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Mauro Mota

Mauro Mota

DOMINGO NO RECIFE

O número encarnado no calendário,
retalho do vestido esvoaçante
na tarde de regata, derradeira
mancha de sangue,
o corpo recomposto nessa mancha
deslizando na superfície do domingo.

Domingo urbano colorido de acácias,
que acharam nesta floração apenas
as sombras dos antigos namorados
(Ó pedra tumular do banco do jardim público).

Dia nítido lavado pelo Capibaribe,
o rio ninando o Recife,
o Recife criança em seus braços maternos.
Domingos de várias ressurreições,
da mãe levando o menino para a missa,
do primeiro cinema impróprio pra menores,
do circo, do clarinete de “seu” Miguel.

Domingo colonial imutável no bairro de São José.
Vêm da igreja a música do órgão e as vozes femininas
de dois séculos.
Um voo de pomba acaricia o espaço quieto.
O Espírito Santo baixará no pátio de São Pedro.

Domingo feito de silêncio e sombras descendo a escada,
perturbas somente a paz dos arquivos,
libertas o tempo prisioneiro nas gavetas.
As palavras das cartas soam como vozes,
as dedicatórias saem do mutismo
da caligrafia para os lábios úmidos dos retratos.

Exuma-se o baralho
na mesa de jantar (as primas em dezembro)
os valetes dormindo para sempre,
as damas louras consumidas.

Vejo, do cais da Rua da Aurora, o domingo fugindo nas ioles,
na cor da tarde, no voo dos passarinhos,
na bicicleta de Suzana.

Assisto ao suicídio do domingo no Recife,
o domingo jogando-se da torre do Diario
na música do carrilhão batendo meia-noite.

Receio de entrar na madrugada fria.
Recolho na praça as horas despedaçadas.
Quero que este domingo seja a antecipação da eternidade.
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Victor Segalen

Victor Segalen

Pedra Musical

Eis o lugar onde se reconheceram os amantes
apaixonados pela flauta desigual;

Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;

Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,

Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,

Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,

Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.

Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,

E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.

Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.



Pierre Musicale

Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;


Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;


Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,


Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,


À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,


Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.


Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,


Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.

Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
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Victor Segalen

Victor Segalen

Pedra Musical

Eis o lugar onde se reconheceram os amantes
apaixonados pela flauta desigual;

Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;

Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,

Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,

Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,

Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.

Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,

E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.

Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.



Pierre Musicale

Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;


Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;


Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,


Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,


À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,


Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.


Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,


Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.

Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
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