Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Gabriel Archanjo de Mendonça
Aclive
A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
879
Geir Campos
Haicai
Vento da manhã
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
1 327
Geir Campos
Haicai
Vento da manhã
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
1 327
Geir Campos
Haicai
Vento da manhã
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
1 327
Gustavo Alberto Corrêa Pinto
Haicai
Vulto de homem
contra o horizonte...
Solidão azul.
Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...
contra o horizonte...
Solidão azul.
Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...
1 119
Flávia Wanderley
As sombras da noite
As sombras da noite
São como fantasmas,
que nos perseguem quando crianças
São como vultos,
que nos assustam de relance
São como anjos,
que nos buscam na hora de descansar
É nossa imaginação
que brinca conosco
como crianças
que brincam de "pique".
Pique-tá
Pique-pega
Pique-esconde
Está dentro de nós
a nossa vontade de sonhar
e realizar ...
Pega-nos peça, de surpresa
como se fossemos brinquedo
um brinquedo do mundo
do mundo do faz-de-conta.
Esconde-se atrás de um olhar
como nos faz pensar
que não somos mais crianças
mais ainda podemos sonhar...
São como fantasmas,
que nos perseguem quando crianças
São como vultos,
que nos assustam de relance
São como anjos,
que nos buscam na hora de descansar
É nossa imaginação
que brinca conosco
como crianças
que brincam de "pique".
Pique-tá
Pique-pega
Pique-esconde
Está dentro de nós
a nossa vontade de sonhar
e realizar ...
Pega-nos peça, de surpresa
como se fossemos brinquedo
um brinquedo do mundo
do mundo do faz-de-conta.
Esconde-se atrás de um olhar
como nos faz pensar
que não somos mais crianças
mais ainda podemos sonhar...
881
Carlos Gondim
Maria
No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
787
Gabriel Archanjo de Mendonça
Sêmen
Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
962
Almeida Garrett
Rosa e Lírio
A rosaÉ formosaPor que lhe chamam — florDamorNão sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
3 887
Gilberto Avelino
Diante do Mar
É janeiro. O claro
mês das marés
de sizígia.
Ontem,
a bolandeira circulou
a lua,
em sinal da proximidade
das chuvas.
Hoje,
sobre o mar,
as chuvas
vieram.
E os pescadores descansam
as quilhas.
— Os peixes
alumbram-se
com as águas doces.
Envolvem o mar
as escuras sombras
da noite.
Contudo,
em harmonias
o mar
tece os fios
de níveas rendas.
O farol
permanece atento,
indicando
os rumos.
E nós — amada
amiga,
nos enternecendo
ao som da onda,
da onda
alta,
com quem dividimos
a vigília.
mês das marés
de sizígia.
Ontem,
a bolandeira circulou
a lua,
em sinal da proximidade
das chuvas.
Hoje,
sobre o mar,
as chuvas
vieram.
E os pescadores descansam
as quilhas.
— Os peixes
alumbram-se
com as águas doces.
Envolvem o mar
as escuras sombras
da noite.
Contudo,
em harmonias
o mar
tece os fios
de níveas rendas.
O farol
permanece atento,
indicando
os rumos.
E nós — amada
amiga,
nos enternecendo
ao som da onda,
da onda
alta,
com quem dividimos
a vigília.
1 059
Gilberto Avelino
Diante do Mar
É janeiro. O claro
mês das marés
de sizígia.
Ontem,
a bolandeira circulou
a lua,
em sinal da proximidade
das chuvas.
Hoje,
sobre o mar,
as chuvas
vieram.
E os pescadores descansam
as quilhas.
— Os peixes
alumbram-se
com as águas doces.
Envolvem o mar
as escuras sombras
da noite.
Contudo,
em harmonias
o mar
tece os fios
de níveas rendas.
O farol
permanece atento,
indicando
os rumos.
E nós — amada
amiga,
nos enternecendo
ao som da onda,
da onda
alta,
com quem dividimos
a vigília.
mês das marés
de sizígia.
Ontem,
a bolandeira circulou
a lua,
em sinal da proximidade
das chuvas.
Hoje,
sobre o mar,
as chuvas
vieram.
E os pescadores descansam
as quilhas.
— Os peixes
alumbram-se
com as águas doces.
Envolvem o mar
as escuras sombras
da noite.
Contudo,
em harmonias
o mar
tece os fios
de níveas rendas.
O farol
permanece atento,
indicando
os rumos.
E nós — amada
amiga,
nos enternecendo
ao som da onda,
da onda
alta,
com quem dividimos
a vigília.
1 059
Gilberto Avelino
Diante do Mar
É janeiro. O claro
mês das marés
de sizígia.
Ontem,
a bolandeira circulou
a lua,
em sinal da proximidade
das chuvas.
Hoje,
sobre o mar,
as chuvas
vieram.
E os pescadores descansam
as quilhas.
— Os peixes
alumbram-se
com as águas doces.
Envolvem o mar
as escuras sombras
da noite.
Contudo,
em harmonias
o mar
tece os fios
de níveas rendas.
O farol
permanece atento,
indicando
os rumos.
E nós — amada
amiga,
nos enternecendo
ao som da onda,
da onda
alta,
com quem dividimos
a vigília.
mês das marés
de sizígia.
Ontem,
a bolandeira circulou
a lua,
em sinal da proximidade
das chuvas.
Hoje,
sobre o mar,
as chuvas
vieram.
E os pescadores descansam
as quilhas.
— Os peixes
alumbram-se
com as águas doces.
Envolvem o mar
as escuras sombras
da noite.
Contudo,
em harmonias
o mar
tece os fios
de níveas rendas.
O farol
permanece atento,
indicando
os rumos.
E nós — amada
amiga,
nos enternecendo
ao som da onda,
da onda
alta,
com quem dividimos
a vigília.
1 059
Gilberto Diener
Amor Caipirano
Vaga viola, viola cigana a clarear...
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
942
Gilson Nascimento
Biête do sertão
Zé, meu fi, esse biête
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
975
Gilson Nascimento
Biête do sertão
Zé, meu fi, esse biête
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
975
Gilberto Avelino
No Inverno
A forte chuva cessara
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
1 050
Gilberto Avelino
No Inverno
A forte chuva cessara
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
1 050
Gilberto Avelino
No Inverno
A forte chuva cessara
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
1 050
Flávio Villa-Lobos
Legados
Velejo por entre correntes marítimas
que o navio do destino
faz balançar,
arrastando meu sonho
em torvelinho, rumo às águas profundas
do imensurável mar.
As ondas eram pequenas,
pequeno era meu desejo de amar.
Quando me libertei da timidez
era tarde, tarde demais.
As ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram meu barco de papel.
As estrelas da anunciação
- que brilhavam como sóis
no mapa do céu -
apagaram-se todas.
Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
- inútil saber se sobreviveu.
Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas
um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.
que o navio do destino
faz balançar,
arrastando meu sonho
em torvelinho, rumo às águas profundas
do imensurável mar.
As ondas eram pequenas,
pequeno era meu desejo de amar.
Quando me libertei da timidez
era tarde, tarde demais.
As ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram meu barco de papel.
As estrelas da anunciação
- que brilhavam como sóis
no mapa do céu -
apagaram-se todas.
Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
- inútil saber se sobreviveu.
Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas
um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.
932
Flávio Villa-Lobos
Estio
Mar alto, tanto mar... frágil ilha
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
890
Flávio Villa-Lobos
Estio
Mar alto, tanto mar... frágil ilha
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
890
Flávio Villa-Lobos
Estio
Mar alto, tanto mar... frágil ilha
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
890
Gilberto Avelino
Na Piscina
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
2 375
Frederico Barbosa
Na mira
quartetos
(fragmentos)
I
Em vão jogar dados contaminados:sempre esperando, caso sobre caso,acidente branco em campo minado,uma certa explosão em cada passo.
Apostar em conta-gotas viciado:certeza de fratura exposta em aço,circulo só rabisco nos quadrados,isca disfarçada em frágil acaso.
V
Escapo por pura sorte.O criminoso se enrola.A noite fere e explode,nenhuma estrela me chora.
Quando acordo pela morte,que falha, cala e consola,vislumbro o lume que foge,perfeita pedra por fora.
Poema em espanhol
(fragmentos)
I
Em vão jogar dados contaminados:sempre esperando, caso sobre caso,acidente branco em campo minado,uma certa explosão em cada passo.
Apostar em conta-gotas viciado:certeza de fratura exposta em aço,circulo só rabisco nos quadrados,isca disfarçada em frágil acaso.
V
Escapo por pura sorte.O criminoso se enrola.A noite fere e explode,nenhuma estrela me chora.
Quando acordo pela morte,que falha, cala e consola,vislumbro o lume que foge,perfeita pedra por fora.
Poema em espanhol
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