Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Antônio Nunes de Siqueira
Soneto Acróstico
Voe da fama, ao sempre merecido
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
546
Antônio Ribeiro da Costa
Soneto
Em salva de esmeralda posta a neve,
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;
estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:
se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:
só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;
estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:
se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:
só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.
599
Antônio Ribeiro da Costa
Soneto
Em salva de esmeralda posta a neve,
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;
estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:
se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:
só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;
estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:
se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:
só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.
599
Antonio Roberval Miketen
Lição da Luz
I
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
980
Antunes da Silva
Senhor Vento
Senhor Vento, ó Senhor Vento,
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
1 248
Antunes da Silva
Senhor Vento
Senhor Vento, ó Senhor Vento,
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
1 248
Antunes da Silva
Senhor Vento
Senhor Vento, ó Senhor Vento,
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
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Albano Dias Martins
Relógio Sem Ponteiros
Quando agora te debruças sobre a água do tanque, vês projetado, lá no fundo, um relógio sem ponteiros. Percebes, então, que a ferrugem é também uma qualidade e um atributo da água, e não apenas de alguns metais a que chamamos vis. E percebes ainda que já não são necessários os relógios. Tu já não tens idade, nem o tempo, que partilha do halo e da fluidez da água e é, às vezes, como ela, tão inodoro e insípido, se deixa prender, mesmo num vaso de cristal. E não podes, assim, medir-lhe a respiração. A sua duração, se preferes. Se alguma ainda subsiste, é a que é regulada pelos ponteiros do seu próprio corpo.
1 534
Almeida Garrett
A Tempestade (1828)
Virgílio,
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
2 416
Almeida Garrett
A Tempestade (1828)
Virgílio,
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
2 416
Alberto de Lacerda
Ilha de Moçambique
Desfeitos um por um os nós sombrios,
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.
Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!
Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.
Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.
Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!
Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.
Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.
1 697
Anderson Braga Horta
Nox
É teu cone que se desloca lento e solene
sobre a esfera abrasada:
telescópio que a Terra aponta aos astros.
Contrária noite cúmplice:
sem teu não de negrume à luz radiante,
que saberíamos de estrelas?
sobre a esfera abrasada:
telescópio que a Terra aponta aos astros.
Contrária noite cúmplice:
sem teu não de negrume à luz radiante,
que saberíamos de estrelas?
1 187
Anderson Braga Horta
Nox
É teu cone que se desloca lento e solene
sobre a esfera abrasada:
telescópio que a Terra aponta aos astros.
Contrária noite cúmplice:
sem teu não de negrume à luz radiante,
que saberíamos de estrelas?
sobre a esfera abrasada:
telescópio que a Terra aponta aos astros.
Contrária noite cúmplice:
sem teu não de negrume à luz radiante,
que saberíamos de estrelas?
1 187
António Lobo Antunes
Décimas para Gabriela
MOTE
A tua cor de canela
Me traz impressionado,
São os teus lindos cabelos
Em que me trago amarrado.
GLOSA
Tu és uma flor galante
Do reino de Alexandria,
Esta tua simpatia
É um jardim elegante.
Estes teus olhos brilhantes
É uma flor das mais belas.
Minha querida donzela,
Consagro meu coração
À tua linda feição,
À tua cor de canela.
Tu és uma linda rosa,
Um lírio bem cacheado,
Parece um cravo encarnado
A tua boca mimosa.
Tua face cor-de-rosa
Parece um reino encantado.
Há muitos dias passados,
Que sofro tamanha dor,
Porque este tão grande amor
Me traz impressionado.
Tu és um belo jasmin,
Uma açucena doirada,
Uma lapela bordada,
Tu és um verde alecrim,
Cravo branco do jardim,
Tens a cor que mais desejo.
De perder-te tenho medo,
Porque és um amor sem fim
E o que mais te prende a mim
São os teus lindos cabelos.
De ti não posso esquecer,
Em ti penso noite e dia,
Minha maior alegria
É estar contigo ao meu lado,
Em nosso leito, deitado,
Te acariciando com amor,
Cheirando a ti como à flor,
Matando assim meus desejos,
Enroscado em teus cabelos
Em que me trago amarrado.
(Lavras - Ceará, 1959)
A tua cor de canela
Me traz impressionado,
São os teus lindos cabelos
Em que me trago amarrado.
GLOSA
Tu és uma flor galante
Do reino de Alexandria,
Esta tua simpatia
É um jardim elegante.
Estes teus olhos brilhantes
É uma flor das mais belas.
Minha querida donzela,
Consagro meu coração
À tua linda feição,
À tua cor de canela.
Tu és uma linda rosa,
Um lírio bem cacheado,
Parece um cravo encarnado
A tua boca mimosa.
Tua face cor-de-rosa
Parece um reino encantado.
Há muitos dias passados,
Que sofro tamanha dor,
Porque este tão grande amor
Me traz impressionado.
Tu és um belo jasmin,
Uma açucena doirada,
Uma lapela bordada,
Tu és um verde alecrim,
Cravo branco do jardim,
Tens a cor que mais desejo.
De perder-te tenho medo,
Porque és um amor sem fim
E o que mais te prende a mim
São os teus lindos cabelos.
De ti não posso esquecer,
Em ti penso noite e dia,
Minha maior alegria
É estar contigo ao meu lado,
Em nosso leito, deitado,
Te acariciando com amor,
Cheirando a ti como à flor,
Matando assim meus desejos,
Enroscado em teus cabelos
Em que me trago amarrado.
(Lavras - Ceará, 1959)
1 235
Alexandre Marino
Águas
pés na enxurrada
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
936
Antonio Roberval Miketen
É Tarde para a Manhã
A Simone
Pobre pintinho indefeso,
encostado na lata de lixo,
na descontração de um casaco
de luxo, vindo de uma secreta
zibelina, mais fina
do que a pele humana.
No alto, as nuvens
acabam de tingir-se
no amarelo da tua maciez.
A tarde entardeceu na manhã.
Os teus olhinhos ainda abertos
queriam as minhas mãos
no dorso da tua penugem.
Queriam que eu ainda
fosse menino, menino
que oferecesse a minha inocência
só para a criança
que piava em ti.
Gentil era a tua mansidão,
debruçada sobre uma rosa rota,
pois descansavas a tua eternidade
sobre um buquê desprezado
por ser trazido de murcho.
Mas debaixo de ti
cada pétala ainda sangrava,
deixando uma mancha de vinho
no descanso do teu ventre.
Foi quando eu passei,
já estavas morto quando eu passei
enamorado pelo poente,
esquecido da manhã
que subia dos teus olhinhos.
Pobre pintinho indefeso,
encostado na lata de lixo,
na descontração de um casaco
de luxo, vindo de uma secreta
zibelina, mais fina
do que a pele humana.
No alto, as nuvens
acabam de tingir-se
no amarelo da tua maciez.
A tarde entardeceu na manhã.
Os teus olhinhos ainda abertos
queriam as minhas mãos
no dorso da tua penugem.
Queriam que eu ainda
fosse menino, menino
que oferecesse a minha inocência
só para a criança
que piava em ti.
Gentil era a tua mansidão,
debruçada sobre uma rosa rota,
pois descansavas a tua eternidade
sobre um buquê desprezado
por ser trazido de murcho.
Mas debaixo de ti
cada pétala ainda sangrava,
deixando uma mancha de vinho
no descanso do teu ventre.
Foi quando eu passei,
já estavas morto quando eu passei
enamorado pelo poente,
esquecido da manhã
que subia dos teus olhinhos.
835
Antônio Massa
Nocturno
Em adágio sustenuto
Céu
campo melódico
regido pelo ruflar
das asas da noite
O tom
lua cheia
relativa maior
da cativa nua
Violar a sinfonia
da sua alva pele
é transcender o curso
o corpoo som
escutar seu brilho
é compor a alma
recompor a calma
depois do contraponto
O acorde é inverso;
a escala
diminuta;
a partitura, cega,
quando é nuda a lua
Céu
campo melódico
regido pelo ruflar
das asas da noite
O tom
lua cheia
relativa maior
da cativa nua
Violar a sinfonia
da sua alva pele
é transcender o curso
o corpoo som
escutar seu brilho
é compor a alma
recompor a calma
depois do contraponto
O acorde é inverso;
a escala
diminuta;
a partitura, cega,
quando é nuda a lua
942
Antônio Massa
Nocturno
Em adágio sustenuto
Céu
campo melódico
regido pelo ruflar
das asas da noite
O tom
lua cheia
relativa maior
da cativa nua
Violar a sinfonia
da sua alva pele
é transcender o curso
o corpoo som
escutar seu brilho
é compor a alma
recompor a calma
depois do contraponto
O acorde é inverso;
a escala
diminuta;
a partitura, cega,
quando é nuda a lua
Céu
campo melódico
regido pelo ruflar
das asas da noite
O tom
lua cheia
relativa maior
da cativa nua
Violar a sinfonia
da sua alva pele
é transcender o curso
o corpoo som
escutar seu brilho
é compor a alma
recompor a calma
depois do contraponto
O acorde é inverso;
a escala
diminuta;
a partitura, cega,
quando é nuda a lua
942
Anderson Braga Horta
Oração
A Casa de meu Pai tem muitas moradas.
O universo é meu lar.
Não conheço fronteiras.
Pequeno verme num pomar de estrelas,
deu-me o pai infinitas vidas
para em todas ardê-las.
No seio de meu Pai estou, mesmo na queda.
Sem desespero encaro
minha pobre verdade.
E sei, por este mesmo anseio de alto,
que — além da eternidade —
me espera a eternidade.
O universo é meu lar.
Não conheço fronteiras.
Pequeno verme num pomar de estrelas,
deu-me o pai infinitas vidas
para em todas ardê-las.
No seio de meu Pai estou, mesmo na queda.
Sem desespero encaro
minha pobre verdade.
E sei, por este mesmo anseio de alto,
que — além da eternidade —
me espera a eternidade.
1 146
Anderson Braga Horta
Música
Sombra de Deus, modulações do Nada,
que os anjos colhem do chão, com reverência.
O pó que fecundaste infiltra-se nas fendas
do Cosmo, pólen de ouro
em asas de invisíveis borboletas.
Louvamos-te, Senhor: o rastro de tua sombra
desce e ilumina as nossas trevas.
que os anjos colhem do chão, com reverência.
O pó que fecundaste infiltra-se nas fendas
do Cosmo, pólen de ouro
em asas de invisíveis borboletas.
Louvamos-te, Senhor: o rastro de tua sombra
desce e ilumina as nossas trevas.
1 144
Anderson Braga Horta
Balões
Por que é triste a beleza?
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
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Anísio Melhor
Elegia para um Nascimento
Da noite em que, lúcidos, sonhamos
Pouca coisa resta a esquecer:
Do que sonhamos na extrema lucidez
Nada mais resta para se sofrer.
De um profundo silêncio
— Íntimo como o fundo do mar —
O sonho emergiu trazendo os vestígios de sangue e de linfa,
Onde antes o Ser repousava,
E a noite era um mundo fechado,
Era um ventre obscuro,
Gerando monstros ou deuses.
Lúcidos, de nossos sonhos, emersos,
Os fizemos nascer, monstros ou deuses,
Reais como nunca fomos
Ou pudéramos ser.
Da noite em que lúcidos sonhamos
Pouca coisa resta a esquecer.
fonte menor(Sanatório Ana Nery — março 1960)
Eu, sob o látego da fome e sede compelido,
Atado à roda de Krishna, paralisados, abúlicos dedos.
Eu,
Sem remorso ou maldição,
Agora
Bebo do copo que Fausto recusou.
(Hospital Juliano Moreira)
Pouca coisa resta a esquecer:
Do que sonhamos na extrema lucidez
Nada mais resta para se sofrer.
De um profundo silêncio
— Íntimo como o fundo do mar —
O sonho emergiu trazendo os vestígios de sangue e de linfa,
Onde antes o Ser repousava,
E a noite era um mundo fechado,
Era um ventre obscuro,
Gerando monstros ou deuses.
Lúcidos, de nossos sonhos, emersos,
Os fizemos nascer, monstros ou deuses,
Reais como nunca fomos
Ou pudéramos ser.
Da noite em que lúcidos sonhamos
Pouca coisa resta a esquecer.
fonte menor(Sanatório Ana Nery — março 1960)
Eu, sob o látego da fome e sede compelido,
Atado à roda de Krishna, paralisados, abúlicos dedos.
Eu,
Sem remorso ou maldição,
Agora
Bebo do copo que Fausto recusou.
(Hospital Juliano Moreira)
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Cláudio Alex
Samba-Canção
1.
Dentro de um mundo espesso
ainda te tenho apreço.
Tenho um samba guardado
no fundo da gaveta ao lado.
Ele diz de um dia
e de um lugar marcado.
Fala de teu endereço
mas por enquanto calado.
Se esconde atrás do recado,
um velho samba-canção.
Cantado na mesma escala
das cordas do teu coração.
Venha, abre a porta,
o meu palácio é só teu.
Venha que sei que comportas
um amor todo meu.
2.
Deixe a lâmpada acesa,
espere um minuto.
Me ouça um instante
e então eu te escuto.
Não durma tão cedo.
Não quero ir dormir.
Diga uma coisa sincera,
não feche os ouvidos.
Receba meu corpo
em todos sentidos.
Não poupe palavras,
não poupe gemidos.
Deixe-me ver parte a parte,
me prende e me solta.
A porta está aberta
e o tempo não volta
e a mim pouco importa
que venha insistir.
De um abat-jour policromo
reflete em teu rosto
uma luz submersa
num ar de meu gosto.
Magia do incerto.
Logia vital.
3.
Daquele dia em diante
você roubou minha paz.
Minha ilusão passageira
está duradoura demais.
Meu pensamento no escuro
está pervertido demais.
Meus obscuros segredos
estão misteriosos demais.
Um copo d’água com açúcar
senão percebo miragens.
Passo a vagar pela casa
lembrando as tuas bobagens.
Veja, não esqueça, se lembre,
telefone, me inspire coragem,
a solidão me carcome
não é uma vantagem.
4.
Não diga que eu te induzi
que me calo.
Não peça opinião sobre amor
eu não sei nada.
Eu bem mal só sei quem sou eu.
Eu não sei se você mereceu.
De que vale explicar tanta coisa
tanta coisa tão falha.
Eu não sei se eu sofro algum mal,
só você que repara.
Eu não sei como é ter prazer,
é uma coisa tão rara.
Eu não sei como se sucedeu
eu beijei e você respondeu.
Eu vivi e você me acolheu.
Foi o que aconteceu.
5.
Olhar atento prá porta.
Que duro silêncio comporta!
Frio aposento vazio
o pensamento saiu.
Saiu prá fora do quarto
a procurar já tão farta
de apaziguar a saudade
percorre a cidade.
A campainha não toca.
O telefone não chama.
Na mesa, o copo, a bebida,
cigarro que queima a cama.
Apago a luz, adormeço
me abraço com meu silêncio,
e aconchego o vazio
nesta noite de frio.
Dentro de um mundo espesso
ainda te tenho apreço.
Tenho um samba guardado
no fundo da gaveta ao lado.
Ele diz de um dia
e de um lugar marcado.
Fala de teu endereço
mas por enquanto calado.
Se esconde atrás do recado,
um velho samba-canção.
Cantado na mesma escala
das cordas do teu coração.
Venha, abre a porta,
o meu palácio é só teu.
Venha que sei que comportas
um amor todo meu.
2.
Deixe a lâmpada acesa,
espere um minuto.
Me ouça um instante
e então eu te escuto.
Não durma tão cedo.
Não quero ir dormir.
Diga uma coisa sincera,
não feche os ouvidos.
Receba meu corpo
em todos sentidos.
Não poupe palavras,
não poupe gemidos.
Deixe-me ver parte a parte,
me prende e me solta.
A porta está aberta
e o tempo não volta
e a mim pouco importa
que venha insistir.
De um abat-jour policromo
reflete em teu rosto
uma luz submersa
num ar de meu gosto.
Magia do incerto.
Logia vital.
3.
Daquele dia em diante
você roubou minha paz.
Minha ilusão passageira
está duradoura demais.
Meu pensamento no escuro
está pervertido demais.
Meus obscuros segredos
estão misteriosos demais.
Um copo d’água com açúcar
senão percebo miragens.
Passo a vagar pela casa
lembrando as tuas bobagens.
Veja, não esqueça, se lembre,
telefone, me inspire coragem,
a solidão me carcome
não é uma vantagem.
4.
Não diga que eu te induzi
que me calo.
Não peça opinião sobre amor
eu não sei nada.
Eu bem mal só sei quem sou eu.
Eu não sei se você mereceu.
De que vale explicar tanta coisa
tanta coisa tão falha.
Eu não sei se eu sofro algum mal,
só você que repara.
Eu não sei como é ter prazer,
é uma coisa tão rara.
Eu não sei como se sucedeu
eu beijei e você respondeu.
Eu vivi e você me acolheu.
Foi o que aconteceu.
5.
Olhar atento prá porta.
Que duro silêncio comporta!
Frio aposento vazio
o pensamento saiu.
Saiu prá fora do quarto
a procurar já tão farta
de apaziguar a saudade
percorre a cidade.
A campainha não toca.
O telefone não chama.
Na mesa, o copo, a bebida,
cigarro que queima a cama.
Apago a luz, adormeço
me abraço com meu silêncio,
e aconchego o vazio
nesta noite de frio.
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