Temas
Poemas neste tema

Outros

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Albergue

você não viveu de verdade
até ter estado num
albergue
onde não há nada além de um único
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
são
tão profundos e
graves e
inacreditáveis –
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruídos
vindos do próprio
inferno.
você quase
perde o juízo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
não há como
suportar.
você se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dá a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
está escuro
e frio
aqui
fora.

Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensões, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
– Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chão. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparência.
– Olá, branquelo sujo!
Eu não disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
– Está atrás de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lá e para cá e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava Café Gangplank. Do meu quarto eu podia ver através das portas abertas do bar tudo o que acontecia lá dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto à noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaía. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um café imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um café da manhã caprichado – panquecas, cereais, salsicha – por quase nada.
Saí pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto à entrada de uma loja. Segui em frente.
– Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
– Está atrás de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhões. Cheiravam como mexilhões. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mãe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia até o momento em que meu pai gritava lá do quarto “Luzes apagadas!”, às oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. Não havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
– Escute, meu amigo... – ele começou.
– Sim? – perguntei.
– Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este país, mas ninguém quer me contratar, ninguém me oferece um emprego. Eles não têm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
– Estou desempregado.
– Está desempregado?
– Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
– Você está mentindo! – gritou. – Você está trabalhando. Você tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espécie de atendente, atrás de sua mesa de escritório, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortável. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puída. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anúncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensão.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. Não é necessário ter experiência. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensão.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. Tínhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperávamos. Fui o último a ser chamado.
– Sr. Chinaski, por que razão o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviária?
– Bem, não via muito futuro nesse setor.
– Eles têm bons sindicatos, planos de saúde, aposentadoria.
– Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supérfluo.
– Por que veio a Nova Orleans?
– Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
– Como pode saber que permanecerá aqui conosco por tempo suficiente?
– Não tenho como saber.
– Por quê?
– Seu anúncio diz que há um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se não houver qualquer futuro por aqui, será minha hora de partir.
– Por que não está de barba feita? Perdeu uma aposta?
– Ainda não.
– Ainda não?
– Não. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
– Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
– Não tenho telefone.
– Está tudo bem, sr. Chinaski.
Saí dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrás de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto à janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rápido – sem todos aqueles pensamentos e palavrórios. Uma questão de colhões. Perguntava-me se teria mesmo colhões para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhã, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREÇA AO ESCRITÓRIO
AMANHÃ ÀS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficávamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. Então assinávamos a fatura e empacotávamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separávamos as revistas para que fossem distribuídas pelo caminhão de entrega local. O trabalho era fácil e monótono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensão. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e não parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de várias horas, começou uma discussão entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotávamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
– Olhem – eu disse –, essas revistas não valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocês briguem por elas.
– Tudo bem – disse uma das mulheres –, nós sabemos que você se acha bom demais para esse trabalho.
– Bom demais?
– Sim, essa sua atitude. Você acha que a gente não reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que não bastava que você fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possível até paixão por ele.
Trabalhei por três ou quatro dias ali, então, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato número de horas que tínhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma série de verdinhas, além dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhão chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
– Sim, Harry – ele disse para um dos empregados –, recebi um aumento hoje. Dois dólares a mais.
Na saída, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lá.
– Sr. Heathercliff?
– Sim?
– É o Chinaski.
– Sim, sr. Chinaski?
– Quero um aumento de dois dólares.
– Como?
– Isso mesmo. O motorista do caminhão ganhou um aumento.
– Mas ele está conosco há dois anos.
– Preciso de um aumento.
– Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dólares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
– Exatamente. Vou receber ou não?
– Não podemos oferecer isso.
– Então me demito.
E desliguei.
– Factótum
1 355
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Maja Thurup

Houve ampla cobertura da imprensa e da televisão, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguém poderia imaginar que essa seria sua última jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo já há algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, já havia sinais de uma barriga. A América aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo está passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um avião para a América do Sul. Entrou na selva com sua câmera, sua máquina de escrever portátil, seus tornozelos que estão engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragédias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragédias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a média, muito maior do que a média. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trás. Não fazia diferença.
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
1 529
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Maja Thurup

Houve ampla cobertura da imprensa e da televisão, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguém poderia imaginar que essa seria sua última jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo já há algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, já havia sinais de uma barriga. A América aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo está passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um avião para a América do Sul. Entrou na selva com sua câmera, sua máquina de escrever portátil, seus tornozelos que estão engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragédias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragédias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a média, muito maior do que a média. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trás. Não fazia diferença.
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
1 529
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Poema Para Os Cachorros Perdidos

aquele sentimento bom e raro vem nos momentos mais estranhos: certa vez,
depois de dormir
no banco de um parque numa cidade estranha acordei, minhas roupas
úmidas pelo leve sereno e me levantei e comecei a seguir para leste
direto para
a direção em que se erguia o sol e dentro de mim havia uma alegria sutil que
simplesmente estava ali.
em outra ocasião depois de pegar uma prostituta de rua seguimos às
duas da manhã lado a lado sob o luar
em direção ao meu quarto barato mas eu não desejava levá-la para cama.
a alegria cândida brotou do simples fato de caminhar ao lado dela neste
universo
confuso – éramos companheiros, estranhos companheiros caminhando
juntos,
sem dizer nada.
sua echarpe branca e púrpura pendia de sua bolsa – flutuando no
escuro
enquanto caminhávamos
e a música poderia ter vindo da luz da lua.
então houve o tempo
em que fui despejado por não pagar o aluguel e carreguei as coisas da minha
mulher até a porta de um estranho e a vi desaparecer lá
dentro, fiquei ali um instante, ouvi primeiro a risada dela, depois a dele, então
parti.
eu seguia sozinho, eram dez da manhã e fazia calor, o
sol me cegava e tudo o que eu percebia era o som de
meus sapatos no calçamento. então
ouvi uma voz. “ei, parceiro, tem algum aí?”
olhei naquela direção e vi três mendigos de meia-idade sentados contra o muro,
as faces coradas,
ridiculamente acabados e perdidos. “quanto falta para
completar a garrafa?” perguntei. “24 centavos”, disse um
deles. Meti a mão no
bolso, apanhei todos os trocados que eu tinha e lhe entreguei. “porra, meu velho,
muito
obrigado!” ele disse.
Segui em frente, então senti vontade de um cigarro, vasculhei
meus
bolsos, senti um pedaço de papel, puxei-o
para fora: uma nota de 5 dólares.
noutra vez aconteceu enquanto eu brigava com o garçom, Tommy (de novo),
no
beco atrás do bar para divertimento dos fregueses, eu levava a
costumeira
surra, todas as garotas em suas calcinhas provocantes torcendo pelo seu
irlandês musculoso (“oh, Tommy, acabe com ele, cague a pau o veado!”)
quando alguma coisa estalou em meu cérebro, meu cérebro disse apenas,
“é hora de algo a mais”, e acertei um mata-cobra pesado na parte lateral
da cabeça de Tommy e ele me olhou como dizendo: espere, isso
não está no script, e então disparei outro e pude ver o medo emergir
de dentro dele numa torrente, e o
liquidei com rapidez e então os fregueses o ajudaram a voltar para dentro
enquanto
me amaldiçoavam. O que me encheu de alegria
aquela silenciosa risada lá no fundo do peito foi saber que fiz o que fiz
porque há um limite para a resistência de qualquer homem.
segui até um bar desconhecido na outra quadra, sentei e pedi uma
cerveja.
“não servimos mendigos aqui”, me disse o atendente. “não sou um mendigo”,
eu disse, “traga a cerveja duma vez.” a cerveja
chegou, tomei logo um gole e lá estava eu.
sentimentos bons e raros surgem nos momentos mais estranhos, como agora
enquanto lhes conto tudo isso.
1 213
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nirvana

sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.

Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
2 483
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Marina:

majestosa, mágica
infinita
minha garotinha é o
sol
sobre o tapete –
porta afora
apanhando uma
flor, rá!,
um velho,
cansado de guerra
emerge de sua
cadeira
e ela me olha
mas vê apenas
amor,
rá!, e eu me torno
rápido com o mundo
e amo de imediato
assim como eu havia sido criado
para fazer.

O bebê engatinhava, descobrindo o mundo. Marina dormia na cama com a gente à noite. Lá estava Marina, Fay, o gato e eu. O gato também dormia na cama. Veja só, pensei, tenho três bocas dependendo de mim. Que estranho. Eu ficava ali sentado, vendo os três dormirem.
Então, por duas noites seguidas, ao chegar em casa ao amanhecer, ainda madrugada, Fay estava por ali, sentada, lendo os classificados.
– Todos esses quartos são o olho da cara – ela disse.
– Claro – eu disse.
Na noite seguinte, enquanto ela lia o jornal, eu lhe perguntei:
– Você está se mudando?
– Sim.
– Tudo bem. Eu ajudo você a encontrar um lugar amanhã. Damos uma volta por aí.
Concordei em lhe pagar uma soma cada mês. Ela disse:
– Tudo bem.
Fay ficou com a garota. Eu com o gato.
Encontramos um lugar que ficava a oito ou dez quadras. Ajudei-a na mudança, disse adeus à menina e dirigi de volta pra casa.
Eu aparecia para ver Marina duas ou três ou quatro vezes por semana. Sabia que enquanto pudesse ver a garota eu estaria bem.
Fay continuava se vestindo de preto em protesto contra a guerra. Participava de manifestações locais pela paz, encontros de amor livre, ia a leituras de poesia, oficinas, reuniões do partido comunista, e ficava sentada num café hippie. Levava a menina consigo. Se ela não saía, ficava em casa, sentada numa cadeira, fumando cigarro atrás de cigarro e lendo. Usava buttons de protesto em sua blusa preta. Mas normalmente ela estava na rua com a menina quando eu ia lá visitá-la.
Um dia, afinal, consegui pegá-las em casa. Fay comia sementes de girassol com iogurte. Ela assava o próprio pão, mas não era lá muito comestível.
– Conheci Andy, um cara que é motorista de caminhão – ela me disse. – Ele pinta nas horas vagas. Aí está um dos quadros. – Fay apontou para a parede.
Eu brincava com a garota. Olhei para a pintura. Não disse nada.
– Ele tem um pau enorme – disse Fay. – Ele esteve aqui noite dessas e me perguntou, “Como você quer que eu coma você com o meu pauzão?” e eu lhe disse que “preferia ser comida com amor!”.
– Ele fala como um desses caras que conhecem a vida – eu disse a ela.
Brinquei com a menina por mais um tempo, então parti. Eu tinha uma prova de método se aproximando.
Logo depois disso, recebi uma carta de Fay. Ela e a criança estavam vivendo numa comunidade hippie no Novo México. Era um lugar legal, ela disse. Marina poderia respirar ar puro por lá. Mandou junto um pequeno desenho que a menina havia feito para mim.
– Cartas na rua
1 602
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas...

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a vitrola
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
então, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lá de cima
e depois a face de um homem juntou-se à dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o rapazinho está assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
não fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxá-lo pela orelha e então pensei, não, esse não pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, você fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, então eles pararam e nós voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas não importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bêbado em um bar
após ter caído na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e não me importei e
pus um níquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 157
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas...

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a vitrola
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
então, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lá de cima
e depois a face de um homem juntou-se à dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o rapazinho está assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
não fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxá-lo pela orelha e então pensei, não, esse não pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, você fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, então eles pararam e nós voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas não importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bêbado em um bar
após ter caído na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e não me importei e
pus um níquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 157
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas...

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a vitrola
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
então, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lá de cima
e depois a face de um homem juntou-se à dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o rapazinho está assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
não fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxá-lo pela orelha e então pensei, não, esse não pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, você fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, então eles pararam e nós voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas não importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bêbado em um bar
após ter caído na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e não me importei e
pus um níquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 157
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Saboreio As Cinzas de Tua Morte

as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.

Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
1 097
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Consumação do Pesar

ainda escuto as montanhas
o modo como elas riem
de cima a baixo por seus perfis azuis
e mergulhando na água
os peixes lamentam
e toda a água
é fruto de suas lágrimas.
escuto as águas
nas noites de bebedeira
e a tristeza é tanta que posso
ouvi-la em meu relógio
transforma-se nos puxadores da minha cômoda
transforma-se no papel sobre o chão
transforma-se numa calçadeira
no bilhete da lavanderia
transforma-se
na fumaça do cigarro
escalando uma capela de videiras negras...
pouco importa
um pouquinho só de amor não é tão mal assim
ou um pouquinho só de vida
o que realmente importa
é esperar entre paredes
eu nasci para isso
nasci para arrastar rosas pelas avenidas da morte.

Minha mãe gritou ao abrir a porta.
– Filho, é você, filho?
– Preciso dormir um pouco.
– Sua cama está sempre pronta.
Segui até o quarto, me despi e deitei na cama. Fui acordado por volta das seis da tarde pela minha mãe.
– Seu pai está em casa.
Levantei-me e comecei a me vestir. O jantar estava servido quando entrei na sala.
Meu pai era um homem grande, mais alto do que eu, e tinha os olhos castanhos. Os meus eram verdes. Seu nariz era largo demais e não havia como não reparar em suas orelhas: pareciam prestes a fugir de sua cabeça.
– Escute – ele disse –, se você quiser ficar por aqui, vou lhe cobrar pelo quarto, pela comida e mais o serviço de lavanderia. Quando você arranjar um trabalho, o que você nos deve será subtraído de seu salário até que sua dívida conosco esteja encerrada.
Comemos em silêncio.
Minha dívida com quarto, comida, roupa lavada etc. já estava tão alta que foram precisos vários salários para liquidá-la. Assim que isso aconteceu, me mudei de imediato. Eu não tinha condições de pagar os preços praticados lá em casa. Encontrei uma pensão próxima ao trabalho. Fazer a mudança não era difícil. Minhas coisas não enchiam nem a metade de uma mala...
Mama Strader era minha senhoria, uma ruiva apagada de boa aparência, muitos dentes de ouro e um namorado velhusco. Chamou-me na cozinha, logo na primeira manhã, e disse que me daria um copo de uísque se eu fosse lá fora alimentar as galinhas. Depois de cumprir a missão, sentei-me para beber com Mama e seu namorado, Al. Estava uma hora atrasado para o trabalho.
Na segunda noite, houve uma batida na minha porta. Era uma gorda já entrada nos quarenta. Trazia uma garrafa de vinho.
– Moro num quarto do outro lado do corredor, me chamo Martha. Você está sempre escutando boa música. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Vestia uma espécie de bata verde e, depois de alguns copos de vinho, começou a me mostrar suas pernas.
– Tenho pernas legais.
– Sou vidrado em pernas.
– Olhe mais pra cima.
Suas pernas eram muito brancas, gorduchas, flácidas, com veias roxas e protuberantes. Martha me contou sua história.
Era uma prostituta. Tinha percorrido todo o circuito dos bares. Sua principal fonte de renda era o dono de uma loja de departamentos.
– Ele me dá dinheiro. Vou até a loja dele e levo tudo o que quero. Os vendedores não me incomodam. Ele disse pra me deixarem em paz. Ele não quer que a mulher saiba que eu trepo muito melhor do que ela.
Martha se levantou e ligou o rádio. Alto.
– Sou uma ótima dançarina – ela disse. – Veja como eu danço!
Ela girava dentro daquela barraca verde, dando chutes no ar. Estava longe de ser o que alardeava. Logo a bata passava da linha de sua cintura, e ela começou a balançar a bunda bem junto ao meu rosto. A calcinha rosa tinha um enorme furo sobre o glúteo direito. Então a bata já era, e ela ficou só de calcinha. Logo todas as suas vestes estavam no chão, e ela seguiu com o número. Seus pelos pubianos quase desapareciam debaixo da barriga frouxa, que não parava de balançar.
O suor fazia com que sua maquiagem escorresse. Subitamente seus olhos se estreitaram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela se jogou sobre mim antes que eu pudesse reagir. Sua boca já aberta foi pressionada contra a minha. Tinha gosto de cuspe e cebolas e vinho barato e (imaginei) dos espermas de quatrocentos homens. Enfiou sua língua na minha boca. Estava grossa pela quantidade de saliva, o que me fez engasgar e empurrá-la para longe. Ela se pôs de joelhos, baixou meu zíper, e em um segundo meu pau frouxo estava em sua boca. Ela chupou e bateu. Martha usava uma pequena fita amarela em seu cabelo grisalho e curto. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pênis subiu; ela gemeu e me deu uma mordida. Gritei, segurei-a pelos cabelos e a afastei. Fiquei de pé no centro do quarto, aterrorizado e ferido. Tocavam uma sinfonia do Mahler no rádio. Antes que eu pudesse me mover, ela estava novamente de joelhos. Agarrou minhas bolas sem qualquer piedade com as duas mãos. Sua boca se abriu, ela me tomou; sua cabeça ia e vinha, chupando, masturbando. Ela me obrigou a deitar no chão, dando um tremendo puxão no meu saco, quase partindo meu pau ao meio com os dentes. Os sons da chupada enchiam o quarto, enquanto o rádio tocava Mahler. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pau endureceu, coberto de cuspe e sangue. A visão daquilo a enlouqueceu. Era como ser devorado vivo.
Se eu gozar, pensei em desespero, jamais me perdoarei.
Quando consegui dar um jeito de agarrar seus cabelos para afastá-la, ela apertou novamente minhas bolas e as esmagou sem pena. Seus dentes cravaram na metade do meu pau como se quisessem, feito uma tesoura, parti-lo ao meio. Gritei, soltei-lhe o cabelo, deitei no chão. Sua cabeça seguia em ação, sem qualquer remorso. Tinha certeza de que essa chupada podia ser ouvida ao longo de toda a pensão.
– NÃO! – gritei.
Ela prosseguiu com uma fúria inumana. Comecei a gozar. Era como sugar o interior de uma serpente que estivesse presa. Sua fúria mesclava-se à loucura; ela engoliu todo o esperma, fazendo-o gorgolejar em sua garganta. Ela continuou masturbando e chupando.
– Martha! Chega! Acabou!
Ela não iria parar. Era como se tivesse se transformado numa enorme boca, capaz de devorar tudo. Continuou chupando e masturbando. Seguiu e seguiu.
– NÃO! – gritei novamente.
Desta vez ela bebeu como se fosse uma batida de baunilha, de canudinho.
Desfaleci. Ela se ergueu e começou a se vestir. Cantou:
“When a New York baby says goodnight
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
milkman’s on his way home…”[8]
Com esforço fiquei de pé, agarrando-me aos bolsos da minha calça em busca da carteira. Saquei uma nota de US$ 5, passei a ela. Pegou a nota e enfiou-a entre os seios, pela parte frontal do vestido, deu mais uma agarrada, bem faceira, nas minhas bolas, apertou-as, soltou e seguiu bailando quarto afora.
Trabalhei o tempo necessário para juntar o dinheiro para comprar uma passagem para outro lugar qualquer, mais uns poucos dólares para as despesas iniciais. Larguei o emprego, peguei o mapa dos Estados Unidos e dei uma olhada. Decidi-me por Nova York.
Coloquei cinco garrafas de uísque dentro da mala que levei comigo no ônibus. Toda vez que alguém sentava ao meu lado e começava a falar, eu puxava uma das garrafas e dava um longo trago. Cheguei lá.
A rodoviária de Nova York ficava próxima a Times Square. Ganhei a rua com minha velha mala. Anoitecia. As pessoas saíam em grandes enxames das estações do metrô. Como insetos, sem rostos, dementes, elas se lançavam sobre mim, me cercavam, em grande intensidade. Batiam-se e se empurravam, faziam sons terríveis.
Busquei refúgio no vão de uma porta e terminei a última das garrafas.
Então segui em frente, empurrando, acotovelando, até avistar um sinal de “há vagas” na Terceira Avenida. A gerente era uma velha senhora judia.
– Preciso de um quarto – disse-lhe.
– Precisa de um bom terno, meu garoto.
– Estou falido.
– É um terno dos bons, uma pechincha. Meu marido toca a alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei por meu quarto, levei a mala para o andar de cima. Depois a acompanhei até o outro lado da rua.
– Herman, mostre o terno ao garoto.
– Ah, é um ótimo terno.
Herman o trouxe lá de dentro; era azul-marinho, um pouco gasto.
– Parece muito pequeno.
– Não, não, vai servir direitinho.
Saiu de trás do balcão com o terno.
– Aqui. Experimente o paletó.
Herman me ajudou a vesti-lo.
– Viu só? Serve... Quer provar a calça?
Segurou-a na minha frente. Ia da minha cintura aos dedos do pé.
– Parece bem.
– Dez dólares.
– Estou falido.
– Sete dólares.
Dei a Herman os sete dólares, levei o terno para o meu quarto, escada acima. Saí atrás de uma garrafa de vinho. Ao voltar, tranquei a porta, tirei a roupa, preparava-me para a primeira noite verdadeira de sono em um bom tempo.
Deitei na cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas para ter um bom apoio, respirei fundo e sentei na escuridão olhando a janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho.
Subitamente o quarto se encheu de luz. Houve um estrépito e um rugido. A linha elevada do trem passava ao nível da minha janela. Havia uma estação do metrô ali. Olhei para a fila de rostos nova-iorquinos, que me olharam de volta. O trem se demorou e, então, partiu. O quarto ficou escuro. Logo voltou a se encher de luz. Outra vez olhei para os rostos. Era como uma visão do inferno constantemente repetida. Cada novo carregamento de rostos era mais feio, demente e cruel que o anterior. Bebi o vinho.
Aquilo continuou: escuridão, depois luz; luz, depois escuridão. Terminei a garrafa e fui em busca de mais. Voltei, tirei a roupa, retornei para a cama. As partidas e chegadas dos rostos continuavam; era como se eu estivesse tendo uma visão. Eu era visitado por centenas de demônios que o diabo em pessoa não podia tolerar. Bebi mais vinho.
Finalmente me levantei e peguei meu terno novo no armário. Vesti o paletó. Estava apertado. Parecia menor do que quando o experimentei na alfaiataria. De repente, o tecido se rasgou. O paletó abrira completamente no meio das costas. Joguei o que restara fora. Ainda tinha a calça. Enfiei as pernas. Havia botões na frente em vez de zíper. Ao tentar abotoá-los, a costura abriu nos fundilhos. Passei minha mão atrás e senti minhas cuecas.
Durante quatro ou cinco dias, caminhei a esmo. Depois me embebedei por dois dias seguidos. Mudei do meu quarto e fui para o Greenwich Village. Certo dia, li na coluna de Walter Winchell[9] que O. Henry costumava escrever todos os seus textos na mesa de um famoso bar de escritores. Encontrei o bar e fui procurar pelo que mesmo?
Era meio-dia. Eu era o único cliente, apesar da coluna de Winchell. Fiquei ali plantado, sozinho, na frente de um enorme espelho, do bar e do atendente.
– Sinto muito, senhor, não podemos servi-lo.
Fiquei chocado, incapaz de responder. Esperei por uma explicação.
– O senhor está bêbado.
Era possível que estivesse embriagado, mas eu não bebia uma gota de álcool havia doze horas. Resmunguei alguma coisa sobre O. Henry e fui embora.
Parecia uma loja abandonada. Havia um cartaz na janela: Precisa-se de ajudante. Entrei. Um homem com um bigodinho fino me sorriu.
– Sente-se.
Deu-me uma caneta e uma ficha de inscrição, que preenchi.
– Ah? Faculdade?
– Não exatamente.
– Estamos no ramo da publicidade.
– É?
– Não está interessado?
– Bem, veja você, eu andava envolvido com pintura. Um pintor, entende? Fiquei sem dinheiro. Não conseguia vender o material.
– Chegam aqui vários desses.
– Também não gosto dos tipos.
– Alegre-se. Talvez você fique famoso depois da morte.
Seguiu falando que o trabalho acarretava, para começo de conversa, fazer o turno da noite, mas que sempre se podia ascender na carreira.
Eu lhe disse que gostava do turno da noite. Ele me disse que eu podia começar no metrô.
Dois caras mais velhos esperavam por mim. Encontrei-os dentro do metrô, onde os vagões estavam estacionados. Deram-me uma braçada de pôsteres e um pequeno instrumento de metal que parecia um abridor de latas. Subimos todos em um dos vagões estacionados.
– Veja como eu faço – disse um dos caras mais velhos.
Subiu em cima dos assentos sujos, arrancando os velhos pôsteres com seu abridor de latas ao longo do percurso. Então é assim que esses negócios vão parar ali, pensei. As pessoas os colocam ali.
Cada pôster era preso por duas tiras de metal que precisavam ser removidas para que um novo pudesse ser colocado. As tiras eram presas com molas e curvas para se encaixarem no contorno da parede.
Deixaram que eu tentasse. As tiras de metal resistiram aos meus esforços. Não iriam se mover. As pontas afiadas cortavam minhas mãos enquanto eu trabalhava. Comecei a sangrar. Para cada pôster retirado, era preciso colocar outro no lugar. Cada troca levava uma eternidade. Parecia uma atividade sem fim.
– Há besouros por toda Nova York – disse um dos caras mais velhos depois de um tempo.
– É mesmo?
– Sim. Você é novo em Nova York?
– Sim.
– Não sabe que todas as pessoas em Nova York sofrem com esses besouros?
– Não.
– Sim. A mulher quis trepar comigo na noite passada. Eu disse, “Não, baby, não vai rolar”.
– É?
– É. Disse pra ela que faria a coisa por cinco pratas. Porque é preciso umas cinco pratas em carne pra repor a porra que eu gastaria.
– Ela lhe deu as cinco pratas?
– Que nada. Ofereceu-me uma lata de sopa Campbell’s de cogumelo.
Seguimos com o trabalho até chegarmos ao fim do vagão. Os dois homens saíram pela traseira e caminharam em direção ao próximo carro do metrô, que estava estacionado a cerca de quinze metros de distância. Estávamos a uns bons dez metros acima do chão, com nada além dos trilhos para caminhar. Vi que não seria nada difícil para um corpo passar por entre os vãos e cair lá embaixo.
Saí do vagão e comecei a avançar lentamente em direção ao próximo, cuidando onde pisava, o abridor de latas numa mão e os pôsteres na outra. Um metrô cheio de passageiros partiu, as luzes iluminando o caminho.
O veículo se foi, deixando-me na escuridão total. Não conseguia sequer ver os trilhos e as vigas horizontais. Esperei.
Os dois caras mais velhos gritaram lá do outro vagão:
– Vamos! Depressa! Temos muito trabalho pela frente!
– Esperem! Não vejo nada!
– Não temos nenhuma lanterna!
Meus olhos começavam a se adaptar. Avancei lentamente, passo a passo. Assim que entrei no outro carro, coloquei os pôsteres sobre o chão e me sentei. Minhas pernas estavam bambas.
– Qual é o problema?
– Não sei.
– O que é?
– Um homem pode morrer nesse negócio.
– Ninguém nunca caiu.
– Senti que podia ser o primeiro.
– Tudo está na cabeça.
– Eu sei. Como faço pra dar o fora daqui?
– Há uma escada para aqueles lados. Mas você terá que cruzar várias vias, além de cuidar os trens em movimento.
– Sim.
– E não pise no terceiro trilho.
– O que é isso?
– É o condutor de força. É um trilho dourado. Parece feito de ouro. Você vai ver.
Desci para a pista e comecei a caminhar. Os dois caras mais velhos ficaram me olhando. Ali estava o trilho dourado. Passei dando o passo mais largo que pude sobre ele.
Então cheguei à escada. Meio caindo, meio correndo, venci os degraus. Havia um bar do outro lado da rua.
– Factótum
1 490
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Incêndio do Sonho

A velha Biblioteca Pública de L.A. pegou
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
“você vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?”
“claro”, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu não era nem
um intelectual nem um político
idealista
recuei na questão
mais
tarde.
eu era um leitor
então
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fácil
para
escapar
e os grandes figurões do romance não me pareciam
páreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
é que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava então ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos próxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrás de
mulheres
eu corria atrás dos velhos
livros.
eu era um bibliófilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrás de uma pensão
a três dólares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda não tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harper’s,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiênico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu não tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca Pública de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usávamos os
banheiros
e os únicos entre nós que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca –
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguém com quem você é
casado.
bem, eu não era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartão da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
máximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecária
dissesse: “você tem um gosto e tanto, meu
jovem...”
mas a puta velha e acabada
não sabia nem quem ela
era
que dirá de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tê-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lá e pra cá
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantástico
a Biblioteca Pública de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CÓRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDÃO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns não funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
Tolstói, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava Gógol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juízos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razão.
a velha Biblioteca Pública
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrão
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
não sejam más
é
graças
à minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lá quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia não haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incêndio
que havia
destruído a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse à minha
esposa: “eu costumava passar
meu tempo
lá...”
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPÉZIO VOADOR
TER E NÃO TER
VOCÊ NÃO PODE VOLTAR PARA CASA.

Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia também alguns desequilibrados mentais clássicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que não era inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracão e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sábado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu não era um misantropo ou um misógino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rádio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estômago.
– Ei, camarada! – gritei. – Abaixa essa coisa!
Não houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
– EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MÚSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saí e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
– Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automóveis, palavrões, latidos, rádios... Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
– Venha, gatinho...
Estiquei minha mão como se houvesse comida dentro dela.
– Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rádio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui até ali fora. Continuava só de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruído o trinco. Podia ver a luz da vela lá dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum móvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
Não houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. Então a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
– Ouça – eu disse –, sinto profundamente o que fiz. Você e sua garota não querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
– Não.
– Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocês beberem?
– Não – ele disse –, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saí pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
– Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
Não havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as máquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. Então vi um marinheiro numa máquina de pinball. Suas duas mãos apertavam as laterais da máquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o próprio corpo para fazê-lo. Caminhei até ele e o agarrei pela parte de trás do colarinho e pelo cinto.
– Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
– Não, está fora de questão – ele disse.
– Uma melhor de três.
– Caralho – ele disse –, deixa eu te pagar uma bebida.
Saímos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
– Ei, marinheiro, venha cá!
Becker parou.
– Vou entrar – ele disse.
– Não faça isso – eu disse –, elas são baratas humanas.
– Acabei de receber.
– As garotas bebem chá, e eles põem água na sua bebida. Cada dose é o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
– Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lá pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
– Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
– Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
– Tem medo ou é veado?
– Os dois – eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nós, a cabeça apoiada no balcão. Sua carteira já era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mãos da polícia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trás do balcão e caminhou em minha direção.
– Sim?
– Nada.
– É? Então o que cê tá fazendo aqui?
– Esperando por um amigo – gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
– O negócio aqui é sentou pediu.
– Beleza. Uma água.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo d’água.
– Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
– Ele é veado ou medroso.
O atendente não disse nada. Então Becker lhe fez um sinal e ele foi lá pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
– Como você não tá de uniforme?
– Não gosto de me vestir como todo mundo.
– Não existem outras razões?
– As outras razões só dizem respeito a mim.
– Então vá se foder – ela disse.
O atendente voltou.
– Você precisa de outro copo.
– Tá – eu disse, mandando outro quarto de dólar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
– Como foi? – perguntei.
– Cobraram pelo uso da mesa, além dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
– Cristo. Eu podia ficar bêbado por duas semanas com essa grana.
– Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
– O que ela disse?
– Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
– Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
– Mas ela era tão linda.
– Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
– Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os “Bs” são muito fracos, precisam de ajuda.
– Você fala demais sobre escrever – eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ônibus. Não era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
– É por minha conta – disse Becker.
– Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
– Vamos lá, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
– Não fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machão.
– Nem parece o mesmo sujeito que está sempre trocando uns sopapos com alguém.
– Faço isso por puro entretenimento.
– Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
– Becker, sempre há algo sobre o que escrever.
– E o que você vai fazer, então?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
– Como vai conseguir sobreviver? – Becker perguntou.
– Tenho a impressão de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
– Bem, não sei quanto a você, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontá-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do país, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estão acontecendo.
– Washington é um lixo, Becker.
– E mulheres? Casamento? Crianças?
– Lixo.
– É? Mas o que você quer, afinal?
– Me esconder.
– Seu pobre fodido. Você precisa de outra cerveja.
– Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silêncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus próprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provável que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcão em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o Prêmio Pulitzer, o piano, a maldita Bíblia.
Havia um pequeno rádio no bar. Uma canção popular estava tocando. Então, no meio da música houve uma interrupção. O locutor disse:
– Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabávamos de ouvir.
– Bem – disse Becker em voz baixa –, é isso.
– Termine sua cerveja – eu falei.
Becker tomou tudo num só gole.
– Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
– Isso pode muito bem acontecer.
– Hank...
– Fala.
– Você me acompanha no ônibus até a base?
– Não posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miúdos, aproximou-se de nós. Olhou para Becker:
– Bem, marinheiro, parece que você tem que voltar para sua base, não?
Aquilo me deixou puto da cara.
– Ei, gordão, deixe-o terminar sua bebida, certo?
– Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uísque?
– Não – disse Becker –, está tudo bem.
– Aceite – falei a Becker –, tome a dose. Ele pensa que você vai morrer para salvar o bar dele.
– Tudo bem – disse Becker –, vou aceitar seu uísque.
O dono do bar olhou para Becker.
– Você tem um amigo desprezível...
– Apenas sirva a bebida – eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, não tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uísque. Tomou num talagaço.
– Nunca contei para você – ele disse –, mas sou órfão.
– Caralho – eu disse.
– Você vai comigo pelo menos até o terminal de ônibus?
– Claro.
Levantamos e fomos em direção à saída.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
– Boa sorte, marinheiro! – ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lá dentro e olhei para o dono do bar.
– Primeira Guerra Mundial, não?
– É, é... – ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados já começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
– VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRÓPRIAS MÃOS! – gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker só tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
– Ei, companheiro, você não vai nos ajudar? Por que você está aí parado? Por que não se alista?
Seu hálito recendia a uísque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
– Você vai perder seu ônibus – eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saída.
– Fodam-se esses malditos japas fodidos! – ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o ônibus. Ele ficou numa outra fila.
– Algum conselho? – perguntou.
– Não.
A fila entrava devagar no ônibus. A garota estava chorando e falando rápido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou à porta. Dei-lhe um soco no ombro.
– Você é o melhor que eu já conheci.
– Obrigado, Hank...
– Adeus...
– Misto-quente
1 721
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Incêndio do Sonho

A velha Biblioteca Pública de L.A. pegou
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
“você vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?”
“claro”, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu não era nem
um intelectual nem um político
idealista
recuei na questão
mais
tarde.
eu era um leitor
então
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fácil
para
escapar
e os grandes figurões do romance não me pareciam
páreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
é que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava então ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos próxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrás de
mulheres
eu corria atrás dos velhos
livros.
eu era um bibliófilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrás de uma pensão
a três dólares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda não tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harper’s,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiênico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu não tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca Pública de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usávamos os
banheiros
e os únicos entre nós que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca –
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguém com quem você é
casado.
bem, eu não era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartão da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
máximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecária
dissesse: “você tem um gosto e tanto, meu
jovem...”
mas a puta velha e acabada
não sabia nem quem ela
era
que dirá de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tê-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lá e pra cá
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantástico
a Biblioteca Pública de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CÓRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDÃO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns não funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
Tolstói, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava Gógol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juízos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razão.
a velha Biblioteca Pública
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrão
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
não sejam más
é
graças
à minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lá quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia não haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incêndio
que havia
destruído a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse à minha
esposa: “eu costumava passar
meu tempo
lá...”
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPÉZIO VOADOR
TER E NÃO TER
VOCÊ NÃO PODE VOLTAR PARA CASA.

Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia também alguns desequilibrados mentais clássicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que não era inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracão e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sábado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu não era um misantropo ou um misógino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rádio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estômago.
– Ei, camarada! – gritei. – Abaixa essa coisa!
Não houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
– EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MÚSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saí e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
– Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automóveis, palavrões, latidos, rádios... Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
– Venha, gatinho...
Estiquei minha mão como se houvesse comida dentro dela.
– Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rádio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui até ali fora. Continuava só de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruído o trinco. Podia ver a luz da vela lá dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum móvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
Não houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. Então a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
– Ouça – eu disse –, sinto profundamente o que fiz. Você e sua garota não querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
– Não.
– Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocês beberem?
– Não – ele disse –, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saí pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
– Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
Não havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as máquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. Então vi um marinheiro numa máquina de pinball. Suas duas mãos apertavam as laterais da máquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o próprio corpo para fazê-lo. Caminhei até ele e o agarrei pela parte de trás do colarinho e pelo cinto.
– Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
– Não, está fora de questão – ele disse.
– Uma melhor de três.
– Caralho – ele disse –, deixa eu te pagar uma bebida.
Saímos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
– Ei, marinheiro, venha cá!
Becker parou.
– Vou entrar – ele disse.
– Não faça isso – eu disse –, elas são baratas humanas.
– Acabei de receber.
– As garotas bebem chá, e eles põem água na sua bebida. Cada dose é o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
– Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lá pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
– Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
– Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
– Tem medo ou é veado?
– Os dois – eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nós, a cabeça apoiada no balcão. Sua carteira já era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mãos da polícia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trás do balcão e caminhou em minha direção.
– Sim?
– Nada.
– É? Então o que cê tá fazendo aqui?
– Esperando por um amigo – gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
– O negócio aqui é sentou pediu.
– Beleza. Uma água.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo d’água.
– Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
– Ele é veado ou medroso.
O atendente não disse nada. Então Becker lhe fez um sinal e ele foi lá pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
– Como você não tá de uniforme?
– Não gosto de me vestir como todo mundo.
– Não existem outras razões?
– As outras razões só dizem respeito a mim.
– Então vá se foder – ela disse.
O atendente voltou.
– Você precisa de outro copo.
– Tá – eu disse, mandando outro quarto de dólar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
– Como foi? – perguntei.
– Cobraram pelo uso da mesa, além dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
– Cristo. Eu podia ficar bêbado por duas semanas com essa grana.
– Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
– O que ela disse?
– Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
– Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
– Mas ela era tão linda.
– Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
– Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os “Bs” são muito fracos, precisam de ajuda.
– Você fala demais sobre escrever – eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ônibus. Não era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
– É por minha conta – disse Becker.
– Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
– Vamos lá, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
– Não fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machão.
– Nem parece o mesmo sujeito que está sempre trocando uns sopapos com alguém.
– Faço isso por puro entretenimento.
– Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
– Becker, sempre há algo sobre o que escrever.
– E o que você vai fazer, então?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
– Como vai conseguir sobreviver? – Becker perguntou.
– Tenho a impressão de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
– Bem, não sei quanto a você, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontá-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do país, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estão acontecendo.
– Washington é um lixo, Becker.
– E mulheres? Casamento? Crianças?
– Lixo.
– É? Mas o que você quer, afinal?
– Me esconder.
– Seu pobre fodido. Você precisa de outra cerveja.
– Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silêncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus próprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provável que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcão em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o Prêmio Pulitzer, o piano, a maldita Bíblia.
Havia um pequeno rádio no bar. Uma canção popular estava tocando. Então, no meio da música houve uma interrupção. O locutor disse:
– Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabávamos de ouvir.
– Bem – disse Becker em voz baixa –, é isso.
– Termine sua cerveja – eu falei.
Becker tomou tudo num só gole.
– Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
– Isso pode muito bem acontecer.
– Hank...
– Fala.
– Você me acompanha no ônibus até a base?
– Não posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miúdos, aproximou-se de nós. Olhou para Becker:
– Bem, marinheiro, parece que você tem que voltar para sua base, não?
Aquilo me deixou puto da cara.
– Ei, gordão, deixe-o terminar sua bebida, certo?
– Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uísque?
– Não – disse Becker –, está tudo bem.
– Aceite – falei a Becker –, tome a dose. Ele pensa que você vai morrer para salvar o bar dele.
– Tudo bem – disse Becker –, vou aceitar seu uísque.
O dono do bar olhou para Becker.
– Você tem um amigo desprezível...
– Apenas sirva a bebida – eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, não tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uísque. Tomou num talagaço.
– Nunca contei para você – ele disse –, mas sou órfão.
– Caralho – eu disse.
– Você vai comigo pelo menos até o terminal de ônibus?
– Claro.
Levantamos e fomos em direção à saída.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
– Boa sorte, marinheiro! – ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lá dentro e olhei para o dono do bar.
– Primeira Guerra Mundial, não?
– É, é... – ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados já começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
– VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRÓPRIAS MÃOS! – gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker só tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
– Ei, companheiro, você não vai nos ajudar? Por que você está aí parado? Por que não se alista?
Seu hálito recendia a uísque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
– Você vai perder seu ônibus – eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saída.
– Fodam-se esses malditos japas fodidos! – ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o ônibus. Ele ficou numa outra fila.
– Algum conselho? – perguntou.
– Não.
A fila entrava devagar no ônibus. A garota estava chorando e falando rápido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou à porta. Dei-lhe um soco no ombro.
– Você é o melhor que eu já conheci.
– Obrigado, Hank...
– Adeus...
– Misto-quente
1 721
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Noite Mais Estranha Que de Fato Você Já Viu

eu tinha esse quarto da frente na DeLongpre
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.

Tudo começou com um equívoco.
Era época de Natal e soube através do bêbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e então eu pintei lá e quando me dei conta eu já estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aí a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se você conseguisse percorrê-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez você pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova área, mas dava para fazer as coisas à sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartões de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporário que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme é que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. Então deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta própria.
– Que casinha? – perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
– Também sou sozinho – eu disse –, mais tarde apareço por lá pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
– Está bem – ela disse –, vejo você de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e não voltei mais.
Mas eu não conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros têm pra fazer é entregar suas cartas e trepar. Esse é o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
Então fiz o exame, passei, depois o teste físico, passei, e lá estava eu – um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu não trepava com ninguém. Todo dia eu esperava dormir com alguém, mas não conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. Não usava sequer um uniforme, apenas um boné. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebíamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quê. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras – significando perigo e sangue. Havia sete substitutos – Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horário de chegada era às cinco da manhã e eu era o único bêbado por ali. Sempre bebia até depois da meia-noite, e lá ficávamos nós sentados, às cinco da manhã, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, não havia nunca como se familiarizar com elas, você precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhão, e Jonstone não aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas já com trinta minutos de atraso – girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
– Chinaski, pegue a rota 539!
Começávamos meia hora atrasados, mas ainda assim tínhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horário. E uma ou duas vezes por semana, já combalidos, exaustos e fodidos, tínhamos que fazer as coletas noturnas, e o horário do cronograma era impossível de ser cumprido – o caminhão jamais seria tão rápido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na próxima volta elas já estavam entupidas de cartas e você fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que só queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os próprios substitutos tornaram Jonstone possível ao obedecer suas ordens impossíveis. Não conseguia entender como um homem cuja crueldade era tão patente tinha permissão para ocupar sua posição. Os carteiros regulares não davam a mínima, o cara do sindicato era um inútil, então preenchi um relatório de trinta páginas num dos meus dias de folga, enviei uma cópia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao Escritório Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, então fui conduzido à presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. Não chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
– O senhor é um desses filhos da puta metidos a esperto, não é?
– Pediria que o senhor não me xingasse, senhor!
– Sim, um desses filhos da puta sabichões, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que não perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
– O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
– Não seja tolo. O sujeito é obviamente um sádico – eu disse.
– Há quanto tempo o senhor está nos Correios?
– Três semanas.
– O SR. JONSTONE ESTÁ NOS CORREIOS HÁ TRINTA ANOS!
– Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
– Já disse, O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
– Tudo bem – eu disse –, Jonstone é um ótimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
– Cartas na rua
1 111
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Poema de Amor Para Uma Stripper

50 anos atrás eu assistia às garotas
balançarem seus rabos e se despir
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
assim que a luz ia do verde para
o púrpura e para o rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora fico sentado aqui
fumando e
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de seus
nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, tinha a manha,
e nós nos revirávamos em nossas poltronas e
fazíamos barulho
enquanto Rosalie levava mágica
aos solitários
de tanto tempo atrás.
escute Rosalie
ou velha demais ou
tranquila demais debaixo da
terra,
aqui fala o garoto
espinhento
que mentia a
idade
só para
te ver.
você era boa, Rosalie
em 1935,
suficientemente boa para ser lembrada
agora
que a luz é
amarela
e as noites correm
mansas.

O tempo do colégio passou com rapidez suficiente. Por volta da oitava série, indo para a nona, comecei a ter acne. Muitos dos caras tinham esse problema, mas não no mesmo grau que eu. Meu caso era realmente terrível. Era o mais grave em toda a cidade. Eu tinha espinhas e erupções por toda a face, costas, todo o pescoço e um pouco no peito. Isso aconteceu no exato momento em que eu começava a ser aceito como um cara durão e um líder. Eu continuava durão, mas não era a mesma coisa. Tive que me retirar. Observava as pessoas à distância, como numa peça de teatro. Apenas eles estavam no palco, e eu era plateia de um homem só. Eu sempre tivera problema com as garotas, mas agora, coberto de acnes, eu estava condenado. As garotas ficaram mais distantes do que nunca. Algumas delas eram verdadeiramente belas – seus vestidos, seus cabelos, seus olhos, o jeito como se moviam. Simplesmente caminhar rua abaixo durante uma tarde com uma delas, você sabe, falando qualquer coisa sobre qualquer assunto, creio que isso teria me feito sentir bastante bem.
Além disso, havia algo em mim que continuava sendo fonte de constantes problemas. A maioria dos professores não gostava ou não confiava em mim, especialmente as professoras. Nunca disse nada fora do convencional, mas alegavam que se tratava da minha “atitude”. Era algo relacionado com o modo como eu sentava com desleixo na cadeira e também meu “tom de voz”. Eu era frequentemente acusado de estar “escarnecendo”, embora eu não tivesse consciência disso. Constantemente, me faziam ficar do lado de fora da sala, de pé, no corredor, ou me mandavam para a sala da direção. O diretor sempre fazia a mesma coisa. Ele tinha uma cabine telefônica em sua sala. Obrigava-me a ficar de pé dentro da cabine e a fechava. Passei muitas horas dentro daquela cabine. A única coisa que havia para ler ali dentro era a Ladies Home Journal[4]. Era tortura deliberada. De qualquer forma, eu acabava lendo as revistas. Tinha que ler cada novo número. Eu esperava que talvez pudesse aprender alguma coisa sobre as mulheres.
Eu devia ter uns cinco mil deméritos acumulados à época da graduação, mas isso não teve importância. Queriam se livrar de mim. Eu estava de pé do lado de fora, na fila que entrava no auditório ao ritmo de um por vez. Todos nós estávamos com a toga e o barrete vagabundos que já tinham atravessado gerações e gerações de formandos antes de nós. Podíamos ouvir o nome de cada pessoa à medida que ela entrava no palco. Estavam transformando nossa graduação numa maldita comédia. A banda tocou o hino do colégio:
Ó, Mt. Justin, Ó, Mt. Justin
Nós seremos leais
Nossos corações cantam fervorosos
A certeza de amanhãs celestiais...
Ficamos alinhados, cada qual esperando sua hora de marchar pelo palco. Na plateia estavam nossos pais e amigos.
– Estou quase vomitando – disse um dos caras.
– Saímos de uma merda para nos metermos em outra – disse um segundo.
As garotas pareciam encarar a coisa com maior seriedade. Era por isso que não se podia confiar nelas. Pareciam compactuar com as coisas erradas. Elas e o colégio pareciam cantar em uníssono o mesmo hino.
– Esse negócio me deixa deprimido – disse um dos caras. – Queria fumar um cigarro.
– Aqui tem um...
Um dos outros caras lhe alcançou um cigarro. Nós o passamos, éramos quatro ou cinco. Dei uma tragada e exalei a fumaça pelo nariz. Então vi Curly Wagner se aproximar.
– Apaguem o cigarro! – eu disse. – Aí vem o cabeça de vômito!
Wagner caminhou reto na minha direção. Usava o seu abrigo cinza, incluindo a camiseta, exatamente como eu o vira da primeira vez e em todas as oportunidades seguintes. Parou na minha frente.
– Escute – ele disse –, se você acha que está se livrando de mim porque está saindo daqui está muito enganado! Vou seguir você pelo resto da vida. Vou seguir você até os confins da Terra e vou pegá-lo!
Simplesmente o encarei, sem nenhum comentário, e ele se afastou. O discursinho de Wagner serviu para aumentar meu prestígio entre os rapazes. Pensaram que eu tinha feito algo realmente diabólico para deixá-lo tão irritado. Mas não era verdade. Wagner era simplesmente maluco.
Nos aproximávamos cada vez mais da porta do auditório. Não só podíamos ouvir cada nome que era pronunciado e os aplausos na sequência, mas também víamos a plateia. Então, chegou a minha vez.
– Henry Chinaski – o diretor disse ao microfone.
E avancei. Não houve nenhum aplauso. Então uma alma gentil na plateia bateu duas ou três palmas.
Havia algumas filas de cadeiras dispostas no palco para a turma que se graduava. Sentamos lá e esperamos. O diretor fez o seu discurso sobre a América ser a terra das oportunidades e do sucesso. Então tudo acabou. A banda atacou novamente o hino do colégio Mt. Justin. Os estudantes e seus pais e seus amigos se ergueram e se congregaram. Andei por ali, procurando. Meus pais não estavam lá. Quis ter certeza. Dei mais uma volta, procurando com afinco.
Estava tudo bem. Um cara durão não precisava dessas coisas. Tirei o barrete e a toga e os alcancei ao cara no fim do corredor – o porteiro. Ele guardou as peças para a próxima formatura.
Ganhei a rua. O primeiro a sair. Mas para onde eu poderia ir? Tinha onze centavos no bolso. Segui de volta para o lugar em que eu vivia.
– Misto-quente
1 390
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Dia Em Que Mandei Meu Pé-De-Meia Pro Espaço

e, eu disse, você pode pegar seus tios e tias ricos
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.

Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
1 263
Charles Bukowski

Charles Bukowski

John Dillinger E Le Chasseur Maudit

é uma pena, e simplesmente foge ao estilo, mas não dou a mínima:
as garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma pena também que
bolas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no hall... tudo me excita com a calma fria
da lápide do túmulo; em nenhum lugar, talvez, há refúgio exceto
em ouvir falar que houve outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras de vale-tudo, enfermeiras, garçonetes, putas
poetisas... contudo,
suponho que o retirar dos cubos de gelo é importante
ou um rato farejando uma garrafa de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar à noite entupido de navios imundos
que penetram a teia relutante de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que te tocam e te abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir por grandes distâncias sem razão
dopado através de janelas abertas que
rasgam e desfraldam sua camiseta como um pássaro temeroso,
e sempre as sinaleiras, sempre o vermelho,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pedaços, fardéis,
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão surdo quanto uma beterraba;
carrinhos de mão vermelhos, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons garotos espancando outro pra valer
em algum estádio barato cheio de ululante fumaça,
mas basicamente, não dou a mínima, sentado aqui
com uma boca cheia de dentes apodrecidos
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brönte (Emily, hoje);
e escutando Midday Witch de Dvorak
ou Le Chasseur Maudit,
não dou a mínima de fato, e é uma pena:
tenho recebido cartas de um jovem poeta
(bem jovem, ao que parece) me dizendo que um dia
certamente serei reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma malversação: hoje caminhei pelo sol e pelas ruas
da cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, e ao voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que me sorriu um riso tenebroso;
ela já estava morta, e em todos os lugares eu me lembrava de fios:
fios de telefone, fios elétricos rostos elétricos
presos como peixinhos dourados em um copo e sorrindo,
e os pássaros se foram, nenhum dos pássaros quer fios
ou o sorriso dos fios
e eu fecho minha porta (enfim)
mas através da janela tudo segue igual:
uma buzina soou, alguém riu, um puxão de descarga,
e então o mais estranho
pensei em todos os cavalos com seus números
que haviam passado em meio à gritaria,
passado como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não terão muita importância
exceto por uma questão de preparativo, um problema,
como jogar o lixo fora,
e embora eu tenha guardado as cartas do jovem poeta,
não acredito nelas
mas de vez em quando
como às palmeiras doentes
e ao sol que se põe,
eu as vejo.
1 048
Charles Bukowski

Charles Bukowski

John Dillinger E Le Chasseur Maudit

é uma pena, e simplesmente foge ao estilo, mas não dou a mínima:
as garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma pena também que
bolas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no hall... tudo me excita com a calma fria
da lápide do túmulo; em nenhum lugar, talvez, há refúgio exceto
em ouvir falar que houve outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras de vale-tudo, enfermeiras, garçonetes, putas
poetisas... contudo,
suponho que o retirar dos cubos de gelo é importante
ou um rato farejando uma garrafa de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar à noite entupido de navios imundos
que penetram a teia relutante de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que te tocam e te abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir por grandes distâncias sem razão
dopado através de janelas abertas que
rasgam e desfraldam sua camiseta como um pássaro temeroso,
e sempre as sinaleiras, sempre o vermelho,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pedaços, fardéis,
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão surdo quanto uma beterraba;
carrinhos de mão vermelhos, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons garotos espancando outro pra valer
em algum estádio barato cheio de ululante fumaça,
mas basicamente, não dou a mínima, sentado aqui
com uma boca cheia de dentes apodrecidos
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brönte (Emily, hoje);
e escutando Midday Witch de Dvorak
ou Le Chasseur Maudit,
não dou a mínima de fato, e é uma pena:
tenho recebido cartas de um jovem poeta
(bem jovem, ao que parece) me dizendo que um dia
certamente serei reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma malversação: hoje caminhei pelo sol e pelas ruas
da cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, e ao voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que me sorriu um riso tenebroso;
ela já estava morta, e em todos os lugares eu me lembrava de fios:
fios de telefone, fios elétricos rostos elétricos
presos como peixinhos dourados em um copo e sorrindo,
e os pássaros se foram, nenhum dos pássaros quer fios
ou o sorriso dos fios
e eu fecho minha porta (enfim)
mas através da janela tudo segue igual:
uma buzina soou, alguém riu, um puxão de descarga,
e então o mais estranho
pensei em todos os cavalos com seus números
que haviam passado em meio à gritaria,
passado como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não terão muita importância
exceto por uma questão de preparativo, um problema,
como jogar o lixo fora,
e embora eu tenha guardado as cartas do jovem poeta,
não acredito nelas
mas de vez em quando
como às palmeiras doentes
e ao sol que se põe,
eu as vejo.
1 048