Poemas neste tema
Outros
Daniel Lima
Ao nasceres
Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste
865
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
761
Renato Rezende
[Azul]
Sou uma coisa morta.
Não há nada que eu possa perder agora
que já não tenha perdido antes.
Agora que eu morri posso dizer que sempre tive mesmo a saúde frágil.
Agora que morri posso assumir que sempre fui uma mulher.
Agora que morri posso simplesmente amar.
Viver ficou muito mais fácil agora. Eu deveria ter morrido antes.
Eu amo
Eu amo
Estonteantemente
Aparado, lavado, vestido, perfumado,
o corpo é imaginário
Desista de ser: seja
Nós damos o que não temos
(Conversa longa com uma moça. Mora longe, vem de balsa. Seu corpo mexe, sua boca mexe, seus lindos olhos negros mexem. Entusiasmada, me falava sobre a necessidade do escritor escrever para o seu tempo; eu, olhos perdidos, sem conseguir fazer a conexão, mal a ouvia.)
Atravessei o túnel a pé—o clarão e o azul do mar ao fundo, adiante.
Eu vivo de milagres
Eu nunca fiz nada.
A vida de qualquer um é muita, é o suficiente. A vida.
Para quem escrevo?
Importa quem fala? Precisamos sempre saber?
"Escreva!"
Seja atraído para o que ama, como um inseto para uma lâmpada.
Quebre a coluna.
Um ponto de luz que se abriu
Azul
Dedicar-me completamente ao outro
Porque o outro sou eu.
Encandilar
Quero ser mastigada:
Oh, Deus.
Ponha-me sobre o Tempo
Sempre quis uma vida maior do que a que cabia em mim.
Oh, Deus.
Quero seu pé no meu peito.
(O interesse pelo mundo
é proporcional ao interesse
pelo corpo)
O buraco é sempre mais embaixo
E agora caio
O que fazer com esse corpo?
[UM CORPO DE LUZ]
Não há nada que eu possa perder agora
que já não tenha perdido antes.
Agora que eu morri posso dizer que sempre tive mesmo a saúde frágil.
Agora que morri posso assumir que sempre fui uma mulher.
Agora que morri posso simplesmente amar.
Viver ficou muito mais fácil agora. Eu deveria ter morrido antes.
Eu amo
Eu amo
Estonteantemente
Aparado, lavado, vestido, perfumado,
o corpo é imaginário
Desista de ser: seja
Nós damos o que não temos
(Conversa longa com uma moça. Mora longe, vem de balsa. Seu corpo mexe, sua boca mexe, seus lindos olhos negros mexem. Entusiasmada, me falava sobre a necessidade do escritor escrever para o seu tempo; eu, olhos perdidos, sem conseguir fazer a conexão, mal a ouvia.)
Atravessei o túnel a pé—o clarão e o azul do mar ao fundo, adiante.
Eu vivo de milagres
Eu nunca fiz nada.
A vida de qualquer um é muita, é o suficiente. A vida.
Para quem escrevo?
Importa quem fala? Precisamos sempre saber?
"Escreva!"
Seja atraído para o que ama, como um inseto para uma lâmpada.
Quebre a coluna.
Um ponto de luz que se abriu
Azul
Dedicar-me completamente ao outro
Porque o outro sou eu.
Encandilar
Quero ser mastigada:
Oh, Deus.
Ponha-me sobre o Tempo
Sempre quis uma vida maior do que a que cabia em mim.
Oh, Deus.
Quero seu pé no meu peito.
(O interesse pelo mundo
é proporcional ao interesse
pelo corpo)
O buraco é sempre mais embaixo
E agora caio
O que fazer com esse corpo?
[UM CORPO DE LUZ]
762
Renato Rezende
[Abgrund]
Tudo vale a pena
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
724
Renato Rezende
[Abgrund]
Tudo vale a pena
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
724
Renato Rezende
[Abgrund]
Tudo vale a pena
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
724
Daniel Lima
Minha mãe era feita de incertezas
Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus solhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus solhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.
686
Renato Rezende
[Re-Nato]
O poder da respiração—entrando e saindo do corpo
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
1 001
Renato Rezende
O Muro
Quando adolescente, começou um esboço de narrativa que depois denominou O muro.
A confusa papelada tratava de narrar a história de um jovem sendo iniciado pela mão e
pelo amor de uma fantástica menina de nove anos.
Fracassou. Mas lembro-me particularmente de um trecho de O muro (outros foram
reciclados em alguns malsucedidos poemas em prosa) que me marcou por sua patética procura:
rinocerontes, cartuchos, caralhos
soteriologia, coisas & coisas, palavras...
A confusa papelada tratava de narrar a história de um jovem sendo iniciado pela mão e
pelo amor de uma fantástica menina de nove anos.
Fracassou. Mas lembro-me particularmente de um trecho de O muro (outros foram
reciclados em alguns malsucedidos poemas em prosa) que me marcou por sua patética procura:
rinocerontes, cartuchos, caralhos
soteriologia, coisas & coisas, palavras...
933
Samarone Lima de Oliveira
Resiliente
Resiliente.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
643
Renato Rezende
[Flores]
Só nos libertamos à medida que não somos esmagados.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
996
Renato Rezende
[Troll]
Da importância de não se ter amigos
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
1 079
Renato Rezende
[Troll]
Da importância de não se ter amigos
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
1 079
Renato Rezende
[Troll]
Da importância de não se ter amigos
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
1 079
Renato Rezende
[Troll]
Da importância de não se ter amigos
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
1 079
Renato Rezende
[Santo]
—é essa a humanidade que pulsa agora.
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
1 135
Renato Rezende
[Santo]
—é essa a humanidade que pulsa agora.
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
1 135
Renato Rezende
[O Dia]
Somos todos iguais, é preciso ter compaixão pelas limitações dos outros e pelas minhas também. Preciso de mais compaixão por mim mesmo. Vou deixar rolar o que está acontecendo. Por que essa agonia? Está tudo bem. Sim, existe um grande esforço interno para chegar ao ponto de encontro entre o Ser e o não-Ser, e me sinto confuso.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
1 016
Daniel Lima
Eu sou a metáfora de mim
Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
662
Daniel Lima
Eu sou a metáfora de mim
Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
662
Renato Rezende
] Corpo [
Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
1 024
Renato Rezende
[Irisar]
É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
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Renato Rezende
Dasein 04.02.05
Acordo durante a noite para mijar e envolto em manchas de luz azul percebo que a alegria
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
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