Poemas neste tema
Outros
Alberto de Oliveira
Afrodite
I
Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,
O mar, — turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pálio da alvorada.
As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;
O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.
II
Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Alvirróseo do peito, — nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.
Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, — sorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.
Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;
Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos retorsos búzios assoprando.
Publicado no livro Meridionais (1884).
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. p. 78-79. (Fluminense
Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,
O mar, — turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pálio da alvorada.
As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;
O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.
II
Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Alvirróseo do peito, — nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.
Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, — sorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.
Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;
Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos retorsos búzios assoprando.
Publicado no livro Meridionais (1884).
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. p. 78-79. (Fluminense
5 323
1
Raimundo Correia
Noites de Inverno
Enquanto a chuva cai, grossa e torrencial,
Lá fora; e enquanto, ó bela!
A lufada glacial
Tamborila a bater nos vidros da janela;
Dentro, esse áureo torçal
Do cabelo que, rico, em ondas se encapela,
Deslaça; e o alvor ideal
Do teu corpo à avidez do meu olhar revela;
Porque, à avidez do olhar
Do amante, é grato, ao menos,
Destas noites no longo e monótono curso,
— Claro como o luar —
Ver um busto de Vênus
Surgir dentre as lãs e dentre as peles de urso.
Publicado no livro Versos e Versões, 1883/1886 (1887).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.111
Lá fora; e enquanto, ó bela!
A lufada glacial
Tamborila a bater nos vidros da janela;
Dentro, esse áureo torçal
Do cabelo que, rico, em ondas se encapela,
Deslaça; e o alvor ideal
Do teu corpo à avidez do meu olhar revela;
Porque, à avidez do olhar
Do amante, é grato, ao menos,
Destas noites no longo e monótono curso,
— Claro como o luar —
Ver um busto de Vênus
Surgir dentre as lãs e dentre as peles de urso.
Publicado no livro Versos e Versões, 1883/1886 (1887).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.111
3 540
1
Fernando Pessoa
Terceira: D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL
Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!
5 552
1
Fernando Pessoa
Terceira: D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL
Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!
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1
Paulo Leminski
as coisas estão pretas
uma chuva de estrelas
deixa no papel
esta poça de letras
deixa no papel
esta poça de letras
2 459
1
Paulo Leminski
as coisas estão pretas
uma chuva de estrelas
deixa no papel
esta poça de letras
deixa no papel
esta poça de letras
2 459
1
Castro Alves
Boa-Noite
Veux-tu donc partir? Le jour est encore éloigné;
C'était le rossignol et non pas l'alouette,
Dont le chant a frappé ton oreille inquiète;
Il chante la nuit sur les branches de ce grenadier,
Crois-moi, cher ami, c'était le rossignol.
SHAKESPEARE
Boa-Noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa-noite!... E tu dizes — Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
— Mar de amor onde vagam meus desejos.
Julieta do céu! Ouve... a calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!
Se a estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."
É noite ainda! Brilha na cambraia
— Desmanchado o roupão, a espádua nua —
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...
É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
— São as asas de arcanjo dos amores.
A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!
Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...
Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa-noite! —, formosa Consuelo!...
São Paulo, 27 de agosto de 1868.
Publicado no livro Espumas flutuantes (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 122-123
C'était le rossignol et non pas l'alouette,
Dont le chant a frappé ton oreille inquiète;
Il chante la nuit sur les branches de ce grenadier,
Crois-moi, cher ami, c'était le rossignol.
SHAKESPEARE
Boa-Noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa-noite!... E tu dizes — Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
— Mar de amor onde vagam meus desejos.
Julieta do céu! Ouve... a calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!
Se a estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."
É noite ainda! Brilha na cambraia
— Desmanchado o roupão, a espádua nua —
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...
É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
— São as asas de arcanjo dos amores.
A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!
Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...
Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa-noite! —, formosa Consuelo!...
São Paulo, 27 de agosto de 1868.
Publicado no livro Espumas flutuantes (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 122-123
1 885
1
William Blake
Introdução
Das Canções da inocência
(Tradução de Orlando Ferreira)
Tocando uma flauta no vale selvagem
Tocando canções doces e alegres
Vi uma criança surgir nas nuvens,
E ela me disse a sorrir,
"Toque aquela do cordeiro";
Então toquei com alegria;
"Toque, por favor, a canção de novo" -
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.
"Largue a flauta, tua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção
Enquanto ela chorou deliciada ao ouvir.
"Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam" -
Então ela desapareceu".
E eu catei um junco oco,
E fiz uma caneta rústica,
E Mergulhei-a nas águas claras
Para escrever as felizes canções
Que toda criança adora ouvir.
(Tradução de Orlando Ferreira)
Tocando uma flauta no vale selvagem
Tocando canções doces e alegres
Vi uma criança surgir nas nuvens,
E ela me disse a sorrir,
"Toque aquela do cordeiro";
Então toquei com alegria;
"Toque, por favor, a canção de novo" -
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.
"Largue a flauta, tua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção
Enquanto ela chorou deliciada ao ouvir.
"Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam" -
Então ela desapareceu".
E eu catei um junco oco,
E fiz uma caneta rústica,
E Mergulhei-a nas águas claras
Para escrever as felizes canções
Que toda criança adora ouvir.
2 427
1
William Blake
Introdução
Das Canções da inocência
(Tradução de Orlando Ferreira)
Tocando uma flauta no vale selvagem
Tocando canções doces e alegres
Vi uma criança surgir nas nuvens,
E ela me disse a sorrir,
"Toque aquela do cordeiro";
Então toquei com alegria;
"Toque, por favor, a canção de novo" -
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.
"Largue a flauta, tua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção
Enquanto ela chorou deliciada ao ouvir.
"Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam" -
Então ela desapareceu".
E eu catei um junco oco,
E fiz uma caneta rústica,
E Mergulhei-a nas águas claras
Para escrever as felizes canções
Que toda criança adora ouvir.
(Tradução de Orlando Ferreira)
Tocando uma flauta no vale selvagem
Tocando canções doces e alegres
Vi uma criança surgir nas nuvens,
E ela me disse a sorrir,
"Toque aquela do cordeiro";
Então toquei com alegria;
"Toque, por favor, a canção de novo" -
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.
"Largue a flauta, tua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção
Enquanto ela chorou deliciada ao ouvir.
"Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam" -
Então ela desapareceu".
E eu catei um junco oco,
E fiz uma caneta rústica,
E Mergulhei-a nas águas claras
Para escrever as felizes canções
Que toda criança adora ouvir.
2 427
1
William Blake
Introdução
Das Canções da inocência
(Tradução de Orlando Ferreira)
Tocando uma flauta no vale selvagem
Tocando canções doces e alegres
Vi uma criança surgir nas nuvens,
E ela me disse a sorrir,
"Toque aquela do cordeiro";
Então toquei com alegria;
"Toque, por favor, a canção de novo" -
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.
"Largue a flauta, tua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção
Enquanto ela chorou deliciada ao ouvir.
"Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam" -
Então ela desapareceu".
E eu catei um junco oco,
E fiz uma caneta rústica,
E Mergulhei-a nas águas claras
Para escrever as felizes canções
Que toda criança adora ouvir.
(Tradução de Orlando Ferreira)
Tocando uma flauta no vale selvagem
Tocando canções doces e alegres
Vi uma criança surgir nas nuvens,
E ela me disse a sorrir,
"Toque aquela do cordeiro";
Então toquei com alegria;
"Toque, por favor, a canção de novo" -
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.
"Largue a flauta, tua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção
Enquanto ela chorou deliciada ao ouvir.
"Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam" -
Então ela desapareceu".
E eu catei um junco oco,
E fiz uma caneta rústica,
E Mergulhei-a nas águas claras
Para escrever as felizes canções
Que toda criança adora ouvir.
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1
Vladimir Maiakovski
ADOLESCENTE
A juventude de mil ocupações.
Estudamos gramática até ficar zonzos.
A mim me expulsaram do quinto ano e fui entupir os cárceres de Moscou
Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto, aprendi a amar no cárcere.
Que vale comparado com isto a tristeza dos bosques de Boulogne?
Que valem comparados com isto
suspirosante a paisagem do mar?
Eu, pois, me enamorei da janelinha da cela 103
da "oficina de pompas fúnebres
Há gente que vê o sol todos os dias e se enche de presunção.
Não valem muito esses raiozinhos dizem.
Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede teria dado todo um mundo.
Estudamos gramática até ficar zonzos.
A mim me expulsaram do quinto ano e fui entupir os cárceres de Moscou
Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto, aprendi a amar no cárcere.
Que vale comparado com isto a tristeza dos bosques de Boulogne?
Que valem comparados com isto
suspirosante a paisagem do mar?
Eu, pois, me enamorei da janelinha da cela 103
da "oficina de pompas fúnebres
Há gente que vê o sol todos os dias e se enche de presunção.
Não valem muito esses raiozinhos dizem.
Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede teria dado todo um mundo.
2 617
1
Vladimir Maiakovski
AMO
COMUMENTE É ASSIM
Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração
levamos o corpo,
sobre o corpo
a camisa
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica pelo sistema Mulher.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha.
Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração
levamos o corpo,
sobre o corpo
a camisa
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica pelo sistema Mulher.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha.
2 663
1
Franz Kafka
Comunidade
Somos cinco amigos; uma vez saímos um atrás do outro de uma casa; primeiro veio um e pôs-se junto à entrada, depois veio, ou melhor dito, deslizou-se tão ligeiramente como se desliza uma bolinha de mercúrio, o segundo e se pôs não distante do primeiro, depois o terceiro, depois o quarto, depois o quinto. Finalmente, estávamos todos de pé, em uma linha. A gente fixou-se em nós e assinalando-nos, dizia: os cinco acabam de sair dessa casa. A partir dessa época vivemos juntos, e teríamos uma existência pacífica se um sexto não viesse sempre intrometer-se. Não nos faz nada, mas nos incomoda, o que já é bastante; porque se introduz por fôrça ali onde não é querido? Não o conhecemos e não queremos aceitá-lo. Nós cinco tampouco nos conhecíamosantes e, se quer, tampouco nos conhecemos agora, mas aquilo que entre nós cinco é possível e tolerado, não é nem possível nem tolerado com respeito àquele sexto. Além do mais somos cinco e não queremos ser convivência permanente, se entre nós cinco tampouco tem sentido, mas nós estamos já juntos e continuamos juntos, mas não queremos uma nova união, exatamente em razão de nossas experiências. Mas, como ensinar tudo isto ao sexto, pôsto que longas explicações implicariam já em uma aceitação de nosso círculo? É preferível não explicar nada e não o aceitar. Por muito que franza os lábios, afastamo-lo, empurrando-o com o cotovelo, mas por mais que o façamos, volta outra vez.
6 448
1
Paulo Leminski
o bicho alfabeto
o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
9 132
1
Paulo Leminski
o bicho alfabeto
o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
9 132
1
Paulo Leminski
o bicho alfabeto
o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
9 132
1
Paulo Leminski
parem
parem
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta
2 304
1
Paulo Leminski
parem
parem
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta
2 304
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Paulo Leminski
parem
parem
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta
2 304
1
Mafalda Veiga
Só tu sabes (o que ainda te seduz)
Só um gesto
Abre um sulco no frio
Rasga o fundo
Toca no abismo e no vazio
A luz da lua
Voa sem deixar nunca
De sentir o chão
E desfaz a sombra
Que esconde o que resta
De algum sonho vão
Tantos dias
Que pouco podem mudar
Quando os muros
Não deixam ver onde nasce o mar
A luz do mundo
Vem de dentro de quem se perde
Alguma vez
A luz da noite
Vem do fundo do olhar
De quem não a quer prender
Só tu sabes o que ainda te seduz
Só tu sentes o que poderá ser
Que te rasga, que te acende
E desata o nó
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Os mundos
Que se escondem em ti
Vagabundos
Que tu não deixas nunca partir
Sair do labirinto
Escapar às emboscadas da razão
Sentir bater o vento
E andar na corda bamba da solidão
Abre um sulco no frio
Rasga o fundo
Toca no abismo e no vazio
A luz da lua
Voa sem deixar nunca
De sentir o chão
E desfaz a sombra
Que esconde o que resta
De algum sonho vão
Tantos dias
Que pouco podem mudar
Quando os muros
Não deixam ver onde nasce o mar
A luz do mundo
Vem de dentro de quem se perde
Alguma vez
A luz da noite
Vem do fundo do olhar
De quem não a quer prender
Só tu sabes o que ainda te seduz
Só tu sentes o que poderá ser
Que te rasga, que te acende
E desata o nó
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Os mundos
Que se escondem em ti
Vagabundos
Que tu não deixas nunca partir
Sair do labirinto
Escapar às emboscadas da razão
Sentir bater o vento
E andar na corda bamba da solidão
888
1
Stéphane Mallarmé
Soupir
Mon âme vers ton front où rêve, ô calme soeur,
Un automne jonché de taches de rousseur,
Et vers le ciel errant de ton oeil angélique
Monte, comme dans un jardin mélancolique,
Fidèle, un blanc jet d'eau soupire vers l'Azur!
- Vers l'Azur attendri d'Octobre pâle et pur
Qui mire aux grands bassins sa langueur infinie
Et laisse, sur l'eau morte où la fauve agonie
Des feuilles erre au vent et creuse un froid sillon,
Se traîner le soleil jaune d'un long rayon.
Un automne jonché de taches de rousseur,
Et vers le ciel errant de ton oeil angélique
Monte, comme dans un jardin mélancolique,
Fidèle, un blanc jet d'eau soupire vers l'Azur!
- Vers l'Azur attendri d'Octobre pâle et pur
Qui mire aux grands bassins sa langueur infinie
Et laisse, sur l'eau morte où la fauve agonie
Des feuilles erre au vent et creuse un froid sillon,
Se traîner le soleil jaune d'un long rayon.
2 500
1
Vladimir Maiakovski
O QUE ACONTECEU
Mais do que é permitido,
mais do que é preciso,
como um delírio de poeta sobrecarregando o sonho:
a pelota do coração tornou-se enorme, enorme o amor, enorme o ódio.
Sob o fardo, as pernas vão vacilantes.
Tu o sabes, sou bem fornido, entretanto me arrasto, apêndice do coração, vergando as espáduas gigantes.
Encho-me dum leite de versos e, sem poder transbordas, encho-me mais e mais.
mais do que é preciso,
como um delírio de poeta sobrecarregando o sonho:
a pelota do coração tornou-se enorme, enorme o amor, enorme o ódio.
Sob o fardo, as pernas vão vacilantes.
Tu o sabes, sou bem fornido, entretanto me arrasto, apêndice do coração, vergando as espáduas gigantes.
Encho-me dum leite de versos e, sem poder transbordas, encho-me mais e mais.
2 732
1
Vladimir Maiakovski
O QUE ACONTECEU
Mais do que é permitido,
mais do que é preciso,
como um delírio de poeta sobrecarregando o sonho:
a pelota do coração tornou-se enorme, enorme o amor, enorme o ódio.
Sob o fardo, as pernas vão vacilantes.
Tu o sabes, sou bem fornido, entretanto me arrasto, apêndice do coração, vergando as espáduas gigantes.
Encho-me dum leite de versos e, sem poder transbordas, encho-me mais e mais.
mais do que é preciso,
como um delírio de poeta sobrecarregando o sonho:
a pelota do coração tornou-se enorme, enorme o amor, enorme o ódio.
Sob o fardo, as pernas vão vacilantes.
Tu o sabes, sou bem fornido, entretanto me arrasto, apêndice do coração, vergando as espáduas gigantes.
Encho-me dum leite de versos e, sem poder transbordas, encho-me mais e mais.
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Mafalda Veiga
Fragilidade
Talvez pudesse o tempo parar
quando tudo em nós de precipita
quando a vida nos desgarra os sentidos
e não espera, ai quem dera
Houvesse um canto pra se ficar
longe da guerra feroz que nos domina
se o amor fosse um lugar a salvo
sem medos, sem fragilidade
Tão bom pudesse o tempo parar
e voltar-se a preencher o vazio
é tão duro aprender que na vida
nada se repete, nada se promete
e é tudo tão fugaz e tão breve
Tão bom pudesse o tempo parar
e encharcar-me de azul e de longe
acalmar a raiva aflita da vertigem
sentir o teu braço e poder ficar
É tudo tão fugaz e tão breve
como os reflexos da lua no rio
tudo aquilo que se agarra já fugiu
é tudo tão fugaz e tão breve
quando tudo em nós de precipita
quando a vida nos desgarra os sentidos
e não espera, ai quem dera
Houvesse um canto pra se ficar
longe da guerra feroz que nos domina
se o amor fosse um lugar a salvo
sem medos, sem fragilidade
Tão bom pudesse o tempo parar
e voltar-se a preencher o vazio
é tão duro aprender que na vida
nada se repete, nada se promete
e é tudo tão fugaz e tão breve
Tão bom pudesse o tempo parar
e encharcar-me de azul e de longe
acalmar a raiva aflita da vertigem
sentir o teu braço e poder ficar
É tudo tão fugaz e tão breve
como os reflexos da lua no rio
tudo aquilo que se agarra já fugiu
é tudo tão fugaz e tão breve
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