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Gláucia Lemos
Poema Para o Atormentado Silêncio
Que rei me colherá deste silêncio
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
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1
Gláucia Lemos
Poema Para o Atormentado Silêncio
Que rei me colherá deste silêncio
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
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1
Linhares Filho
Das Coisas
Meus cabelos captam a voz das coisas
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
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1
Capinan
Poema Intencional
Há em cada substância a sua negativa
e a possibilidade de processo.
Processo inexorável a ir ao fim
meta a ser de pão e flores:
A rosa será uma outra rosa
e nós já não seremos
vejo nos olhos tristes
um filho possível
vejo na árvore antiga do parque,
uma cadeira, uma muleta, mas sobretudo um aríete
descubro na boca angustiada
o hino pronto e pesado:
é inevitável o acontecimento
mas procuro ser um elemento,
Carrego em mim a utilidade
sei que posso dar existência
e na minha total renúncia
utilizo-me para um bem maior:
tenho que colher a rosa
e transformá-la
tenho que possuir Maria
e dar-lhe um filho
tenho que transformar a árvore do parque
em cadeira, em muleta mas, sobretudo em aríete.
e a possibilidade de processo.
Processo inexorável a ir ao fim
meta a ser de pão e flores:
A rosa será uma outra rosa
e nós já não seremos
vejo nos olhos tristes
um filho possível
vejo na árvore antiga do parque,
uma cadeira, uma muleta, mas sobretudo um aríete
descubro na boca angustiada
o hino pronto e pesado:
é inevitável o acontecimento
mas procuro ser um elemento,
Carrego em mim a utilidade
sei que posso dar existência
e na minha total renúncia
utilizo-me para um bem maior:
tenho que colher a rosa
e transformá-la
tenho que possuir Maria
e dar-lhe um filho
tenho que transformar a árvore do parque
em cadeira, em muleta mas, sobretudo em aríete.
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1
Jorge de Lima
Essa Infanta
Essa infanta boreal era a defunta
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.
Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.
Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.
Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.
Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.
Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.
Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.
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1
Capinan
Poeta e Realidade
III
(Outra Didática)
Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.
Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.
Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.
Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.
VI
(A viagem lúcida)
De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.
Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.
Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.
Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.
(Outra Didática)
Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.
Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.
Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.
Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.
VI
(A viagem lúcida)
De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.
Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.
Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.
Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.
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1
Capinan
Poeta e Realidade
III
(Outra Didática)
Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.
Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.
Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.
Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.
VI
(A viagem lúcida)
De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.
Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.
Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.
Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.
(Outra Didática)
Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.
Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.
Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.
Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.
VI
(A viagem lúcida)
De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.
Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.
Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.
Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.
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1
Capinan
Poeta e Realidade
III
(Outra Didática)
Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.
Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.
Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.
Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.
VI
(A viagem lúcida)
De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.
Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.
Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.
Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.
(Outra Didática)
Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.
Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.
Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.
Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.
VI
(A viagem lúcida)
De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.
Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.
Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.
Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.
1 443
1
Ildásio Tavares
Água Brusca
Eis que de dentro de mim
Jorrou uma água brusca,
Ladeira abaixo, sem sonho,
Morrendo sem ter vivido, —
E eu, no espelho crucente
Das hortas de sempre fuga,
Tentei por detrás da fuga
Remover o meu retrato,
O resolver sempre falho,
Enxergar o que não via;
Mas cansado, sem relíquias,
Deixei que escorresse plena,
Que fosse na doida arena
Da areia se dissolver.
Jorrou uma água brusca,
Ladeira abaixo, sem sonho,
Morrendo sem ter vivido, —
E eu, no espelho crucente
Das hortas de sempre fuga,
Tentei por detrás da fuga
Remover o meu retrato,
O resolver sempre falho,
Enxergar o que não via;
Mas cansado, sem relíquias,
Deixei que escorresse plena,
Que fosse na doida arena
Da areia se dissolver.
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1
Valéry Larbaud
Amnésia
Perdi toda memória do presente.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.
Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.
Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.
E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.
Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.
Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.
E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.
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1
Valéry Larbaud
Amnésia
Perdi toda memória do presente.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.
Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.
Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.
E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.
Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.
Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.
E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.
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1
José de Paula Ramos Jr.
A um Poeta
para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
895
1
José de Paula Ramos Jr.
A um Poeta
para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
895
1
José de Paula Ramos Jr.
A um Poeta
para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
895
1
José de Paula Ramos Jr.
A um Poeta
para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
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Hemetério Cabrinha
Quem Fui e o Que Serei
Fui húmus, fui cristal, fui pedra bruta,
E nas substâncias da matéria inerme,
Vim desde a vibração ao paquiderme,
Após milhões de séculos de luta.
Monera, larva, lama, lêsma, verme
Fui, (para a expansão da Causa Absoluta
De onde a vida nos corpos se transmuta)
Até sentir calor na minha derme.
Na transcendente hereditariedade,
A minha rude personalidade
Chegou a ser o que é na vida hodierna...
E daqui para além irei seguindo,
Evoluindo sempre, evoluindo
Até chegar à Perfeição Eterna.
E nas substâncias da matéria inerme,
Vim desde a vibração ao paquiderme,
Após milhões de séculos de luta.
Monera, larva, lama, lêsma, verme
Fui, (para a expansão da Causa Absoluta
De onde a vida nos corpos se transmuta)
Até sentir calor na minha derme.
Na transcendente hereditariedade,
A minha rude personalidade
Chegou a ser o que é na vida hodierna...
E daqui para além irei seguindo,
Evoluindo sempre, evoluindo
Até chegar à Perfeição Eterna.
853
1
Helena Parente Cunha
Percurso
Corolas
malogradas
defluímos na caudal
margens opostas
compõem horizonte
concedido ao que vamos
e o que vamos?
remota a fonte
de onde emanamos omitidos
malogradas
defluímos na caudal
margens opostas
compõem horizonte
concedido ao que vamos
e o que vamos?
remota a fonte
de onde emanamos omitidos
1 327
1
Valéry Larbaud
Mesmo
Somos ambos o mesmo:
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.
Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.
Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.
858
1
Hélio Pellegrino
Plenitude
A pedra, o vento, a luz alteada,
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito
azul:
— Deus não me deve nada.
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito
azul:
— Deus não me deve nada.
1 712
1
José Blanc de Portugal
Oração Final
Poesia! Sem esperar voltei meu canto que é teu
As coisas de meu Pai que são as pobres criaturas
Caminhando a par de mim pelas ruas da amargura
Disfarçando mais do que eu a certeza que as leis tuas
Nada têm que ver com a minha piedade de evitarem
Cada maior dor seguindo à menos dura.
Deus Pai pudesse eu como Vosso Filho
Como irmão de Cristo, imolar-se só sem perder alguém
— Sem ter que fechar ouvidos ao Espírito Vosso
Cada instante inundando-me de luz! —
Sem vós tudo é impossível.
Sem mim tudo seria igual,
Mas fazei que meus iguais
Não sejam como eu tão miseráveis:
Crendo em Vós, sabendo-vos as provas,
mostro-me pior que os que vos esquecem!
A vossa Lei, a vossa marca não se
apagou de cada poro da minha pele
Dai-me a força de ajudar a todos com
um sopro do teu Ser que bastará
Pra todos e pra mim.
Fico na angústia da vossa perdida Graça.
Perdoai-me! Perdoai como eu devo perdoar!!
Fazei que eu perdoe!
Fazei-nos os Santos que Vos devemos!
As coisas de meu Pai que são as pobres criaturas
Caminhando a par de mim pelas ruas da amargura
Disfarçando mais do que eu a certeza que as leis tuas
Nada têm que ver com a minha piedade de evitarem
Cada maior dor seguindo à menos dura.
Deus Pai pudesse eu como Vosso Filho
Como irmão de Cristo, imolar-se só sem perder alguém
— Sem ter que fechar ouvidos ao Espírito Vosso
Cada instante inundando-me de luz! —
Sem vós tudo é impossível.
Sem mim tudo seria igual,
Mas fazei que meus iguais
Não sejam como eu tão miseráveis:
Crendo em Vós, sabendo-vos as provas,
mostro-me pior que os que vos esquecem!
A vossa Lei, a vossa marca não se
apagou de cada poro da minha pele
Dai-me a força de ajudar a todos com
um sopro do teu Ser que bastará
Pra todos e pra mim.
Fico na angústia da vossa perdida Graça.
Perdoai-me! Perdoai como eu devo perdoar!!
Fazei que eu perdoe!
Fazei-nos os Santos que Vos devemos!
1 379
1
Hélio Pellegrino
La Vida es Sueño
A pedra
a pedra como o fogo
com suas resinas e ramas
a pedra como o fogo
é um sonho
de pálpebras abertas.
O sonho é quando
no veludo íntimo da noite
fogo e pedra se sonham:
— as pálpebras cerradas.
a pedra como o fogo
com suas resinas e ramas
a pedra como o fogo
é um sonho
de pálpebras abertas.
O sonho é quando
no veludo íntimo da noite
fogo e pedra se sonham:
— as pálpebras cerradas.
1 264
1
Helena Ortiz
Poesia Viva
precisou que te fosses
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
1 149
1
Helena Ortiz
Poesia Viva
precisou que te fosses
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
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Myriam Fraga
Penélope
Hoje desfiz o último ponto,
A trama do bordado.
No palácio deserto ladra
O cão.
Um sibilo de flechas
Devolve-me o passado.
Com os olhos da memória
Vejo o arco
Que se encurva,
A força que o distende.
Reconheço no silêncio
A paz que me faltava,
(No mármore da entrada
Agonizam os pretendentes).
O ciclo está completo
A espera acabada.
Quando Ulisses chegar
A sopa estará fria.
A trama do bordado.
No palácio deserto ladra
O cão.
Um sibilo de flechas
Devolve-me o passado.
Com os olhos da memória
Vejo o arco
Que se encurva,
A força que o distende.
Reconheço no silêncio
A paz que me faltava,
(No mármore da entrada
Agonizam os pretendentes).
O ciclo está completo
A espera acabada.
Quando Ulisses chegar
A sopa estará fria.
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