Poemas neste tema
Outros
Mailson Furtado Viana
das amizades distantes
o poeta escreveu algo
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
672
Mailson Furtado Viana
das amizades distantes
o poeta escreveu algo
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
672
Maria Lúcia Dal Farra
Natureza-morta vivente
Culpa do delicado voo da andorinha,
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.
Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.
É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.
Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:
álcool volatizado na direção
do arremesso.
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.
Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.
É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.
Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:
álcool volatizado na direção
do arremesso.
698
Maria Lúcia Dal Farra
Natureza-morta vivente
Culpa do delicado voo da andorinha,
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.
Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.
É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.
Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:
álcool volatizado na direção
do arremesso.
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.
Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.
É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.
Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:
álcool volatizado na direção
do arremesso.
698
Maria Lúcia Dal Farra
Vida cava
Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
662
Maria Lúcia Dal Farra
Loucura
A órbita da loucura é imensa.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
717
António Carlos Cortez
Resposta a Drummond
É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
1 114
António Carlos Cortez
Ao leitor
Escreves quando as fábulas escavas.
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?
E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és
ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos
aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?
E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és
ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos
aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
683
António Carlos Cortez
Ao leitor
Escreves quando as fábulas escavas.
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?
E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és
ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos
aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?
E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és
ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos
aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
683
António Carlos Cortez
Ao leitor
Escreves quando as fábulas escavas.
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?
E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és
ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos
aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?
E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és
ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos
aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
683
António Carlos Cortez
Um barco no rio
Rompem barcos
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
812
Maria Lúcia Dal Farra
Abóbora
Despojo-me de tudo quanto tenho
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
855
Mailson Furtado Viana
naquele tempo
naquele tempo
a tia me disse que
na enciclopédia de tudo havia
— o mundo lá está.
o veria de perto
__________—
__________mas varjota lá não ‘tava
__________nem o açude
__________nem
__________o gol que fiz na rua
__________muito menos o pé-de-seriguela no quintal
__________ou seu antônio no balanço à calçada
a gente era tão longe
do mundo
já não sabia bem
por birra
na enciclopédia
o trouxe pra casa
e por cinco dias
na estante o guardei
a tia me disse que
na enciclopédia de tudo havia
— o mundo lá está.
o veria de perto
__________—
__________mas varjota lá não ‘tava
__________nem o açude
__________nem
__________o gol que fiz na rua
__________muito menos o pé-de-seriguela no quintal
__________ou seu antônio no balanço à calçada
a gente era tão longe
do mundo
já não sabia bem
por birra
na enciclopédia
o trouxe pra casa
e por cinco dias
na estante o guardei
699
Mailson Furtado Viana
naquele tempo
naquele tempo
a tia me disse que
na enciclopédia de tudo havia
— o mundo lá está.
o veria de perto
__________—
__________mas varjota lá não ‘tava
__________nem o açude
__________nem
__________o gol que fiz na rua
__________muito menos o pé-de-seriguela no quintal
__________ou seu antônio no balanço à calçada
a gente era tão longe
do mundo
já não sabia bem
por birra
na enciclopédia
o trouxe pra casa
e por cinco dias
na estante o guardei
a tia me disse que
na enciclopédia de tudo havia
— o mundo lá está.
o veria de perto
__________—
__________mas varjota lá não ‘tava
__________nem o açude
__________nem
__________o gol que fiz na rua
__________muito menos o pé-de-seriguela no quintal
__________ou seu antônio no balanço à calçada
a gente era tão longe
do mundo
já não sabia bem
por birra
na enciclopédia
o trouxe pra casa
e por cinco dias
na estante o guardei
699
António Carlos Cortez
Poesia realista
É esta a rua
O rio da vida
A vida tua
Quem por demasiado
tempo se entregou
ao exercício
de escrever
como quem morre
e quer viver
saberá um dia
se foi de verdade
amado?
Não é a escrita
essa rede realista
que agarra a vida
nas malhas de fogo
ou no trânsito do cianeto?
Quem escreve saberá
que escrevendo prolonga
o dia acabado
em mais uma noite
longa como
corpo esgotado?
O rio da vida
A vida tua
Quem por demasiado
tempo se entregou
ao exercício
de escrever
como quem morre
e quer viver
saberá um dia
se foi de verdade
amado?
Não é a escrita
essa rede realista
que agarra a vida
nas malhas de fogo
ou no trânsito do cianeto?
Quem escreve saberá
que escrevendo prolonga
o dia acabado
em mais uma noite
longa como
corpo esgotado?
730
António Carlos Cortez
Poesia realista
É esta a rua
O rio da vida
A vida tua
Quem por demasiado
tempo se entregou
ao exercício
de escrever
como quem morre
e quer viver
saberá um dia
se foi de verdade
amado?
Não é a escrita
essa rede realista
que agarra a vida
nas malhas de fogo
ou no trânsito do cianeto?
Quem escreve saberá
que escrevendo prolonga
o dia acabado
em mais uma noite
longa como
corpo esgotado?
O rio da vida
A vida tua
Quem por demasiado
tempo se entregou
ao exercício
de escrever
como quem morre
e quer viver
saberá um dia
se foi de verdade
amado?
Não é a escrita
essa rede realista
que agarra a vida
nas malhas de fogo
ou no trânsito do cianeto?
Quem escreve saberá
que escrevendo prolonga
o dia acabado
em mais uma noite
longa como
corpo esgotado?
730
Mailson Furtado Viana
as sandálias ao canto
as sandálias ao canto
guardam teus passos
e não sabem pra diante
o horizonte
guardam caminhos
guardam distâncias
guardam a próxima esquina
guardam o fim do mundo
__________que nelas começa
guardam teus passos
e não sabem pra diante
o horizonte
guardam caminhos
guardam distâncias
guardam a próxima esquina
guardam o fim do mundo
__________que nelas começa
732
António Carlos Cortez
A sombra
a sombra (o tigre de blake) a lira breve
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
810
António Carlos Cortez
A sombra
a sombra (o tigre de blake) a lira breve
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
810
Mailson Furtado Viana
a nuvem
a nuvem
não tem nome
é e é
e pronto
não mais
não vence
_____se enlata
_____ou adula vigilância sanitária
é
antes de ser
foi
antes de nunca
ser
: elefante
guarda-chuva
uma guerra dos mundos
(sob o mar de Copacabana)
se destila nela mesma
e nunca batizou
_______vermes
_______larvas
nem mesmo a ferida de Ícaro
que morreu nele mesmo
como nuvem
que sempre foi a mesma
e nunca também
e nunca mais
será
não num avião
que as rebaixam
a terra
a terra de ninguém
a meros pedaços
__________cortados
__________guardados
numa janela
numa foto de www
como terras são guardadas
em gavetas de cartório
e cabem todas
as nuvens também
que não tem nome
__________três-por-quatro
e
já não são
não tem nome
é e é
e pronto
não mais
não vence
_____se enlata
_____ou adula vigilância sanitária
é
antes de ser
foi
antes de nunca
ser
: elefante
guarda-chuva
uma guerra dos mundos
(sob o mar de Copacabana)
se destila nela mesma
e nunca batizou
_______vermes
_______larvas
nem mesmo a ferida de Ícaro
que morreu nele mesmo
como nuvem
que sempre foi a mesma
e nunca também
e nunca mais
será
não num avião
que as rebaixam
a terra
a terra de ninguém
a meros pedaços
__________cortados
__________guardados
numa janela
numa foto de www
como terras são guardadas
em gavetas de cartório
e cabem todas
as nuvens também
que não tem nome
__________três-por-quatro
e
já não são
792
Maria Lúcia Dal Farra
A música
Flexível como a corda que a tange
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
693
Maria Lúcia Dal Farra
A música
Flexível como a corda que a tange
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
693
Maria Lúcia Dal Farra
A música
Flexível como a corda que a tange
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
693