Poemas neste tema
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Valter Hugo Mãe
se o vento é a ignição
se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
1 095
Matilde Campilho
Época da Colheita de Lã
Faz hoje um ano e meio que inundaram o canal de Danesdale para dar passagem à procissão dos castores. Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa. Tenho-me recusado a falar sobre aquelas coisas habituais, como o coração de Deus, a corrida dos gaiatos, a visão macroscópica que incide sobre a dobra dos calções do atleta, o cílio do peixe preto que todos os dias roça o peito do mergulhador das manhãs, o resultado da partida de baseball no Connecticut ou a forma mais correcta de escrever baseball. Acho que o esporte é uma coisa reconfortante porque se realiza sempre sobre um solo fértil e também porque o posso abandonar a qualquer instante ou voltar a ele em qualquer instante. Fred ainda está vivo, ainda limpa o balcão do bar com o pano encardido e sei que sempre que regressar à cidade posso entrar no bar, sentar-me ao balcão e perguntar-lhe sobre a performance de Hank Aaron. Fred sabe tudo sobre o voo. Descobri inúmeros elementos transformadores da vontade, mas também não vou distender-me aqui em palavrões ou frases demasiado compostas só para encontrar um sentido no decorrer da sentença. O melhor pianista do país morreu esta tarde e tinha os cabelos iluminados de fogo. Sônia diz que ele fazia lembrar erupções de querubins no asfalto, Eric não para de chorar. A amendoeira do canal foi rasgada a canivete mas o desenho gravado não é de todo a tatuagem mais feia do mundo. Etc. Etc. Etc.
1 022
Matilde Campilho
Época da Colheita de Lã
Faz hoje um ano e meio que inundaram o canal de Danesdale para dar passagem à procissão dos castores. Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa. Tenho-me recusado a falar sobre aquelas coisas habituais, como o coração de Deus, a corrida dos gaiatos, a visão macroscópica que incide sobre a dobra dos calções do atleta, o cílio do peixe preto que todos os dias roça o peito do mergulhador das manhãs, o resultado da partida de baseball no Connecticut ou a forma mais correcta de escrever baseball. Acho que o esporte é uma coisa reconfortante porque se realiza sempre sobre um solo fértil e também porque o posso abandonar a qualquer instante ou voltar a ele em qualquer instante. Fred ainda está vivo, ainda limpa o balcão do bar com o pano encardido e sei que sempre que regressar à cidade posso entrar no bar, sentar-me ao balcão e perguntar-lhe sobre a performance de Hank Aaron. Fred sabe tudo sobre o voo. Descobri inúmeros elementos transformadores da vontade, mas também não vou distender-me aqui em palavrões ou frases demasiado compostas só para encontrar um sentido no decorrer da sentença. O melhor pianista do país morreu esta tarde e tinha os cabelos iluminados de fogo. Sônia diz que ele fazia lembrar erupções de querubins no asfalto, Eric não para de chorar. A amendoeira do canal foi rasgada a canivete mas o desenho gravado não é de todo a tatuagem mais feia do mundo. Etc. Etc. Etc.
1 022
Matilde Campilho
Two-Lane Blacktop
Aprenderei a amar as casas
quando entender que as casas são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contem em si a possibilidade
de fazer gente.
quando entender que as casas são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contem em si a possibilidade
de fazer gente.
1 760
Francisco Luís Amaro
Retrato
Um silêncio, um olhar, uma palavra:
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
863
Francisco Luís Amaro
Retrato
Um silêncio, um olhar, uma palavra:
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
863
Matilde Campilho
Obituário de J. Anderson Pritt, Pela Mão da Viúva
um pedaço de aço?
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
926
Pero da Ponte
Sueir'eanes, Nunca Eu Terrei
Sueir'Eanes, nunca eu terrei
que vós trobar nom entendedes bem,
pois entendestes, quando vos trobei,
que de trobar nom sabíades rem;
pero d'al nom sodes tam trobador,
mais o trobar ond'estades melhor:
entendedes quando vos troba alguém.
Entendestes um dia ant'el-rei
como vos meterom em um cantar
polo peior trobador que eu sei
- esto s'a vós nunca pode negar;
e por aquesto maravilho-m'eu
deste poder. Que demo vo-lo deu,
por vós assi entenderdes trobar?
Ca vos vi eu aqui mui gram sazom
e nom vos vi por trobador meter;
e ora nom vos trobam em razom
em que xi vos possa rem asconder,
se de mal trobador enmentam i,
que vós logo nom digades: - A mim
foi feit'aquel cantar de mal dizer.
que vós trobar nom entendedes bem,
pois entendestes, quando vos trobei,
que de trobar nom sabíades rem;
pero d'al nom sodes tam trobador,
mais o trobar ond'estades melhor:
entendedes quando vos troba alguém.
Entendestes um dia ant'el-rei
como vos meterom em um cantar
polo peior trobador que eu sei
- esto s'a vós nunca pode negar;
e por aquesto maravilho-m'eu
deste poder. Que demo vo-lo deu,
por vós assi entenderdes trobar?
Ca vos vi eu aqui mui gram sazom
e nom vos vi por trobador meter;
e ora nom vos trobam em razom
em que xi vos possa rem asconder,
se de mal trobador enmentam i,
que vós logo nom digades: - A mim
foi feit'aquel cantar de mal dizer.
748
Pero da Ponte
O Mui Bom Rei Que Conquis a Fronteira
O mui bom rei que conquis a fronteira
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
559
Pero da Ponte
Meus Olhos, Gram Coita D'amor
Meus olhos, gram coita d'amor
me dades vós, que sempr'assi
chorades; mais já des aqui,
meus olhos, por Nostro Senhor,
nom choredes, que vejades
a dona por que chorades.
[...]
me dades vós, que sempr'assi
chorades; mais já des aqui,
meus olhos, por Nostro Senhor,
nom choredes, que vejades
a dona por que chorades.
[...]
302
Pero da Ponte
Pero da Pont', E[M] Um Vosso Cantar
- Pero da Pont', e[m] um vosso cantar,
que vós ogano fezestes d'amor,
foste-vos i escudeiro chamar.
E dized'ora tant', ai trobador:
pois vos escudeiro chamastes i,
porque vos queixades ora de mi,
por meus panos, que vos nom quero dar?
- Afons'Anes, se vos en pesar,
tornade-vos a vosso fiador;
e de m'eu i escudeiro chamar,
e por que nom, pois escudeiro for?
E se peç'algo, vedes quant'há i:
nom podemos todos guarir assi
come vós, que guarides per lidar.
- Pero da Ponte, quem a mi veer
desta razom ou doutra cometer,
querrei-vo-lh'eu responder, se souber,
como trobador deve responder:
em nossa terra, se Deus me perdom,
a tod'o 'scudeiro que pede dom
as mais das gentes lhe chamam segrel.
- Afons'Anes, est'é meu mester,
e per esto dev'eu a guarecer
e per servir donas quanto poder;
mais ũa rem vos quero [eu] dizer:
em pedir algo nom dig'eu de nom,
a quem entendo que faço razom,
e alá lide quem lidar souber.
- Pero da Ponte, se Deus vos perdom,
nom faledes mais em armas, ca nom
vos está bem, esto sabe quem quer.
- Afons'Anes, filharei eu dom,
e lidade vós, ai cor de leom,
e faça quis cada quem seu mester.
que vós ogano fezestes d'amor,
foste-vos i escudeiro chamar.
E dized'ora tant', ai trobador:
pois vos escudeiro chamastes i,
porque vos queixades ora de mi,
por meus panos, que vos nom quero dar?
- Afons'Anes, se vos en pesar,
tornade-vos a vosso fiador;
e de m'eu i escudeiro chamar,
e por que nom, pois escudeiro for?
E se peç'algo, vedes quant'há i:
nom podemos todos guarir assi
come vós, que guarides per lidar.
- Pero da Ponte, quem a mi veer
desta razom ou doutra cometer,
querrei-vo-lh'eu responder, se souber,
como trobador deve responder:
em nossa terra, se Deus me perdom,
a tod'o 'scudeiro que pede dom
as mais das gentes lhe chamam segrel.
- Afons'Anes, est'é meu mester,
e per esto dev'eu a guarecer
e per servir donas quanto poder;
mais ũa rem vos quero [eu] dizer:
em pedir algo nom dig'eu de nom,
a quem entendo que faço razom,
e alá lide quem lidar souber.
- Pero da Ponte, se Deus vos perdom,
nom faledes mais em armas, ca nom
vos está bem, esto sabe quem quer.
- Afons'Anes, filharei eu dom,
e lidade vós, ai cor de leom,
e faça quis cada quem seu mester.
745
Pero da Ponte
Que Bem Se Soub'acompanhar
Que bem se soub'acompanhar
Nostro Senhor esta sazom!
Que filhou tam bom companhom,
de qual vos eu quero contar:
rei dom Fernando, tam de prez,
que tanto bem no mundo fez
e que conquis de mar a mar!
Tal companhom foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdom,
que jamais nom disse de nom
a nulh'hom[e] por lh'algo dar,
e que sempre fez o melhor;
por en x'o quis Nostro Senhor
põer consigo par a par!
E quant'home em ele mais falar,
tant'achará melhor razom:
ca, dos reis que forom nem som
no mundo por bom prez ganhar,
este rei foi o melhor rei,
que soub'eixalçar nossa Lei
e a dos mouros abaixar!
Mais u Deus pera si levar
quis o bom rei, i log'entom
se nembrou de nós, poilo bom
rei dom Afonso nos foi dar
por senhor. E bem nos cobrou:
ca, se nos bom senhor levou,
mui bom senhor nos foi leixar!
E Deus bom senhor nos levou!
Mais, pois nos tam bom rei leixou,
nom nos devemos a queixar.
Mais façamos tal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o mande muito bem reinar.
Amen! Aleluia!
Nostro Senhor esta sazom!
Que filhou tam bom companhom,
de qual vos eu quero contar:
rei dom Fernando, tam de prez,
que tanto bem no mundo fez
e que conquis de mar a mar!
Tal companhom foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdom,
que jamais nom disse de nom
a nulh'hom[e] por lh'algo dar,
e que sempre fez o melhor;
por en x'o quis Nostro Senhor
põer consigo par a par!
E quant'home em ele mais falar,
tant'achará melhor razom:
ca, dos reis que forom nem som
no mundo por bom prez ganhar,
este rei foi o melhor rei,
que soub'eixalçar nossa Lei
e a dos mouros abaixar!
Mais u Deus pera si levar
quis o bom rei, i log'entom
se nembrou de nós, poilo bom
rei dom Afonso nos foi dar
por senhor. E bem nos cobrou:
ca, se nos bom senhor levou,
mui bom senhor nos foi leixar!
E Deus bom senhor nos levou!
Mais, pois nos tam bom rei leixou,
nom nos devemos a queixar.
Mais façamos tal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o mande muito bem reinar.
Amen! Aleluia!
350
Pero da Ponte
D'um Tal Ric'home Ouç'eu Dizer
D'um tal ric'home ouç'eu dizer
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
753
Pero da Ponte
Nostro Senhor Deus! Que Prol Vos Tem Ora
Nostro Senhor Deus! Que prol vos tem ora
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
699
Pero da Ponte
De Sueir'eanes Direi
De Sueir'Eanes direi
como lhe de trobar avém:
nõn'o baralha el mui bem
nem ar quer i mentes meter;
mais desto se pod'el gabar:
que, se m'eu faço bom cantar,
a ele mi o soio fazer.
Pero - cousa que eu bem sei -
nom sab'el muito de trobar,
mais em tod'aqueste logar
nom poss'eu trobador veer
tam venturad'e[m] ũa rem:
se algum cantar faz alguém,
de lhi mui cantado seer.
Ca lhi trobam em tam bom som
que nom poderiam melhor;
e por est'havemos sabor
de lhi sas cantigas cantar;
mais al vos quer'eu del dizer:
quem lh'aquesta manha tolher
bem assi o pode matar.
como lhe de trobar avém:
nõn'o baralha el mui bem
nem ar quer i mentes meter;
mais desto se pod'el gabar:
que, se m'eu faço bom cantar,
a ele mi o soio fazer.
Pero - cousa que eu bem sei -
nom sab'el muito de trobar,
mais em tod'aqueste logar
nom poss'eu trobador veer
tam venturad'e[m] ũa rem:
se algum cantar faz alguém,
de lhi mui cantado seer.
Ca lhi trobam em tam bom som
que nom poderiam melhor;
e por est'havemos sabor
de lhi sas cantigas cantar;
mais al vos quer'eu del dizer:
quem lh'aquesta manha tolher
bem assi o pode matar.
654
Pero da Ponte
De Sueir'eanes Direi
De Sueir'Eanes direi
como lhe de trobar avém:
nõn'o baralha el mui bem
nem ar quer i mentes meter;
mais desto se pod'el gabar:
que, se m'eu faço bom cantar,
a ele mi o soio fazer.
Pero - cousa que eu bem sei -
nom sab'el muito de trobar,
mais em tod'aqueste logar
nom poss'eu trobador veer
tam venturad'e[m] ũa rem:
se algum cantar faz alguém,
de lhi mui cantado seer.
Ca lhi trobam em tam bom som
que nom poderiam melhor;
e por est'havemos sabor
de lhi sas cantigas cantar;
mais al vos quer'eu del dizer:
quem lh'aquesta manha tolher
bem assi o pode matar.
como lhe de trobar avém:
nõn'o baralha el mui bem
nem ar quer i mentes meter;
mais desto se pod'el gabar:
que, se m'eu faço bom cantar,
a ele mi o soio fazer.
Pero - cousa que eu bem sei -
nom sab'el muito de trobar,
mais em tod'aqueste logar
nom poss'eu trobador veer
tam venturad'e[m] ũa rem:
se algum cantar faz alguém,
de lhi mui cantado seer.
Ca lhi trobam em tam bom som
que nom poderiam melhor;
e por est'havemos sabor
de lhi sas cantigas cantar;
mais al vos quer'eu del dizer:
quem lh'aquesta manha tolher
bem assi o pode matar.
654
Pero da Ponte
Ora Já Nom Poss'eu Creer
Ora já nom poss'eu creer
que Deus ao mundo mal nom quer
e querrá, mentre lhi fezer
qual escárnio lhi sol fazer
e qual escárnio lh'ora fez:
leixou-lhi tant'home sem prez
e foi-lhi dom Lopo tolher!
E oimais bem pode dizer
tod'home, que esto souber,
que o mundo nom há mester,
pois que o quer Deus confonder;
ca, par Deus!, mal o confondeu
quando lhi dom Lopo tolheu,
que o soía manteer!
E oimais quen'o manterá,
por dar i tanto rico dom,
caval'e armas a baldom?
Ou des oimais quen'o dará,
pois dom Lopo Diaz mort'é
- o melhor dom Lopo, a la fé,
que foi nem jamais nom será?
E pero pois assi é já,
façamos atal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o salve, que en poder há.
E Deus, que o pode salvar,
esse o lev'a bom lugar,
pelo gram poder que end'há!
Amen! Amen! Aquest'amen
jamais nom si m'obridará!
que Deus ao mundo mal nom quer
e querrá, mentre lhi fezer
qual escárnio lhi sol fazer
e qual escárnio lh'ora fez:
leixou-lhi tant'home sem prez
e foi-lhi dom Lopo tolher!
E oimais bem pode dizer
tod'home, que esto souber,
que o mundo nom há mester,
pois que o quer Deus confonder;
ca, par Deus!, mal o confondeu
quando lhi dom Lopo tolheu,
que o soía manteer!
E oimais quen'o manterá,
por dar i tanto rico dom,
caval'e armas a baldom?
Ou des oimais quen'o dará,
pois dom Lopo Diaz mort'é
- o melhor dom Lopo, a la fé,
que foi nem jamais nom será?
E pero pois assi é já,
façamos atal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o salve, que en poder há.
E Deus, que o pode salvar,
esse o lev'a bom lugar,
pelo gram poder que end'há!
Amen! Amen! Aquest'amen
jamais nom si m'obridará!
654
Pero da Ponte
Tam Muito Vos Am'eu, Senhor
Tam muito vos am'eu, senhor,
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
708
Pero da Ponte
Eu Bem Me Cuidava Que Er'avoleza
Eu bem me cuidava que er'avoleza
d'o cavaleiro mancebo seer
escasso muit'e de guardar haver;
mais vej'ora que val muit'escasseza:
ca um cavaleiro sei eu vilam
e torp'e brav[o] e mal barragam,
pero tod'esto lh'encobr'escasseza.
d'o cavaleiro mancebo seer
escasso muit'e de guardar haver;
mais vej'ora que val muit'escasseza:
ca um cavaleiro sei eu vilam
e torp'e brav[o] e mal barragam,
pero tod'esto lh'encobr'escasseza.
739
Pero da Ponte
De [Dom] Fernam Diaz Estaturão
De [Dom] Fernam Diaz Estaturão
oí dizer novas, de que mi praz:
que é home que muito por Deus faz
e se quer ora meter ermitão;
e fará bom feito, se o fezer;
de mais, nunca lh'home soube molher
des que nasceu, tant'é de bom cristão.
Este tem o Paraís'en[a] mão,
que sempr[e] amou, com sem cristão, paz;
nem nunc'amou molher nem seu solaz,
nem desamou fidalgo nem vilão;
e mais vos [en] direi, se vos prouguer:
nunca molher amou, nem quis nem quer,
pero cata, falagueir'e loução.
E [em] tam bõo dia foi [el] nado
que tam bem soub'o pecad'enganar,
que nunca por molher rem [nom] quis dar,
e pero mete-s'el por namorado;
e os que o nom conhocemos bem
cuidamos del que folia mantém,
mais el d'haver molher nom é pensado.
Que se hoj'el foss[e] empardẽado,
nem se saberia melhor guardar
de nunca já com molher albergar,
por nom se riir [i] del o pecado,
ca nunca deu por molher nulha rem;
e pero vedes: se o vir alguém,
terrá que morre por seer casado.
E pois [s']em tal castidade mantém,
quand'el morrer, direi-vos ũa rem:
"Beati Oculi" será chamado.
oí dizer novas, de que mi praz:
que é home que muito por Deus faz
e se quer ora meter ermitão;
e fará bom feito, se o fezer;
de mais, nunca lh'home soube molher
des que nasceu, tant'é de bom cristão.
Este tem o Paraís'en[a] mão,
que sempr[e] amou, com sem cristão, paz;
nem nunc'amou molher nem seu solaz,
nem desamou fidalgo nem vilão;
e mais vos [en] direi, se vos prouguer:
nunca molher amou, nem quis nem quer,
pero cata, falagueir'e loução.
E [em] tam bõo dia foi [el] nado
que tam bem soub'o pecad'enganar,
que nunca por molher rem [nom] quis dar,
e pero mete-s'el por namorado;
e os que o nom conhocemos bem
cuidamos del que folia mantém,
mais el d'haver molher nom é pensado.
Que se hoj'el foss[e] empardẽado,
nem se saberia melhor guardar
de nunca já com molher albergar,
por nom se riir [i] del o pecado,
ca nunca deu por molher nulha rem;
e pero vedes: se o vir alguém,
terrá que morre por seer casado.
E pois [s']em tal castidade mantém,
quand'el morrer, direi-vos ũa rem:
"Beati Oculi" será chamado.
342
Pero da Ponte
Sueir'eanes, Este Trobador
Sueir'Eanes, este trobador,
foi por jantar a cas d'um infançom
e jantou mal; mais el vingou-s'entom,
que ar hajam os outros del pavor,
e nom quis el a vendita tardar:
e, tanto que se partiu do jantar,
trobou-lhi mal, nunca vistes peior.
E no mundo nom sei eu trobador
de que s'home mais devesse temer
de x'el mui maas três cobras fazer,
ou quatro, a quem lhi maa barva for;
ca, des que vo-lh'el cae na razom,
maas três cobras, ou quatr'e o som,
de as fazer muit'é el sabedor.
E por esto nom sei no mundo tal
home que a el devess'a dizer
de nom, por lhi dar mui bem seu haver;
e a Sueir'Eanes nunca lhi fal
razom de quem el despagado vai,
em que lhi troba tam mal e tam lai,
per que o outro sempre lhi quer mal.
foi por jantar a cas d'um infançom
e jantou mal; mais el vingou-s'entom,
que ar hajam os outros del pavor,
e nom quis el a vendita tardar:
e, tanto que se partiu do jantar,
trobou-lhi mal, nunca vistes peior.
E no mundo nom sei eu trobador
de que s'home mais devesse temer
de x'el mui maas três cobras fazer,
ou quatro, a quem lhi maa barva for;
ca, des que vo-lh'el cae na razom,
maas três cobras, ou quatr'e o som,
de as fazer muit'é el sabedor.
E por esto nom sei no mundo tal
home que a el devess'a dizer
de nom, por lhi dar mui bem seu haver;
e a Sueir'Eanes nunca lhi fal
razom de quem el despagado vai,
em que lhi troba tam mal e tam lai,
per que o outro sempre lhi quer mal.
606
Pero da Ponte
Eu Digo Mal, Com'home Fodimalho
Eu digo mal, com'home fodimalho,
quanto mais posso daquestes fodidos
e trob'a eles e a seus maridos;
e um deles mi pôs mui grand'espanto:
topou comig'e sobraçou o manto
e quis em mi achantar o caralho.
Ando-lhes fazendo cobras e sões
quanto mais poss', e and'escarnecendo
daquestes putos que s'andam fodendo;
e um deles de noit[e] asseitou-me
e quis-me dar do caralh'[e] errou-me
e lançou, depós mim, os colhões.
quanto mais posso daquestes fodidos
e trob'a eles e a seus maridos;
e um deles mi pôs mui grand'espanto:
topou comig'e sobraçou o manto
e quis em mi achantar o caralho.
Ando-lhes fazendo cobras e sões
quanto mais poss', e and'escarnecendo
daquestes putos que s'andam fodendo;
e um deles de noit[e] asseitou-me
e quis-me dar do caralh'[e] errou-me
e lançou, depós mim, os colhões.
793
Pero da Ponte
Marinha Foça Quis Saber
Marinha Foça quis saber
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
461
Pero da Ponte
Marinha Foça Quis Saber
Marinha Foça quis saber
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
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