Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Gerardo Mello Mourão
Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo
entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade
Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:
e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino
as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —
Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros
enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu
na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor
Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo
entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade
Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:
e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino
as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —
Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros
enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu
na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor
Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.
1 011
Gerardo Mello Mourão
Um dia as orquídeas se abriram sobre
Um dia as orquídeas se abriram sobre
olhos oblíquos de Magdalena
antes da âncora da dor numa angra verde
e antes
de partir-se teu rosto da romã
antes, vadio com seu cão e sua flauta
pelos montes o poeta
vadiava e farejava as garrafas de whisky,
a virilha das francesas e eram
baralhos de bacará e roletas de ouro
— a bolinha de marfim
cai no sete
cai no zero
cai no preto
no vermelho
a bolinha de marfim
cai não cai
onde é que cai?
Valencius Wurch, echt deutsch
barão da Pomerânia usava polainas e chapéu
gelô e seu nariz
usava um olho cego de um lado e de outro
um monóculo inútil
e era a glória das namoradas da Rua do Senado
e Monsenhor Manuel Gomes, prelado doméstico
do Papa,
pastoreava o bairro de São Cristóvão
com seu cajado do país da Paraíba
e Manuel Machado, depois doutor em leis, depois
capitão de tropas expedicionárias e herói da Pátria
guardou no coração um estilhaço de granada alemã
e com o belo cravo de sangue de seu peito
visitou a morte num campo da Itália
e tornou, virgem e alegre, à Rua Mem de Sá
e casto ao medo e intemperante ao perigo
o filho dos Mourões
Mourão pastava
adolescentes, cônegos, roletas e janelas de trem
de lira a tiracolo e essas
são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
onde às vezes perguntava o sol ao quarto dalva
e Dalva
Dalva Silveira navegava o sargaço nas virilhas
aloeste de seus promontórios trêmulos
dei toda as velas.
Sabia de naus francesas por ali com muita
artilharia e pólvora e abarrotadas de brasil:
fiz a vela no bordo do sul
fui quatro relógios
e ao meio-dia era na esteira da nau
duas léguas dela e não podia cobrar terra
cheguei à nau e primeiro que lhe tirasse
me tirou dois tiros:
antes que fosse noite lhe tirei
três tiros de camelo e três vezes
toda a artilharia: e de noite carregou
tanto o vento lessueste que não pude jogar
senão artelheria meúda — e com ele
pelejamos toda a noite:
em rompendo a alva
mandei um marinheiro ver:
via uma vela — não divisava
se era latina se redonda.
E que me importa a mim que veja ou que não veja
se cumpriu toda
a cerimônia de ver.
E essas são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
e o valete bicéfalo tangia
ora a espada ora a lira
ora a esquina ora o mar — e Nilo
Nilo José da Costa achara no subúrbio de
Campo Grande
a lua — e achara seu verdadeiro nome e era
Marcus Sandoval e de suas mãos
antes pendiam o fio da navalha e a tesoura
sábia — e delas
nunca mais rolaram cabelos de macho no salão
de barbeiro rolaram
as mechas da lua fêmea
— lua — disse o vento —
mostra-me a graça feminina
das tuas bailarinas
e ao sopro do luar sussurrando
ao ouvido das árvores quietas
todas as frondes num deslumbramento
bailavam aos levíssimos do vento
o bailado das sombras pelo chão
e Marcus Sandoval penou degredo
na Ilha de Fernando Noronha
Fernam de Loronha a nornordeste
por ouvir o filho dos Mourões
e por tanger espada em vez de cítara
e a morte se hospedou em seus pulmões e dorme
no cemitério de Campo Grande e nunca mais
um soneto foi pedido nos botequins do subúrbio
e nunca mais
o silêncio da noite doeu na serenata
onde andará o violão de José Carlos
e a rouca voz de Orlando Carneiro amigo íntimo
de Jesus Cristo
escande agora em vez da ode os códigos da lei
Meritíssimo Juiz da Vara Cível
trauteia agora a dodecafônica demanda
cite-se o réu — e testemunha
debaixo de vara sou citado
e desde as 7 horas do dia, Pero Lopes, até o sol
posto
pelejamos sempre: a nau me deu dentro
na caravela trinta e dois tiros
quebrou-me muitos aparelhos e rompeu-me
as velas todas:
estando eu assim com a nau tomada chegou
o Capitão Irmão com os outros navios e Francisco
Francisco da Gama Lima
servia o mel e o pão o coração fraterno
de José Ribas e fazia o pelo sinal da santa cruz
com a mesma lágrima e o mesmo mel
junto ao cadáver de Anísio Teixeira
onde era o pranto da filha derelicta.
E vinha a nau do Capitão com Pedro Maranduba
carregado de brasil
trazia muita artelheria e outra muita munição
de guerra
por lhes faltar pólvora se deram —
na nau não demos mais que uma bombarda
com um pedreiro ao lume dágua:
com a artelheria meúda lhe ferimos seis homens
na caravela me não mataram nem feriram
nenhum homem — de que
dei muitas graças ao Senhor Deus.
Noroeste e sulsueste se corria:
ao longo da nau eram tudo barreiras vermelhas
vieram da terra a nado às naus
índios a perguntar-nos
se queríamos Brasil:
carregado de Brasil
quero Brasil e as naus
carregadas de Brasil
se preciso, com muita artilharia e bombarda e ainda
abalroar as naus estrangeiras quebrar
a espada aos coronéis piratas e passá-los
a fio de espada boa e partir
a caminho da Grécia em nossa caravela
abarrotada de Brasil com Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho,
com grande lastro de Brasil.
Ao sair da lua abonançou-se o vento
e era o quarto da prima
formosa
no mar de seus cabelos Dora
Maria Mourão — Dora Correia Lima
no quarto da modorra no Leblon
era meio-dia e parecia noite
e o relâmpago de ouro de teus olhos
cortava a tempestade dos cabelos
e o mar tão grosso me entrava
por todas as partes com
o jogar da nau de ventre liso
Dora afagada à brisa ao faro das narinas:
houve vista de montes
e era mui alta a maravilha
em teu monte de relva
e hoje me faz dela
dez léguas e dez línguas noroleste
a costa se corre nornordeste e susudeste — Dora —
e toda longa ao longo do mar
no sertão serras mui altas e formosas
haverá delas ao mar dez léguas — e a lugares,
menos
e haveria às altas e formosas colinas tuas dez
beijos aos teus seios
e a lugares, menos,
e à noite veio o piloto-mor no esquife e súbito
são dez mil léguas de memória a esses seios
e a lugares, mais.
Perfundo de cinqüenta braças dárea limpa
o cabo de pareel que jaz ao mar
da banda sudoeste aloeste e a tuas partes
loessudoeste:
quando fui fora do parcel
eram serras mui altas sudoeste
sob a cintura túrgidas redondas
à mercê de tomar prumo
e com Mercedes Martins a prumo
vou mordendo a maçã em labirinto e mar
a caminho da Grécia onde esperavam entre
orquídeas
olhos oblíquos de Magdalena.
olhos oblíquos de Magdalena
antes da âncora da dor numa angra verde
e antes
de partir-se teu rosto da romã
antes, vadio com seu cão e sua flauta
pelos montes o poeta
vadiava e farejava as garrafas de whisky,
a virilha das francesas e eram
baralhos de bacará e roletas de ouro
— a bolinha de marfim
cai no sete
cai no zero
cai no preto
no vermelho
a bolinha de marfim
cai não cai
onde é que cai?
Valencius Wurch, echt deutsch
barão da Pomerânia usava polainas e chapéu
gelô e seu nariz
usava um olho cego de um lado e de outro
um monóculo inútil
e era a glória das namoradas da Rua do Senado
e Monsenhor Manuel Gomes, prelado doméstico
do Papa,
pastoreava o bairro de São Cristóvão
com seu cajado do país da Paraíba
e Manuel Machado, depois doutor em leis, depois
capitão de tropas expedicionárias e herói da Pátria
guardou no coração um estilhaço de granada alemã
e com o belo cravo de sangue de seu peito
visitou a morte num campo da Itália
e tornou, virgem e alegre, à Rua Mem de Sá
e casto ao medo e intemperante ao perigo
o filho dos Mourões
Mourão pastava
adolescentes, cônegos, roletas e janelas de trem
de lira a tiracolo e essas
são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
onde às vezes perguntava o sol ao quarto dalva
e Dalva
Dalva Silveira navegava o sargaço nas virilhas
aloeste de seus promontórios trêmulos
dei toda as velas.
Sabia de naus francesas por ali com muita
artilharia e pólvora e abarrotadas de brasil:
fiz a vela no bordo do sul
fui quatro relógios
e ao meio-dia era na esteira da nau
duas léguas dela e não podia cobrar terra
cheguei à nau e primeiro que lhe tirasse
me tirou dois tiros:
antes que fosse noite lhe tirei
três tiros de camelo e três vezes
toda a artilharia: e de noite carregou
tanto o vento lessueste que não pude jogar
senão artelheria meúda — e com ele
pelejamos toda a noite:
em rompendo a alva
mandei um marinheiro ver:
via uma vela — não divisava
se era latina se redonda.
E que me importa a mim que veja ou que não veja
se cumpriu toda
a cerimônia de ver.
E essas são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
e o valete bicéfalo tangia
ora a espada ora a lira
ora a esquina ora o mar — e Nilo
Nilo José da Costa achara no subúrbio de
Campo Grande
a lua — e achara seu verdadeiro nome e era
Marcus Sandoval e de suas mãos
antes pendiam o fio da navalha e a tesoura
sábia — e delas
nunca mais rolaram cabelos de macho no salão
de barbeiro rolaram
as mechas da lua fêmea
— lua — disse o vento —
mostra-me a graça feminina
das tuas bailarinas
e ao sopro do luar sussurrando
ao ouvido das árvores quietas
todas as frondes num deslumbramento
bailavam aos levíssimos do vento
o bailado das sombras pelo chão
e Marcus Sandoval penou degredo
na Ilha de Fernando Noronha
Fernam de Loronha a nornordeste
por ouvir o filho dos Mourões
e por tanger espada em vez de cítara
e a morte se hospedou em seus pulmões e dorme
no cemitério de Campo Grande e nunca mais
um soneto foi pedido nos botequins do subúrbio
e nunca mais
o silêncio da noite doeu na serenata
onde andará o violão de José Carlos
e a rouca voz de Orlando Carneiro amigo íntimo
de Jesus Cristo
escande agora em vez da ode os códigos da lei
Meritíssimo Juiz da Vara Cível
trauteia agora a dodecafônica demanda
cite-se o réu — e testemunha
debaixo de vara sou citado
e desde as 7 horas do dia, Pero Lopes, até o sol
posto
pelejamos sempre: a nau me deu dentro
na caravela trinta e dois tiros
quebrou-me muitos aparelhos e rompeu-me
as velas todas:
estando eu assim com a nau tomada chegou
o Capitão Irmão com os outros navios e Francisco
Francisco da Gama Lima
servia o mel e o pão o coração fraterno
de José Ribas e fazia o pelo sinal da santa cruz
com a mesma lágrima e o mesmo mel
junto ao cadáver de Anísio Teixeira
onde era o pranto da filha derelicta.
E vinha a nau do Capitão com Pedro Maranduba
carregado de brasil
trazia muita artelheria e outra muita munição
de guerra
por lhes faltar pólvora se deram —
na nau não demos mais que uma bombarda
com um pedreiro ao lume dágua:
com a artelheria meúda lhe ferimos seis homens
na caravela me não mataram nem feriram
nenhum homem — de que
dei muitas graças ao Senhor Deus.
Noroeste e sulsueste se corria:
ao longo da nau eram tudo barreiras vermelhas
vieram da terra a nado às naus
índios a perguntar-nos
se queríamos Brasil:
carregado de Brasil
quero Brasil e as naus
carregadas de Brasil
se preciso, com muita artilharia e bombarda e ainda
abalroar as naus estrangeiras quebrar
a espada aos coronéis piratas e passá-los
a fio de espada boa e partir
a caminho da Grécia em nossa caravela
abarrotada de Brasil com Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho,
com grande lastro de Brasil.
Ao sair da lua abonançou-se o vento
e era o quarto da prima
formosa
no mar de seus cabelos Dora
Maria Mourão — Dora Correia Lima
no quarto da modorra no Leblon
era meio-dia e parecia noite
e o relâmpago de ouro de teus olhos
cortava a tempestade dos cabelos
e o mar tão grosso me entrava
por todas as partes com
o jogar da nau de ventre liso
Dora afagada à brisa ao faro das narinas:
houve vista de montes
e era mui alta a maravilha
em teu monte de relva
e hoje me faz dela
dez léguas e dez línguas noroleste
a costa se corre nornordeste e susudeste — Dora —
e toda longa ao longo do mar
no sertão serras mui altas e formosas
haverá delas ao mar dez léguas — e a lugares,
menos
e haveria às altas e formosas colinas tuas dez
beijos aos teus seios
e a lugares, menos,
e à noite veio o piloto-mor no esquife e súbito
são dez mil léguas de memória a esses seios
e a lugares, mais.
Perfundo de cinqüenta braças dárea limpa
o cabo de pareel que jaz ao mar
da banda sudoeste aloeste e a tuas partes
loessudoeste:
quando fui fora do parcel
eram serras mui altas sudoeste
sob a cintura túrgidas redondas
à mercê de tomar prumo
e com Mercedes Martins a prumo
vou mordendo a maçã em labirinto e mar
a caminho da Grécia onde esperavam entre
orquídeas
olhos oblíquos de Magdalena.
1 076
Moreira Campos
Chuva
São as primeiras águas de janeiro.
Banham-se as folhas,
sobe do chão o cheiro de terra molhada,
que me penetra
e repentinamente me transporta.
Há pedaços de infância nesta chuva.
Tento reconstituir o retábulo de azulejo,
traço com traço.
Um azulejo antigo,
de ingenuidade colonial.
O banho sob o jacaré na calçada?
O mergulho no Poço das Pedras?
A fria fuligem vinda da telha-vã
e que caiu na minha rede?
A oração que minha mãe me ensinou
e que o homem esqueceu?
A voz rolada do trovão que amedronta,
porque vinda das origens?
O relâmpago que iluminou o guarda-roupa?
(Minha mãe cobria todos os espelhos).
A manhã que amanheceu lavada como a minha infância,
com asas de insetos na calcada?
Tento viajar no tempo,
reconstituir os desenhos do retábulo.
Inútil.
Só o imponderável.
E esta chuva,
que chora em gotas na vidraça,
como eu me choro.
Banham-se as folhas,
sobe do chão o cheiro de terra molhada,
que me penetra
e repentinamente me transporta.
Há pedaços de infância nesta chuva.
Tento reconstituir o retábulo de azulejo,
traço com traço.
Um azulejo antigo,
de ingenuidade colonial.
O banho sob o jacaré na calçada?
O mergulho no Poço das Pedras?
A fria fuligem vinda da telha-vã
e que caiu na minha rede?
A oração que minha mãe me ensinou
e que o homem esqueceu?
A voz rolada do trovão que amedronta,
porque vinda das origens?
O relâmpago que iluminou o guarda-roupa?
(Minha mãe cobria todos os espelhos).
A manhã que amanheceu lavada como a minha infância,
com asas de insetos na calcada?
Tento viajar no tempo,
reconstituir os desenhos do retábulo.
Inútil.
Só o imponderável.
E esta chuva,
que chora em gotas na vidraça,
como eu me choro.
1 610
M. de Monte Maggiore
Rosas Vermelhas
Gemem as pombas cor de linho uma saudade infinda, dentro da noite.
No céu distante e curvo, choram as estrelas o pranto da
madrugada, e a lua, cor de neve, canta em surdina no leque das palmeiras...
— Por que partiste?
Vem, doce amiga, vem coroar-te de rosas, rosas vermelhas, purpurinas,
rosas cor de carne de coração
Vem, que minha tenda enflora-te a vida com rosas de Shiraz,
trazidas, só para ti, de longe, muito longe...
Vês?
Dormem na distância, sob a luz verde dos astros, os rebanhos de EI Rei...
Esta é a hora em que os pastores descobrem as morenas perfumadas...
- Vem!
Sentiremos, febris, na púrpura dos lábios, a maciez das rosas
e o perfume da noite...
Empunha tua taça de ametista e ouro
e desfolha as pétalas de tua flor,
docemente,
num êxtase sublime...
Virgem morena de Ofir,
há perfumes e licores
e um leito de rosas
para te u corpo de tâmara dourada...
Vem abrir a Fonte do Sonho
de águas cristalinas
ao beduino que morre de amor,
sozinho,
nos caminhos apagados do deserto,
onde só medram cardos e espinhos.
No céu distante e curvo, choram as estrelas o pranto da
madrugada, e a lua, cor de neve, canta em surdina no leque das palmeiras...
— Por que partiste?
Vem, doce amiga, vem coroar-te de rosas, rosas vermelhas, purpurinas,
rosas cor de carne de coração
Vem, que minha tenda enflora-te a vida com rosas de Shiraz,
trazidas, só para ti, de longe, muito longe...
Vês?
Dormem na distância, sob a luz verde dos astros, os rebanhos de EI Rei...
Esta é a hora em que os pastores descobrem as morenas perfumadas...
- Vem!
Sentiremos, febris, na púrpura dos lábios, a maciez das rosas
e o perfume da noite...
Empunha tua taça de ametista e ouro
e desfolha as pétalas de tua flor,
docemente,
num êxtase sublime...
Virgem morena de Ofir,
há perfumes e licores
e um leito de rosas
para te u corpo de tâmara dourada...
Vem abrir a Fonte do Sonho
de águas cristalinas
ao beduino que morre de amor,
sozinho,
nos caminhos apagados do deserto,
onde só medram cardos e espinhos.
1 698
Manuel J. Reis
sem título
Havia
um menino
que procurava
a estrela
mais clara da noite.
E encontrou
na noite
a forma mais clara
da dor.
um menino
que procurava
a estrela
mais clara da noite.
E encontrou
na noite
a forma mais clara
da dor.
741
Mirella Márcia
Segundo Soneto
Meu amor é um antigo montanhês
Que se escondeu na mais estranha gruta.
Há quem diga que em tempos de escassez
Meu amor se transforma em força bruta.
Nestas noites, meu velho se transporta
Na garupa da águia mais sombria,
Sobrevoando a casa cuja porta
Com medo você fecha em correria.
Não vê que tão esquivo aldeão,
Não sabe que tão incrível eremita
Pesquisa em meio à treva um só clarão
Que ilumine a caverna onde habita?
E no entanto na própria gruta escura
Mora o sol, toda a luz que ele procura.
Que se escondeu na mais estranha gruta.
Há quem diga que em tempos de escassez
Meu amor se transforma em força bruta.
Nestas noites, meu velho se transporta
Na garupa da águia mais sombria,
Sobrevoando a casa cuja porta
Com medo você fecha em correria.
Não vê que tão esquivo aldeão,
Não sabe que tão incrível eremita
Pesquisa em meio à treva um só clarão
Que ilumine a caverna onde habita?
E no entanto na própria gruta escura
Mora o sol, toda a luz que ele procura.
897
Maria Lucia Miranda Afonso
Bonsai
Bonsai
Enfaixei meu desejo como os pés das chinesas antigas.
Desde pequenino, envolto nas tiras apertadas de mistério.
De madrugada, eu ouvia os ossos trincando,
sentia o dorso do desejo se arquear, buscando ser no espaço mínimo.
Ao tentar andar, tropeçava. Correr? nem pensar.
Desejava asas com seus delicados pés curvos,
miniaturas de pássaros,
pequenas estruturas circulares.
Como uma árvore bonsai, que desde cedo moldam,
contendo-lhe o caule, podando-lhe as raízes,
meu desejo está plantado em um vaso ornamental,
belo e exótico,
cheio de significados e insólitas metáforas,
como os pés das chinesas antigas...
Enfaixei meu desejo como os pés das chinesas antigas.
Desde pequenino, envolto nas tiras apertadas de mistério.
De madrugada, eu ouvia os ossos trincando,
sentia o dorso do desejo se arquear, buscando ser no espaço mínimo.
Ao tentar andar, tropeçava. Correr? nem pensar.
Desejava asas com seus delicados pés curvos,
miniaturas de pássaros,
pequenas estruturas circulares.
Como uma árvore bonsai, que desde cedo moldam,
contendo-lhe o caule, podando-lhe as raízes,
meu desejo está plantado em um vaso ornamental,
belo e exótico,
cheio de significados e insólitas metáforas,
como os pés das chinesas antigas...
1 326
Sonia Mori
Verão
Manhã de sol.
Gaivotas mariscam n’areia
coqueiros farfalham.
Rosto do bebê
pontuado de vermelho
cruel pernilongo!
Verão, mas já vejo
o inverno nas vitrinas
É o natal chegando...
Gaivotas mariscam n’areia
coqueiros farfalham.
Rosto do bebê
pontuado de vermelho
cruel pernilongo!
Verão, mas já vejo
o inverno nas vitrinas
É o natal chegando...
866
M. de Monte Maggiore
Insônia
Lágrimas de estrelas em canteiros azuis,
flores de prata no amanhã!
Todos dormem...
Canta, coração, sofre mais... Esta voz é saudade,
é soluço de amor!
Tua face roubou-me o sono...
A luz da tua lâmpada aclarou-me a casa...
Tuas asas, à pássaro, cintilam em volta do meu coração!
Céu vermelho para os lados do Oriente...
Tempestade soprando forte para os lados do Sul...
Tua maldade em flor é um rio de fogo!
Ia, tão só, tão triste, pela estrada deserta da vida,
sem ver ninguém...
De repente encontrei minha doce amada...
Meu coração desabrochou como uma rosa!
Sulamita, minhas romãzeiras estão floridas...
Lábios perfumados, vermelhos,
recebendo a carícia branda do Vento do Oriente...
Na fonte, a água está cantando baixinho. As tamareiras têm
frutos dourados...
A porta do meu horto está fechada...
Vem, alma de minha alma,
inebriar minha vida,
com a carícia do teu corpo.
As virgens de Sião me atraem com olhos lânguidos...
As virgens de Sião se despem junto às fontes cristalinas,
fingindo que não me vêem...
Mas eu só desejo a ti, filha do deserto, palmeira solitária..
Eu quero a noite fulgurante de teus olhos,
em teu seio construirei um ninho perfumado...
Colherei, em tua boca, a doçura do mel e a ebriez do vinho...
Vem! Meu leito está deserto, doce amada!
Vem! mata-me de amor, esconde-me no teu peito de luar
que há muito não sei o que é dormir!.
flores de prata no amanhã!
Todos dormem...
Canta, coração, sofre mais... Esta voz é saudade,
é soluço de amor!
Tua face roubou-me o sono...
A luz da tua lâmpada aclarou-me a casa...
Tuas asas, à pássaro, cintilam em volta do meu coração!
Céu vermelho para os lados do Oriente...
Tempestade soprando forte para os lados do Sul...
Tua maldade em flor é um rio de fogo!
Ia, tão só, tão triste, pela estrada deserta da vida,
sem ver ninguém...
De repente encontrei minha doce amada...
Meu coração desabrochou como uma rosa!
Sulamita, minhas romãzeiras estão floridas...
Lábios perfumados, vermelhos,
recebendo a carícia branda do Vento do Oriente...
Na fonte, a água está cantando baixinho. As tamareiras têm
frutos dourados...
A porta do meu horto está fechada...
Vem, alma de minha alma,
inebriar minha vida,
com a carícia do teu corpo.
As virgens de Sião me atraem com olhos lânguidos...
As virgens de Sião se despem junto às fontes cristalinas,
fingindo que não me vêem...
Mas eu só desejo a ti, filha do deserto, palmeira solitária..
Eu quero a noite fulgurante de teus olhos,
em teu seio construirei um ninho perfumado...
Colherei, em tua boca, a doçura do mel e a ebriez do vinho...
Vem! Meu leito está deserto, doce amada!
Vem! mata-me de amor, esconde-me no teu peito de luar
que há muito não sei o que é dormir!.
1 098
Manuel J. Reis
Poema de um náufrago à beira do entendimento
O mar repousa em meus braços, querida!
O mar das coisas que fizemos,
das coisas claras que tantas vezes fomos
e por tão pouco,
das coisas intocáveis,
das coisas líquidas e fatigadas,
e que, no entanto, vivem
no mar que eu e tu fizemos
dos escombros da minha e da tua
memória naufragada.
O mar das coisas que fizemos,
das coisas claras que tantas vezes fomos
e por tão pouco,
das coisas intocáveis,
das coisas líquidas e fatigadas,
e que, no entanto, vivem
no mar que eu e tu fizemos
dos escombros da minha e da tua
memória naufragada.
809
Maria de Lourdes Hortas
Página de Diário
Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
1 018
Mônica Banderas
Medo
Enquanto esperamos
o nascer do dia,
acendemos fogueiras
para espantar fantasmas.
o nascer do dia,
acendemos fogueiras
para espantar fantasmas.
886
Herculano Moraes
A canga-o Boi
A canga e o boi
na alternância
de quem soluça
um tempo imaginário.
A canga e o boi
vaga lembrança
de um mundo
sempiterno e vário.
A canga e o boi
legenda esmaecida
na face opaca
de um tempo sem medida.
A canga e o boi
gravura como (vida)
filete sanguíneo na face
da memória... diluída.
A canga...
O boi...
Os sulcos perenes,
de rodas ringindo
na pele do tempo.
A canga...
E o boi?
na alternância
de quem soluça
um tempo imaginário.
A canga e o boi
vaga lembrança
de um mundo
sempiterno e vário.
A canga e o boi
legenda esmaecida
na face opaca
de um tempo sem medida.
A canga e o boi
gravura como (vida)
filete sanguíneo na face
da memória... diluída.
A canga...
O boi...
Os sulcos perenes,
de rodas ringindo
na pele do tempo.
A canga...
E o boi?
1 154
Moreira Campos
Natureza
Sento-me no silêncio
e apalpo a natureza.
A cantilena eterna da água,
que tem raízes límpidas
e misteriosas.
Nasce não sei onde,
vem de entranhas
antigas como o tempo
e desce em cachos de espuma.
Vem branda a brisa
e fresca como um bálsamo.
Mil cigarras que explodem
em concerto único.
O canto longínquo do pássaro não identificado
(mas um pássaro).
O baque surdo da fruta
na legitimidade do seu amadurecimento.
Todos os ruídos
estão milenarmente impregnados no homem
como uma memória platônica.
Sons honestos.
Uma herança,
uma identificação,
ou sinfonia.
Nada resulta do petróleo
ou é conquista do plástico.
Não há insultos,
não há agressões à natureza.
Sobretudo ninguém
que me perturbe esse recolhimento.
Somente o silêncio.
e apalpo a natureza.
A cantilena eterna da água,
que tem raízes límpidas
e misteriosas.
Nasce não sei onde,
vem de entranhas
antigas como o tempo
e desce em cachos de espuma.
Vem branda a brisa
e fresca como um bálsamo.
Mil cigarras que explodem
em concerto único.
O canto longínquo do pássaro não identificado
(mas um pássaro).
O baque surdo da fruta
na legitimidade do seu amadurecimento.
Todos os ruídos
estão milenarmente impregnados no homem
como uma memória platônica.
Sons honestos.
Uma herança,
uma identificação,
ou sinfonia.
Nada resulta do petróleo
ou é conquista do plástico.
Não há insultos,
não há agressões à natureza.
Sobretudo ninguém
que me perturbe esse recolhimento.
Somente o silêncio.
1 317
Moreira Campos
Natureza
Sento-me no silêncio
e apalpo a natureza.
A cantilena eterna da água,
que tem raízes límpidas
e misteriosas.
Nasce não sei onde,
vem de entranhas
antigas como o tempo
e desce em cachos de espuma.
Vem branda a brisa
e fresca como um bálsamo.
Mil cigarras que explodem
em concerto único.
O canto longínquo do pássaro não identificado
(mas um pássaro).
O baque surdo da fruta
na legitimidade do seu amadurecimento.
Todos os ruídos
estão milenarmente impregnados no homem
como uma memória platônica.
Sons honestos.
Uma herança,
uma identificação,
ou sinfonia.
Nada resulta do petróleo
ou é conquista do plástico.
Não há insultos,
não há agressões à natureza.
Sobretudo ninguém
que me perturbe esse recolhimento.
Somente o silêncio.
e apalpo a natureza.
A cantilena eterna da água,
que tem raízes límpidas
e misteriosas.
Nasce não sei onde,
vem de entranhas
antigas como o tempo
e desce em cachos de espuma.
Vem branda a brisa
e fresca como um bálsamo.
Mil cigarras que explodem
em concerto único.
O canto longínquo do pássaro não identificado
(mas um pássaro).
O baque surdo da fruta
na legitimidade do seu amadurecimento.
Todos os ruídos
estão milenarmente impregnados no homem
como uma memória platônica.
Sons honestos.
Uma herança,
uma identificação,
ou sinfonia.
Nada resulta do petróleo
ou é conquista do plástico.
Não há insultos,
não há agressões à natureza.
Sobretudo ninguém
que me perturbe esse recolhimento.
Somente o silêncio.
1 317
Mirella Márcia
Quarto Soneto
Os lírios que me vêem te olhar
Não sabem quando é noite ou quando é dia,
Nem sabem se é do sol ou do luar
A luz que os meus olhos extasia.
Os campos que me ouvem te chamar
Não lembram se é pranto ou melodia
Os sons que eu componho nesse mar
Remoto lá em minha fantasia.
De que valem todos esses campos?
De que vale no vale qualquer lírio,
Se não fia nem tece o teu rosto
Embuçado com os panos do delírio?
De que vale toda a natureza
Se eu já trago em mim tua beleza?
Não sabem quando é noite ou quando é dia,
Nem sabem se é do sol ou do luar
A luz que os meus olhos extasia.
Os campos que me ouvem te chamar
Não lembram se é pranto ou melodia
Os sons que eu componho nesse mar
Remoto lá em minha fantasia.
De que valem todos esses campos?
De que vale no vale qualquer lírio,
Se não fia nem tece o teu rosto
Embuçado com os panos do delírio?
De que vale toda a natureza
Se eu já trago em mim tua beleza?
864
Mirella Márcia
Quarto Soneto
Os lírios que me vêem te olhar
Não sabem quando é noite ou quando é dia,
Nem sabem se é do sol ou do luar
A luz que os meus olhos extasia.
Os campos que me ouvem te chamar
Não lembram se é pranto ou melodia
Os sons que eu componho nesse mar
Remoto lá em minha fantasia.
De que valem todos esses campos?
De que vale no vale qualquer lírio,
Se não fia nem tece o teu rosto
Embuçado com os panos do delírio?
De que vale toda a natureza
Se eu já trago em mim tua beleza?
Não sabem quando é noite ou quando é dia,
Nem sabem se é do sol ou do luar
A luz que os meus olhos extasia.
Os campos que me ouvem te chamar
Não lembram se é pranto ou melodia
Os sons que eu componho nesse mar
Remoto lá em minha fantasia.
De que valem todos esses campos?
De que vale no vale qualquer lírio,
Se não fia nem tece o teu rosto
Embuçado com os panos do delírio?
De que vale toda a natureza
Se eu já trago em mim tua beleza?
864
Herculano Moraes
O rio de minha terra
O rio de minha terra é um deus estranho.
Ele tem braços, dentes, corpo, coração,
muitas vezes homicida,
foi ele quem levou o meu irmão.
É muito calmo o rio de minha terra.
Suas águas são feitas de argila e de mistérios.
Nas solidões das noites enluaradas
a maldição de Crispim desce
sobre as águas encrespadas.
O rio de minha terra é um deus estranho.
Um dia ele deixou o monótono caminhar de corpo mole
para subir as poucas rampas do seu cais.
Foi conhecendo o movimento da cidade,
a pobreza residente nas taperas marginais.
Pois tão irado e tão potente fez-se o rio
que todo um povo se juntou para enfrentá-lo.
Mas ele prosseguiu indiferente,
carregando no seu dorso bois e gente,
até roçados de arroz e de feijão.
Na sua obstinada e galopante caminhada,
destruiu paredes, casas, barricadas,
deixando no percurso mágoa e dor.
Depois subiu os degraus da igreja santa
e postou-se horas sob os pés do Criador.
E desceu devagarinho, até deitar-se
novamente no seu leito.
Mas toda noite o seu olhar de rio
fica boiando sob as luzes da cidade.
Ele tem braços, dentes, corpo, coração,
muitas vezes homicida,
foi ele quem levou o meu irmão.
É muito calmo o rio de minha terra.
Suas águas são feitas de argila e de mistérios.
Nas solidões das noites enluaradas
a maldição de Crispim desce
sobre as águas encrespadas.
O rio de minha terra é um deus estranho.
Um dia ele deixou o monótono caminhar de corpo mole
para subir as poucas rampas do seu cais.
Foi conhecendo o movimento da cidade,
a pobreza residente nas taperas marginais.
Pois tão irado e tão potente fez-se o rio
que todo um povo se juntou para enfrentá-lo.
Mas ele prosseguiu indiferente,
carregando no seu dorso bois e gente,
até roçados de arroz e de feijão.
Na sua obstinada e galopante caminhada,
destruiu paredes, casas, barricadas,
deixando no percurso mágoa e dor.
Depois subiu os degraus da igreja santa
e postou-se horas sob os pés do Criador.
E desceu devagarinho, até deitar-se
novamente no seu leito.
Mas toda noite o seu olhar de rio
fica boiando sob as luzes da cidade.
1 360
João José Menescal de O. Saldanha
Vento de Guaramiranga
Um vento leve,
A bramir as moléculas
Sobe a serra
E encerra.
Vento que a vida trará,
Do alto e do distante,
Pelo espaço,
Rompendo o aço,
Derrubando artes...
Pelo teu corpo sedento
O vento passa.
Alisa teus cabelos,
Acaricia as dobras
De tua orelha.
Onde está o vento ?!
Eis o vento,
Vento...
Vento...
Vento...
Invade em turbilhões
As mangas de tua camisa
Arrefecendo o calor
De teu busto,
Beijando teu rosto,
Desempoeirando tua
Alma...
...E de vento em vento,
Em vento,
Invento o vento
Que te recupera
Do esforço da subida.
Sois de vento,
Iremos todos no vento,
Pois somos o próprio invento
Dos ventos que fazem
O frio...
...Quem dera fosse
Eu o vento.
Na descida embalar
Teu corpo refeito,
Dar-te velocidade,
Carreira,
Rompendo limites,
Para que tu possas,
Como um vento,
Correr com os
Ventos de Guaramiranga.
A bramir as moléculas
Sobe a serra
E encerra.
Vento que a vida trará,
Do alto e do distante,
Pelo espaço,
Rompendo o aço,
Derrubando artes...
Pelo teu corpo sedento
O vento passa.
Alisa teus cabelos,
Acaricia as dobras
De tua orelha.
Onde está o vento ?!
Eis o vento,
Vento...
Vento...
Vento...
Invade em turbilhões
As mangas de tua camisa
Arrefecendo o calor
De teu busto,
Beijando teu rosto,
Desempoeirando tua
Alma...
...E de vento em vento,
Em vento,
Invento o vento
Que te recupera
Do esforço da subida.
Sois de vento,
Iremos todos no vento,
Pois somos o próprio invento
Dos ventos que fazem
O frio...
...Quem dera fosse
Eu o vento.
Na descida embalar
Teu corpo refeito,
Dar-te velocidade,
Carreira,
Rompendo limites,
Para que tu possas,
Como um vento,
Correr com os
Ventos de Guaramiranga.
1 376
João José Menescal de O. Saldanha
Vento de Guaramiranga
Um vento leve,
A bramir as moléculas
Sobe a serra
E encerra.
Vento que a vida trará,
Do alto e do distante,
Pelo espaço,
Rompendo o aço,
Derrubando artes...
Pelo teu corpo sedento
O vento passa.
Alisa teus cabelos,
Acaricia as dobras
De tua orelha.
Onde está o vento ?!
Eis o vento,
Vento...
Vento...
Vento...
Invade em turbilhões
As mangas de tua camisa
Arrefecendo o calor
De teu busto,
Beijando teu rosto,
Desempoeirando tua
Alma...
...E de vento em vento,
Em vento,
Invento o vento
Que te recupera
Do esforço da subida.
Sois de vento,
Iremos todos no vento,
Pois somos o próprio invento
Dos ventos que fazem
O frio...
...Quem dera fosse
Eu o vento.
Na descida embalar
Teu corpo refeito,
Dar-te velocidade,
Carreira,
Rompendo limites,
Para que tu possas,
Como um vento,
Correr com os
Ventos de Guaramiranga.
A bramir as moléculas
Sobe a serra
E encerra.
Vento que a vida trará,
Do alto e do distante,
Pelo espaço,
Rompendo o aço,
Derrubando artes...
Pelo teu corpo sedento
O vento passa.
Alisa teus cabelos,
Acaricia as dobras
De tua orelha.
Onde está o vento ?!
Eis o vento,
Vento...
Vento...
Vento...
Invade em turbilhões
As mangas de tua camisa
Arrefecendo o calor
De teu busto,
Beijando teu rosto,
Desempoeirando tua
Alma...
...E de vento em vento,
Em vento,
Invento o vento
Que te recupera
Do esforço da subida.
Sois de vento,
Iremos todos no vento,
Pois somos o próprio invento
Dos ventos que fazem
O frio...
...Quem dera fosse
Eu o vento.
Na descida embalar
Teu corpo refeito,
Dar-te velocidade,
Carreira,
Rompendo limites,
Para que tu possas,
Como um vento,
Correr com os
Ventos de Guaramiranga.
1 376
Carlos Anísio Melhor
Elegia para Hart Crane
Escuro é o espaço em que vivemos,
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
913
Mário Donizete Massari
Memórias II
(à minha mãe)
O tempo passou
e eu nem percebi
Minha mãe rega o velho
jardim,
as flores se renovaram
e eu cresci.
É abril como tantos
outros abris de portas escancaradas
para o futuro
Futuro que neste instante
é o meu presente
Meu peito se agigantou
e guarda tudo o que vivi.
Minha mãe rega o jardim,
acompanho seus movimentos pela [vidraça,
e talvez nem perceba
que já brota do meu peito
uma saudade sem fim.
O tempo passou
e eu nem percebi
Minha mãe rega o velho
jardim,
as flores se renovaram
e eu cresci.
É abril como tantos
outros abris de portas escancaradas
para o futuro
Futuro que neste instante
é o meu presente
Meu peito se agigantou
e guarda tudo o que vivi.
Minha mãe rega o jardim,
acompanho seus movimentos pela [vidraça,
e talvez nem perceba
que já brota do meu peito
uma saudade sem fim.
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