Poemas neste tema
Outros
João de Jesus Paes Loureiro
O Poeta
Debruçado no poço
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
1 136
1
Fernando Pessoa
Segundo: O DAS QUINAS
Os Deuses vendem quanto dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe bsta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe bsta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
5 793
1
Fernando Pessoa
Segundo: O DAS QUINAS
Os Deuses vendem quanto dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe bsta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe bsta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
5 793
1
Alexandre O'Neill
Poesia-Cão
Com que então,coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
4 450
1
Alexandre O'Neill
Poesia-Cão
Com que então,coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
4 450
1
Áurea de Arruda Féres
Inverno
No bolso do casaco
a carta com notícias
da pátria distante.
A tosse do amigo
agride o silêncio da noite,
sacode o meu barco...
a carta com notícias
da pátria distante.
A tosse do amigo
agride o silêncio da noite,
sacode o meu barco...
1 032
1
Judas Isgorogota
Os Pêssegos
Mando-te, amor, uns pêssegos, dourados,
aureolados de cetíneos fios;
tenros como os teus seios, perfumados,
frágeis, sedosos, tépidos, macios ...
Lembra teu colo, de veludo-rosa,
a polpa suave, sedutora, amena,
de indizível doçura, capitosa,
como o teu lábio de mulher morena...
Qual se de nétar fabricada fosse,
tem o sabor divino da ambrosia;
doce como os teus olhos, juraria
que só o sorriso teu é assim tão doce...
Toma-os nos braços teus, com tais cuidados
e de maneira tal todos unindo,
que, maduros que estão, de sazonados
não se vão machucando e diluindo...
Mas, abraçando-os, com efetivo encanto,
faze que os seios túrgidos, rosados,
juntos, agora, aos pêssegos dourados,
não se misturem nem se igualem tanto...
Não sorrias, amor, de meus receios...
Evitarás, assim, que estas amenas
visões, tão lindas — pêssegos e seios —
não me pareçam pêssegos, apenas...
aureolados de cetíneos fios;
tenros como os teus seios, perfumados,
frágeis, sedosos, tépidos, macios ...
Lembra teu colo, de veludo-rosa,
a polpa suave, sedutora, amena,
de indizível doçura, capitosa,
como o teu lábio de mulher morena...
Qual se de nétar fabricada fosse,
tem o sabor divino da ambrosia;
doce como os teus olhos, juraria
que só o sorriso teu é assim tão doce...
Toma-os nos braços teus, com tais cuidados
e de maneira tal todos unindo,
que, maduros que estão, de sazonados
não se vão machucando e diluindo...
Mas, abraçando-os, com efetivo encanto,
faze que os seios túrgidos, rosados,
juntos, agora, aos pêssegos dourados,
não se misturem nem se igualem tanto...
Não sorrias, amor, de meus receios...
Evitarás, assim, que estas amenas
visões, tão lindas — pêssegos e seios —
não me pareçam pêssegos, apenas...
1 660
1
Gilson Nascimento
P a s s a r e d o
Sabiá – canto dolente
À tarde a mata varando
Na alma de muita gente
Vais a saudade acordando
Vi um galo-de-campina
Seu colorido esbanjando
E as penas, à chuva fina
Um arco-íris formando
Um beija-flor cortejando
Uma rosa – vida em cor
Ao beijá-la vai doando
Pequenas doses de amor
Tico-tico pequenino
De galho em galho saltando
Qual um menino traquino
Vives a vida brincando
Rolinha fogo-pagou
O teu canto, na verdade,
É a voz de quem amou
Curtindo a dor da saudade
À tarde a mata varando
Na alma de muita gente
Vais a saudade acordando
Vi um galo-de-campina
Seu colorido esbanjando
E as penas, à chuva fina
Um arco-íris formando
Um beija-flor cortejando
Uma rosa – vida em cor
Ao beijá-la vai doando
Pequenas doses de amor
Tico-tico pequenino
De galho em galho saltando
Qual um menino traquino
Vives a vida brincando
Rolinha fogo-pagou
O teu canto, na verdade,
É a voz de quem amou
Curtindo a dor da saudade
1 092
1
Adriana Sampaio
Reflexo
Reflexo
Eu sou o espelho que reflete o mundo
Decodificando a coletiva sensação
Mas também espelho
O que reflete ao mundo
O meu interno e plácido
Estampado
Reflexões num espelho plano...
Eu sou o espelho que reflete o mundo
Decodificando a coletiva sensação
Mas também espelho
O que reflete ao mundo
O meu interno e plácido
Estampado
Reflexões num espelho plano...
1 377
1
Adriana Sampaio
Reflexo
Reflexo
Eu sou o espelho que reflete o mundo
Decodificando a coletiva sensação
Mas também espelho
O que reflete ao mundo
O meu interno e plácido
Estampado
Reflexões num espelho plano...
Eu sou o espelho que reflete o mundo
Decodificando a coletiva sensação
Mas também espelho
O que reflete ao mundo
O meu interno e plácido
Estampado
Reflexões num espelho plano...
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1
Gilka Machado
Esboço
Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
(in Sublimação, 1928)
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
(in Sublimação, 1928)
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1
Gilka Machado
Esboço
Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
(in Sublimação, 1928)
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
(in Sublimação, 1928)
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1
Carlos Felipe Moisés
Minotauro
Abrasado em sonho, uma vez foi rei
de um reino sem refúgio nem fronteira.
Reinou além do seu país e sua grei,
enquanto ruminava a hora derradeira.
Seu coração de lava incendiou
a memória de dálias e jacintos
e o segredo que o vento lhe negou
se converteu em treva e labirinto.
Estrelas e nuvens teve a seus pés
(o sonho azul de toda criatura)
e tudo recusou. Um trono fez
do nada em que abrigou sua loucura.
Hoje devora gafanhotos e o mel
destila do seu flanco sem idade.
Reino em ruínas, seu manto é o céu,
onde pasta serena majestade.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
de um reino sem refúgio nem fronteira.
Reinou além do seu país e sua grei,
enquanto ruminava a hora derradeira.
Seu coração de lava incendiou
a memória de dálias e jacintos
e o segredo que o vento lhe negou
se converteu em treva e labirinto.
Estrelas e nuvens teve a seus pés
(o sonho azul de toda criatura)
e tudo recusou. Um trono fez
do nada em que abrigou sua loucura.
Hoje devora gafanhotos e o mel
destila do seu flanco sem idade.
Reino em ruínas, seu manto é o céu,
onde pasta serena majestade.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
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1
Gonzaga Leão
Soneto à Rosa Acontecida
Ela nasceu de abismo e foi rosa
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-
mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados
todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-
mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados
todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.
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1
João José Cochofel
Paraíso Perdido
Que vens aqui fazer, espírito velho
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?
Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.
Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.
(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?
Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.
Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.
(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.
1 485
1
Angelo Augusto Ferreira
Alento de Vida
Olha moço ...
Não tenho sua vida, não!
Vivo no campo
Embrenhado
No cheiro do mato agreste
Em meio dos mosquitos
Pássaros
Bois e vacas
Sem ser ofendido!
Todos os dias
No cheiro da terra
Batendo palmas para o trovão
Bendizendo a chuva,
O bem maior da plantação.
Orando. Ajoelhado.
Agradecendo à Criação.
Do rio, tiro o sustento
O peixe, o alimento
Dádiva, milagre da procriação.
E vou respirando
A vida bonita
Caminhante tempos afora
Envolto no ar puro
Protegido
No alento do Criador!
Moço...
A vida é como cipó
Se enrosca com muito amor
Na cintura da árvore
Não muito diferente
Sou cipó de gente
Grudado na vida.
Nasci puro, forte
Menino
Homem
Na ginga da dança
Invisível aos olhos
Contida na melodia da vida
Que a floresta pura cheia de energia
Toda hora dá prazer, ensina
O viver isolado
Sem castigo
Abençoado.
Vida Minha!
Igual cipó da árvore gigante
Agarrado
No mato, campo, floresta
Com fala
Sem grito
Na paz
Feliz com teto azul
Do céu onde os anjos habitam
Todos os dias me cobre
Com perfeição.
Olha moço...
Não tenho sua vida, não
Vivo no campo
No mato
Não tenho sua vibração
Tenho a energia
Pura divina
Do índio
Nosso Irmão! ! !
Não tenho sua vida, não!
Vivo no campo
Embrenhado
No cheiro do mato agreste
Em meio dos mosquitos
Pássaros
Bois e vacas
Sem ser ofendido!
Todos os dias
No cheiro da terra
Batendo palmas para o trovão
Bendizendo a chuva,
O bem maior da plantação.
Orando. Ajoelhado.
Agradecendo à Criação.
Do rio, tiro o sustento
O peixe, o alimento
Dádiva, milagre da procriação.
E vou respirando
A vida bonita
Caminhante tempos afora
Envolto no ar puro
Protegido
No alento do Criador!
Moço...
A vida é como cipó
Se enrosca com muito amor
Na cintura da árvore
Não muito diferente
Sou cipó de gente
Grudado na vida.
Nasci puro, forte
Menino
Homem
Na ginga da dança
Invisível aos olhos
Contida na melodia da vida
Que a floresta pura cheia de energia
Toda hora dá prazer, ensina
O viver isolado
Sem castigo
Abençoado.
Vida Minha!
Igual cipó da árvore gigante
Agarrado
No mato, campo, floresta
Com fala
Sem grito
Na paz
Feliz com teto azul
Do céu onde os anjos habitam
Todos os dias me cobre
Com perfeição.
Olha moço...
Não tenho sua vida, não
Vivo no campo
No mato
Não tenho sua vibração
Tenho a energia
Pura divina
Do índio
Nosso Irmão! ! !
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1
Ana Cristina Cesar
Um Beijo
que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"whats new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"whats new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo.
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1
Carlos Felipe Moisés
Mais um Dia
(Fragmentos)
Um tiro no escuro, louca
disparada do carro a zunir
dentro da noite,
um piscar de olhos --
e a luz do novo dia ilumina
a oficina do corpo.
O mesmo corpo feito de alma nua,
sangue e humores vários.
Um novo dia igual aos dez mil
novecentos e cinqüenta já percorridos,
gastos à mesa dos bares,
a acumular nas retinas
a imagem velha dos insetos
roendo a carcaça do dia,
jogada na calçada.
Insetos
assustados, à espera do bote,
à espera do berro, à espera
do sapo que os engole
(engoliu!)
e eles não sabem e seguem,
a roer as migalhas grudadas
nas tripas do batráquio.
Dez mil
novecentos e cinqüenta dias
consumidos à distância,
no silêncio do quarto onde rodopia,
há trinta anos,
a mesma velha inútil melodia.
Rodopia nada!
Explode
em gumes,
não resiste ao punho cerrado
que rompe a vidraça
e atravessa a neblina,
só para alcançar no arbusto em frente
o bago murcho que volta
e se espreme entre os dentes
e verte uma gota,
uma só,
a gota perdida
do ódio por tudo e por nada.
Ódio só afago,
inofensivo, guardado no fogo
brando em que me afago
há dez mil
novecentos e cinqüenta dias.
Um tiro no escuro, louca
disparada do carro a zunir
dentro da noite,
um piscar de olhos --
e a luz do novo dia ilumina
a oficina do corpo.
O mesmo corpo feito de alma nua,
sangue e humores vários.
Um novo dia igual aos dez mil
novecentos e cinqüenta já percorridos,
gastos à mesa dos bares,
a acumular nas retinas
a imagem velha dos insetos
roendo a carcaça do dia,
jogada na calçada.
Insetos
assustados, à espera do bote,
à espera do berro, à espera
do sapo que os engole
(engoliu!)
e eles não sabem e seguem,
a roer as migalhas grudadas
nas tripas do batráquio.
Dez mil
novecentos e cinqüenta dias
consumidos à distância,
no silêncio do quarto onde rodopia,
há trinta anos,
a mesma velha inútil melodia.
Rodopia nada!
Explode
em gumes,
não resiste ao punho cerrado
que rompe a vidraça
e atravessa a neblina,
só para alcançar no arbusto em frente
o bago murcho que volta
e se espreme entre os dentes
e verte uma gota,
uma só,
a gota perdida
do ódio por tudo e por nada.
Ódio só afago,
inofensivo, guardado no fogo
brando em que me afago
há dez mil
novecentos e cinqüenta dias.
771
1
Carlos Figueiredo
Goliardos
A Xisto Bahia Filho
Vós, que não podeis beber,
ide para longe destas festas.
Aqui não é lugar para abstêmios.
Baco, virás bem
acolhido e desejado.
Por ti nosso espírito
se torna alegre
ávido de sensualidade
mais que de saúde.
Pai nosso que estais nos copos
santificado
seja esse vinho.
Que venha o embriagado Baco
faça-se abundância de ti
assim no vinho como na taberna.
O pão nosso para comer nos dai hoje
e afastai de nós os copos grandes
assim como nós nos afastamos dos nossos
/beberrões
e não nos induza à tentação do vinho
mas livrai-nos das vestes.
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta
chogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no lardiscon di guardare.
As formas pensam.
O princípio barroco da subordinação
de todos os elementos arquiteturais
para produzir um efeito único
especular
do absolutismo central
do Pontífice.
No ar,
no alto,
a tensão rupestre
como um estigma na pedra.
A resplandecer
No Tao
Nos Upanichades, em Hesíodo.
Jaurais voulu vous répondre avant
lheure de la poste; Je
nai personne
à qui causer dArt, des poètes,
de lIdéal.
Il confond trop
LIdéal avec le Réel.
Depois, subitamente:
"Vinte anos após estes
acontecimentos
podia-se encontrar
nas ruas de Fougères
um velho ainda ereto etc."
Verdadeiramente embriagado
eu acreditava captar uma antiguidade
maravilhosa.
O mito é o nada que é tudo.
Os deuses vendem quando dão.
O ranger dos bambus
me diz que neva.
Notas do poema Goliardos
Goliardos
Os Goliardos eram uma espécie de beatniks, de freaks do
Século XII, beberrões, vagantes,"on the road", cuja
produção literária se constituiu em um dos marcos
precursores do Renascimento.
A origem do termo não está, ainda, estabelecida.
Alguns identificam os goliardos com Pedro Abelardo(1079-
1142), chamado, nos processos que lhe moveu a Igreja, de
Golias, inimigo da fé. Outros, ao fato deles beberem
e comerem como Golias.
......
Na Idade Média, durante séculos, os textos produzidos,
além de escassíssimos eram, em sua maioria esmagadora,
hagiológicos. Ao longo de cem anos, os anais de um
convento - de S. Benedito - registra tres passagens: Um
surto de peste, o falecimento de um abade tido como santo
e o desabamento da laje do altar.
Quando chega o Século XII "os fatos irrompem
esplêndidos". "Em meio a um frêmito, surgem novos
escritores enfim conscientes da utilidade prática da
História. Ressurge o Direito Romano e nascem escolas que
ressuscitam a atividade científica, em uma primeira tentativa de
laicisar a ciência, e arrebata-la das mãos do clero".
"Todas as classes sociais foram dominadas por um
sentimento vago de inquietação, que as incitava a
buscarem novas e ignotas regiões; que excitavam nelas
fantásticas aspirações a uma nova vida. Daqui o
fanatismo pelas viagens ao Oriente, pelas Cruzadas,
pelas peregrinações, pelas expedições longínquas e
perigosas. Esse sentimento invade também as escolas"
"Em busca de conhecimentos especializados, os estudantes
procuram em Paris as artes liberais. Em Aureliano
(Orleans) os autores, em Bolonha os códigos, em Salermo
as "pyxides" e em Toledo, os demônios. E assim, desses
encontros nas estradas, surgem os Goliardos.
À eles devemos uma das produções literárias da Idade
Média mais belas e características"
Apud Adolfo Bartoli in "Precursores do Renascimento".
Ed. Parma - 1983. Tradução do Prof. Valeriano Gomes do
Nascimento.
De "Vós que não podeis beber..." até "...se torna alegre"
transcrição de textos goliardos (Carmina Burana, 240),
op. cit. P. 37. Ver (ouvir) como Carl Orff cifra
(decifra), no coro de sua Carmina Burana o sentido
seminal do rompimento goliardo.
"Ávido de sensualidade/mais que de saúde" idem, (Carm.
Bur., pp. 67-69), op. cit. P. 39.40
De "Pai nosso que estais..." até "mas livra-nos das
vestes", idem, (Missa de Putatoribus - Missa dos
Bebedores - chamada também de Missa Glutonis - Missa
do Glutão), op. cit. P.43.
"Tanto gentile e tanto onesta pare..." até "e li occhi
no lardiscon de guardare" - Quadra primeira do Soneto XV
da "Vita Nuova". Dante, um século depois dos goliardos,
obra publicada em Florença em l292, que inaugura o Renascimento.
Tradução de Jorge Wanderley In "Vida Nova - Os Poemas",
Livraria Tauros; Livraria Timbre editores - 1988. P.61:
"Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar"
Há várias outras traduções desse soneto.
Conheço uma de Arduíno Bolívar in "30 Séculos de Poesia"
- Edições de Ouro, Coleção Clássicos de Bolso - 1966. P. 138.
E uma outra, que não cheguei a registrar
O soneto inteiro é assim
(cf. Dante Alighiere in "Vita Nuova",Garzanti Editore, 1982, P. 51):
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta,
chogne lingua deven tremando muta
e li occhi no lardiscon di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente dumiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.
Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dá per li occhi una dolcezza al core,
che ntender no la può chi no la prova:
e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien damore,
che va dicendo a lanima: Sospira.
De "O princípio barroco..." até "...do Pontífice", cf.
Roger Bastide in "Psicanálise do Cafuné". Ed. Guaíra,
Coleção Caderno Azul - 1941. P. 46.
Vale a pena transcrever alguns trechos desse ensaio,
que - não fosse a universalidade do neolítico
- situa o barroco como o protótipo da linguagem globalizada.
C.f. P. 43 op. cit. :
" A Igreja, sendo internacional, quis uma arte interna-
cional; o poder pontificial só poderia caracterizar-se
por uma espécie de padronização da arte barroca, contra
o regionalismo medieval e contra a variedade de arquite-
turas próprias das antigas ordens religiosas. Isso é
muito claro na pintura, que se separa da cor local parti-
cular de cada província, para se tornar abstrata e
universal".
Cf. P. 46:
" Seja qual for a diversidade dos aspectos de que se
revista o barroco europeu segundo os vários países, ele
apresenta certo número de caracteres comuns: o vínculo
entre o monumento e o espaço onde se situa, a escolha do
local e da perspectiva; o princípio de subordinação de
todos os elementos arquiteturais para produzir um efeito
único; a importância da linha curva, um estilo de
movimento, as "formas que voam" que se opõem às "formas
que pensam"; a riqueza da decoração ligada ao caráter
sentimental, afetivo, dessa arte, à sua exuberância de
vida; o cromatismo, que se caracteriza pela escolha dos
materiais utilizados pela pintura, pelo amor ao ouro; o
papel da luz no jogo de sombras e do sol, especialmente
sobre a fachada; o ilusionismo que permite substituir as
paredes por meio<
Vós, que não podeis beber,
ide para longe destas festas.
Aqui não é lugar para abstêmios.
Baco, virás bem
acolhido e desejado.
Por ti nosso espírito
se torna alegre
ávido de sensualidade
mais que de saúde.
Pai nosso que estais nos copos
santificado
seja esse vinho.
Que venha o embriagado Baco
faça-se abundância de ti
assim no vinho como na taberna.
O pão nosso para comer nos dai hoje
e afastai de nós os copos grandes
assim como nós nos afastamos dos nossos
/beberrões
e não nos induza à tentação do vinho
mas livrai-nos das vestes.
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta
chogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no lardiscon di guardare.
As formas pensam.
O princípio barroco da subordinação
de todos os elementos arquiteturais
para produzir um efeito único
especular
do absolutismo central
do Pontífice.
No ar,
no alto,
a tensão rupestre
como um estigma na pedra.
A resplandecer
No Tao
Nos Upanichades, em Hesíodo.
Jaurais voulu vous répondre avant
lheure de la poste; Je
nai personne
à qui causer dArt, des poètes,
de lIdéal.
Il confond trop
LIdéal avec le Réel.
Depois, subitamente:
"Vinte anos após estes
acontecimentos
podia-se encontrar
nas ruas de Fougères
um velho ainda ereto etc."
Verdadeiramente embriagado
eu acreditava captar uma antiguidade
maravilhosa.
O mito é o nada que é tudo.
Os deuses vendem quando dão.
O ranger dos bambus
me diz que neva.
Notas do poema Goliardos
Goliardos
Os Goliardos eram uma espécie de beatniks, de freaks do
Século XII, beberrões, vagantes,"on the road", cuja
produção literária se constituiu em um dos marcos
precursores do Renascimento.
A origem do termo não está, ainda, estabelecida.
Alguns identificam os goliardos com Pedro Abelardo(1079-
1142), chamado, nos processos que lhe moveu a Igreja, de
Golias, inimigo da fé. Outros, ao fato deles beberem
e comerem como Golias.
......
Na Idade Média, durante séculos, os textos produzidos,
além de escassíssimos eram, em sua maioria esmagadora,
hagiológicos. Ao longo de cem anos, os anais de um
convento - de S. Benedito - registra tres passagens: Um
surto de peste, o falecimento de um abade tido como santo
e o desabamento da laje do altar.
Quando chega o Século XII "os fatos irrompem
esplêndidos". "Em meio a um frêmito, surgem novos
escritores enfim conscientes da utilidade prática da
História. Ressurge o Direito Romano e nascem escolas que
ressuscitam a atividade científica, em uma primeira tentativa de
laicisar a ciência, e arrebata-la das mãos do clero".
"Todas as classes sociais foram dominadas por um
sentimento vago de inquietação, que as incitava a
buscarem novas e ignotas regiões; que excitavam nelas
fantásticas aspirações a uma nova vida. Daqui o
fanatismo pelas viagens ao Oriente, pelas Cruzadas,
pelas peregrinações, pelas expedições longínquas e
perigosas. Esse sentimento invade também as escolas"
"Em busca de conhecimentos especializados, os estudantes
procuram em Paris as artes liberais. Em Aureliano
(Orleans) os autores, em Bolonha os códigos, em Salermo
as "pyxides" e em Toledo, os demônios. E assim, desses
encontros nas estradas, surgem os Goliardos.
À eles devemos uma das produções literárias da Idade
Média mais belas e características"
Apud Adolfo Bartoli in "Precursores do Renascimento".
Ed. Parma - 1983. Tradução do Prof. Valeriano Gomes do
Nascimento.
De "Vós que não podeis beber..." até "...se torna alegre"
transcrição de textos goliardos (Carmina Burana, 240),
op. cit. P. 37. Ver (ouvir) como Carl Orff cifra
(decifra), no coro de sua Carmina Burana o sentido
seminal do rompimento goliardo.
"Ávido de sensualidade/mais que de saúde" idem, (Carm.
Bur., pp. 67-69), op. cit. P. 39.40
De "Pai nosso que estais..." até "mas livra-nos das
vestes", idem, (Missa de Putatoribus - Missa dos
Bebedores - chamada também de Missa Glutonis - Missa
do Glutão), op. cit. P.43.
"Tanto gentile e tanto onesta pare..." até "e li occhi
no lardiscon de guardare" - Quadra primeira do Soneto XV
da "Vita Nuova". Dante, um século depois dos goliardos,
obra publicada em Florença em l292, que inaugura o Renascimento.
Tradução de Jorge Wanderley In "Vida Nova - Os Poemas",
Livraria Tauros; Livraria Timbre editores - 1988. P.61:
"Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar"
Há várias outras traduções desse soneto.
Conheço uma de Arduíno Bolívar in "30 Séculos de Poesia"
- Edições de Ouro, Coleção Clássicos de Bolso - 1966. P. 138.
E uma outra, que não cheguei a registrar
O soneto inteiro é assim
(cf. Dante Alighiere in "Vita Nuova",Garzanti Editore, 1982, P. 51):
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta,
chogne lingua deven tremando muta
e li occhi no lardiscon di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente dumiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.
Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dá per li occhi una dolcezza al core,
che ntender no la può chi no la prova:
e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien damore,
che va dicendo a lanima: Sospira.
De "O princípio barroco..." até "...do Pontífice", cf.
Roger Bastide in "Psicanálise do Cafuné". Ed. Guaíra,
Coleção Caderno Azul - 1941. P. 46.
Vale a pena transcrever alguns trechos desse ensaio,
que - não fosse a universalidade do neolítico
- situa o barroco como o protótipo da linguagem globalizada.
C.f. P. 43 op. cit. :
" A Igreja, sendo internacional, quis uma arte interna-
cional; o poder pontificial só poderia caracterizar-se
por uma espécie de padronização da arte barroca, contra
o regionalismo medieval e contra a variedade de arquite-
turas próprias das antigas ordens religiosas. Isso é
muito claro na pintura, que se separa da cor local parti-
cular de cada província, para se tornar abstrata e
universal".
Cf. P. 46:
" Seja qual for a diversidade dos aspectos de que se
revista o barroco europeu segundo os vários países, ele
apresenta certo número de caracteres comuns: o vínculo
entre o monumento e o espaço onde se situa, a escolha do
local e da perspectiva; o princípio de subordinação de
todos os elementos arquiteturais para produzir um efeito
único; a importância da linha curva, um estilo de
movimento, as "formas que voam" que se opõem às "formas
que pensam"; a riqueza da decoração ligada ao caráter
sentimental, afetivo, dessa arte, à sua exuberância de
vida; o cromatismo, que se caracteriza pela escolha dos
materiais utilizados pela pintura, pelo amor ao ouro; o
papel da luz no jogo de sombras e do sol, especialmente
sobre a fachada; o ilusionismo que permite substituir as
paredes por meio<
1 660
1
Carlos Figueiredo
Goliardos
A Xisto Bahia Filho
Vós, que não podeis beber,
ide para longe destas festas.
Aqui não é lugar para abstêmios.
Baco, virás bem
acolhido e desejado.
Por ti nosso espírito
se torna alegre
ávido de sensualidade
mais que de saúde.
Pai nosso que estais nos copos
santificado
seja esse vinho.
Que venha o embriagado Baco
faça-se abundância de ti
assim no vinho como na taberna.
O pão nosso para comer nos dai hoje
e afastai de nós os copos grandes
assim como nós nos afastamos dos nossos
/beberrões
e não nos induza à tentação do vinho
mas livrai-nos das vestes.
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta
chogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no lardiscon di guardare.
As formas pensam.
O princípio barroco da subordinação
de todos os elementos arquiteturais
para produzir um efeito único
especular
do absolutismo central
do Pontífice.
No ar,
no alto,
a tensão rupestre
como um estigma na pedra.
A resplandecer
No Tao
Nos Upanichades, em Hesíodo.
Jaurais voulu vous répondre avant
lheure de la poste; Je
nai personne
à qui causer dArt, des poètes,
de lIdéal.
Il confond trop
LIdéal avec le Réel.
Depois, subitamente:
"Vinte anos após estes
acontecimentos
podia-se encontrar
nas ruas de Fougères
um velho ainda ereto etc."
Verdadeiramente embriagado
eu acreditava captar uma antiguidade
maravilhosa.
O mito é o nada que é tudo.
Os deuses vendem quando dão.
O ranger dos bambus
me diz que neva.
Notas do poema Goliardos
Goliardos
Os Goliardos eram uma espécie de beatniks, de freaks do
Século XII, beberrões, vagantes,"on the road", cuja
produção literária se constituiu em um dos marcos
precursores do Renascimento.
A origem do termo não está, ainda, estabelecida.
Alguns identificam os goliardos com Pedro Abelardo(1079-
1142), chamado, nos processos que lhe moveu a Igreja, de
Golias, inimigo da fé. Outros, ao fato deles beberem
e comerem como Golias.
......
Na Idade Média, durante séculos, os textos produzidos,
além de escassíssimos eram, em sua maioria esmagadora,
hagiológicos. Ao longo de cem anos, os anais de um
convento - de S. Benedito - registra tres passagens: Um
surto de peste, o falecimento de um abade tido como santo
e o desabamento da laje do altar.
Quando chega o Século XII "os fatos irrompem
esplêndidos". "Em meio a um frêmito, surgem novos
escritores enfim conscientes da utilidade prática da
História. Ressurge o Direito Romano e nascem escolas que
ressuscitam a atividade científica, em uma primeira tentativa de
laicisar a ciência, e arrebata-la das mãos do clero".
"Todas as classes sociais foram dominadas por um
sentimento vago de inquietação, que as incitava a
buscarem novas e ignotas regiões; que excitavam nelas
fantásticas aspirações a uma nova vida. Daqui o
fanatismo pelas viagens ao Oriente, pelas Cruzadas,
pelas peregrinações, pelas expedições longínquas e
perigosas. Esse sentimento invade também as escolas"
"Em busca de conhecimentos especializados, os estudantes
procuram em Paris as artes liberais. Em Aureliano
(Orleans) os autores, em Bolonha os códigos, em Salermo
as "pyxides" e em Toledo, os demônios. E assim, desses
encontros nas estradas, surgem os Goliardos.
À eles devemos uma das produções literárias da Idade
Média mais belas e características"
Apud Adolfo Bartoli in "Precursores do Renascimento".
Ed. Parma - 1983. Tradução do Prof. Valeriano Gomes do
Nascimento.
De "Vós que não podeis beber..." até "...se torna alegre"
transcrição de textos goliardos (Carmina Burana, 240),
op. cit. P. 37. Ver (ouvir) como Carl Orff cifra
(decifra), no coro de sua Carmina Burana o sentido
seminal do rompimento goliardo.
"Ávido de sensualidade/mais que de saúde" idem, (Carm.
Bur., pp. 67-69), op. cit. P. 39.40
De "Pai nosso que estais..." até "mas livra-nos das
vestes", idem, (Missa de Putatoribus - Missa dos
Bebedores - chamada também de Missa Glutonis - Missa
do Glutão), op. cit. P.43.
"Tanto gentile e tanto onesta pare..." até "e li occhi
no lardiscon de guardare" - Quadra primeira do Soneto XV
da "Vita Nuova". Dante, um século depois dos goliardos,
obra publicada em Florença em l292, que inaugura o Renascimento.
Tradução de Jorge Wanderley In "Vida Nova - Os Poemas",
Livraria Tauros; Livraria Timbre editores - 1988. P.61:
"Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar"
Há várias outras traduções desse soneto.
Conheço uma de Arduíno Bolívar in "30 Séculos de Poesia"
- Edições de Ouro, Coleção Clássicos de Bolso - 1966. P. 138.
E uma outra, que não cheguei a registrar
O soneto inteiro é assim
(cf. Dante Alighiere in "Vita Nuova",Garzanti Editore, 1982, P. 51):
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta,
chogne lingua deven tremando muta
e li occhi no lardiscon di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente dumiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.
Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dá per li occhi una dolcezza al core,
che ntender no la può chi no la prova:
e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien damore,
che va dicendo a lanima: Sospira.
De "O princípio barroco..." até "...do Pontífice", cf.
Roger Bastide in "Psicanálise do Cafuné". Ed. Guaíra,
Coleção Caderno Azul - 1941. P. 46.
Vale a pena transcrever alguns trechos desse ensaio,
que - não fosse a universalidade do neolítico
- situa o barroco como o protótipo da linguagem globalizada.
C.f. P. 43 op. cit. :
" A Igreja, sendo internacional, quis uma arte interna-
cional; o poder pontificial só poderia caracterizar-se
por uma espécie de padronização da arte barroca, contra
o regionalismo medieval e contra a variedade de arquite-
turas próprias das antigas ordens religiosas. Isso é
muito claro na pintura, que se separa da cor local parti-
cular de cada província, para se tornar abstrata e
universal".
Cf. P. 46:
" Seja qual for a diversidade dos aspectos de que se
revista o barroco europeu segundo os vários países, ele
apresenta certo número de caracteres comuns: o vínculo
entre o monumento e o espaço onde se situa, a escolha do
local e da perspectiva; o princípio de subordinação de
todos os elementos arquiteturais para produzir um efeito
único; a importância da linha curva, um estilo de
movimento, as "formas que voam" que se opõem às "formas
que pensam"; a riqueza da decoração ligada ao caráter
sentimental, afetivo, dessa arte, à sua exuberância de
vida; o cromatismo, que se caracteriza pela escolha dos
materiais utilizados pela pintura, pelo amor ao ouro; o
papel da luz no jogo de sombras e do sol, especialmente
sobre a fachada; o ilusionismo que permite substituir as
paredes por meio<
Vós, que não podeis beber,
ide para longe destas festas.
Aqui não é lugar para abstêmios.
Baco, virás bem
acolhido e desejado.
Por ti nosso espírito
se torna alegre
ávido de sensualidade
mais que de saúde.
Pai nosso que estais nos copos
santificado
seja esse vinho.
Que venha o embriagado Baco
faça-se abundância de ti
assim no vinho como na taberna.
O pão nosso para comer nos dai hoje
e afastai de nós os copos grandes
assim como nós nos afastamos dos nossos
/beberrões
e não nos induza à tentação do vinho
mas livrai-nos das vestes.
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta
chogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no lardiscon di guardare.
As formas pensam.
O princípio barroco da subordinação
de todos os elementos arquiteturais
para produzir um efeito único
especular
do absolutismo central
do Pontífice.
No ar,
no alto,
a tensão rupestre
como um estigma na pedra.
A resplandecer
No Tao
Nos Upanichades, em Hesíodo.
Jaurais voulu vous répondre avant
lheure de la poste; Je
nai personne
à qui causer dArt, des poètes,
de lIdéal.
Il confond trop
LIdéal avec le Réel.
Depois, subitamente:
"Vinte anos após estes
acontecimentos
podia-se encontrar
nas ruas de Fougères
um velho ainda ereto etc."
Verdadeiramente embriagado
eu acreditava captar uma antiguidade
maravilhosa.
O mito é o nada que é tudo.
Os deuses vendem quando dão.
O ranger dos bambus
me diz que neva.
Notas do poema Goliardos
Goliardos
Os Goliardos eram uma espécie de beatniks, de freaks do
Século XII, beberrões, vagantes,"on the road", cuja
produção literária se constituiu em um dos marcos
precursores do Renascimento.
A origem do termo não está, ainda, estabelecida.
Alguns identificam os goliardos com Pedro Abelardo(1079-
1142), chamado, nos processos que lhe moveu a Igreja, de
Golias, inimigo da fé. Outros, ao fato deles beberem
e comerem como Golias.
......
Na Idade Média, durante séculos, os textos produzidos,
além de escassíssimos eram, em sua maioria esmagadora,
hagiológicos. Ao longo de cem anos, os anais de um
convento - de S. Benedito - registra tres passagens: Um
surto de peste, o falecimento de um abade tido como santo
e o desabamento da laje do altar.
Quando chega o Século XII "os fatos irrompem
esplêndidos". "Em meio a um frêmito, surgem novos
escritores enfim conscientes da utilidade prática da
História. Ressurge o Direito Romano e nascem escolas que
ressuscitam a atividade científica, em uma primeira tentativa de
laicisar a ciência, e arrebata-la das mãos do clero".
"Todas as classes sociais foram dominadas por um
sentimento vago de inquietação, que as incitava a
buscarem novas e ignotas regiões; que excitavam nelas
fantásticas aspirações a uma nova vida. Daqui o
fanatismo pelas viagens ao Oriente, pelas Cruzadas,
pelas peregrinações, pelas expedições longínquas e
perigosas. Esse sentimento invade também as escolas"
"Em busca de conhecimentos especializados, os estudantes
procuram em Paris as artes liberais. Em Aureliano
(Orleans) os autores, em Bolonha os códigos, em Salermo
as "pyxides" e em Toledo, os demônios. E assim, desses
encontros nas estradas, surgem os Goliardos.
À eles devemos uma das produções literárias da Idade
Média mais belas e características"
Apud Adolfo Bartoli in "Precursores do Renascimento".
Ed. Parma - 1983. Tradução do Prof. Valeriano Gomes do
Nascimento.
De "Vós que não podeis beber..." até "...se torna alegre"
transcrição de textos goliardos (Carmina Burana, 240),
op. cit. P. 37. Ver (ouvir) como Carl Orff cifra
(decifra), no coro de sua Carmina Burana o sentido
seminal do rompimento goliardo.
"Ávido de sensualidade/mais que de saúde" idem, (Carm.
Bur., pp. 67-69), op. cit. P. 39.40
De "Pai nosso que estais..." até "mas livra-nos das
vestes", idem, (Missa de Putatoribus - Missa dos
Bebedores - chamada também de Missa Glutonis - Missa
do Glutão), op. cit. P.43.
"Tanto gentile e tanto onesta pare..." até "e li occhi
no lardiscon de guardare" - Quadra primeira do Soneto XV
da "Vita Nuova". Dante, um século depois dos goliardos,
obra publicada em Florença em l292, que inaugura o Renascimento.
Tradução de Jorge Wanderley In "Vida Nova - Os Poemas",
Livraria Tauros; Livraria Timbre editores - 1988. P.61:
"Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar"
Há várias outras traduções desse soneto.
Conheço uma de Arduíno Bolívar in "30 Séculos de Poesia"
- Edições de Ouro, Coleção Clássicos de Bolso - 1966. P. 138.
E uma outra, que não cheguei a registrar
O soneto inteiro é assim
(cf. Dante Alighiere in "Vita Nuova",Garzanti Editore, 1982, P. 51):
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta,
chogne lingua deven tremando muta
e li occhi no lardiscon di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente dumiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.
Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dá per li occhi una dolcezza al core,
che ntender no la può chi no la prova:
e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien damore,
che va dicendo a lanima: Sospira.
De "O princípio barroco..." até "...do Pontífice", cf.
Roger Bastide in "Psicanálise do Cafuné". Ed. Guaíra,
Coleção Caderno Azul - 1941. P. 46.
Vale a pena transcrever alguns trechos desse ensaio,
que - não fosse a universalidade do neolítico
- situa o barroco como o protótipo da linguagem globalizada.
C.f. P. 43 op. cit. :
" A Igreja, sendo internacional, quis uma arte interna-
cional; o poder pontificial só poderia caracterizar-se
por uma espécie de padronização da arte barroca, contra
o regionalismo medieval e contra a variedade de arquite-
turas próprias das antigas ordens religiosas. Isso é
muito claro na pintura, que se separa da cor local parti-
cular de cada província, para se tornar abstrata e
universal".
Cf. P. 46:
" Seja qual for a diversidade dos aspectos de que se
revista o barroco europeu segundo os vários países, ele
apresenta certo número de caracteres comuns: o vínculo
entre o monumento e o espaço onde se situa, a escolha do
local e da perspectiva; o princípio de subordinação de
todos os elementos arquiteturais para produzir um efeito
único; a importância da linha curva, um estilo de
movimento, as "formas que voam" que se opõem às "formas
que pensam"; a riqueza da decoração ligada ao caráter
sentimental, afetivo, dessa arte, à sua exuberância de
vida; o cromatismo, que se caracteriza pela escolha dos
materiais utilizados pela pintura, pelo amor ao ouro; o
papel da luz no jogo de sombras e do sol, especialmente
sobre a fachada; o ilusionismo que permite substituir as
paredes por meio<
1 660
1
Judas Isgorogota
Recompensa
Certa manhã deixei a minha casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
1 762
1
Cristiane Ferrari
Virtual Love- Cyber Passion-Love Is So Strange
Dizem ser loucura
Que na inocência da vida
Eu me atire em braços tão longe
Que voe tão sem lógica e viva
Como se a vida não tivesse fim
Dizem que é insensata
Esta paixão tão sem algoritmos
E que respirá-la é viver da incerteza
Mas se deste sabor eu não provar
Viverei com a insatisfação eternamente
Pois cada dia e alimento deste futuro incerto
Deste amor tão estranho
Que na inocência da vida
Eu me atire em braços tão longe
Que voe tão sem lógica e viva
Como se a vida não tivesse fim
Dizem que é insensata
Esta paixão tão sem algoritmos
E que respirá-la é viver da incerteza
Mas se deste sabor eu não provar
Viverei com a insatisfação eternamente
Pois cada dia e alimento deste futuro incerto
Deste amor tão estranho
858
1
António Salvado
Cárcere
O cárcere profundo em que encontro...
O forte muro a esta mágoa preso...
A cicatriz deixada nos meus ombros...
A luz extinta a segredar promessas...
A chaga enorme que me abraça bem,
confuso encantamento sem perdão...
A corroída esperança que retenho
quando levanto num suspiro as mãos...
É destas marcas vivas que o meu ser
tenaz e loucamente se alimenta...
São estes os autênticos prazeres
que as minhas horas sofrem violentas!
O forte muro a esta mágoa preso...
A cicatriz deixada nos meus ombros...
A luz extinta a segredar promessas...
A chaga enorme que me abraça bem,
confuso encantamento sem perdão...
A corroída esperança que retenho
quando levanto num suspiro as mãos...
É destas marcas vivas que o meu ser
tenaz e loucamente se alimenta...
São estes os autênticos prazeres
que as minhas horas sofrem violentas!
612
1
Judas Isgorogota
Atitudes
A poesia em mim era uma asa andeja
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
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