso discreto
estampado no rosto.
Lembrei de seus abraços.
Lembrei de quando me colocava em seus braços
e me dizia baixinho que me amava.
Lembrei de como você sorria feliz ao me ver,
e como meu coração pulava de felicidade
por ter você a meu lado.
A dor da separação ainda cala meu coração,
e me impede de não derramar mais lágrimas por você.
Eu que tinha tanto medo de magoar seu coração,
acabei magoada e ferida por aquele que tanto amava,
que tanto queria bem.
Senti como se o destino houvesse me traído,
fazendo com que tenha que viver longe de você.
Você não compreendia minha dor
de não estar a teu lado sempre,
e apavorou-se ao sentir seu coração tão envolvido
por um sentimento tão fora de seu controle.
Eu temia o pior, e ele aconteceu.
A separação veio,
a dor tomou lugar da alegria,
e você foi embora.
Me deixando machucada e infeliz,
sem ser ao menos dizer nada...
887
Roberto Pontes
Pequenina e Frágil
Para Beth.
Porque és tão pequenina e frágil
És bela e me dás o sonho
Da trêmula luz de uma vela.
Te amo entre os lençóis na cama
As palavras do dicionário
O vento que assusta os coqueiros
E a esmeralda líquida do oceano.
E de manhã, quando na palha canta a primavera
É como se teu corpo modulasse para mim
E invadisse meu coração com as águas da felicidade.
Porque és tão pequenina e frágil
És bela e me dás o sonho
Da trêmula luz de uma vela.
Te amo entre os lençóis na cama
As palavras do dicionário
O vento que assusta os coqueiros
E a esmeralda líquida do oceano.
E de manhã, quando na palha canta a primavera
É como se teu corpo modulasse para mim
E invadisse meu coração com as águas da felicidade.
1 032
Roberto Pontes
As Durações
O ocaso passeia pela morte
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.
983
Roberto Pontes
Colóquio
A chuva tamborila
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.
(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.
(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)
969
Roberto Pontes
Colóquio
A chuva tamborila
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.
(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.
(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)
969
Roberto Pontes
Colóquio
A chuva tamborila
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.
(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.
(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)
969
Roberto Pontes
O Deputado Discurso de Memória Corporal
por Luiz F. Papi
Quando o amor faz dos amantes os "animais enternecidos"de que nos fala o poeta cearense Roberto Pontes em Memória Corporal, esse achado elide a conotação antitética que em outro contexto estaria evidente. E isto ocorre simplesmente porque o amor, tal como o poeta o concebe e revitaliza literariamente, confere ao homem, enquanto bicho-amante, a mais completa e diversificada dimensão humanista. A depuradíssima imagem do enternecimento do animal-homem – uma entre muitas mais – como que sintetiza em seu despojamento calidoscópico metafórico de um discurso que dispensa, por desnecessários, os suportes da veemência usual e convencional dos poemas de amor. O reparo não equivale a repúdio aos que sabem exercitar a veemência de seus arroubos, mas não resta dúvida de que a ruptura aqui assinalada se opera em proveito de uma expressividade de elegância substantiva e sóbria. E não se trata de mera contenção verbal, já que o poeta assume o risco de fazer sua Memória Corporal fluir em liberdade, dentro dos condutos líricos que armou para "esta reflexão amadurecida e vivenciada sobre o amor", conforme escreve Carlos d’Alge nas abas da capa deste livro primorosamente ilustrado por Ana e Paulo Brandão.
O valor do texto de Roberto Pontes está realmente na força da palavra, na versátil inventiva e na amplitude dada ao velho tema. Sente-se, por exemplo, o pulsar do poema nesta confissão do poeta: "Quando me afoguei na região das termas/ bebi da mais profunda natureza." Mas o panteísmo não é o limite da amplitude do projeto poético do autor. Ele vai mais longe na escalada lírica e tece ainda segundo Carlos d’Alge – "um canto geral de integração e de ternura, de paz e realização humana". Tanto quanto a música, como queria Shakespeare, Roberto Pontes quer também a poesia como alimento do amor. E esse alimento ele o distribui sem apelar para a linguagem hiperbólica tão cara aos amantes. Curiosamente até, em certos passos de Memória Corporal o amor se nutre de poesia numa atmosfera de forte realismo imagístico, como no poema "Faltando Leite, Faltando Pão". Daí não ser "excessivo afirmar – com Lúcia helena no prefácio-ensaio intitulado "Sutil Tecido de Sal e Concha" – que a personagem central deste texto desejante é Eros, captado em todos os seus poros e latências".
Roberto Pontes iniciou-se na literatura nos anos 60 através do Grupo SIN (de sincretismo) e teve seu primeiro livro de poesia, Contracanto, publicado em Fortaleza pela Edições SIN, em 1968. O Grupo SIN, fundado por ele, Pedro Lyra, Horácio Dídimo, Linhares Filho e Rogério Bessa, desfez-se em 1969, porém marcou sua efêmera presença com a publicação de uma Sinantologia, reunindo aqueles poetas e alguns outros que haviam aderido ao movimento, cuja meta era a renovação das letras cearenses.
Em 1970 Roberto Pontes teve editado pela Imprensa Universitária do Ceará o volume Lições de Espaço – Teletipos, Módulos e Quânticas, um poema longo que naquele ano conquistou o Prêmio Universidade Federal do ceará. Ainda em 1970 o poeta publica o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e tese, com que obtém o Pêmio Esso-Jornal de Letras, e no ano seguinte ganha em Brasília o Prêmio Fundação Nacional dos Garimpeiros com o poema Garimpo.
LUIZ F. PAPI é jornalista, poeta, tradutor e crítico.
Por muitos anos militou em O Globo e atualmente
trabalha na agência de notícias UPI. É autor de Arado Branco
(1957), livro apreendido pelos órgãos da repressão, em 1964,
no Rio de Janeiro; Poemas do Ofício (1964), Os Artífices (1967)
Este Ofício (1976) , e Desarvorárvore (1982) , todos de poesia.
Cartilha Anticrítica (1979) reúne artigos literários publicados
em vários órgãos da imprensa brasileira. Traduziu Konstantin Fédin,
Mikhail Cholokov, Jorge Icaza e Juan José Arreola. Militante
político do antigo Partido Comunista Brasileiro, seu nome figura
no mesmo inquérito do DOPS em que também está o de Graciliano Ramos.
Quando o amor faz dos amantes os "animais enternecidos"de que nos fala o poeta cearense Roberto Pontes em Memória Corporal, esse achado elide a conotação antitética que em outro contexto estaria evidente. E isto ocorre simplesmente porque o amor, tal como o poeta o concebe e revitaliza literariamente, confere ao homem, enquanto bicho-amante, a mais completa e diversificada dimensão humanista. A depuradíssima imagem do enternecimento do animal-homem – uma entre muitas mais – como que sintetiza em seu despojamento calidoscópico metafórico de um discurso que dispensa, por desnecessários, os suportes da veemência usual e convencional dos poemas de amor. O reparo não equivale a repúdio aos que sabem exercitar a veemência de seus arroubos, mas não resta dúvida de que a ruptura aqui assinalada se opera em proveito de uma expressividade de elegância substantiva e sóbria. E não se trata de mera contenção verbal, já que o poeta assume o risco de fazer sua Memória Corporal fluir em liberdade, dentro dos condutos líricos que armou para "esta reflexão amadurecida e vivenciada sobre o amor", conforme escreve Carlos d’Alge nas abas da capa deste livro primorosamente ilustrado por Ana e Paulo Brandão.
O valor do texto de Roberto Pontes está realmente na força da palavra, na versátil inventiva e na amplitude dada ao velho tema. Sente-se, por exemplo, o pulsar do poema nesta confissão do poeta: "Quando me afoguei na região das termas/ bebi da mais profunda natureza." Mas o panteísmo não é o limite da amplitude do projeto poético do autor. Ele vai mais longe na escalada lírica e tece ainda segundo Carlos d’Alge – "um canto geral de integração e de ternura, de paz e realização humana". Tanto quanto a música, como queria Shakespeare, Roberto Pontes quer também a poesia como alimento do amor. E esse alimento ele o distribui sem apelar para a linguagem hiperbólica tão cara aos amantes. Curiosamente até, em certos passos de Memória Corporal o amor se nutre de poesia numa atmosfera de forte realismo imagístico, como no poema "Faltando Leite, Faltando Pão". Daí não ser "excessivo afirmar – com Lúcia helena no prefácio-ensaio intitulado "Sutil Tecido de Sal e Concha" – que a personagem central deste texto desejante é Eros, captado em todos os seus poros e latências".
Roberto Pontes iniciou-se na literatura nos anos 60 através do Grupo SIN (de sincretismo) e teve seu primeiro livro de poesia, Contracanto, publicado em Fortaleza pela Edições SIN, em 1968. O Grupo SIN, fundado por ele, Pedro Lyra, Horácio Dídimo, Linhares Filho e Rogério Bessa, desfez-se em 1969, porém marcou sua efêmera presença com a publicação de uma Sinantologia, reunindo aqueles poetas e alguns outros que haviam aderido ao movimento, cuja meta era a renovação das letras cearenses.
Em 1970 Roberto Pontes teve editado pela Imprensa Universitária do Ceará o volume Lições de Espaço – Teletipos, Módulos e Quânticas, um poema longo que naquele ano conquistou o Prêmio Universidade Federal do ceará. Ainda em 1970 o poeta publica o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e tese, com que obtém o Pêmio Esso-Jornal de Letras, e no ano seguinte ganha em Brasília o Prêmio Fundação Nacional dos Garimpeiros com o poema Garimpo.
LUIZ F. PAPI é jornalista, poeta, tradutor e crítico.
Por muitos anos militou em O Globo e atualmente
trabalha na agência de notícias UPI. É autor de Arado Branco
(1957), livro apreendido pelos órgãos da repressão, em 1964,
no Rio de Janeiro; Poemas do Ofício (1964), Os Artífices (1967)
Este Ofício (1976) , e Desarvorárvore (1982) , todos de poesia.
Cartilha Anticrítica (1979) reúne artigos literários publicados
em vários órgãos da imprensa brasileira. Traduziu Konstantin Fédin,
Mikhail Cholokov, Jorge Icaza e Juan José Arreola. Militante
político do antigo Partido Comunista Brasileiro, seu nome figura
no mesmo inquérito do DOPS em que também está o de Graciliano Ramos.
1 220
Romero Tavares da Silva
Saudade
Saudade em mim não falta
Por ter conhecido singela dama
Moça de estirpe tão alta
Que por ela todo o meu ser clama.
A princípio notei seu perfume
Me aproximei e percebi seu encanto
Me enredei em situação tão grave
Mas depois, sua lembrança foi um acalanto.
Acalanto do qual eu fugia
Como antigamente em alto mar temia
O marinheiro, da sereia, o canto.
Ao voltar como cometa ou estrela Dalva
Ela me ofuscou com sua tez tão alva
Que seu fulgor ainda me causa espanto.
Por ter conhecido singela dama
Moça de estirpe tão alta
Que por ela todo o meu ser clama.
A princípio notei seu perfume
Me aproximei e percebi seu encanto
Me enredei em situação tão grave
Mas depois, sua lembrança foi um acalanto.
Acalanto do qual eu fugia
Como antigamente em alto mar temia
O marinheiro, da sereia, o canto.
Ao voltar como cometa ou estrela Dalva
Ela me ofuscou com sua tez tão alva
Que seu fulgor ainda me causa espanto.
910
Roberto Pontes
As Raízes
As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados,
e nelas, a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
adidas aos ramos projetados,
e nelas, a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
697
Roberto Pontes
Sutil Tecido de Sal e Concha
por Lúcia Helena
Acabo de ler o livro de Robeto Pontes, e a associação que de pronto me ocorre remete-me ao conceito que a Psicanálise tem formulado sobre o texto literário: "escrever é evitar o assassinato do desejo". E se o homem é este ser desejante, espécie de Prometeu acorrentado, de Sísifo que continuamente se debate com a perda de si e do outro, esta associação me ocorre em relação ao texto de Roberto porque ele, de modo explícito, se realiza em consonância com a perspectiva estético-histórica, o amor cortês, no qual o lirismo é tematizado como manifestação do desejo nas suas múltiplas formas: seja na do desejo de escrever sobre o desejo, seja no de viver o desejo como escrita que o perpetua e resgata. Aliás, estas duas perspectivas se interrelacionam e alternam ao longo do livro, num marcante traço erótico. E não seria excessivo afirmar que a personagem central deste texto "desejante" é Eros, captado em todos os seus poros e latências.
Cada poema de Memória Corporal, livro em que até no título se tematiza a palavra se fazendo carne, reafirma incessantemente o ato de amor, através de expressivas e reiteradas metáforas, nas quais a poesia e o ato de escrever se confundem com o ato de fazer amor, num gesto múltiplo de que participam: a natureza, o amante e o objeto amado.
Surpreende-nos a riqueza e simbiose de elementos que a natureza captada pelo poeta congrega, principalmente marinhos: "Nessas águas de sal marinho/ há cogumelos, enguias, hipocampos/ nenúfares, ventosas e anêmonas" ("Há Solstício Tropical"). A natureza ora se manifesta participante, à maneira das canções de amigo, em que as personagens e o amor aderem ao cenário, chegando a ganhar suas espécies o nome da paisagem em que decorre tanto a espera quanto o encontro ou a realização do amor. Ora se torna confidente, à maneira dos românticos, em que a ambiência tende ao lunar, ao silêncio, ao melancólico; ora, ainda, se mostra contundente, ao remeter, de modo inesperado, a correlações semânticas que instalam uma carga corrosiva, através das quais marca-se uma ruptura com o clima idílico predominante na obra: "Nos teus colares de coral rochoso/ os sátiros fecundam salamandras/ e entre moluscos de anemia e cloro/ ejaculo gasolina incendiária." ("Há Solstício Tropical").
As personagens – tanto o amante como seu objeto amado – são apresentadas com tal capacidade de metamorfose que, a todo momento, a personagem masculina, como "fauno" de inesgotável sensualidade, se transforma em objetos fálicos, através dos quais se desloca o significante ( a "marca" do desejo ) que percorre e constitui o verbo lírico: flechas, girassóis de amianto, dedos de aço e lua, dedos de sol e ferro – são algumas das "máscaras" poéticas desse Eros irrequieto que celebra o amor e tem sabor de sal. E sua "ninfa" metamorfoseia-se em pétala, terra, água e concha, no que o poeta retoma a imagem da flor-mulher, tão cara aos líricos, e os mitos do elemento fecundável, quer seja a terra a salgar, já que o amante é sal; quer seja a da concha do mar, que ao sal também converge: "Tu me dirás que sou forte/ e tenho sabor de sal/ (...) / Eu te direi que és lisa/ e polida como uma concha" ("Este Nosso Encantamento").
E porque o texto se faz porta-voz de Eros, o desejo a todo instante também se metamorfoseia e desloca, transmudado em pássaro, gaivota, corda que vibra, corcel, raio e punhal – ao se referir à amada, numa sugestão de atividade/passividade, penetração/profundidade, na qual se expressa, de modo icônico, um determinado conceito da sexualidade masculina/feminina. Eis, então, que a mulher é apresentada, no texto, como motivo de desejo, impulsionada pela latência e espera, e o homem como o gesto que emite aquele que se apossa: "Passa por mim a sensação da posse/ que me atormenta e dói como um segredo/ e vem com os passos de animal ferido/ nas vísceras, nos nervos e no peito" ("Poema da Posse"); ou ainda: "e agora, ouve, / cantarei assim: / lábios de maçã suave,/ mãos próprias e cabíveis nas minhas,/ eu sou a fúria que desfecha golpes,/ eu sou aquele que conhece os prazeres" ("Faltando Leite, Faltando Pão").
Desde "Cinco Prelúdios" até "Epitáfio", respectivamente o primeiro e o último poemas do livro, os temas da fecundação e da cópula se anunciam e tomam a forma da imagem de um sonho circular, no qual uma pétala é engravidada pelo pingo morno que lhe afoga o ventre e se faz "liberto, líquido, livre", ao acender-se a chama do amor pelos dedos da amiga, que lampejam na noite fria. Se isto é o que se tematiza no primeiro poema, que dá ensejo à abertura do ciclo da fecundação amorosa, no último texto – discurso da memória que flui – há o desdobramento final do ciclo que evolui ao longo do livro, e "Aqui jaz o amor um dia dito". E, com resta morto o amor, cabe à palavra poética resgatá-lo.
Este ciclo – fecundação/paixão/morte/resgate – do amor justifica o título da obra: Memória Corporal, além de explicitar o sentido que o poeta atribui ao termo memória. Este é apresentado, no texto de Roberto Pontes, como uma tentativa de se apreender, surpreender e suspender o tempo. Memória como instância que torna possível ao homem resgatar, do círculo inexorável e destrutivo de vida/morte, tanto o sentimento quanto as coisas. Como se a poesia, fazendo-se na cumplicidade com a memória, se tornasse uma "verdade indestrutível" e perpetuasse, para além de Cronos, a viagem de Eros.
Uma viagem lírica, em que a beleza do efeito rítmico-sonoro a todo momento nos relembra as melhores realizações da poesia lírica, dos cancioneiros ao hoje. Uma viagem de sensibilidade que nos penetra mansamente, à maneira do amor, e outras vezes avidamente, à maneira da paixão.
Esta obra do poeta cearense Roberto Pontes, que tece o amor no traço do homem e do nome, se apresenta como uma das melhores realizações da poesia lírica contemporânea. E, acredito e desejo, ocupará seu lugar.
LÚCIA HELENA é Mestre em Teoria Literária e Doutora em Letras
pela UFRJ. Professora de Literatura da Universidade Federal
Fluminense e de Teoria da Literatura na UFRJ. Professora
conferencista nas Universidades de Lisboa (Portugal),
Pavia e Bérgamo (Itália). Ensaísta e crítica literária tem
colaborado com publicações especializadas, entre as quais:
revista Colóquio/Letras (Portugal); Revista de Cultura Vozes
Petróplis/RJ) e Revista Tempo Brasileiro (RJ). É autora de
A Cosmo-Agonia de Augusto dos Anjos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro),
Uma Literatura Antropofágica (Rio de Janeiro/Brasília: Cátedra/INL, 1982)
e Modernismo Brasileiro e Vanguarda (São Paulo: Ática, 1996).
Acabo de ler o livro de Robeto Pontes, e a associação que de pronto me ocorre remete-me ao conceito que a Psicanálise tem formulado sobre o texto literário: "escrever é evitar o assassinato do desejo". E se o homem é este ser desejante, espécie de Prometeu acorrentado, de Sísifo que continuamente se debate com a perda de si e do outro, esta associação me ocorre em relação ao texto de Roberto porque ele, de modo explícito, se realiza em consonância com a perspectiva estético-histórica, o amor cortês, no qual o lirismo é tematizado como manifestação do desejo nas suas múltiplas formas: seja na do desejo de escrever sobre o desejo, seja no de viver o desejo como escrita que o perpetua e resgata. Aliás, estas duas perspectivas se interrelacionam e alternam ao longo do livro, num marcante traço erótico. E não seria excessivo afirmar que a personagem central deste texto "desejante" é Eros, captado em todos os seus poros e latências.
Cada poema de Memória Corporal, livro em que até no título se tematiza a palavra se fazendo carne, reafirma incessantemente o ato de amor, através de expressivas e reiteradas metáforas, nas quais a poesia e o ato de escrever se confundem com o ato de fazer amor, num gesto múltiplo de que participam: a natureza, o amante e o objeto amado.
Surpreende-nos a riqueza e simbiose de elementos que a natureza captada pelo poeta congrega, principalmente marinhos: "Nessas águas de sal marinho/ há cogumelos, enguias, hipocampos/ nenúfares, ventosas e anêmonas" ("Há Solstício Tropical"). A natureza ora se manifesta participante, à maneira das canções de amigo, em que as personagens e o amor aderem ao cenário, chegando a ganhar suas espécies o nome da paisagem em que decorre tanto a espera quanto o encontro ou a realização do amor. Ora se torna confidente, à maneira dos românticos, em que a ambiência tende ao lunar, ao silêncio, ao melancólico; ora, ainda, se mostra contundente, ao remeter, de modo inesperado, a correlações semânticas que instalam uma carga corrosiva, através das quais marca-se uma ruptura com o clima idílico predominante na obra: "Nos teus colares de coral rochoso/ os sátiros fecundam salamandras/ e entre moluscos de anemia e cloro/ ejaculo gasolina incendiária." ("Há Solstício Tropical").
As personagens – tanto o amante como seu objeto amado – são apresentadas com tal capacidade de metamorfose que, a todo momento, a personagem masculina, como "fauno" de inesgotável sensualidade, se transforma em objetos fálicos, através dos quais se desloca o significante ( a "marca" do desejo ) que percorre e constitui o verbo lírico: flechas, girassóis de amianto, dedos de aço e lua, dedos de sol e ferro – são algumas das "máscaras" poéticas desse Eros irrequieto que celebra o amor e tem sabor de sal. E sua "ninfa" metamorfoseia-se em pétala, terra, água e concha, no que o poeta retoma a imagem da flor-mulher, tão cara aos líricos, e os mitos do elemento fecundável, quer seja a terra a salgar, já que o amante é sal; quer seja a da concha do mar, que ao sal também converge: "Tu me dirás que sou forte/ e tenho sabor de sal/ (...) / Eu te direi que és lisa/ e polida como uma concha" ("Este Nosso Encantamento").
E porque o texto se faz porta-voz de Eros, o desejo a todo instante também se metamorfoseia e desloca, transmudado em pássaro, gaivota, corda que vibra, corcel, raio e punhal – ao se referir à amada, numa sugestão de atividade/passividade, penetração/profundidade, na qual se expressa, de modo icônico, um determinado conceito da sexualidade masculina/feminina. Eis, então, que a mulher é apresentada, no texto, como motivo de desejo, impulsionada pela latência e espera, e o homem como o gesto que emite aquele que se apossa: "Passa por mim a sensação da posse/ que me atormenta e dói como um segredo/ e vem com os passos de animal ferido/ nas vísceras, nos nervos e no peito" ("Poema da Posse"); ou ainda: "e agora, ouve, / cantarei assim: / lábios de maçã suave,/ mãos próprias e cabíveis nas minhas,/ eu sou a fúria que desfecha golpes,/ eu sou aquele que conhece os prazeres" ("Faltando Leite, Faltando Pão").
Desde "Cinco Prelúdios" até "Epitáfio", respectivamente o primeiro e o último poemas do livro, os temas da fecundação e da cópula se anunciam e tomam a forma da imagem de um sonho circular, no qual uma pétala é engravidada pelo pingo morno que lhe afoga o ventre e se faz "liberto, líquido, livre", ao acender-se a chama do amor pelos dedos da amiga, que lampejam na noite fria. Se isto é o que se tematiza no primeiro poema, que dá ensejo à abertura do ciclo da fecundação amorosa, no último texto – discurso da memória que flui – há o desdobramento final do ciclo que evolui ao longo do livro, e "Aqui jaz o amor um dia dito". E, com resta morto o amor, cabe à palavra poética resgatá-lo.
Este ciclo – fecundação/paixão/morte/resgate – do amor justifica o título da obra: Memória Corporal, além de explicitar o sentido que o poeta atribui ao termo memória. Este é apresentado, no texto de Roberto Pontes, como uma tentativa de se apreender, surpreender e suspender o tempo. Memória como instância que torna possível ao homem resgatar, do círculo inexorável e destrutivo de vida/morte, tanto o sentimento quanto as coisas. Como se a poesia, fazendo-se na cumplicidade com a memória, se tornasse uma "verdade indestrutível" e perpetuasse, para além de Cronos, a viagem de Eros.
Uma viagem lírica, em que a beleza do efeito rítmico-sonoro a todo momento nos relembra as melhores realizações da poesia lírica, dos cancioneiros ao hoje. Uma viagem de sensibilidade que nos penetra mansamente, à maneira do amor, e outras vezes avidamente, à maneira da paixão.
Esta obra do poeta cearense Roberto Pontes, que tece o amor no traço do homem e do nome, se apresenta como uma das melhores realizações da poesia lírica contemporânea. E, acredito e desejo, ocupará seu lugar.
LÚCIA HELENA é Mestre em Teoria Literária e Doutora em Letras
pela UFRJ. Professora de Literatura da Universidade Federal
Fluminense e de Teoria da Literatura na UFRJ. Professora
conferencista nas Universidades de Lisboa (Portugal),
Pavia e Bérgamo (Itália). Ensaísta e crítica literária tem
colaborado com publicações especializadas, entre as quais:
revista Colóquio/Letras (Portugal); Revista de Cultura Vozes
Petróplis/RJ) e Revista Tempo Brasileiro (RJ). É autora de
A Cosmo-Agonia de Augusto dos Anjos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro),
Uma Literatura Antropofágica (Rio de Janeiro/Brasília: Cátedra/INL, 1982)
e Modernismo Brasileiro e Vanguarda (São Paulo: Ática, 1996).
840
Rui Bueti
Caçada
Olhos oblíquos de bochímane
em mirada de través
baque no peito
corrida
ziguezague
estertor
e trás!
(três dias
nos capins
pela extenuação)
pega a presa nos cornos
põe nas costas
leva embora então
em mirada de través
baque no peito
corrida
ziguezague
estertor
e trás!
(três dias
nos capins
pela extenuação)
pega a presa nos cornos
põe nas costas
leva embora então
1 378
Roberto Pontes
Impressão
Havia um lago,
não é que havia?
Não sei se o que brilhava
era o sol.
Seria o mar.
Será que era?
Ou aquilo que rugia
era um bicho?
não é que havia?
Não sei se o que brilhava
era o sol.
Seria o mar.
Será que era?
Ou aquilo que rugia
era um bicho?
723
Roberto Pontes
Impressão
Havia um lago,
não é que havia?
Não sei se o que brilhava
era o sol.
Seria o mar.
Será que era?
Ou aquilo que rugia
era um bicho?
não é que havia?
Não sei se o que brilhava
era o sol.
Seria o mar.
Será que era?
Ou aquilo que rugia
era um bicho?
723
Roberto Pontes
Lamento do Rio Raivoso
Essa água
onde um tronco vai
não é água.
É sangue.
Esse rio que corre
não é rio.
É rei coroado de pontes.
Essas conchas
que servem de leito
não são ostras.
São ossos trazidos dos mangues.
Essa nascente do rio Cocó
só pode ser dois olhos
muito grandes
chorando a vida toda
por ter nascido rio
e não fuzil.
(De Contracanto. Fortaleza: SINedições, 1968)
onde um tronco vai
não é água.
É sangue.
Esse rio que corre
não é rio.
É rei coroado de pontes.
Essas conchas
que servem de leito
não são ostras.
São ossos trazidos dos mangues.
Essa nascente do rio Cocó
só pode ser dois olhos
muito grandes
chorando a vida toda
por ter nascido rio
e não fuzil.
(De Contracanto. Fortaleza: SINedições, 1968)
1 405
Roberto Pontes
Quântica 1
artefacto futuro
flores flos tet flaus
corolas e cálices
discos i halos
címbalos et cordas
o aço em hélices
turbinas a jato
capaciômetros
and elétrodos
transistores
filamentos
ruídos e chilreares
pssssTTssssPssss
orbinauta
astro magnus mare
tranqüilidade imponderável
pssssTTssssPssss
EEUU versus CCCP
e a pássara em seu compasso
é uma cápsula
que pisca seu percurso
bat bit bat
y soy solo azul
flores flos tet flaus
corolas e cálices
discos i halos
címbalos et cordas
o aço em hélices
turbinas a jato
capaciômetros
and elétrodos
transistores
filamentos
ruídos e chilreares
pssssTTssssPssss
orbinauta
astro magnus mare
tranqüilidade imponderável
pssssTTssssPssss
EEUU versus CCCP
e a pássara em seu compasso
é uma cápsula
que pisca seu percurso
bat bit bat
y soy solo azul
697
Rogério F. P.
Aqui onde só o vento é testemunha,
Aqui onde só o vento é testemunha,
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
980
Rogério F. P.
Aqui onde só o vento é testemunha,
Aqui onde só o vento é testemunha,
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
980
Rodrigues de Abreu
Mar Desconhecido
A Batista Pereira
Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!
Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.
Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...
Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.
Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.
Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.
Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!
Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.
Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...
Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.
Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.
Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.
1 179
Paulo Augusto Rodrigues
Orvalho
Os cabelos estão molhados
Escorrendo gotas,
Que deslizam, suavemente,
Como lágrimas.
Deixando límpidas marcas,
Na passagem,
Sobre a pele de mel.
Todo o corpo encharcado
Colando o desêjo,
No úmido trocar de carícias errantes,
Ao olhar penetrante,
Que disparam
Seus olhos macios.
A face revela a vontade.
Sua imagem reduz a paisagem
Ao contorno montanhoso do corpo.
Ao relêvo exato
De uma paixão constatada,
Sobre as gotas,
Que depois desta chuva,
Restou sobre a relva orvalhada.
Escorrendo gotas,
Que deslizam, suavemente,
Como lágrimas.
Deixando límpidas marcas,
Na passagem,
Sobre a pele de mel.
Todo o corpo encharcado
Colando o desêjo,
No úmido trocar de carícias errantes,
Ao olhar penetrante,
Que disparam
Seus olhos macios.
A face revela a vontade.
Sua imagem reduz a paisagem
Ao contorno montanhoso do corpo.
Ao relêvo exato
De uma paixão constatada,
Sobre as gotas,
Que depois desta chuva,
Restou sobre a relva orvalhada.
953
Romulo Gouvêa
Nossas bocas
Nossas bocas são portas
onde há fluxo e refluxo
por onde passa tudo.
Passa paixão
passa amor
passam sentimentos e carinhos.
Por elas passa o mar
passam os rios
passam todos os caminhos.
Por elas só não passa o tempo.
Elas têm a mesma temperatura,
mesmo calor, mesma ternura.
São de mesma estrutura.
Nossas bocas, neste beijo, são portas
portas abertas
por onde passam nossas descobertas.
onde há fluxo e refluxo
por onde passa tudo.
Passa paixão
passa amor
passam sentimentos e carinhos.
Por elas passa o mar
passam os rios
passam todos os caminhos.
Por elas só não passa o tempo.
Elas têm a mesma temperatura,
mesmo calor, mesma ternura.
São de mesma estrutura.
Nossas bocas, neste beijo, são portas
portas abertas
por onde passam nossas descobertas.
975
Paulo Augusto Rodrigues
Moça
É de noite, noite de sábado.
Há movimento de gente, copos,
Mas em mim não há nada.
Para mim, as ruas estão vazias,
As pessoas perdidas,
Os caminhos escuros.
É de noite, noite de qualquer dia.
Há estrelas no céu
Iluminando a semente.
Fazendo crescer na lembrança,
O ponto luminoso e brilhante,
Que acende,
A imagem sorrisamente cativante
Da amizade calada.
É de noite, noite que aumenta a distância,
Mas, é de dia que a saudade gritante
Da amiga,
Estoura.
É momentâneo, mas é profundo.
Que vontade descabida
De estar neste momento,
Ao seu lado, tranqüilo,
Numa quieta cidade.
Talvez até,
Curitiba.
Há movimento de gente, copos,
Mas em mim não há nada.
Para mim, as ruas estão vazias,
As pessoas perdidas,
Os caminhos escuros.
É de noite, noite de qualquer dia.
Há estrelas no céu
Iluminando a semente.
Fazendo crescer na lembrança,
O ponto luminoso e brilhante,
Que acende,
A imagem sorrisamente cativante
Da amizade calada.
É de noite, noite que aumenta a distância,
Mas, é de dia que a saudade gritante
Da amiga,
Estoura.
É momentâneo, mas é profundo.
Que vontade descabida
De estar neste momento,
Ao seu lado, tranqüilo,
Numa quieta cidade.
Talvez até,
Curitiba.
1 044
Rogério F. P.
Oh, mulher triste!
Oh, mulher triste!
Sua tez fúnebre relembra
a palidez das mais altas montanhas
em seu cume. E ao mais álgido
mármore causas inveja.
Sopesa as tristezas infindas provenientes da alma.
E a angústia resultante aplacas com a calma, que
pela vastidão, se percebe embotados nesses olhos de anil.
Oh, mulher de olhos fulgurantes!
Se a morte tivesse consciência
de sua implícita beleza
jamais a levaria nesta noite calma de amantes.
Sua tez fúnebre relembra
a palidez das mais altas montanhas
em seu cume. E ao mais álgido
mármore causas inveja.
Sopesa as tristezas infindas provenientes da alma.
E a angústia resultante aplacas com a calma, que
pela vastidão, se percebe embotados nesses olhos de anil.
Oh, mulher de olhos fulgurantes!
Se a morte tivesse consciência
de sua implícita beleza
jamais a levaria nesta noite calma de amantes.
794
Rogério F. P.
Como consegues, em tua mais pura inocência
Como consegues, em tua mais pura inocência
arrancares do meu peito toda a arrogância
e incoerência? Tu que transmutas e reflete
tudo, naquilo que é mais belo.
Todas as tristes vivências em minhalma
contidas lhe dão espaço, amada amiga.
Todo sofrimento e desventuras,
as mortes e amarguras
de nada significam
quando comparadas a ti...
Por seres bela, e mesmo
assim sincera,
por teres a beleza inspiradora
da mais bonita deusa,
a ti minha amada
me entrego agora...
E não me envergonho então
no mais ébrio céu de outono
a fazer-te declarações de amor
e lhe dizer que a amo!
arrancares do meu peito toda a arrogância
e incoerência? Tu que transmutas e reflete
tudo, naquilo que é mais belo.
Todas as tristes vivências em minhalma
contidas lhe dão espaço, amada amiga.
Todo sofrimento e desventuras,
as mortes e amarguras
de nada significam
quando comparadas a ti...
Por seres bela, e mesmo
assim sincera,
por teres a beleza inspiradora
da mais bonita deusa,
a ti minha amada
me entrego agora...
E não me envergonho então
no mais ébrio céu de outono
a fazer-te declarações de amor
e lhe dizer que a amo!
999
Rosa Bruno
Senor Montado
Senhor da solidão, da soledade, Senhor Montado!...
Lembro os medonhos fragores
Das suas trovoadas,
Que pareciam mesmo zangas
Zangas da sua austera majestade...
Lembro as bolotas doces,
Melhores que castanhas das melhores,
Das suas tristonhas azinheiras,
Senhoras graves, nobres de maneiras...
Lembro os seus pastores,
Estáticos, altivos,
Dos rebanhos enormes, seus rebanhos,
Ai nos meus olhos tão vivos!...
E os silêncios infinitos
E os sois e os luares
Coados na ramagem...
E os troncos sangrentos, descarnados,
Escalpelo impiedoso do deus homem,
Nunca farto de carnagem...
E lembro-lhe ser-lhe sempre dedicado,
Sempre filho, sempre escravo,
Senhor da solidão, da soledade
Senhor Montado, de austera majestade...
Lembro os medonhos fragores
Das suas trovoadas,
Que pareciam mesmo zangas
Zangas da sua austera majestade...
Lembro as bolotas doces,
Melhores que castanhas das melhores,
Das suas tristonhas azinheiras,
Senhoras graves, nobres de maneiras...
Lembro os seus pastores,
Estáticos, altivos,
Dos rebanhos enormes, seus rebanhos,
Ai nos meus olhos tão vivos!...
E os silêncios infinitos
E os sois e os luares
Coados na ramagem...
E os troncos sangrentos, descarnados,
Escalpelo impiedoso do deus homem,
Nunca farto de carnagem...
E lembro-lhe ser-lhe sempre dedicado,
Sempre filho, sempre escravo,
Senhor da solidão, da soledade
Senhor Montado, de austera majestade...
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