Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Ascendino Leite
Qualidade Noturna
Noite cinza mas não suja.
Noite de homem, insenil,
senão que imaginoso,
tendendo ao viril,
ainda que só fitando o teto.
Noite de homem, insenil,
senão que imaginoso,
tendendo ao viril,
ainda que só fitando o teto.
930
Anselmo Gonçalves
O Sangue da Terra é a Chuva
Ao Zé é o fim, vai-lhe faltando a crençae faz desfeita dura ao Padinciço:- Padim, cumé, vois tendi a disavençacum nóis caboco? Para já cum isso!...
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
921
Anselmo Gonçalves
O Sangue da Terra é a Chuva
Ao Zé é o fim, vai-lhe faltando a crençae faz desfeita dura ao Padinciço:- Padim, cumé, vois tendi a disavençacum nóis caboco? Para já cum isso!...
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
921
Aleilton Fonseca
nova meditação sobre o tietê
"Águas do Tietê,
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)
águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes
tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani
aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?
te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso
segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos
por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris
tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata
águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...
exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!
pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos
em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas
eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas
há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula
mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas
águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...
te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...
aleilton fonseca, sp, 95
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)
águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes
tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani
aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?
te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso
segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos
por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris
tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata
águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...
exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!
pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos
em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas
eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas
há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula
mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas
águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...
te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...
aleilton fonseca, sp, 95
1 333
Aureliano Lessa
Tu
Teus olhos são como a noite
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!
Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.
Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!
Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!
Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!
Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!
Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.
Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!
Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!
Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!
Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!
1 460
Albano Dias Martins
Relógio Sem Ponteiros
Quando agora te debruças sobre a água do tanque, vês projetado, lá no fundo, um relógio sem ponteiros. Percebes, então, que a ferrugem é também uma qualidade e um atributo da água, e não apenas de alguns metais a que chamamos vis. E percebes ainda que já não são necessários os relógios. Tu já não tens idade, nem o tempo, que partilha do halo e da fluidez da água e é, às vezes, como ela, tão inodoro e insípido, se deixa prender, mesmo num vaso de cristal. E não podes, assim, medir-lhe a respiração. A sua duração, se preferes. Se alguma ainda subsiste, é a que é regulada pelos ponteiros do seu próprio corpo.
1 535
Aída Godinho
Haicai
Sabiás não cantam
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?
No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?
No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.
1 085
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Sempre em Todos na Manhã
Sempre em todos na manhã
A noite na face
De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.
Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.
Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.
A noite na face
De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.
Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.
Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.
803
Cláudio Alex
Samba-Canção
1.
Dentro de um mundo espesso
ainda te tenho apreço.
Tenho um samba guardado
no fundo da gaveta ao lado.
Ele diz de um dia
e de um lugar marcado.
Fala de teu endereço
mas por enquanto calado.
Se esconde atrás do recado,
um velho samba-canção.
Cantado na mesma escala
das cordas do teu coração.
Venha, abre a porta,
o meu palácio é só teu.
Venha que sei que comportas
um amor todo meu.
2.
Deixe a lâmpada acesa,
espere um minuto.
Me ouça um instante
e então eu te escuto.
Não durma tão cedo.
Não quero ir dormir.
Diga uma coisa sincera,
não feche os ouvidos.
Receba meu corpo
em todos sentidos.
Não poupe palavras,
não poupe gemidos.
Deixe-me ver parte a parte,
me prende e me solta.
A porta está aberta
e o tempo não volta
e a mim pouco importa
que venha insistir.
De um abat-jour policromo
reflete em teu rosto
uma luz submersa
num ar de meu gosto.
Magia do incerto.
Logia vital.
3.
Daquele dia em diante
você roubou minha paz.
Minha ilusão passageira
está duradoura demais.
Meu pensamento no escuro
está pervertido demais.
Meus obscuros segredos
estão misteriosos demais.
Um copo d’água com açúcar
senão percebo miragens.
Passo a vagar pela casa
lembrando as tuas bobagens.
Veja, não esqueça, se lembre,
telefone, me inspire coragem,
a solidão me carcome
não é uma vantagem.
4.
Não diga que eu te induzi
que me calo.
Não peça opinião sobre amor
eu não sei nada.
Eu bem mal só sei quem sou eu.
Eu não sei se você mereceu.
De que vale explicar tanta coisa
tanta coisa tão falha.
Eu não sei se eu sofro algum mal,
só você que repara.
Eu não sei como é ter prazer,
é uma coisa tão rara.
Eu não sei como se sucedeu
eu beijei e você respondeu.
Eu vivi e você me acolheu.
Foi o que aconteceu.
5.
Olhar atento prá porta.
Que duro silêncio comporta!
Frio aposento vazio
o pensamento saiu.
Saiu prá fora do quarto
a procurar já tão farta
de apaziguar a saudade
percorre a cidade.
A campainha não toca.
O telefone não chama.
Na mesa, o copo, a bebida,
cigarro que queima a cama.
Apago a luz, adormeço
me abraço com meu silêncio,
e aconchego o vazio
nesta noite de frio.
Dentro de um mundo espesso
ainda te tenho apreço.
Tenho um samba guardado
no fundo da gaveta ao lado.
Ele diz de um dia
e de um lugar marcado.
Fala de teu endereço
mas por enquanto calado.
Se esconde atrás do recado,
um velho samba-canção.
Cantado na mesma escala
das cordas do teu coração.
Venha, abre a porta,
o meu palácio é só teu.
Venha que sei que comportas
um amor todo meu.
2.
Deixe a lâmpada acesa,
espere um minuto.
Me ouça um instante
e então eu te escuto.
Não durma tão cedo.
Não quero ir dormir.
Diga uma coisa sincera,
não feche os ouvidos.
Receba meu corpo
em todos sentidos.
Não poupe palavras,
não poupe gemidos.
Deixe-me ver parte a parte,
me prende e me solta.
A porta está aberta
e o tempo não volta
e a mim pouco importa
que venha insistir.
De um abat-jour policromo
reflete em teu rosto
uma luz submersa
num ar de meu gosto.
Magia do incerto.
Logia vital.
3.
Daquele dia em diante
você roubou minha paz.
Minha ilusão passageira
está duradoura demais.
Meu pensamento no escuro
está pervertido demais.
Meus obscuros segredos
estão misteriosos demais.
Um copo d’água com açúcar
senão percebo miragens.
Passo a vagar pela casa
lembrando as tuas bobagens.
Veja, não esqueça, se lembre,
telefone, me inspire coragem,
a solidão me carcome
não é uma vantagem.
4.
Não diga que eu te induzi
que me calo.
Não peça opinião sobre amor
eu não sei nada.
Eu bem mal só sei quem sou eu.
Eu não sei se você mereceu.
De que vale explicar tanta coisa
tanta coisa tão falha.
Eu não sei se eu sofro algum mal,
só você que repara.
Eu não sei como é ter prazer,
é uma coisa tão rara.
Eu não sei como se sucedeu
eu beijei e você respondeu.
Eu vivi e você me acolheu.
Foi o que aconteceu.
5.
Olhar atento prá porta.
Que duro silêncio comporta!
Frio aposento vazio
o pensamento saiu.
Saiu prá fora do quarto
a procurar já tão farta
de apaziguar a saudade
percorre a cidade.
A campainha não toca.
O telefone não chama.
Na mesa, o copo, a bebida,
cigarro que queima a cama.
Apago a luz, adormeço
me abraço com meu silêncio,
e aconchego o vazio
nesta noite de frio.
915
Alexandre Marino
Águas
pés na enxurrada
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
938
Alberico Carneiro
As Damas Negras em Noite de Núpcias
1
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
impronunciadas por pessoas
na inútil Babel da fala
mas impressas como em tábuas
da sarça do Verbo em chamas
nessa partida de Damas
Negras em Noite de Núpcias
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
2
talvez um poema seja
simples poeira de palavras
projetadas de pessoas
imprimidas como trevas
bem no coração da névoa
que acaso num lance de dedos e dados
como silhuetas que se projetam
como penumbra esfumada
que o acaso não abolirá
3
talvez um poema seja
simples sombras de pessoas
transformadas em palavras
silhuetas tatuagendadas
por invisíveis carimbos
que explodem na claridade
a pista de rastros e restos
de cacos caos e resíduos
do simulacro das lágrimas
mumificadas em larvas
de adeuses e últimos gestos
salvo após o rescaldo
em caligramas e símbolos
que de súbito num lance de dedos e de dados
o acaso não abolirá
4
talvez um poema seja
simples escombros de palavras
projetadas de pessoas
balbuciados pedaços
de silêncios e silícios
de gritos amordaçados
silenciosos ideogramas
gritos dos olhos dos mudos
barulho de dedos dos surdos
o supertato dos cegos
na visão dos surdomudos
aprisionados em páginas
imagens anônimas das almas
mensagens psicografadas
na comunhão dos sentidos
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
5
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
projeção de suas sombras
ou o espectro de suas auras
que da escassez ou da falta
ingressam na noite e tombam
no elíptico canto deságuam
no despenhadeiro da ascensão
que por um lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
6
talvez um poema seja
simples sobras de palavras
impronunciadas por pessoas
projetadas como sombras
tatuagendadas na pele
tangenciadas na neve
com impressões digitais
silhuetas que despreendem
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dados e dedos
que o acaso não abolirá
7
talvez um poema seja
simples sobras de pessoas
encantadas em palavras
projetadas como sombras
tatuagendadas incisões
como impressões digitais
de cicatrizes em ronda
que se despreendem da pele
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dedos e dados
que o acaso não apagará
8
talvez um poema seja
somente sombras de palavras
pó que despreende dos corpos
como poeira de estrelas
que viola a gravidade
do Cosmo e telescópios
e foge de apelos celestes
viaja a mil anos-luz
e à noite poleniza as folhas
em suas densas corolas
e no coração das trevas
inscreve-se em simples larva
e deixa aí manuscrito
todo o poema da Terra
que nos charcos enfim enfloresce
como num lance de dedos e de dados
que o acaso não abolirá
9
talvez um poema assim
seja simples
como sombras de palavras
simples silhuetas ímpares
de simples pessoas pares
anônimo canto dos párias
que no caminho meio desta vida
entre lances de dedos e de dados
como as Damas súbitas da partida
o acaso não abolirá
talvez o poema assim seja
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
impronunciadas por pessoas
na inútil Babel da fala
mas impressas como em tábuas
da sarça do Verbo em chamas
nessa partida de Damas
Negras em Noite de Núpcias
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
2
talvez um poema seja
simples poeira de palavras
projetadas de pessoas
imprimidas como trevas
bem no coração da névoa
que acaso num lance de dedos e dados
como silhuetas que se projetam
como penumbra esfumada
que o acaso não abolirá
3
talvez um poema seja
simples sombras de pessoas
transformadas em palavras
silhuetas tatuagendadas
por invisíveis carimbos
que explodem na claridade
a pista de rastros e restos
de cacos caos e resíduos
do simulacro das lágrimas
mumificadas em larvas
de adeuses e últimos gestos
salvo após o rescaldo
em caligramas e símbolos
que de súbito num lance de dedos e de dados
o acaso não abolirá
4
talvez um poema seja
simples escombros de palavras
projetadas de pessoas
balbuciados pedaços
de silêncios e silícios
de gritos amordaçados
silenciosos ideogramas
gritos dos olhos dos mudos
barulho de dedos dos surdos
o supertato dos cegos
na visão dos surdomudos
aprisionados em páginas
imagens anônimas das almas
mensagens psicografadas
na comunhão dos sentidos
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
5
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
projeção de suas sombras
ou o espectro de suas auras
que da escassez ou da falta
ingressam na noite e tombam
no elíptico canto deságuam
no despenhadeiro da ascensão
que por um lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
6
talvez um poema seja
simples sobras de palavras
impronunciadas por pessoas
projetadas como sombras
tatuagendadas na pele
tangenciadas na neve
com impressões digitais
silhuetas que despreendem
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dados e dedos
que o acaso não abolirá
7
talvez um poema seja
simples sobras de pessoas
encantadas em palavras
projetadas como sombras
tatuagendadas incisões
como impressões digitais
de cicatrizes em ronda
que se despreendem da pele
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dedos e dados
que o acaso não apagará
8
talvez um poema seja
somente sombras de palavras
pó que despreende dos corpos
como poeira de estrelas
que viola a gravidade
do Cosmo e telescópios
e foge de apelos celestes
viaja a mil anos-luz
e à noite poleniza as folhas
em suas densas corolas
e no coração das trevas
inscreve-se em simples larva
e deixa aí manuscrito
todo o poema da Terra
que nos charcos enfim enfloresce
como num lance de dedos e de dados
que o acaso não abolirá
9
talvez um poema assim
seja simples
como sombras de palavras
simples silhuetas ímpares
de simples pessoas pares
anônimo canto dos párias
que no caminho meio desta vida
entre lances de dedos e de dados
como as Damas súbitas da partida
o acaso não abolirá
talvez o poema assim seja
730
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Vislumbres
1
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.
2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.
3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.
4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.
5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.
6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.
7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.
8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.
9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.
10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.
11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.
12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.
13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.
14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.
15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.
16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.
17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.
18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?
19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.
20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.
21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.
22
Este é o abraço
Final
O único que importa.
23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.
24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.
25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.
26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.
27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.
28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.
29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.
30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.
2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.
3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.
4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.
5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.
6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.
7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.
8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.
9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.
10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.
11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.
12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.
13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.
14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.
15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.
16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.
17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.
18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?
19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.
20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.
21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.
22
Este é o abraço
Final
O único que importa.
23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.
24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.
25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.
26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.
27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.
28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.
29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.
30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.
852
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Vislumbres
1
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.
2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.
3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.
4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.
5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.
6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.
7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.
8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.
9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.
10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.
11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.
12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.
13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.
14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.
15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.
16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.
17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.
18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?
19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.
20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.
21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.
22
Este é o abraço
Final
O único que importa.
23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.
24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.
25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.
26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.
27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.
28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.
29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.
30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.
2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.
3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.
4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.
5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.
6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.
7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.
8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.
9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.
10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.
11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.
12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.
13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.
14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.
15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.
16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.
17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.
18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?
19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.
20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.
21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.
22
Este é o abraço
Final
O único que importa.
23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.
24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.
25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.
26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.
27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.
28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.
29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.
30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.
852
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Vislumbres
1
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.
2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.
3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.
4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.
5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.
6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.
7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.
8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.
9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.
10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.
11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.
12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.
13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.
14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.
15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.
16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.
17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.
18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?
19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.
20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.
21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.
22
Este é o abraço
Final
O único que importa.
23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.
24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.
25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.
26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.
27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.
28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.
29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.
30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.
2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.
3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.
4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.
5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.
6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.
7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.
8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.
9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.
10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.
11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.
12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.
13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.
14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.
15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.
16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.
17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.
18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?
19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.
20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.
21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.
22
Este é o abraço
Final
O único que importa.
23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.
24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.
25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.
26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.
27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.
28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.
29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.
30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.
852
Ricardo Akira Kokado
Verão
Dama-da-noite
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
1 150
Ricardo Akira Kokado
Verão
Dama-da-noite
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
1 150
Ricardo Akira Kokado
Verão
Dama-da-noite
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
1 150
Adriana Lustosa
Tenho que esperar
Tenho que esperar
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
1 031
Álvaro Feijó
Varina
Eu mudei de pincel e de paleta
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
1 634
Augusto de Campos
Monte Santo
I
É que em um de seus flancos,
escritas em caligrafia ciclópica
com grandes pedras arrumadas,
apareciam letras singulares
—um A, um L e um S—
ladeadas por uma cruz,
de modo a
fazerem crer
que estava ali e não avante,
para o ocidente ou para o sul,
o eldorado apetecido.
II
E fez-se o templo prodigioso,
monumento
erguido pela natureza e pela fé,
mais alto que as mais altas catedrais da terra.
III
Amparada por muros capeados;
calcada, em certos trechos;
tendo, noutros,
como leito,
a rocha viva talhada em degraus,
ou rampeada,
aquela estrada branca, de quartzito,
onde ressoam, há cem anos,
as litanias das procissões da quaresma
e têm passado legiões de penitentes,
é um prodígio
de engenharia rude e audaciosa.
IV
A religiosidade ingênua dos matutos
ali talhou, em milhares de degraus,
coleante,
em caracol
pelas ladeiras sucessivas,
aquela vereda branca de sílica,
longa de mais de dois quilômetros,
como se construísse
uma estrada para os céus...
É que em um de seus flancos,
escritas em caligrafia ciclópica
com grandes pedras arrumadas,
apareciam letras singulares
—um A, um L e um S—
ladeadas por uma cruz,
de modo a
fazerem crer
que estava ali e não avante,
para o ocidente ou para o sul,
o eldorado apetecido.
II
E fez-se o templo prodigioso,
monumento
erguido pela natureza e pela fé,
mais alto que as mais altas catedrais da terra.
III
Amparada por muros capeados;
calcada, em certos trechos;
tendo, noutros,
como leito,
a rocha viva talhada em degraus,
ou rampeada,
aquela estrada branca, de quartzito,
onde ressoam, há cem anos,
as litanias das procissões da quaresma
e têm passado legiões de penitentes,
é um prodígio
de engenharia rude e audaciosa.
IV
A religiosidade ingênua dos matutos
ali talhou, em milhares de degraus,
coleante,
em caracol
pelas ladeiras sucessivas,
aquela vereda branca de sílica,
longa de mais de dois quilômetros,
como se construísse
uma estrada para os céus...
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