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Osman Lins

Osman Lins

II – Flagrantes Esportivos

— Os voos sobre a neve —

O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.

As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.

Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.

(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.

§

A Cesta Enganosa

Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.

§

A Devolução do Tempo

O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.

Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)

Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
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Victor Segalen

Victor Segalen

Pedra Musical

Eis o lugar onde se reconheceram os amantes
apaixonados pela flauta desigual;

Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;

Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,

Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,

Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,

Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.

Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,

E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.

Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.



Pierre Musicale

Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;


Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;


Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,


Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,


À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,


Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.


Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,


Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.

Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
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Victor Segalen

Victor Segalen

Pedra Musical

Eis o lugar onde se reconheceram os amantes
apaixonados pela flauta desigual;

Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;

Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,

Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,

Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,

Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.

Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,

E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.

Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.



Pierre Musicale

Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;


Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;


Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,


Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,


À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,


Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.


Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,


Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.

Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
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