Poemas neste tema
Outros
César William
O Errante
Por um erro me fiz errante,
Mais errante que o erro do errado
Mil tropeços no meu passado,
Os infernantes constando
Dos meus retalhos.
Sem dúvida, com mágoas
Meu sorriso pichado.
Ó triste dor tão infinita:
Não me inflame agora
Não me deixe ser um errante,
O mesmo que ontem amava
Nas curvas de um delirante.
Um errado errante,
Um facínora
Um desamante.
Tantos sonhos refeitos,
Tantos tombos levados...
Viver numa clausura com incúria
Tamanha fera, qual a rua desabitada.
Nos degraus de uma ponte pitoresca?
Na esquina de um velho sobrado?...
Não importa
É um errado,
Um errante de sonhos mutilados
Pelo poder da censura
Mais errante que o erro do errado
Mil tropeços no meu passado,
Os infernantes constando
Dos meus retalhos.
Sem dúvida, com mágoas
Meu sorriso pichado.
Ó triste dor tão infinita:
Não me inflame agora
Não me deixe ser um errante,
O mesmo que ontem amava
Nas curvas de um delirante.
Um errado errante,
Um facínora
Um desamante.
Tantos sonhos refeitos,
Tantos tombos levados...
Viver numa clausura com incúria
Tamanha fera, qual a rua desabitada.
Nos degraus de uma ponte pitoresca?
Na esquina de um velho sobrado?...
Não importa
É um errado,
Um errante de sonhos mutilados
Pelo poder da censura
960
Carvalho Neto
Chamamento
rouba da gaivota ao vôo a musicalidade
e na cidade faz a partitura de tuas dores
criatura com mãos de todos os andores
encharcadas de suor, de mil licores
constrói a nova poesia
guarda a solidão da praça vazia
no bolso do casaco
e com pés e direitos feridos, abre estradas
amadas, demais amadas, marcadas
como versos na rocha
rouba aos olhos todos os rancores
que os senhores não abaterão teu brio
teu amanhã será depois de amanhã
e não ficarás na outra margem do rio.
e na cidade faz a partitura de tuas dores
criatura com mãos de todos os andores
encharcadas de suor, de mil licores
constrói a nova poesia
guarda a solidão da praça vazia
no bolso do casaco
e com pés e direitos feridos, abre estradas
amadas, demais amadas, marcadas
como versos na rocha
rouba aos olhos todos os rancores
que os senhores não abaterão teu brio
teu amanhã será depois de amanhã
e não ficarás na outra margem do rio.
1 018
César William
Labirinto
Libertei-me da muralha,
Agora sou escravo das profecias.
Estou nutrindo-me de migalha
Em cada canto das periferias.
Agora sou hálito infame
No cume da cumplicidade.
Entre mil doenças... "Derrame"...
A centelha da humanidade.
Continuo perdido
À procura de outra "muralha"
Agora sou parto ferido
Nutrindo-me de nova migalha...
De nada adiantaram as leituras
Se agora sou somente vestígio
em um ermo de mil amarguras
Não sei mais o que fazer (perdi o prestígio)
Sou agora o único sobrevivente
Deste labirinto medonho.
Preciso de um verso urgente
Para findar este sonho...
Agora sou escravo das profecias.
Estou nutrindo-me de migalha
Em cada canto das periferias.
Agora sou hálito infame
No cume da cumplicidade.
Entre mil doenças... "Derrame"...
A centelha da humanidade.
Continuo perdido
À procura de outra "muralha"
Agora sou parto ferido
Nutrindo-me de nova migalha...
De nada adiantaram as leituras
Se agora sou somente vestígio
em um ermo de mil amarguras
Não sei mais o que fazer (perdi o prestígio)
Sou agora o único sobrevivente
Deste labirinto medonho.
Preciso de um verso urgente
Para findar este sonho...
795
César William
Labirinto
Libertei-me da muralha,
Agora sou escravo das profecias.
Estou nutrindo-me de migalha
Em cada canto das periferias.
Agora sou hálito infame
No cume da cumplicidade.
Entre mil doenças... "Derrame"...
A centelha da humanidade.
Continuo perdido
À procura de outra "muralha"
Agora sou parto ferido
Nutrindo-me de nova migalha...
De nada adiantaram as leituras
Se agora sou somente vestígio
em um ermo de mil amarguras
Não sei mais o que fazer (perdi o prestígio)
Sou agora o único sobrevivente
Deste labirinto medonho.
Preciso de um verso urgente
Para findar este sonho...
Agora sou escravo das profecias.
Estou nutrindo-me de migalha
Em cada canto das periferias.
Agora sou hálito infame
No cume da cumplicidade.
Entre mil doenças... "Derrame"...
A centelha da humanidade.
Continuo perdido
À procura de outra "muralha"
Agora sou parto ferido
Nutrindo-me de nova migalha...
De nada adiantaram as leituras
Se agora sou somente vestígio
em um ermo de mil amarguras
Não sei mais o que fazer (perdi o prestígio)
Sou agora o único sobrevivente
Deste labirinto medonho.
Preciso de um verso urgente
Para findar este sonho...
795
Euclides Bandeira
Predileto
É o tipo que me encanta, o louro. De relance
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
408
Euclides Bandeira
Predileto
É o tipo que me encanta, o louro. De relance
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
408
Félix Pacheco
Símbolo dos Símbolos
Caveira! Tu conténs a Síntese do Mundo!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!
Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.
Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...
Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!
Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.
Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...
Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!
1 039
Elmar Carvalho
Eterno Retorno
memória:
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.
Ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.
recordações
que dão e são vida
de becos escuros, sem saída
de amores
hoje boleros
bolores em flores
de ilusões perdidas
que se fazem dores
na florida ferida da saudade.
evocações
de dribles esquecidos
de gols frustrados e acontecidos
de um jogo que nunca termina
de uma malsinada sina sinuosa
de lágrimas caudalosas
incontidas, vertidas
das vertentes profundas
do peito — porto
sem tino e sem destino
feito somente de desatino.
as mulheres amadas
na juventude fugaz
não envelhecem
não se corrompem
não morrem jamais
preservadas intactas e belas
na câmara ardente
incandescente da memória.
recordações de fantasmas
que já nos abandonaram
de amigos mortos
que nos acompanham
cada vez mais vivos
de sustos e gritos
de proscritos e malditos
de agouros e assombrações
de desdouros e sombras vãs, malsãs
oriundas dos porões escavados
nos subterrâneos dos sobrados
subterfúgios e refúgios
da memória.
O passado poderoso e renitente
retorna e continua vivido e presente
se contorcendo se retorcendo
e se reacontecendo.
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.
Ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.
recordações
que dão e são vida
de becos escuros, sem saída
de amores
hoje boleros
bolores em flores
de ilusões perdidas
que se fazem dores
na florida ferida da saudade.
evocações
de dribles esquecidos
de gols frustrados e acontecidos
de um jogo que nunca termina
de uma malsinada sina sinuosa
de lágrimas caudalosas
incontidas, vertidas
das vertentes profundas
do peito — porto
sem tino e sem destino
feito somente de desatino.
as mulheres amadas
na juventude fugaz
não envelhecem
não se corrompem
não morrem jamais
preservadas intactas e belas
na câmara ardente
incandescente da memória.
recordações de fantasmas
que já nos abandonaram
de amigos mortos
que nos acompanham
cada vez mais vivos
de sustos e gritos
de proscritos e malditos
de agouros e assombrações
de desdouros e sombras vãs, malsãs
oriundas dos porões escavados
nos subterrâneos dos sobrados
subterfúgios e refúgios
da memória.
O passado poderoso e renitente
retorna e continua vivido e presente
se contorcendo se retorcendo
e se reacontecendo.
613
Edigar de Alencar
Lenda
Um dia o sol levantou-se aborrecido
e resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
do nordeste brasileiro
e foi parar numa terra hospitaleira,
onde a desgraça pouca é bobagem
e os homens amarelos e magros
dão surra em onça com o chapéu de couro.
A gente da terra
despertou a atenção do sol,
que começou a corricar pelas praias,
e pelos campos sem fim,
bebendo os riachos todos,
estorricando os caminhos,
derramando ouro
sobre as matas imensas,
cheias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
que nunca mais abandonou a terra.
e resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
do nordeste brasileiro
e foi parar numa terra hospitaleira,
onde a desgraça pouca é bobagem
e os homens amarelos e magros
dão surra em onça com o chapéu de couro.
A gente da terra
despertou a atenção do sol,
que começou a corricar pelas praias,
e pelos campos sem fim,
bebendo os riachos todos,
estorricando os caminhos,
derramando ouro
sobre as matas imensas,
cheias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
que nunca mais abandonou a terra.
940
Durval de Morais
O Cortejo Nupcial
Pelo estreito caminho da colina,
O cortejo subia lentamente...
Ela, trajando veste purpurina,
Trazia à face a púrpura do crente.
Tendo a clara inocência da menina,
Que abaixa os olhos, quando o olhar pressente
De alguém que a pensa linda, o rosto inclina,
Maria, e, pousa o olhar no chão, tremente!
Coroados de flores, precedidos
De cânticos, em cismas embebidos,
Atravessam desertos e devesas...
Louvando o amor dos imortais amantes,
Dez virgens de alvas vestes flutuantes
Erguem, ao sol, dez lâmpadas acesas.
O cortejo subia lentamente...
Ela, trajando veste purpurina,
Trazia à face a púrpura do crente.
Tendo a clara inocência da menina,
Que abaixa os olhos, quando o olhar pressente
De alguém que a pensa linda, o rosto inclina,
Maria, e, pousa o olhar no chão, tremente!
Coroados de flores, precedidos
De cânticos, em cismas embebidos,
Atravessam desertos e devesas...
Louvando o amor dos imortais amantes,
Dez virgens de alvas vestes flutuantes
Erguem, ao sol, dez lâmpadas acesas.
794
Ernâni Rosas
O Sonho-Interior
O Sonho-Interior que renasceste
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto...
Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo...
Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado, —
na demência autunal duma Alameda...
Velaram-se Sudários teus Espelhos...
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto...
Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo...
Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado, —
na demência autunal duma Alameda...
Velaram-se Sudários teus Espelhos...
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos
1 075
Ernâni Rosas
O Sonho-Interior
O Sonho-Interior que renasceste
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto...
Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo...
Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado, —
na demência autunal duma Alameda...
Velaram-se Sudários teus Espelhos...
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto...
Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo...
Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado, —
na demência autunal duma Alameda...
Velaram-se Sudários teus Espelhos...
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos
1 075
Ernâni Rosas
O Sonho-Interior
O Sonho-Interior que renasceste
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto...
Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo...
Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado, —
na demência autunal duma Alameda...
Velaram-se Sudários teus Espelhos...
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto...
Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo...
Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado, —
na demência autunal duma Alameda...
Velaram-se Sudários teus Espelhos...
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos
1 075
Alfredo Castro
A Estátua de Sileno
Longo tempo no parque, entre a alegre verdura,
Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,
Sileno, o velho deus, guardara a compostura
Firme na sua estátua, enramada em videira.
Mas um dia se espalma a asa pesada e escura
Da borraxa. Do céu vela-se a face inteira.
E um raio que desceu busca o parque, procura
A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.
Ao tombar destronada, a figura grotesca,
Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara
Encostada na relva umedecida e fresca.
Quem depois transitou por aquele caminho
Certamente pensou que o deus melhor ficara
Estendido no chão para curtir seu vinho!
Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,
Sileno, o velho deus, guardara a compostura
Firme na sua estátua, enramada em videira.
Mas um dia se espalma a asa pesada e escura
Da borraxa. Do céu vela-se a face inteira.
E um raio que desceu busca o parque, procura
A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.
Ao tombar destronada, a figura grotesca,
Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara
Encostada na relva umedecida e fresca.
Quem depois transitou por aquele caminho
Certamente pensou que o deus melhor ficara
Estendido no chão para curtir seu vinho!
1 199
Alfredo Castro
A Estátua de Sileno
Longo tempo no parque, entre a alegre verdura,
Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,
Sileno, o velho deus, guardara a compostura
Firme na sua estátua, enramada em videira.
Mas um dia se espalma a asa pesada e escura
Da borraxa. Do céu vela-se a face inteira.
E um raio que desceu busca o parque, procura
A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.
Ao tombar destronada, a figura grotesca,
Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara
Encostada na relva umedecida e fresca.
Quem depois transitou por aquele caminho
Certamente pensou que o deus melhor ficara
Estendido no chão para curtir seu vinho!
Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,
Sileno, o velho deus, guardara a compostura
Firme na sua estátua, enramada em videira.
Mas um dia se espalma a asa pesada e escura
Da borraxa. Do céu vela-se a face inteira.
E um raio que desceu busca o parque, procura
A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.
Ao tombar destronada, a figura grotesca,
Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara
Encostada na relva umedecida e fresca.
Quem depois transitou por aquele caminho
Certamente pensou que o deus melhor ficara
Estendido no chão para curtir seu vinho!
1 199
Cruz Filho
Sugestão de Beethoven
Noite. Ermo... Um luar de abril quase morto na bruma.
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
965
Cruz Filho
Sugestão de Beethoven
Noite. Ermo... Um luar de abril quase morto na bruma.
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
965
Cruz Filho
Sugestão de Beethoven
Noite. Ermo... Um luar de abril quase morto na bruma.
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
965
Edigar de Alencar
Cidade-Sol
Cidade pequena, lavada de sol,
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.
Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.
Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.
Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.
Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...
1 087
Carlos Góes
Mística
Rezas, postas as mãos em súplice postura.
Pedes a Deus perdão das faltas que deploras,
E Ele, em quem lacrimosa o fito olhar demoras,
Sorri, por te saber acrisolada e pura.
Há na tua atitude mística doçura
De quem contempla o albor de célicas auroras,
— O olhar vago de quem se impregna e se satura
De toda a contrição que exala o Livro de Horas...
Volves agora o olhar à imagem de Maria,
E Maria, de cima, a unção prodigaliza
De outro olhar, onde a graça esplêndida irradia!
Nem sequer o cansaço as fibras te quebranta...
E, arroubada, não vês que assim se imobiliza
Genuflexa uma santa em face de outra Santa...
Pedes a Deus perdão das faltas que deploras,
E Ele, em quem lacrimosa o fito olhar demoras,
Sorri, por te saber acrisolada e pura.
Há na tua atitude mística doçura
De quem contempla o albor de célicas auroras,
— O olhar vago de quem se impregna e se satura
De toda a contrição que exala o Livro de Horas...
Volves agora o olhar à imagem de Maria,
E Maria, de cima, a unção prodigaliza
De outro olhar, onde a graça esplêndida irradia!
Nem sequer o cansaço as fibras te quebranta...
E, arroubada, não vês que assim se imobiliza
Genuflexa uma santa em face de outra Santa...
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Dantas Motta
Éclogas Pequenas em que Fala um Só Pastor
No Sertão das Vacarias o leite e o País
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.
E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,
esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,
hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que
todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,
porque, em verdade, o dia me envelhece.
De fato eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.
E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,
esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,
hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que
todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,
porque, em verdade, o dia me envelhece.
De fato eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?
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Carlos D’Alge
Re-invenção do Corpo
O corpo perdido precisa ser re-inventado
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
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Carlos D’Alge
Re-invenção do Corpo
O corpo perdido precisa ser re-inventado
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
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Carlos Fernandes
Urbs Mea
Ergue-te, que já vem repontando a alvorada.
Quem trouxe o fado teu, tarde ou nunca descansa.
Eis-te na guerra, sus, alma tantalizada!
Cavalga o teu corcel, pega na tua lança.
Recomeça de novo a intérmina Cruzada,
Põe no teu amuleto as asas da Esperança;
Beija em face de Deus a cruz da tua espada
E de encontro à legião dos bárbaros avança.
É um assédios Vês: — Mouros por toda parte;
O Reino de Aragão dos teus nobres cuidados
Presa dos Infiéis... Rompe-se o baluarte;
Entra a mourama hostil... Solta ao vento os teus brados
E morre, proclamando o teu Símbolo de Arte,
Na trágica invasão dos muros derrocadas.
Quem trouxe o fado teu, tarde ou nunca descansa.
Eis-te na guerra, sus, alma tantalizada!
Cavalga o teu corcel, pega na tua lança.
Recomeça de novo a intérmina Cruzada,
Põe no teu amuleto as asas da Esperança;
Beija em face de Deus a cruz da tua espada
E de encontro à legião dos bárbaros avança.
É um assédios Vês: — Mouros por toda parte;
O Reino de Aragão dos teus nobres cuidados
Presa dos Infiéis... Rompe-se o baluarte;
Entra a mourama hostil... Solta ao vento os teus brados
E morre, proclamando o teu Símbolo de Arte,
Na trágica invasão dos muros derrocadas.
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