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Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

Café-Expresso

1

Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada...

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...

2

Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!

Imagem - 00700005


In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
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Manoel de Barros

Manoel de Barros

7 A Nossa Garça

Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras. São
viúvas de Xaraiés? Alguma coisa em azul e profundidade lhes foi
arrancada. Há uma sombra de dor em seus vôos. Assim, quando vão de
regresso aos seus ninhos, enchem de entardecer os campos e os homens.
Sobre a dor dessa ave há uma outra versão, que eu sei. É a de
não ser ela uma ave canora. Pois que só grasna — como quem rasga uma
palavra.
De cantos portanto não é que se faz a beleza desses pássaros.
Mas de cores e movimentos. Lembram Modigliani. Produzem no céu
iluminuras. E propõem esculturas no ar.
A Elegância e o Branco devem muito às garças.
Chegam de onde a beleza nasceu?
Nos seus olhos nublados eu vejo a flora dos corixos. Insetos
de camalotes florejam de suas rêmiges. E andam pregadas em suas
carnes larvas de sapos.
Aqui seu vôo adquire raízes de brejo. Sua arte de ver caracóis
nos escuros da lama é um dom de brancura.
À força de brancuras a garça se escora em versos com lodo?
(Acho que estou querendo ver coisas demais nestas garças.
Insinuando contrastes (ou conciliações?) entre o puro e o impuro,
etc etc. Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos?
Que Deus os livre!)


Publicado no livro Livro de Pré-Coisas: Roteiro para uma Excursão Poética no Pantanal (1985). Poema integrante da série Pequena História Natural.

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Manoel de Barros

Manoel de Barros

7 A Nossa Garça

Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras. São
viúvas de Xaraiés? Alguma coisa em azul e profundidade lhes foi
arrancada. Há uma sombra de dor em seus vôos. Assim, quando vão de
regresso aos seus ninhos, enchem de entardecer os campos e os homens.
Sobre a dor dessa ave há uma outra versão, que eu sei. É a de
não ser ela uma ave canora. Pois que só grasna — como quem rasga uma
palavra.
De cantos portanto não é que se faz a beleza desses pássaros.
Mas de cores e movimentos. Lembram Modigliani. Produzem no céu
iluminuras. E propõem esculturas no ar.
A Elegância e o Branco devem muito às garças.
Chegam de onde a beleza nasceu?
Nos seus olhos nublados eu vejo a flora dos corixos. Insetos
de camalotes florejam de suas rêmiges. E andam pregadas em suas
carnes larvas de sapos.
Aqui seu vôo adquire raízes de brejo. Sua arte de ver caracóis
nos escuros da lama é um dom de brancura.
À força de brancuras a garça se escora em versos com lodo?
(Acho que estou querendo ver coisas demais nestas garças.
Insinuando contrastes (ou conciliações?) entre o puro e o impuro,
etc etc. Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos?
Que Deus os livre!)


Publicado no livro Livro de Pré-Coisas: Roteiro para uma Excursão Poética no Pantanal (1985). Poema integrante da série Pequena História Natural.

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Manoel de Barros

Manoel de Barros

7 A Nossa Garça

Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras. São
viúvas de Xaraiés? Alguma coisa em azul e profundidade lhes foi
arrancada. Há uma sombra de dor em seus vôos. Assim, quando vão de
regresso aos seus ninhos, enchem de entardecer os campos e os homens.
Sobre a dor dessa ave há uma outra versão, que eu sei. É a de
não ser ela uma ave canora. Pois que só grasna — como quem rasga uma
palavra.
De cantos portanto não é que se faz a beleza desses pássaros.
Mas de cores e movimentos. Lembram Modigliani. Produzem no céu
iluminuras. E propõem esculturas no ar.
A Elegância e o Branco devem muito às garças.
Chegam de onde a beleza nasceu?
Nos seus olhos nublados eu vejo a flora dos corixos. Insetos
de camalotes florejam de suas rêmiges. E andam pregadas em suas
carnes larvas de sapos.
Aqui seu vôo adquire raízes de brejo. Sua arte de ver caracóis
nos escuros da lama é um dom de brancura.
À força de brancuras a garça se escora em versos com lodo?
(Acho que estou querendo ver coisas demais nestas garças.
Insinuando contrastes (ou conciliações?) entre o puro e o impuro,
etc etc. Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos?
Que Deus os livre!)


Publicado no livro Livro de Pré-Coisas: Roteiro para uma Excursão Poética no Pantanal (1985). Poema integrante da série Pequena História Natural.

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Canto III - A Peregrina

XVIII

Sua estatura é alta e majestosa,
Sem que lhe abafe a majestade a graça.
Quieta face de um lago manso e puro,
Sereno céu de bonançosa aurora,
Eis sua fronta sossegada e lisa.
Os seus cabelos longos e brilhantes.
Como da tempestade a nuvem negros,
Em bastos caracóis brincando soltos,
Quando assentada, o colo lhe anuviam:
Tão grande negridão, seio tão níveo,
Em desordem furtando a mil desejos,
É como um caos que um mistério esconde:
Olhos negros também, de amor são raios;
Tem uma luz que aos corações é dia,
Tem um fitar que à indiferença é morte.
Ao ver-lhe a breve e graciosa boca,
Suas madonas retocara Urbino;
O bico da trocaz rubor mais puro
Não tem, que os lábios seus, nem mais alvura
Que os finos dentes neve cristalina.
Ao cisne do Uruguai não cede em graça
Seu colo altivo e belo, e nem as fadas
A cintura no mimo e delgadeza,
Torneara-lhe os braços gênio amigo,
Tão formosos se mostram! mão de um anjo,
Branca e leve qual pena de uma garça,
Jasmins colhendo por jasmim se houvera;
Níveos dedos coroam rubras unhas,
Quais hastes de cristal pétalas de rosas;
E o lindo pé, que às vezes se adivinha,
Quando mergulha na rasteira grama,
Invejariam silfos, que só voam.
Oh! tão formosa, custa a crê-la humana!
Parece um anjo que baixara à terra,
Anjo exilado da mansão dos justos,
Peregrinando na mansão dos erros.


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.93-95

NOTA: O "Canto III - A Peregrina" é composto de 41 parte
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