Poemas neste tema
Outros
Virgílio Martinho
Canção Em É
A dor que se tem quando só
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
1 072
Afonso Mendes de Besteiros
Amigos, Nunca Mereceu
Amigos, nunca mereceu
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
820
Afonso Lopes de Baião
Senhor, Que Grav'hoj'a Mi É
Senhor, que grav'hoj'a mi é
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
870
Virgílio Martinho
Canção Nocturna
Hesitei na escolha, cresceu a dúvida,
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.
Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.
No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.
Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.
Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.
No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.
Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
996
Virgílio Martinho
Fetal
Fetal dentro do escuro da mãe,
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
1 013
Afonso Mendes de Besteiros
Que Sem Meu Grado Me Parti
Que sem meu grado me parti
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
584
Afonso Lopes de Baião
O Meu Senhor [Deus] Me Guisou
O meu Senhor [Deus] me guisou
de sempr'eu já coita sofrer,
enquanto no mundo viver,
u m'El atal dona mostrou
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
E se Deus houve gram prazer
de me fazer coita levar,
que bem s'end'El soube guisar
u m'El fez tal dona veer,
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
Se m'eu a Deus mal mereci,
nom vos quis El muito tardar
que se nom quisesse vingar
de mi, u eu tal dona vi
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
de sempr'eu já coita sofrer,
enquanto no mundo viver,
u m'El atal dona mostrou
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
E se Deus houve gram prazer
de me fazer coita levar,
que bem s'end'El soube guisar
u m'El fez tal dona veer,
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
Se m'eu a Deus mal mereci,
nom vos quis El muito tardar
que se nom quisesse vingar
de mi, u eu tal dona vi
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
807
Afonso Mendes de Besteiros
Per Boa Fé, Nom Sabem Nulha Rem
Per boa fé, nom sabem nulha rem
das mias coitas os que me vam poer
culpa de m'eu mui cativo fazer
em meus cantares, tanto sei eu bem;
nem sabem qual coita mi faz sofrer
esta senhor que me tem em poder.
[...]
das mias coitas os que me vam poer
culpa de m'eu mui cativo fazer
em meus cantares, tanto sei eu bem;
nem sabem qual coita mi faz sofrer
esta senhor que me tem em poder.
[...]
565
Afonso Lopes de Baião
Disserom-Mi Uas Novas de Que M'é Mui Gram Bem
Disserom-mi ũas novas de que m'é mui gram bem:
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
648
Virgílio Martinho
Viver Amarelo
Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
958
Afonso Mendes de Besteiros
Oimais Quer'eu Punhar de Me Partir
Oimais quer'eu punhar de me partir
daqueste mund', e farei gram razom,
poilo leixou a mia senhor, e nom
pud'i viver e fui alhur guarir.
E por esto quer'eu, por seu amor,
leixá'lo mundo falso, traedor,
desemparado, que me foi falir.
E nom haverá pois quen'o servir
com'eu servi, nem tam longa sazom;
e ficará desemparad'entom,
pois m'end'eu for, que mia senhor fez ir.
E pois que já nom há prez nem valor
eno mundo d'u se foi mia senhor,
Deus me cofonda se eu i guarir!
E pois que eu i mia senhor nom vir,
e vir as outras que no mundo som,
nom me podia dar o coraçom
de ficar i. E por vos nom mentir,
quero-m'end'ir; e pois que m'end'eu for
daqueste mundo, que est a peor
cousa que sei, querrei-me del riir!
daqueste mund', e farei gram razom,
poilo leixou a mia senhor, e nom
pud'i viver e fui alhur guarir.
E por esto quer'eu, por seu amor,
leixá'lo mundo falso, traedor,
desemparado, que me foi falir.
E nom haverá pois quen'o servir
com'eu servi, nem tam longa sazom;
e ficará desemparad'entom,
pois m'end'eu for, que mia senhor fez ir.
E pois que já nom há prez nem valor
eno mundo d'u se foi mia senhor,
Deus me cofonda se eu i guarir!
E pois que eu i mia senhor nom vir,
e vir as outras que no mundo som,
nom me podia dar o coraçom
de ficar i. E por vos nom mentir,
quero-m'end'ir; e pois que m'end'eu for
daqueste mundo, que est a peor
cousa que sei, querrei-me del riir!
489
Virgílio Martinho
Ouro
O ouro é o amado, o longínquo,
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.
Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.
Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.
Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.
Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.
Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.
Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.
Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.
Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.
Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.
Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
1 095
Afonso Mendes de Besteiros
Coitado Vivo, Há Mui Gram Sazom
Coitado vivo, há mui gram sazom,
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
690
Afonso X
Ai Eu Coitada, Como Vivo Em Gram Cuidado
Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que hei alongado;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
por meu amigo que hei alongado;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
1 438
Afonso X
Achei Sanch' [E]Anes Encavalgada
Achei Sanch' [E]anes encavalgada
e dix'eu por ela cousa guisada:
ca nunca vi dona peior talhada,
e quige jurar que era mostea;
vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
Vi-a cavalgar, muach'e sendeiro,
e nom ia milhor um cavaleiro.
Santiaguei-m'e disse: - Gram foi o palheiro
onde carregarom tam gram mostea!
Vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
Vi-a cavalgar indo pela rua,
mui bem vistida em cima da mua;
dix'eu: - Ai, velha fududancua,
que me semelhades ora mostea!
Vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
e dix'eu por ela cousa guisada:
ca nunca vi dona peior talhada,
e quige jurar que era mostea;
vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
Vi-a cavalgar, muach'e sendeiro,
e nom ia milhor um cavaleiro.
Santiaguei-m'e disse: - Gram foi o palheiro
onde carregarom tam gram mostea!
Vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
Vi-a cavalgar indo pela rua,
mui bem vistida em cima da mua;
dix'eu: - Ai, velha fududancua,
que me semelhades ora mostea!
Vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
738
Afonso Mendes de Besteiros
Senhor Fremosa, Vejo-Me Morrer
Senhor fremosa, vejo-me morrer;
e a mi praz, e mui de coraçom,
co'a mia mort', assi Deus mi perdom,
por aquesto que vos quero dizer:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
Per bõa fé, de mia mort'hei sabor,
e bem vos juro que há gram sazom
que rog'a Deus por mort', e por al nom,
por aquesto que vos digo, senhor:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E, per bõa fé, gram sabor per hei
com mia morte, per quant'eu entendi
que vos prazia; e pois est assi,
muito mi praz polo que vos direi:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en.
Ca de viver mais nom m'era mester;
e praz-mi muit'em morrer des aqui
por vós. E tenho que mi Deus [faz] i
bem, mia senhor, polo que vos disser:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E bem vos juro, senhor, que m'é bem
co'[a] mia morte, pois a vós praz en.
e a mi praz, e mui de coraçom,
co'a mia mort', assi Deus mi perdom,
por aquesto que vos quero dizer:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
Per bõa fé, de mia mort'hei sabor,
e bem vos juro que há gram sazom
que rog'a Deus por mort', e por al nom,
por aquesto que vos digo, senhor:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E, per bõa fé, gram sabor per hei
com mia morte, per quant'eu entendi
que vos prazia; e pois est assi,
muito mi praz polo que vos direi:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en.
Ca de viver mais nom m'era mester;
e praz-mi muit'em morrer des aqui
por vós. E tenho que mi Deus [faz] i
bem, mia senhor, polo que vos disser:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E bem vos juro, senhor, que m'é bem
co'[a] mia morte, pois a vós praz en.
720
Afonso Mendes de Besteiros
Cativ'! E Sempre Cuidarei?
Cativ'! E sempre cuidarei?
E cuido, se Deus mi perdom!
Ar cuido no meu coraçom
que já per cuidar morrerei;
e cuido muit'em mia senhor,
ar cuid'em haver seu amor.
[...]
E cuido, se Deus mi perdom!
Ar cuido no meu coraçom
que já per cuidar morrerei;
e cuido muit'em mia senhor,
ar cuid'em haver seu amor.
[...]
634
Virgílio Martinho
A Noite Sabe
Preciso da noite para ser poema,
da hora tardia para ser o outro eu,
da palavra emergir dentro de mim,
de estar só como a estátua do jardim.
Tarde comecei, pelo fim dos meus dias,
digo, no termo da viagem, a noite sabe,
o Virgílio branqueou, o guerreiro foi-se,
no túnel a morte é o sinal esperado.
Na noite vejo a maçã encarnada,
polposa na fruteira, cofre de memórias,
saindo uma a uma, visões, imagens
rostos diluídos, são antigas histórias.
Sei, recordar é não ver quem vive
é percorrer gastos empedrados
apostar errado, perder
da hora tardia para ser o outro eu,
da palavra emergir dentro de mim,
de estar só como a estátua do jardim.
Tarde comecei, pelo fim dos meus dias,
digo, no termo da viagem, a noite sabe,
o Virgílio branqueou, o guerreiro foi-se,
no túnel a morte é o sinal esperado.
Na noite vejo a maçã encarnada,
polposa na fruteira, cofre de memórias,
saindo uma a uma, visões, imagens
rostos diluídos, são antigas histórias.
Sei, recordar é não ver quem vive
é percorrer gastos empedrados
apostar errado, perder
932
Virgílio Martinho
A Noite Sabe
Preciso da noite para ser poema,
da hora tardia para ser o outro eu,
da palavra emergir dentro de mim,
de estar só como a estátua do jardim.
Tarde comecei, pelo fim dos meus dias,
digo, no termo da viagem, a noite sabe,
o Virgílio branqueou, o guerreiro foi-se,
no túnel a morte é o sinal esperado.
Na noite vejo a maçã encarnada,
polposa na fruteira, cofre de memórias,
saindo uma a uma, visões, imagens
rostos diluídos, são antigas histórias.
Sei, recordar é não ver quem vive
é percorrer gastos empedrados
apostar errado, perder
da hora tardia para ser o outro eu,
da palavra emergir dentro de mim,
de estar só como a estátua do jardim.
Tarde comecei, pelo fim dos meus dias,
digo, no termo da viagem, a noite sabe,
o Virgílio branqueou, o guerreiro foi-se,
no túnel a morte é o sinal esperado.
Na noite vejo a maçã encarnada,
polposa na fruteira, cofre de memórias,
saindo uma a uma, visões, imagens
rostos diluídos, são antigas histórias.
Sei, recordar é não ver quem vive
é percorrer gastos empedrados
apostar errado, perder
932
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 106
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 106
Afonso Lopes de Baião
Madre, Des Que Se Foi Daqui
Madre, des que se foi daqui
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
743
Virgílio Martinho
O Jovem Azul
O jovem azul não é o amor,
O jovem azul chama-se sonho,
O jovem azul é espacial,
É azul,
Mas não tem asas de anjo,
Não tem.
Azul é uma cor não é um jovem azul,
É coisa sem asas, quase um barco,
Com um coração de fora,
Talvez um cogumelo,
Nunca saberei o que o jovem azul é.
Neste saber e não saber,
Percorro lento o sonho antigo,
Enquanto subo a escadaria,
Passo a passo,
Como qualquer um a que o azul assiste.
Chego assim ao limite de cima,
De sonho feito com máscara arlequim,
Sem conhecer o meu sonho azul,
Sem ao menos lhe conhecer o fim.
O jovem azul chama-se sonho,
O jovem azul é espacial,
É azul,
Mas não tem asas de anjo,
Não tem.
Azul é uma cor não é um jovem azul,
É coisa sem asas, quase um barco,
Com um coração de fora,
Talvez um cogumelo,
Nunca saberei o que o jovem azul é.
Neste saber e não saber,
Percorro lento o sonho antigo,
Enquanto subo a escadaria,
Passo a passo,
Como qualquer um a que o azul assiste.
Chego assim ao limite de cima,
De sonho feito com máscara arlequim,
Sem conhecer o meu sonho azul,
Sem ao menos lhe conhecer o fim.
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Virgílio Martinho
O Limiar
Numa casa entre o castelo e o rio,
A mãe dos dentes brancos sofria,
De dentro dela um menino solar,
Vindo das águas maternais, nascia.
Antes e depois o mesmo crepúsculo,
As mesmas matérias cor de salsa,
Uma expulsão lenta, uma certa vida,
Que vem do escuro para a luz do dia.
As suas pequenas mãos fecharam-se,
Era dele o cenário, o mundo todo,
Menino de coração fora do peito,
Menino de olhos fundos cor de lodo.
Mãe, tu viste da janela antiga,
Entre o castelo e o rio,
Uma estrela de sete pontas
A cintilar em águas maternais?
Era eu com vida e com morte,
No líquido do meu alvorecer,
Dentro de ti para vir à luz,
Dentro de mim para viver.
A mãe dos dentes brancos sofria,
De dentro dela um menino solar,
Vindo das águas maternais, nascia.
Antes e depois o mesmo crepúsculo,
As mesmas matérias cor de salsa,
Uma expulsão lenta, uma certa vida,
Que vem do escuro para a luz do dia.
As suas pequenas mãos fecharam-se,
Era dele o cenário, o mundo todo,
Menino de coração fora do peito,
Menino de olhos fundos cor de lodo.
Mãe, tu viste da janela antiga,
Entre o castelo e o rio,
Uma estrela de sete pontas
A cintilar em águas maternais?
Era eu com vida e com morte,
No líquido do meu alvorecer,
Dentro de ti para vir à luz,
Dentro de mim para viver.
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