Poemas neste tema
Outros
Mauro Mota
Se ela viesse
Se ela viesse aqui, como eu desejo,
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
743
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
Lume
Apagou-se, por fim, o incerto lume,
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguía.
Apagou-se, por fim, o lume incerto...
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr'a o além era o mais perto
e pr'a voltar a mim o mais distante.
Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.
Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguía.
Apagou-se, por fim, o lume incerto...
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr'a o além era o mais perto
e pr'a voltar a mim o mais distante.
Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.
Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.
772
Mauro Mota
Versos ao meu cigarro
Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
750
Mauro Mota
VALSINHA DA BANDA DE MÚSICA MUNICIPAL
Música da
Banda Euterpina
Juvenil de
Nazaré da Mata
tocando ao
luar de prata.
(O seresteiro
achando a rima
da serenata.)
Música pelo
Natal; na festa
da padroeira.
(A procissão,
Nossa Senhora
da Conceição.)
Música nos bailes
de carnaval
e em funeral.
Seu Miguel ensaiava de noite, na Rua
da Palha, para as tocatas coletivas.
Nunca mais deixei de ouvir
as suas noturnas melodias na janela.
Sinto que ele acorda e volta de longe nesta madrugada.
Limpa a farda de tempo e areia,
vem do cemitério de São Sebastião,
vem com a sua valsa de antigamente,
vem com o seu clarinete na mão.
Banda Euterpina
Juvenil de
Nazaré da Mata
tocando ao
luar de prata.
(O seresteiro
achando a rima
da serenata.)
Música pelo
Natal; na festa
da padroeira.
(A procissão,
Nossa Senhora
da Conceição.)
Música nos bailes
de carnaval
e em funeral.
Seu Miguel ensaiava de noite, na Rua
da Palha, para as tocatas coletivas.
Nunca mais deixei de ouvir
as suas noturnas melodias na janela.
Sinto que ele acorda e volta de longe nesta madrugada.
Limpa a farda de tempo e areia,
vem do cemitério de São Sebastião,
vem com a sua valsa de antigamente,
vem com o seu clarinete na mão.
770
Olga Tokarczuk
A íris selvagem
No final do meu sofrimento
havia uma saída.
Me ouça bem: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.
Mais acima, ruídos, ramos de um pinheiro se movendo.
Então, nada. O sol fraco
cintilando sobre a superfície seca.
É terrível sobreviver
como consciência,
enterrada na terra escura.
Então tudo acabou: aquilo que você teme,
se tornando
uma alma e incapaz
de falar, encerrando abruptamente, a terra dura
se inclinando um pouco. E o que pensei serem
pássaros lançando-se em arbustos baixos.
Você que não se lembra
da passagem de outro mundo
eu te digo poderia repetir: aquilo que
retorna do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:
do centro de minha vida veio
uma vasta fonte, azul profundo
sombras na água do mar azul.
havia uma saída.
Me ouça bem: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.
Mais acima, ruídos, ramos de um pinheiro se movendo.
Então, nada. O sol fraco
cintilando sobre a superfície seca.
É terrível sobreviver
como consciência,
enterrada na terra escura.
Então tudo acabou: aquilo que você teme,
se tornando
uma alma e incapaz
de falar, encerrando abruptamente, a terra dura
se inclinando um pouco. E o que pensei serem
pássaros lançando-se em arbustos baixos.
Você que não se lembra
da passagem de outro mundo
eu te digo poderia repetir: aquilo que
retorna do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:
do centro de minha vida veio
uma vasta fonte, azul profundo
sombras na água do mar azul.
791
Olga Tokarczuk
matinas
Pai inalcançável, quando nós fomos originalmente
expulsos do paraíso, você criou
uma réplica, um lugar de alguma maneira
diferente do paraíso, sendo
planejado para ensinar uma lição: por outro lado
a mesma — beleza em cada lado, beleza
sem alternativas — Exceto que
por não sabermos qual era a lição. Deixados sós,
nós exaurimos uns aos outros. Seguiram-se
anos de trevas; nos revezamos
trabalhando no jardim, as primeiras lágrimas
encheram nossos olhos conforme a Terra
ficou turva com pétalas, algumas
vermelho-escuras, outras cor de carne —
Nós nunca pensamos em você
a quem aprendíamos a venerar.
Nós apenas sabíamos que não é da natureza humana amar
somente aquilo que retribui o amor.
expulsos do paraíso, você criou
uma réplica, um lugar de alguma maneira
diferente do paraíso, sendo
planejado para ensinar uma lição: por outro lado
a mesma — beleza em cada lado, beleza
sem alternativas — Exceto que
por não sabermos qual era a lição. Deixados sós,
nós exaurimos uns aos outros. Seguiram-se
anos de trevas; nos revezamos
trabalhando no jardim, as primeiras lágrimas
encheram nossos olhos conforme a Terra
ficou turva com pétalas, algumas
vermelho-escuras, outras cor de carne —
Nós nunca pensamos em você
a quem aprendíamos a venerar.
Nós apenas sabíamos que não é da natureza humana amar
somente aquilo que retribui o amor.
646
Mário Chamie
Os meninos
Verde, verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Nas entranhas
dos meninos,
recém-vindos,
um rio corria
para serem ágeis
como pedras lavadas.
Negra, negra madrugada.
– Todavia,
o que corria
pela estrada
era o duro
vento frio,
negro sopro
d’água parada;
poça d’água
morto rio
que secava
nas entranhas
dos meninos
sem mais nada.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Um rosto
em cada poça,
sem cavalo,
sem colheita,
terra batida
e solta,
espantalhos
pela cerca,
morta roça,
os meninos
recém-findos
eram a própria
cavalgada
de cavaleiros
fantasmas
no seu galope
de fome,
feito lobo
feito homem
feito mula sem cabeça
fugindo da noite espessa.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra cavalgada.
Negra, negra madrugada.
– Nas entranhas
dos meninos,
recém-vindos,
um rio corria
para serem ágeis
como pedras lavadas.
Negra, negra madrugada.
– Todavia,
o que corria
pela estrada
era o duro
vento frio,
negro sopro
d’água parada;
poça d’água
morto rio
que secava
nas entranhas
dos meninos
sem mais nada.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Um rosto
em cada poça,
sem cavalo,
sem colheita,
terra batida
e solta,
espantalhos
pela cerca,
morta roça,
os meninos
recém-findos
eram a própria
cavalgada
de cavaleiros
fantasmas
no seu galope
de fome,
feito lobo
feito homem
feito mula sem cabeça
fugindo da noite espessa.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra cavalgada.
773
Mauro Mota
Eu gosto muito de você
Talvez você saiba, talvez,
talvez não
saiba bem
desta muito espiritual
e romântica paixão,
que vive em meu coração,
desde a hora sonâmbula, na qual,
linda como ninguém,
você me apareceu pela primeira vez !
Eu, um fino galanteador,
─ nem precisa dizer ! como todo rapaz,
doidinho por você, que é, como ninguém, linda,
não consegui ainda
dizer-lhe uma palavra lírica de amor
ou uns versos sentimentais.
As inúmeras mulheres,
que, sempre, namorei por distração,
sabiam, logo, do meu pensamento !
No meio
esplêndido dum salão,
às vezes, muito cheio
de gente, ou em outra qualquer parte,
com um engano sutil e muita arte,
eu desfolhava os malmequeres
de suas mãos e lhes dizia, num momento,
mil frases de galanteio!
Mas você vê
que
quando me animo para
fazer-lhe uma levíssima declaração
sinto um aperto no coração!
O amor puro e sincero nunca se declara:
eu gosto muito de você!
talvez não
saiba bem
desta muito espiritual
e romântica paixão,
que vive em meu coração,
desde a hora sonâmbula, na qual,
linda como ninguém,
você me apareceu pela primeira vez !
Eu, um fino galanteador,
─ nem precisa dizer ! como todo rapaz,
doidinho por você, que é, como ninguém, linda,
não consegui ainda
dizer-lhe uma palavra lírica de amor
ou uns versos sentimentais.
As inúmeras mulheres,
que, sempre, namorei por distração,
sabiam, logo, do meu pensamento !
No meio
esplêndido dum salão,
às vezes, muito cheio
de gente, ou em outra qualquer parte,
com um engano sutil e muita arte,
eu desfolhava os malmequeres
de suas mãos e lhes dizia, num momento,
mil frases de galanteio!
Mas você vê
que
quando me animo para
fazer-lhe uma levíssima declaração
sinto um aperto no coração!
O amor puro e sincero nunca se declara:
eu gosto muito de você!
743
Mauro Mota
Eu gosto muito de você
Talvez você saiba, talvez,
talvez não
saiba bem
desta muito espiritual
e romântica paixão,
que vive em meu coração,
desde a hora sonâmbula, na qual,
linda como ninguém,
você me apareceu pela primeira vez !
Eu, um fino galanteador,
─ nem precisa dizer ! como todo rapaz,
doidinho por você, que é, como ninguém, linda,
não consegui ainda
dizer-lhe uma palavra lírica de amor
ou uns versos sentimentais.
As inúmeras mulheres,
que, sempre, namorei por distração,
sabiam, logo, do meu pensamento !
No meio
esplêndido dum salão,
às vezes, muito cheio
de gente, ou em outra qualquer parte,
com um engano sutil e muita arte,
eu desfolhava os malmequeres
de suas mãos e lhes dizia, num momento,
mil frases de galanteio!
Mas você vê
que
quando me animo para
fazer-lhe uma levíssima declaração
sinto um aperto no coração!
O amor puro e sincero nunca se declara:
eu gosto muito de você!
talvez não
saiba bem
desta muito espiritual
e romântica paixão,
que vive em meu coração,
desde a hora sonâmbula, na qual,
linda como ninguém,
você me apareceu pela primeira vez !
Eu, um fino galanteador,
─ nem precisa dizer ! como todo rapaz,
doidinho por você, que é, como ninguém, linda,
não consegui ainda
dizer-lhe uma palavra lírica de amor
ou uns versos sentimentais.
As inúmeras mulheres,
que, sempre, namorei por distração,
sabiam, logo, do meu pensamento !
No meio
esplêndido dum salão,
às vezes, muito cheio
de gente, ou em outra qualquer parte,
com um engano sutil e muita arte,
eu desfolhava os malmequeres
de suas mãos e lhes dizia, num momento,
mil frases de galanteio!
Mas você vê
que
quando me animo para
fazer-lhe uma levíssima declaração
sinto um aperto no coração!
O amor puro e sincero nunca se declara:
eu gosto muito de você!
743
Mauro Mota
A divina mentira
Eu dizia:
“Quando ela partir eu hei de chorar tanto…
Serei a imagem da melancolia
toda cheia de pranto…”
No entanto,
uma lágrima, sequer, dos meus olhos caiu…
Eu não senti saudade — a mais leve emoção! —
— Quando ela partiu
levou meu coração!…
“Quando ela partir eu hei de chorar tanto…
Serei a imagem da melancolia
toda cheia de pranto…”
No entanto,
uma lágrima, sequer, dos meus olhos caiu…
Eu não senti saudade — a mais leve emoção! —
— Quando ela partiu
levou meu coração!…
720
Mauro Mota
Sonambulismo
Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
804
Mauro Mota
DOMINGO NO RECIFE
O número encarnado no calendário,
retalho do vestido esvoaçante
na tarde de regata, derradeira
mancha de sangue,
o corpo recomposto nessa mancha
deslizando na superfície do domingo.
Domingo urbano colorido de acácias,
que acharam nesta floração apenas
as sombras dos antigos namorados
(Ó pedra tumular do banco do jardim público).
Dia nítido lavado pelo Capibaribe,
o rio ninando o Recife,
o Recife criança em seus braços maternos.
Domingos de várias ressurreições,
da mãe levando o menino para a missa,
do primeiro cinema impróprio pra menores,
do circo, do clarinete de “seu” Miguel.
Domingo colonial imutável no bairro de São José.
Vêm da igreja a música do órgão e as vozes femininas
de dois séculos.
Um voo de pomba acaricia o espaço quieto.
O Espírito Santo baixará no pátio de São Pedro.
Domingo feito de silêncio e sombras descendo a escada,
perturbas somente a paz dos arquivos,
libertas o tempo prisioneiro nas gavetas.
As palavras das cartas soam como vozes,
as dedicatórias saem do mutismo
da caligrafia para os lábios úmidos dos retratos.
Exuma-se o baralho
na mesa de jantar (as primas em dezembro)
os valetes dormindo para sempre,
as damas louras consumidas.
Vejo, do cais da Rua da Aurora, o domingo fugindo nas ioles,
na cor da tarde, no voo dos passarinhos,
na bicicleta de Suzana.
Assisto ao suicídio do domingo no Recife,
o domingo jogando-se da torre do Diario
na música do carrilhão batendo meia-noite.
Receio de entrar na madrugada fria.
Recolho na praça as horas despedaçadas.
Quero que este domingo seja a antecipação da eternidade.
retalho do vestido esvoaçante
na tarde de regata, derradeira
mancha de sangue,
o corpo recomposto nessa mancha
deslizando na superfície do domingo.
Domingo urbano colorido de acácias,
que acharam nesta floração apenas
as sombras dos antigos namorados
(Ó pedra tumular do banco do jardim público).
Dia nítido lavado pelo Capibaribe,
o rio ninando o Recife,
o Recife criança em seus braços maternos.
Domingos de várias ressurreições,
da mãe levando o menino para a missa,
do primeiro cinema impróprio pra menores,
do circo, do clarinete de “seu” Miguel.
Domingo colonial imutável no bairro de São José.
Vêm da igreja a música do órgão e as vozes femininas
de dois séculos.
Um voo de pomba acaricia o espaço quieto.
O Espírito Santo baixará no pátio de São Pedro.
Domingo feito de silêncio e sombras descendo a escada,
perturbas somente a paz dos arquivos,
libertas o tempo prisioneiro nas gavetas.
As palavras das cartas soam como vozes,
as dedicatórias saem do mutismo
da caligrafia para os lábios úmidos dos retratos.
Exuma-se o baralho
na mesa de jantar (as primas em dezembro)
os valetes dormindo para sempre,
as damas louras consumidas.
Vejo, do cais da Rua da Aurora, o domingo fugindo nas ioles,
na cor da tarde, no voo dos passarinhos,
na bicicleta de Suzana.
Assisto ao suicídio do domingo no Recife,
o domingo jogando-se da torre do Diario
na música do carrilhão batendo meia-noite.
Receio de entrar na madrugada fria.
Recolho na praça as horas despedaçadas.
Quero que este domingo seja a antecipação da eternidade.
755
Victor Segalen
Pedra Musical
Eis o lugar onde se reconheceram os amantes
apaixonados pela flauta desigual;
Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;
Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,
Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,
Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,
Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.
Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,
E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.
Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.
Pierre Musicale
Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;
Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;
Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,
Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,
À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,
Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.
Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,
Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.
Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
apaixonados pela flauta desigual;
Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;
Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,
Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,
Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,
Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.
Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,
E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.
Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.
Pierre Musicale
Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;
Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;
Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,
Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,
À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,
Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.
Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,
Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.
Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
660
Victor Segalen
Pedra Musical
Eis o lugar onde se reconheceram os amantes
apaixonados pela flauta desigual;
Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;
Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,
Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,
Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,
Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.
Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,
E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.
Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.
Pierre Musicale
Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;
Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;
Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,
Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,
À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,
Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.
Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,
Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.
Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
apaixonados pela flauta desigual;
Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;
Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,
Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,
Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,
Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.
Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,
E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.
Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.
Pierre Musicale
Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;
Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;
Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,
Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,
À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,
Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.
Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,
Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.
Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
660
Mauro Mota
Grito de angústia
Minh’alma! Árvore! Vem de tua fronde
a encarnação da dor num grande grito!
abres os braços, gritas ao infinito,
mas a voz do silêncio é quem responde!
Tão moça és! No entanto, não sei onde
possa encontrar o bálsamo bendito
que cure a imensa chaga que se esconde
pelas entranhas do teu ventre aflito!
E a maior dor das tuas grandes dores
é a de viver aos sóis das Primaveras
sem a fecundação que, ansiosa, esperas.
Tua verdura simboliza o luto!
— Talvez fosse melhor nunca dar flores
Do que florir, somente, e não dar fruto!
a encarnação da dor num grande grito!
abres os braços, gritas ao infinito,
mas a voz do silêncio é quem responde!
Tão moça és! No entanto, não sei onde
possa encontrar o bálsamo bendito
que cure a imensa chaga que se esconde
pelas entranhas do teu ventre aflito!
E a maior dor das tuas grandes dores
é a de viver aos sóis das Primaveras
sem a fecundação que, ansiosa, esperas.
Tua verdura simboliza o luto!
— Talvez fosse melhor nunca dar flores
Do que florir, somente, e não dar fruto!
737
Mauro Mota
Grito de angústia
Minh’alma! Árvore! Vem de tua fronde
a encarnação da dor num grande grito!
abres os braços, gritas ao infinito,
mas a voz do silêncio é quem responde!
Tão moça és! No entanto, não sei onde
possa encontrar o bálsamo bendito
que cure a imensa chaga que se esconde
pelas entranhas do teu ventre aflito!
E a maior dor das tuas grandes dores
é a de viver aos sóis das Primaveras
sem a fecundação que, ansiosa, esperas.
Tua verdura simboliza o luto!
— Talvez fosse melhor nunca dar flores
Do que florir, somente, e não dar fruto!
a encarnação da dor num grande grito!
abres os braços, gritas ao infinito,
mas a voz do silêncio é quem responde!
Tão moça és! No entanto, não sei onde
possa encontrar o bálsamo bendito
que cure a imensa chaga que se esconde
pelas entranhas do teu ventre aflito!
E a maior dor das tuas grandes dores
é a de viver aos sóis das Primaveras
sem a fecundação que, ansiosa, esperas.
Tua verdura simboliza o luto!
— Talvez fosse melhor nunca dar flores
Do que florir, somente, e não dar fruto!
737
Soares de Passos
Desejo
Oh! quem nos teus braços pudera ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D'infindo prazer.
Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Falando d'além,
D'além! duma vida que sonha minha alma,
Que a terra não tem.
Eu dera este mundo, com tudo o que encerra
Por tal galardão:
Tesouros, e glórias, os tronos da terra,
Que valem, que são?
A sede que eu tenho não morre apagada
Com tal aridez:
Pudesse eu ganhá-los, e iria seu nada
Depor a teus pés.
E só desejando mais doce vitória,
Dizer-te: eis aqui
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória:
Ganhei-os por ti.
A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dor,
Se um dia embalasses, um dia somente,
Meu sonho d'amor.
Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que vale?
A vida é só vida se o amor nela acende
Seu doce fanal.
Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo,
Voando, subir;
Depois que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cair.
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D'infindo prazer.
Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Falando d'além,
D'além! duma vida que sonha minha alma,
Que a terra não tem.
Eu dera este mundo, com tudo o que encerra
Por tal galardão:
Tesouros, e glórias, os tronos da terra,
Que valem, que são?
A sede que eu tenho não morre apagada
Com tal aridez:
Pudesse eu ganhá-los, e iria seu nada
Depor a teus pés.
E só desejando mais doce vitória,
Dizer-te: eis aqui
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória:
Ganhei-os por ti.
A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dor,
Se um dia embalasses, um dia somente,
Meu sonho d'amor.
Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que vale?
A vida é só vida se o amor nela acende
Seu doce fanal.
Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo,
Voando, subir;
Depois que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cair.
1 010
Mário Chamie
O TOLO E O SÁBIO
O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.
Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.
Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.
Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.
Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.
1 010
Mauro Mota
CHUVA DE VENTO
De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?
Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.
(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)
De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?
Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?
Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?
Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.
(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)
De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?
Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?
Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
806
Fernando Echevarría
Que Glória tão Completa
Que glória tão completa não estar nunca
onde ela sobe da multidão. Que glória
é ordem alastrando da estrutura
pela massa de vir a ser a obra
até que ser em si tanto a institua
que ser em si seja uma luz à volta.
E, que glória, perder-nos pela funda
atenção à tarefa, quando a nossa
corporeidade apenumbra
estarmos destruindo alguma sombra.
Então o afinco da paciência a blusa
quase ilumina. E as horas,
na oficina do tempo, ampliam sua
ondeação de se ir perdendo a história.
onde ela sobe da multidão. Que glória
é ordem alastrando da estrutura
pela massa de vir a ser a obra
até que ser em si tanto a institua
que ser em si seja uma luz à volta.
E, que glória, perder-nos pela funda
atenção à tarefa, quando a nossa
corporeidade apenumbra
estarmos destruindo alguma sombra.
Então o afinco da paciência a blusa
quase ilumina. E as horas,
na oficina do tempo, ampliam sua
ondeação de se ir perdendo a história.
716
Fernando Echevarría
Que Glória tão Completa
Que glória tão completa não estar nunca
onde ela sobe da multidão. Que glória
é ordem alastrando da estrutura
pela massa de vir a ser a obra
até que ser em si tanto a institua
que ser em si seja uma luz à volta.
E, que glória, perder-nos pela funda
atenção à tarefa, quando a nossa
corporeidade apenumbra
estarmos destruindo alguma sombra.
Então o afinco da paciência a blusa
quase ilumina. E as horas,
na oficina do tempo, ampliam sua
ondeação de se ir perdendo a história.
onde ela sobe da multidão. Que glória
é ordem alastrando da estrutura
pela massa de vir a ser a obra
até que ser em si tanto a institua
que ser em si seja uma luz à volta.
E, que glória, perder-nos pela funda
atenção à tarefa, quando a nossa
corporeidade apenumbra
estarmos destruindo alguma sombra.
Então o afinco da paciência a blusa
quase ilumina. E as horas,
na oficina do tempo, ampliam sua
ondeação de se ir perdendo a história.
716
Fernando Echevarría
Que Glória tão Completa
Que glória tão completa não estar nunca
onde ela sobe da multidão. Que glória
é ordem alastrando da estrutura
pela massa de vir a ser a obra
até que ser em si tanto a institua
que ser em si seja uma luz à volta.
E, que glória, perder-nos pela funda
atenção à tarefa, quando a nossa
corporeidade apenumbra
estarmos destruindo alguma sombra.
Então o afinco da paciência a blusa
quase ilumina. E as horas,
na oficina do tempo, ampliam sua
ondeação de se ir perdendo a história.
onde ela sobe da multidão. Que glória
é ordem alastrando da estrutura
pela massa de vir a ser a obra
até que ser em si tanto a institua
que ser em si seja uma luz à volta.
E, que glória, perder-nos pela funda
atenção à tarefa, quando a nossa
corporeidade apenumbra
estarmos destruindo alguma sombra.
Então o afinco da paciência a blusa
quase ilumina. E as horas,
na oficina do tempo, ampliam sua
ondeação de se ir perdendo a história.
716
Armando Cortes-Rodrigues
Ergo Meus Olhos
Ergo meus olhos vagos, na distância
Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim além, e a minha Ânsia
Cansa de me viver.
Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escuridão
Da vida que vivi.
Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
Silêncio, prece, comunhão sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
Tortura do meu fim,
Alma ungida
E perdida
Na grandeza de Si. E já sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
Agonizo de Ser-me.
Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim além, e a minha Ânsia
Cansa de me viver.
Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escuridão
Da vida que vivi.
Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
Silêncio, prece, comunhão sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
Tortura do meu fim,
Alma ungida
E perdida
Na grandeza de Si. E já sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
Agonizo de Ser-me.
915
Fernando Echevarría
A Nossa Inteligência as Está Vendo
A nossa inteligência as está vendo
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca músculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas diáfanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca músculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas diáfanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.
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