Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Jorge Lescano
Inverno
Ao amanhecer
grita o quero-quero
sobre a geada.
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
grita o quero-quero
sobre a geada.
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
1 035
Lúcio José Gusman
Poema definitivo
És assim como o vento:
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
980
Lúcio José Gusman
Poema definitivo
És assim como o vento:
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
980
Lúcio José Gusman
Poema definitivo
És assim como o vento:
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
980
Gláucia Lemos
Predestinos
No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
1 023
Gláucia Lemos
Predestinos
No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
1 023
Lucídio Freitas
O Incêndio
O ar queima, o vento queima, a terra queima e abrasa.
ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.
Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.
Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.
Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...
ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.
Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.
Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.
Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...
3 232
Lucídio Freitas
O Incêndio
O ar queima, o vento queima, a terra queima e abrasa.
ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.
Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.
Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.
Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...
ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.
Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.
Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.
Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...
3 232
Luiz Fernandes da Silva
Afirmação
Quero que neste momento
teu corpo se abra como ave
e deixe o tempo desmemorizar o homem.
Quero ouvir o eco e o grito
no fundo de um poço
Quero que meu corpo fique
inerte sobre a mesa
para receber a luz do Cruzeiro do Sul.
Quero que escrevam
meu nome na ribanceira dos rios
no ancoradouro do cais.
Quero que o vento cante
minha lira e corte minha palavra
em mil fatias de desespero.
Quero viver intensamente
as minhas noites de vigília.
Quero ruminar campos de outrora
para pisar nas mãos do vento.
Quero viver sem tua presença
na ausência de todos os teus retratos.
teu corpo se abra como ave
e deixe o tempo desmemorizar o homem.
Quero ouvir o eco e o grito
no fundo de um poço
Quero que meu corpo fique
inerte sobre a mesa
para receber a luz do Cruzeiro do Sul.
Quero que escrevam
meu nome na ribanceira dos rios
no ancoradouro do cais.
Quero que o vento cante
minha lira e corte minha palavra
em mil fatias de desespero.
Quero viver intensamente
as minhas noites de vigília.
Quero ruminar campos de outrora
para pisar nas mãos do vento.
Quero viver sem tua presença
na ausência de todos os teus retratos.
813
Gláucia Lemos
Soneto do Rio
(A um poeta)
Aonde me levam águas deste rio
com a insignificância de uma folha,
não sei como parar, não tenho escolha,
deslizo em seixos e húmus. Sol ou frio.
Ora numa vertigem rodopio
indo à flor da corrente. Ora à bolha
da água batendo em pedras. Ora me olha
a me encantar, o seu espelho esguio.
Perderam-se os meus pés por essas águas.
Minha sorte não sei. Mas sei que trago a
ansiedade de ainda prosseguir.
Por isso é que me advirto, vez em quando,
se é mesmo o rio que me está levando
ou se sou eu quem está querendo ir...
15.07.96
Aonde me levam águas deste rio
com a insignificância de uma folha,
não sei como parar, não tenho escolha,
deslizo em seixos e húmus. Sol ou frio.
Ora numa vertigem rodopio
indo à flor da corrente. Ora à bolha
da água batendo em pedras. Ora me olha
a me encantar, o seu espelho esguio.
Perderam-se os meus pés por essas águas.
Minha sorte não sei. Mas sei que trago a
ansiedade de ainda prosseguir.
Por isso é que me advirto, vez em quando,
se é mesmo o rio que me está levando
ou se sou eu quem está querendo ir...
15.07.96
1 259
Luis Germano Graal
Nesta Embarcação
Nesta embarcação, nesta caravela
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
799
Lêdo Ivo
Haicai
Noite de Domingo
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
1 908
Lêdo Ivo
Haicai
Noite de Domingo
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
1 908
Lêdo Ivo
Haicai
Noite de Domingo
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
1 908
Maria Thereza Noronha
Soneto ao Estilo Neo-clássico
Em verde indiferença me pressinto
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
1 005
Maria Thereza Noronha
Soneto ao Estilo Neo-clássico
Em verde indiferença me pressinto
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
1 005
Lêdo Ivo
Os Peixes
Os peixes estão no lago, os dardos escondidos.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
1 664
Lêdo Ivo
O Portão
O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão
desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que
sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da
noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas
trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa
e me rodeiam.
Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.
The Gate Poema em Inglês
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão
desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que
sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da
noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas
trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa
e me rodeiam.
Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.
The Gate Poema em Inglês
2 286
Lago Burnett
Procurando estrelas
Faz frio! vou em busca de agasalho,
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.
As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.
Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.
Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
(Estrela do Céu Perdido / l949)
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.
As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.
Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.
Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
(Estrela do Céu Perdido / l949)
1 217
Lago Burnett
Procurando estrelas
Faz frio! vou em busca de agasalho,
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.
As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.
Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.
Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
(Estrela do Céu Perdido / l949)
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.
As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.
Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.
Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
(Estrela do Céu Perdido / l949)
1 217
Lígia Diniz
Meus Filhos
Fechei a porta
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
980