Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Cláudio Alex
Samba-Canção
1.
Dentro de um mundo espesso
ainda te tenho apreço.
Tenho um samba guardado
no fundo da gaveta ao lado.
Ele diz de um dia
e de um lugar marcado.
Fala de teu endereço
mas por enquanto calado.
Se esconde atrás do recado,
um velho samba-canção.
Cantado na mesma escala
das cordas do teu coração.
Venha, abre a porta,
o meu palácio é só teu.
Venha que sei que comportas
um amor todo meu.
2.
Deixe a lâmpada acesa,
espere um minuto.
Me ouça um instante
e então eu te escuto.
Não durma tão cedo.
Não quero ir dormir.
Diga uma coisa sincera,
não feche os ouvidos.
Receba meu corpo
em todos sentidos.
Não poupe palavras,
não poupe gemidos.
Deixe-me ver parte a parte,
me prende e me solta.
A porta está aberta
e o tempo não volta
e a mim pouco importa
que venha insistir.
De um abat-jour policromo
reflete em teu rosto
uma luz submersa
num ar de meu gosto.
Magia do incerto.
Logia vital.
3.
Daquele dia em diante
você roubou minha paz.
Minha ilusão passageira
está duradoura demais.
Meu pensamento no escuro
está pervertido demais.
Meus obscuros segredos
estão misteriosos demais.
Um copo d’água com açúcar
senão percebo miragens.
Passo a vagar pela casa
lembrando as tuas bobagens.
Veja, não esqueça, se lembre,
telefone, me inspire coragem,
a solidão me carcome
não é uma vantagem.
4.
Não diga que eu te induzi
que me calo.
Não peça opinião sobre amor
eu não sei nada.
Eu bem mal só sei quem sou eu.
Eu não sei se você mereceu.
De que vale explicar tanta coisa
tanta coisa tão falha.
Eu não sei se eu sofro algum mal,
só você que repara.
Eu não sei como é ter prazer,
é uma coisa tão rara.
Eu não sei como se sucedeu
eu beijei e você respondeu.
Eu vivi e você me acolheu.
Foi o que aconteceu.
5.
Olhar atento prá porta.
Que duro silêncio comporta!
Frio aposento vazio
o pensamento saiu.
Saiu prá fora do quarto
a procurar já tão farta
de apaziguar a saudade
percorre a cidade.
A campainha não toca.
O telefone não chama.
Na mesa, o copo, a bebida,
cigarro que queima a cama.
Apago a luz, adormeço
me abraço com meu silêncio,
e aconchego o vazio
nesta noite de frio.
Dentro de um mundo espesso
ainda te tenho apreço.
Tenho um samba guardado
no fundo da gaveta ao lado.
Ele diz de um dia
e de um lugar marcado.
Fala de teu endereço
mas por enquanto calado.
Se esconde atrás do recado,
um velho samba-canção.
Cantado na mesma escala
das cordas do teu coração.
Venha, abre a porta,
o meu palácio é só teu.
Venha que sei que comportas
um amor todo meu.
2.
Deixe a lâmpada acesa,
espere um minuto.
Me ouça um instante
e então eu te escuto.
Não durma tão cedo.
Não quero ir dormir.
Diga uma coisa sincera,
não feche os ouvidos.
Receba meu corpo
em todos sentidos.
Não poupe palavras,
não poupe gemidos.
Deixe-me ver parte a parte,
me prende e me solta.
A porta está aberta
e o tempo não volta
e a mim pouco importa
que venha insistir.
De um abat-jour policromo
reflete em teu rosto
uma luz submersa
num ar de meu gosto.
Magia do incerto.
Logia vital.
3.
Daquele dia em diante
você roubou minha paz.
Minha ilusão passageira
está duradoura demais.
Meu pensamento no escuro
está pervertido demais.
Meus obscuros segredos
estão misteriosos demais.
Um copo d’água com açúcar
senão percebo miragens.
Passo a vagar pela casa
lembrando as tuas bobagens.
Veja, não esqueça, se lembre,
telefone, me inspire coragem,
a solidão me carcome
não é uma vantagem.
4.
Não diga que eu te induzi
que me calo.
Não peça opinião sobre amor
eu não sei nada.
Eu bem mal só sei quem sou eu.
Eu não sei se você mereceu.
De que vale explicar tanta coisa
tanta coisa tão falha.
Eu não sei se eu sofro algum mal,
só você que repara.
Eu não sei como é ter prazer,
é uma coisa tão rara.
Eu não sei como se sucedeu
eu beijei e você respondeu.
Eu vivi e você me acolheu.
Foi o que aconteceu.
5.
Olhar atento prá porta.
Que duro silêncio comporta!
Frio aposento vazio
o pensamento saiu.
Saiu prá fora do quarto
a procurar já tão farta
de apaziguar a saudade
percorre a cidade.
A campainha não toca.
O telefone não chama.
Na mesa, o copo, a bebida,
cigarro que queima a cama.
Apago a luz, adormeço
me abraço com meu silêncio,
e aconchego o vazio
nesta noite de frio.
900
Álvaro Feijó
Varina
Eu mudei de pincel e de paleta
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
1 620
António Emídio
Onírico em Verso
Olhos laser, os daquele cavalo alado
Voava alto, entre nuvens e fugia
Perdido entre vagas ou entre elas achado
Fogoso nas asas, alado de tanta ousadia!
Fugir em branco, sem ouvir ninguém,
O alado ousava, sem luz nem dia,
Corria desenfreado tudo o que sabia
O leme era o sonho num vai e vem...
A rota eram vozes do gritar de alguém
Subir a voar, procurar sem ver,
Ouvir sem querer, tantas vozes e ninguém!
Até que numa vaga se perdeu,
De tão alto que ficou,
Quando o leme se partiu e ele
logo acordou!
Voava alto, entre nuvens e fugia
Perdido entre vagas ou entre elas achado
Fogoso nas asas, alado de tanta ousadia!
Fugir em branco, sem ouvir ninguém,
O alado ousava, sem luz nem dia,
Corria desenfreado tudo o que sabia
O leme era o sonho num vai e vem...
A rota eram vozes do gritar de alguém
Subir a voar, procurar sem ver,
Ouvir sem querer, tantas vozes e ninguém!
Até que numa vaga se perdeu,
De tão alto que ficou,
Quando o leme se partiu e ele
logo acordou!
631
Aleilton Fonseca
nova meditação sobre o tietê
"Águas do Tietê,
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)
águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes
tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani
aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?
te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso
segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos
por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris
tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata
águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...
exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!
pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos
em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas
eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas
há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula
mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas
águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...
te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...
aleilton fonseca, sp, 95
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)
águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes
tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani
aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?
te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso
segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos
por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris
tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata
águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...
exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!
pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos
em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas
eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas
há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula
mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas
águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...
te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...
aleilton fonseca, sp, 95
1 326
Amadeu Fontana
Haicai
Despetala a rosa
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
954
Amadeu Fontana
Haicai
Despetala a rosa
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
954
Aureliano Lessa
Tu
Teus olhos são como a noite
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!
Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.
Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!
Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!
Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!
Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!
Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.
Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!
Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!
Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!
Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!
1 444
Afonso Duarte
Ex-voto da Paisagem
de Coimbra ao Pôr-do-Sol
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
1 151
Afonso Duarte
Ex-voto da Paisagem
de Coimbra ao Pôr-do-Sol
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
1 151
Adailton Medeiros
Cucu
(No maranhão: faz tanto tempo
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
1 182
Anselmo Gonçalves
O Sangue da Terra é a Chuva
Ao Zé é o fim, vai-lhe faltando a crençae faz desfeita dura ao Padinciço:- Padim, cumé, vois tendi a disavençacum nóis caboco? Para já cum isso!...
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
910
Anselmo Gonçalves
O Sangue da Terra é a Chuva
Ao Zé é o fim, vai-lhe faltando a crençae faz desfeita dura ao Padinciço:- Padim, cumé, vois tendi a disavençacum nóis caboco? Para já cum isso!...
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
910
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Sempre em Todos na Manhã
Sempre em todos na manhã
A noite na face
De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.
Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.
Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.
A noite na face
De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.
Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.
Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.
794
Afonso Duarte
Canção de El-Rei Dinis
Maria: anda o gadinho a trabalhar
Em plena florescência,
É um zumbido de ouro
No pasto em flor da abelha,
E temos o inverno até lá Março.
Um lindo Sol doente,
Como um poeta lírico,
Abre ao Inverno a Primavera:
E, ao néctar da abelha
Que é cor na corola
E música sutil do pólen,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde ramo".
El-rei Dinis esteve no Castelo
Onde eu existo a uma distância pouca,
Troveiro como um choupo à beira-rio
Ó Maria,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde pinho",
Com ritmo que leva olhos e tudo,
Filhas de lavradores
Começam a cavar o chão pousio:
Margaridas e crucíferas,
Lírios brancos e roxos,
Maria, há muitas flores para as abelhas.
A terra é graciosa,
Cá mesmo na prisão, descalço e nu,
Na derrota dos anos.
— Cantar velho, Maria,
Com tanta flor de hastes eretas
Toucando o verde prado?
Em plena florescência,
É um zumbido de ouro
No pasto em flor da abelha,
E temos o inverno até lá Março.
Um lindo Sol doente,
Como um poeta lírico,
Abre ao Inverno a Primavera:
E, ao néctar da abelha
Que é cor na corola
E música sutil do pólen,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde ramo".
El-rei Dinis esteve no Castelo
Onde eu existo a uma distância pouca,
Troveiro como um choupo à beira-rio
Ó Maria,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde pinho",
Com ritmo que leva olhos e tudo,
Filhas de lavradores
Começam a cavar o chão pousio:
Margaridas e crucíferas,
Lírios brancos e roxos,
Maria, há muitas flores para as abelhas.
A terra é graciosa,
Cá mesmo na prisão, descalço e nu,
Na derrota dos anos.
— Cantar velho, Maria,
Com tanta flor de hastes eretas
Toucando o verde prado?
1 518
Afonso Duarte
Canção de El-Rei Dinis
Maria: anda o gadinho a trabalhar
Em plena florescência,
É um zumbido de ouro
No pasto em flor da abelha,
E temos o inverno até lá Março.
Um lindo Sol doente,
Como um poeta lírico,
Abre ao Inverno a Primavera:
E, ao néctar da abelha
Que é cor na corola
E música sutil do pólen,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde ramo".
El-rei Dinis esteve no Castelo
Onde eu existo a uma distância pouca,
Troveiro como um choupo à beira-rio
Ó Maria,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde pinho",
Com ritmo que leva olhos e tudo,
Filhas de lavradores
Começam a cavar o chão pousio:
Margaridas e crucíferas,
Lírios brancos e roxos,
Maria, há muitas flores para as abelhas.
A terra é graciosa,
Cá mesmo na prisão, descalço e nu,
Na derrota dos anos.
— Cantar velho, Maria,
Com tanta flor de hastes eretas
Toucando o verde prado?
Em plena florescência,
É um zumbido de ouro
No pasto em flor da abelha,
E temos o inverno até lá Março.
Um lindo Sol doente,
Como um poeta lírico,
Abre ao Inverno a Primavera:
E, ao néctar da abelha
Que é cor na corola
E música sutil do pólen,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde ramo".
El-rei Dinis esteve no Castelo
Onde eu existo a uma distância pouca,
Troveiro como um choupo à beira-rio
Ó Maria,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde pinho",
Com ritmo que leva olhos e tudo,
Filhas de lavradores
Começam a cavar o chão pousio:
Margaridas e crucíferas,
Lírios brancos e roxos,
Maria, há muitas flores para as abelhas.
A terra é graciosa,
Cá mesmo na prisão, descalço e nu,
Na derrota dos anos.
— Cantar velho, Maria,
Com tanta flor de hastes eretas
Toucando o verde prado?
1 518
Afonso Duarte
Canção de El-Rei Dinis
Maria: anda o gadinho a trabalhar
Em plena florescência,
É um zumbido de ouro
No pasto em flor da abelha,
E temos o inverno até lá Março.
Um lindo Sol doente,
Como um poeta lírico,
Abre ao Inverno a Primavera:
E, ao néctar da abelha
Que é cor na corola
E música sutil do pólen,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde ramo".
El-rei Dinis esteve no Castelo
Onde eu existo a uma distância pouca,
Troveiro como um choupo à beira-rio
Ó Maria,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde pinho",
Com ritmo que leva olhos e tudo,
Filhas de lavradores
Começam a cavar o chão pousio:
Margaridas e crucíferas,
Lírios brancos e roxos,
Maria, há muitas flores para as abelhas.
A terra é graciosa,
Cá mesmo na prisão, descalço e nu,
Na derrota dos anos.
— Cantar velho, Maria,
Com tanta flor de hastes eretas
Toucando o verde prado?
Em plena florescência,
É um zumbido de ouro
No pasto em flor da abelha,
E temos o inverno até lá Março.
Um lindo Sol doente,
Como um poeta lírico,
Abre ao Inverno a Primavera:
E, ao néctar da abelha
Que é cor na corola
E música sutil do pólen,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde ramo".
El-rei Dinis esteve no Castelo
Onde eu existo a uma distância pouca,
Troveiro como um choupo à beira-rio
Ó Maria,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde pinho",
Com ritmo que leva olhos e tudo,
Filhas de lavradores
Começam a cavar o chão pousio:
Margaridas e crucíferas,
Lírios brancos e roxos,
Maria, há muitas flores para as abelhas.
A terra é graciosa,
Cá mesmo na prisão, descalço e nu,
Na derrota dos anos.
— Cantar velho, Maria,
Com tanta flor de hastes eretas
Toucando o verde prado?
1 518
Ricardo Akira Kokado
Verão
Dama-da-noite
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
1 137
Ricardo Akira Kokado
Verão
Dama-da-noite
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
1 137
Ricardo Akira Kokado
Verão
Dama-da-noite
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
1 137
Aída Godinho
Haicai
Sabiás não cantam
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?
No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?
No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.
1 071
Ascendino Leite
Qualidade Noturna
Noite cinza mas não suja.
Noite de homem, insenil,
senão que imaginoso,
tendendo ao viril,
ainda que só fitando o teto.
Noite de homem, insenil,
senão que imaginoso,
tendendo ao viril,
ainda que só fitando o teto.
924
Adailton Medeiros
Exílio dele nas Urubuguáias
exilAdo nas urubuguáias
boi serapião do buriti
corre nos cerrAdos e grotões
tal marruá de tamAnca e reza
andarilho sem odres de couro
um patori desaplumbeAdo
na travessia das grAndes estórias
construindo em sete mil dias Dios
um antropomOrfa como
o veAdo do mistéRio
de gelos e vinhos tintos
ou o carCará castrAdo
vindo dos salEs noturnos
furnicAdo de marinhas
boi serapião do buriti
corre nos cerrAdos e grotões
tal marruá de tamAnca e reza
andarilho sem odres de couro
um patori desaplumbeAdo
na travessia das grAndes estórias
construindo em sete mil dias Dios
um antropomOrfa como
o veAdo do mistéRio
de gelos e vinhos tintos
ou o carCará castrAdo
vindo dos salEs noturnos
furnicAdo de marinhas
950