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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Dormir Na Floresta

Dormir na Floresta
é dormir sem feras
rugiameaçando.
(A Floresta, bairro
de jardins olentes
com leões cerâmicos
a vigiar portões
e sonhos burgueses
de alunas internas
do Santa Maria.)
Dormir na Floresta
é dormir em paz
de família mineira
para todo o sempre
garantida em bancos
e gado de corte,
seguro de vida
na Equitativa,
crédito aberto
no Parc Royal,
guarda-chuva-e-vento
do P.R.M.,
indulgência plena
do Vaticano.
E ter a certeza,
na manhã seguinte,
de bom leite gordo
manado de vacas
da própria Floresta,
de bom pão cheiroso
cozido nos fornos
da Floresta próvida.
Dormir na Floresta
é esquecer Lenine,
o Kaiser, a crise,
a crase, o ginásio,
restaurar as fontes
do ser primitivo
que era todo lúdico
antes de sofrer
o esbarro, a facada
de pensar o mundo.
Mas de madrugada
ou talvez ainda
na curva das onze
(pois se dorme cedo
na Floresta calma,
de cedo acordar)
um lamento lúgubre,
um longo gemido,
um uivo trevoso
de animal sofrendo,
corta o sono a meio
e todo o sistema
de azul segurança
da Floresta rui.
Que dor se derrama
sobre nossas camas
e embebe o lençol
de temor e alarma?
Que notícia ruim
do resto da Terra
não compendiado
em nossos domínios
invade o fortim
da noite serena?
Logo nossas vidas
e mais seus problemas
despem-se, descarnam-se
de todo ouropel.
Já não somos os
privilegiados
príncipes da paz.
Já somos viventes
intranquilos, pávidos,
como os da Lagoinha
ou de Carlos Prates,
à mercê de furtos,
de doenças, fomes,
letras protestadas,
e, pior do que isso,
carregando o mundo
e seus desconcertos
em ombros curvados.
Eis que se repete
o pungente guai,
perfurando as ruas
e casas e mentes
com seu aflitivo
doer dor sem nome.
De onde vem, aonde
vai, se vai ou vem?
Triste, ferroviário
apito de máquina
da Oeste de Minas
manobrando insone,
paralelo ao rouco
ir e vir arfante
de locomotiva
da Central, rasgando
a seda sem ruga
de dormir sem dívidas,
cobrando a vigília,
o amargo remoer
da consciência turva.
Não parte, não volta
de nenhum destino
o trem espectral,
roda sem horário,
passageiro ou carga,
senão nossa carga
interior, pesada,
de carvão, minério,
queijo de incertezas,
milho de perguntas
? ? ? ? ? ? ? ?
gado de omissões.
Fero, trem noturno
a semear angústia
na relva celeste
da Floresta em flor.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Casa Sem Raiz

A casa não é mais de guarda-mor ou coronel.
Não é mais o Sobrado. E já não é azul.
É uma casa, entre outras. O diminuto alpendre
onde oleoso pintor pintou o pescador
pescando peixes improváveis. A casa tem degraus de mármore,
mas lhe falta aquele som dos tabuões pisados de botas,
que repercute no Pará. Os tambores do clã.
A casa é em outra cidade,
em diverso planeta, onde somos o quê? numerais moradores.

Tem todo o conforto, sim. Não o altivo desconforto
do banho de bacia e da latrina de madeira.
Aqui ninguém bate palmas. Toca-se campainha.
As mãos batiam palmas diferentes.
A batida era alegre ou dramática ou suplicante ou serena.
A campainha emite um timbre sem história.
A casa não é mais a casa itabirana.

Tenho que me adaptar? Tenho que viver a casa
ao jeito da outra casa, a que era eterna.
Mobiliá-la de lembranças, de cheiros, de sabores,
de esconderijos, de pecados, de signos,
só de mim sabidos. E de José, de mais ninguém.

Transporto para o quarto badulaques-diamante
de um século. Transporto umidade, calor,
margaridas esmaltadas fervendo
no bule. E mais sustos, pavores, maldições
que habitavam certos cômodos — era tudo sagrado.

Aqui ninguém morreu, é amplamente
o vazio biográfico. Nem veio de noite a parteira
(vinha sempre de noite, à hora de nascer),
enquanto a gente era levada para cômodos distantes,
e tanta distância havia dentro, infinito, da casa,
que ninguém escutava gemido e choro de alumbramento,
e de manhã o sol era menino novo.

Faltam os quadros dos quatro (eram quatro continentes:
América Europa Ásia África), mulheres
voluptuosamente reclinadas
em coxins de pressentidas safadezas.
A fabulosa copa onde ânforas
dormiam desde a festa de 1898
guardando seus tinidos subentendidos,
guardando a própria cor enclausurada.
O forno abobadal, o picumã
rendilhando barrotes na cozinha.
E o que era sigilo nos armários.
E o que era romance no sigilo.
Falta…
Falto, menino eu, peça da casa.

Tão estranho crescer, adolescer
com alma antiga, carregar as coisas
que não se deixam carregar.
A indelével casa me habitando, impondo
sua lei de defesa contra o tempo.
Sou o corredor, sou o telhado
sobre a estrebaria sem cavalos mas nitrindo
à espera de embornal. Casa-cavalo,
casa de fazenda na cidade,
o pasto, ao Norte; ao Sul, quarto de arreios,
e esse mar de café rolando em grão
na palma de sua mão — o pai é a casa
e a casa não é mais, nem sou a casa térrea,
terrestre, contingente,
suposta habitação de um eu moderno.

Rua Silva Jardim, ou silvo em mim?
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Adeus Ao Colégio

I
Adeus, colégio, adeus, vida
vivida sob inspeção,
dois anos jogados fora
ou dentro de um caldeirão
em que se fritam destinos
e se derrete a ilusão.
Já preparo minha trouxa
e durmo na solidão.
Amanhã cedo retiro-me,
pego o trem da Leopoldina,
vou ser de novo mineiro.
Da angústia a lâmina fina
começa a me cutucar.
É uma angústia menina,
ganhará forma de cruz
ou imagem serpentina.
Sei lá se sou inocente
ou sinistro criminoso.
Se rogo perdão a Deus
ou peço abrigo ao Tinhoso.
Que será do meu futuro
se o vejo tão amargoso?
Sou um ser estilhaçado
que faz do medo o seu gozo.
II
Nada mais insuportável do que essa viagem de trem.
Se me atirassem no vagão de gado a caminho do matadouro
talvez eu me soubesse menos infeliz.
Seria o fim, e há no fim uma gota de delícia,
um himalaia de silêncio para sempre.
Não quero ouvir falar de mim.
Não quero eu mesmo estar em mim.
Quero ser o barulho das ferragens me abafando,
quero evaporar-me na fumaça,
quero o não querer, quero o não quero.
Como custa a chegar o chão de Minas.
Será que se mudou ou se perdeu?
Olho para um lado. Para outro.
O esvoaçar de viuvez
no todo preto da senhora à esquerda,
no preto dos vestidos, das meias e sapatos
de duas mocinhas de olhos baixos,
não tão baixos assim. Essa os levanta,
cruza com os meus, detêm-se. O luto evola-se.
É um dealbar no trem tristonho,
sonata em miosótis, aragem na avenca
súbito surginte
em jarra cristalina.
Cuidados meus, desgraças minhas,
eia, fugi para bem longe.
O idílio dos olhos vos expulsa,
como expulso fui eu, ainda há pouco,
de outra forma — que forma? nem me lembra.
Vem do céu a menina e a ele me leva,
leves, levíssimos os dois.
Palavra não trocamos: impossível
mãe presente.
E para que trocá-las, se nem sei
se vigoram palavras nesta esfera
diáfana, a que me vejo transportado?
Nem ideia de amor acode à mente,
que o melhor de amar não é dizer-se,
nem mesmo sentir-se: é nos abrir
a mais sublime porta subterrânea.
Estou iluminado
por dentro, no passado,
no futuro mais longínquo
e meu presente é não estar no tempo
e alçar-me de toda contingência.
De banco de palhinha a banco de palhinha,
entre fagulhas de carvão
fosforescentes na vidraça,
entre conversas e pigarros,
diante do chefe de trem que picota bilhetes,
torna-se a vida bem não desgastável
se a menina sorri
quase sem perceber que está sorrindo.
Nem a irmã reparou. Mas eu colhi
a laranja de flores deste instante
que vou mastigando como um deus.
Foi preciso sofrer por merecê-la?
Agora que a alcancei, não deixo mais
este comboio, este sol…
III
Por que foi que inventaram
a estação de Entre Rios?
E por que se exige aqui baldeação
aos que precisam de Minas?
Já não preciso mais. Vou neste trem
até o infinito dos seus olhos.
Advertem-me glacialmente:
“Tome o trem da Central e vá com Deus”.
Como irei, se vou sozinho e sem mim mesmo,
se nunca mais, se nunca mais na vida
verei essa menina?
Expulso de sua vista
volto a saber-me expulso do colégio
e o Brasil é dor em mim por toda parte.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Jornal Falado No Salão Vivacqua

Garotas de Cachoeiro civilizam
nosso mineiro burgo relaxado.
No salão todo luz chega o perfume
das roseiras da Praça. Burburinho.
Aqui, a se sorrirem, vejo os máximos
escritores da nova geração.
São jornalistas esta noite. A bela Angélica,
a suave Edelmira, a grácil Mariquinha
assim o determinam. Milton Campos
abre o Jornal Falado. Flui a verve
de seu editorial. Na sua voz,
a política é um jogo divertido
de punhais cetinosos que se cravam
sem derrame de sangue — e a vítima nem sabe,
perremisticamente golpeada,
que já morreu: continua deputado.
De Abgar, primeira página, o soneto,
mais lapidado que diamante,
recebe aplausos invejosos. Oh, quem soubera
tanger assim o lírico instrumento,
decerto conquistara
todas as do planeta moças lindas!
Um êmulo romântico se aproxima:
é Batista decassílabo Santiago:
“Ah, saudade que vive me enganando
e faz que eu ouça a tua voz, ouvindo
as folhas mortas em que vou pisando…”.
Jornal é só poesia? Nada disso.
João Dornas traça a viva reportagem
urbana. Que parada,
achar acontecimentos onde nada
acontece, depois de Rui Barbosa!
Ele inventa, ele cria? Fatos raros
baixam do lustre, pulam no tapete
e Nava, prodigioso desenhista,
risca os perfis, os gestos, os lugares.
Delorizano, grave,
fala de ciência,
o Romeu de Avelar conta do Norte.
Aquiles é o cronista social:
noivados e potins e flertes surpreendidos
na segunda sessão do Odeon… Caluda!
Alguém pode não gostar. João Guimarães
é o nosso humorista. João Alphonsus
inicia o romance-folhetim:
em minutos tem princípio, meio e fim.
Eis chega a minha vez. A minha vez?
Mas como? se eu esperava não chegasse
e lá pela meia-noite o sono embaciasse
os anúncios da quarta página, final…
Não sei o que dizer. Digo: “Um acidente
nas oficinas impediu
saísse a minha crônica. Perdeu-se. Até amanhã”.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Colegial E a Cidade

Fizeram bem os suíços
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
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