Poemas neste tema
Outros
José Carlos Souza Santos
A tarde que me cabe
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
919
José Carlos Souza Santos
O Romanceiro
Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
1 154
Salomé Queiroga
Piparotes na estátua eqüestre de Pedro I
Pobre país, não tens fé,
Não te causa o crime abalo!
Deixas a virtude a pé,
E pões o vício a cavalo.
Ei-lo! a nova geração
Tem-no aqui bem verdadeiro:
Sem possuir coração
E de bronze todo inteiro.
Esse, que vês esculpido
No bronze monumental,
Foi cá no Brasil Cupido,
Marte foi em Portugal.
Como um primor se apregoa
A estátua de Luís Rochet,
Não pode ser coisa boa:
— "Rien n’est beau que le vrai."
Não te causa o crime abalo!
Deixas a virtude a pé,
E pões o vício a cavalo.
Ei-lo! a nova geração
Tem-no aqui bem verdadeiro:
Sem possuir coração
E de bronze todo inteiro.
Esse, que vês esculpido
No bronze monumental,
Foi cá no Brasil Cupido,
Marte foi em Portugal.
Como um primor se apregoa
A estátua de Luís Rochet,
Não pode ser coisa boa:
— "Rien n’est beau que le vrai."
879
José Carlos Souza Santos
A Visão
Mirei-me na profundeza
dos teus olhos
negros
e desejei-me Senhor
do tempo
Vi-me alado nas tuas crinas
e o mar de desejos
por onde cavalgávamos
transformava cúmplice a branca espuma
em dossel carmin
dos teus olhos
negros
e desejei-me Senhor
do tempo
Vi-me alado nas tuas crinas
e o mar de desejos
por onde cavalgávamos
transformava cúmplice a branca espuma
em dossel carmin
894
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Onze anos depois
Onze anos são passados. Nas campinas
verdes da estâancia há sombras perpassando:
sonhos, visões, lembranças e as divinas
inspirações de outrota, soluçando.
Frondeja o cinamomo, no odorando
calor da primavera. Suaves, finas,
as suas flores ficam arroxeando
aquelas solidões e as nossas sinas.
Entro na casa. O sol fulgura.
Mas, dentro de mim, há frêmitos dolentes
de incertezas, saudades e ternuras.
Surges, por fim. No teu olhar sem côres
releio o meu destino: estão presentes
nossas recordações e nossas dores.
verdes da estâancia há sombras perpassando:
sonhos, visões, lembranças e as divinas
inspirações de outrota, soluçando.
Frondeja o cinamomo, no odorando
calor da primavera. Suaves, finas,
as suas flores ficam arroxeando
aquelas solidões e as nossas sinas.
Entro na casa. O sol fulgura.
Mas, dentro de mim, há frêmitos dolentes
de incertezas, saudades e ternuras.
Surges, por fim. No teu olhar sem côres
releio o meu destino: estão presentes
nossas recordações e nossas dores.
892
José Carlos Souza Santos
Cavalgada I
Ontem
te encontrei
nas minhas veredas anfíbias
de encantos e descaminhos
e de relance
vi o rosto
de trezentas rosas morenas
brincando de recordar
foi fugaz e relancino
o tempo meu inimigo
escondeu-a numa curva
e por mais que galopasse
a crina azul do meu cavalo
a distância ciumenta me roubava de você
mandei dizer pelo vento
velho companheiro
de brincar nos teus cabelos
te espero na guirlanda do meu verso
vamos cobrar do tempo
o saldo que ele nos deve
vamos no verde do musgo
brincar de cama macia
e o canto dos meus galos
em quatro corpetes cingidos
farão círios e dosséis
na roca do meu tear.
(do livro Estrelas Ausentes)
te encontrei
nas minhas veredas anfíbias
de encantos e descaminhos
e de relance
vi o rosto
de trezentas rosas morenas
brincando de recordar
foi fugaz e relancino
o tempo meu inimigo
escondeu-a numa curva
e por mais que galopasse
a crina azul do meu cavalo
a distância ciumenta me roubava de você
mandei dizer pelo vento
velho companheiro
de brincar nos teus cabelos
te espero na guirlanda do meu verso
vamos cobrar do tempo
o saldo que ele nos deve
vamos no verde do musgo
brincar de cama macia
e o canto dos meus galos
em quatro corpetes cingidos
farão círios e dosséis
na roca do meu tear.
(do livro Estrelas Ausentes)
967
José Carlos Souza Santos
Cavalgada I
Ontem
te encontrei
nas minhas veredas anfíbias
de encantos e descaminhos
e de relance
vi o rosto
de trezentas rosas morenas
brincando de recordar
foi fugaz e relancino
o tempo meu inimigo
escondeu-a numa curva
e por mais que galopasse
a crina azul do meu cavalo
a distância ciumenta me roubava de você
mandei dizer pelo vento
velho companheiro
de brincar nos teus cabelos
te espero na guirlanda do meu verso
vamos cobrar do tempo
o saldo que ele nos deve
vamos no verde do musgo
brincar de cama macia
e o canto dos meus galos
em quatro corpetes cingidos
farão círios e dosséis
na roca do meu tear.
(do livro Estrelas Ausentes)
te encontrei
nas minhas veredas anfíbias
de encantos e descaminhos
e de relance
vi o rosto
de trezentas rosas morenas
brincando de recordar
foi fugaz e relancino
o tempo meu inimigo
escondeu-a numa curva
e por mais que galopasse
a crina azul do meu cavalo
a distância ciumenta me roubava de você
mandei dizer pelo vento
velho companheiro
de brincar nos teus cabelos
te espero na guirlanda do meu verso
vamos cobrar do tempo
o saldo que ele nos deve
vamos no verde do musgo
brincar de cama macia
e o canto dos meus galos
em quatro corpetes cingidos
farão círios e dosséis
na roca do meu tear.
(do livro Estrelas Ausentes)
967
Marcelo Tápia
essência falsa
as lojas de essências da rua tabatingüera
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:
o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão
a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série
o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum
a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave
tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer
a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual
nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz
cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:
o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão
a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série
o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum
a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave
tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer
a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual
nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz
cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado
1 027
Marcelo Tápia
essência falsa
as lojas de essências da rua tabatingüera
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:
o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão
a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série
o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum
a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave
tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer
a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual
nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz
cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:
o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão
a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série
o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum
a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave
tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer
a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual
nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz
cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado
1 027
Sérgio de Mesquita Serra
Haicai
A lua aparece.
Semeia de brilho a teia
que a aranha tece.
A gota de orvalho,
airosa, conquista a rosa
sem muito trabalho.
Semeia de brilho a teia
que a aranha tece.
A gota de orvalho,
airosa, conquista a rosa
sem muito trabalho.
1 596
Tereza Cristina Fraga
Nublando
Acordei!
A casa estava quente como o meu corpo.
No silêncio do quarto a percepçåo
De que o amanhå havia acabado de despertar.
Entre olhos sonolentos,
O corpo arrepiado,
Transformou a superfície lisa em leves ondas.
Todos os músculos foram esticados.
Cada fibra estendida ao extremo.
A boca abriu-se...
Na frente o espelho revelava a silhueta,
Que dengosa percebeu suas formas delicadas
Nas curvas acentuadas. Sorri...
O tempo nublado percorreu e penetrou no aposento.
Intrometido!
Transformou a quietude com o suave zumbir dos ventos.
Trocou a cor pálida das paredes.
Deu vontade de cobrir, ficar encolhida, quieta.
Era hora da partida que nåo pode deixar para amanhå o adeus de todos os dias.
Deixei que os minutos passassem, nåo fiz queståo de segurá-los.
Que o tempo nublado chegasse, penetrasse todos os meus poros.
Que as horas permitissem aos minutos serem donos do tempo.
No peito arfante os dois elementos se misturaram, nublando
Meus pensamentos.
Fizeram do corpo moradia.
A casa estava quente como o meu corpo.
No silêncio do quarto a percepçåo
De que o amanhå havia acabado de despertar.
Entre olhos sonolentos,
O corpo arrepiado,
Transformou a superfície lisa em leves ondas.
Todos os músculos foram esticados.
Cada fibra estendida ao extremo.
A boca abriu-se...
Na frente o espelho revelava a silhueta,
Que dengosa percebeu suas formas delicadas
Nas curvas acentuadas. Sorri...
O tempo nublado percorreu e penetrou no aposento.
Intrometido!
Transformou a quietude com o suave zumbir dos ventos.
Trocou a cor pálida das paredes.
Deu vontade de cobrir, ficar encolhida, quieta.
Era hora da partida que nåo pode deixar para amanhå o adeus de todos os dias.
Deixei que os minutos passassem, nåo fiz queståo de segurá-los.
Que o tempo nublado chegasse, penetrasse todos os meus poros.
Que as horas permitissem aos minutos serem donos do tempo.
No peito arfante os dois elementos se misturaram, nublando
Meus pensamentos.
Fizeram do corpo moradia.
905
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Do eterno motivo
Quando nasceu o amor na humanidade,
os símbolos do mal foram fugindo.
A fonte redentora, que persuade,
fixou à vida seu poder benvindo.
Nós surgimos da dor para a bondade,
do sono obscuro para o sonho lindo.
Tal a mudez ambiente que se evade,
ante acordes pruríssimos, defluindo.
A atração seletiva configura
o enlevo ascensional da primazia,
na graça, na beleza, na ternura...
E, unida à idéia a fórmula corpórea,
o amor por entre os seres se anuncia
para a perpetuidade, além da glória.
os símbolos do mal foram fugindo.
A fonte redentora, que persuade,
fixou à vida seu poder benvindo.
Nós surgimos da dor para a bondade,
do sono obscuro para o sonho lindo.
Tal a mudez ambiente que se evade,
ante acordes pruríssimos, defluindo.
A atração seletiva configura
o enlevo ascensional da primazia,
na graça, na beleza, na ternura...
E, unida à idéia a fórmula corpórea,
o amor por entre os seres se anuncia
para a perpetuidade, além da glória.
834
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Do eterno motivo
Quando nasceu o amor na humanidade,
os símbolos do mal foram fugindo.
A fonte redentora, que persuade,
fixou à vida seu poder benvindo.
Nós surgimos da dor para a bondade,
do sono obscuro para o sonho lindo.
Tal a mudez ambiente que se evade,
ante acordes pruríssimos, defluindo.
A atração seletiva configura
o enlevo ascensional da primazia,
na graça, na beleza, na ternura...
E, unida à idéia a fórmula corpórea,
o amor por entre os seres se anuncia
para a perpetuidade, além da glória.
os símbolos do mal foram fugindo.
A fonte redentora, que persuade,
fixou à vida seu poder benvindo.
Nós surgimos da dor para a bondade,
do sono obscuro para o sonho lindo.
Tal a mudez ambiente que se evade,
ante acordes pruríssimos, defluindo.
A atração seletiva configura
o enlevo ascensional da primazia,
na graça, na beleza, na ternura...
E, unida à idéia a fórmula corpórea,
o amor por entre os seres se anuncia
para a perpetuidade, além da glória.
834
Sílvia Rocha
Haicai
chuva de verão
transito no trânsito
chora coração
solidão
não te come não te mata
te retrata
transito no trânsito
chora coração
solidão
não te come não te mata
te retrata
1 012
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
A que deixa posteridade
Quando contemplo as rugas do teu rosto,
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
909
Samuel Nogueira Filho
Templo Sagrado
Quanta suntuosidade ao teto e nos altares
de uma igreja cristã, qualquer uma latina...
porque essa ostentação, se dizem ser divina
inspiração de Deus, Senhor dos Avatares...
Onde estiverem dois, em meu nome, em surdina,
Eu estarei presente, a Bíblia em seus cantares
regista. Então, porque de luxo banqueteares,
quando a simplicidade é da cristã doutrina?
O verdadeiro amor jamais é compulsório,
subterfúgio não tem, Jesus dele é notório,
na criança o destacou, nos pobres e aleijados...
O templo mais sagrado, aquele que se imola,
é nosso próprio corpo, onde a alma se acrisola,
ensinava Jesus dois mil anos passados.
de uma igreja cristã, qualquer uma latina...
porque essa ostentação, se dizem ser divina
inspiração de Deus, Senhor dos Avatares...
Onde estiverem dois, em meu nome, em surdina,
Eu estarei presente, a Bíblia em seus cantares
regista. Então, porque de luxo banqueteares,
quando a simplicidade é da cristã doutrina?
O verdadeiro amor jamais é compulsório,
subterfúgio não tem, Jesus dele é notório,
na criança o destacou, nos pobres e aleijados...
O templo mais sagrado, aquele que se imola,
é nosso próprio corpo, onde a alma se acrisola,
ensinava Jesus dois mil anos passados.
931
Gilberto Mendonça Teles
No Foz do Tejo
E todavia a trave na garganta
e a grossa mão medrosa sem poder
interpretar sequer o que repete,
o que soletra, o que rumina há séculos,
nós, gagos de Babel, babamos versos.
Jorge de Lima
e a grossa mão medrosa sem poder
interpretar sequer o que repete,
o que soletra, o que rumina há séculos,
nós, gagos de Babel, babamos versos.
Jorge de Lima
1 697
Salomé Queiroga
Retrato da Mulata
Crespa madeixa
Partida em duas,
As fontes tuas
Cercando assim,
Parece largo
Diadema airoso
De muito lustroso
Preto cetim.
Que bem te assentam
Faces vermelhas
E sobrancelhas
Cor de carvão!
jabuticabas
Frescas, brilhantes,
Como diamantes
Teus olhos são.
Se a mim os volves
Amortecidos,
E derretidos
Em doce amor,
As negras franjas
A custo abrindo,
E despargindo
Terno langor!
Ah! que então sinto
Um tão amável,
Tão inefável,
Vivo prazer,
Que extasiado
No gozo ativo
Se morro ou vivo
Não sei dizer.
Em tuas faces
Brilha serena
A cor morena
Do buriti:
Teus lábios vertem
Rósea frescura,
Cheiro e doçura
Do jataí.
E quando os abre
Do rir e ensejo,
Pérolas vejo
Entre corais:
Como são belos
Assim molhado!
De amor gerados
Me arrancam ais.
Para roubar-me
Cinco sentidos,
Tens escondidos
Certos ladrões
Dentro do seio,
Bem disfarçados,
E transformados
Em dois limões.
A tua airosa
Bela cintura
O gosto apura
Em estreitar,
E o mais que à vista
O pejo oculta
Vontade exulta
Só de pensar.
Já que pintei-te,
Minha querida,
Vênus nascida
Cá no Brasil,
Em prêmio dai-me
Muxoxos, queixas,
Quindins, me deixas,
E beijos mil.
Partida em duas,
As fontes tuas
Cercando assim,
Parece largo
Diadema airoso
De muito lustroso
Preto cetim.
Que bem te assentam
Faces vermelhas
E sobrancelhas
Cor de carvão!
jabuticabas
Frescas, brilhantes,
Como diamantes
Teus olhos são.
Se a mim os volves
Amortecidos,
E derretidos
Em doce amor,
As negras franjas
A custo abrindo,
E despargindo
Terno langor!
Ah! que então sinto
Um tão amável,
Tão inefável,
Vivo prazer,
Que extasiado
No gozo ativo
Se morro ou vivo
Não sei dizer.
Em tuas faces
Brilha serena
A cor morena
Do buriti:
Teus lábios vertem
Rósea frescura,
Cheiro e doçura
Do jataí.
E quando os abre
Do rir e ensejo,
Pérolas vejo
Entre corais:
Como são belos
Assim molhado!
De amor gerados
Me arrancam ais.
Para roubar-me
Cinco sentidos,
Tens escondidos
Certos ladrões
Dentro do seio,
Bem disfarçados,
E transformados
Em dois limões.
A tua airosa
Bela cintura
O gosto apura
Em estreitar,
E o mais que à vista
O pejo oculta
Vontade exulta
Só de pensar.
Já que pintei-te,
Minha querida,
Vênus nascida
Cá no Brasil,
Em prêmio dai-me
Muxoxos, queixas,
Quindins, me deixas,
E beijos mil.
1 222
Salomé Queiroga
Retrato da Mulata
Crespa madeixa
Partida em duas,
As fontes tuas
Cercando assim,
Parece largo
Diadema airoso
De muito lustroso
Preto cetim.
Que bem te assentam
Faces vermelhas
E sobrancelhas
Cor de carvão!
jabuticabas
Frescas, brilhantes,
Como diamantes
Teus olhos são.
Se a mim os volves
Amortecidos,
E derretidos
Em doce amor,
As negras franjas
A custo abrindo,
E despargindo
Terno langor!
Ah! que então sinto
Um tão amável,
Tão inefável,
Vivo prazer,
Que extasiado
No gozo ativo
Se morro ou vivo
Não sei dizer.
Em tuas faces
Brilha serena
A cor morena
Do buriti:
Teus lábios vertem
Rósea frescura,
Cheiro e doçura
Do jataí.
E quando os abre
Do rir e ensejo,
Pérolas vejo
Entre corais:
Como são belos
Assim molhado!
De amor gerados
Me arrancam ais.
Para roubar-me
Cinco sentidos,
Tens escondidos
Certos ladrões
Dentro do seio,
Bem disfarçados,
E transformados
Em dois limões.
A tua airosa
Bela cintura
O gosto apura
Em estreitar,
E o mais que à vista
O pejo oculta
Vontade exulta
Só de pensar.
Já que pintei-te,
Minha querida,
Vênus nascida
Cá no Brasil,
Em prêmio dai-me
Muxoxos, queixas,
Quindins, me deixas,
E beijos mil.
Partida em duas,
As fontes tuas
Cercando assim,
Parece largo
Diadema airoso
De muito lustroso
Preto cetim.
Que bem te assentam
Faces vermelhas
E sobrancelhas
Cor de carvão!
jabuticabas
Frescas, brilhantes,
Como diamantes
Teus olhos são.
Se a mim os volves
Amortecidos,
E derretidos
Em doce amor,
As negras franjas
A custo abrindo,
E despargindo
Terno langor!
Ah! que então sinto
Um tão amável,
Tão inefável,
Vivo prazer,
Que extasiado
No gozo ativo
Se morro ou vivo
Não sei dizer.
Em tuas faces
Brilha serena
A cor morena
Do buriti:
Teus lábios vertem
Rósea frescura,
Cheiro e doçura
Do jataí.
E quando os abre
Do rir e ensejo,
Pérolas vejo
Entre corais:
Como são belos
Assim molhado!
De amor gerados
Me arrancam ais.
Para roubar-me
Cinco sentidos,
Tens escondidos
Certos ladrões
Dentro do seio,
Bem disfarçados,
E transformados
Em dois limões.
A tua airosa
Bela cintura
O gosto apura
Em estreitar,
E o mais que à vista
O pejo oculta
Vontade exulta
Só de pensar.
Já que pintei-te,
Minha querida,
Vênus nascida
Cá no Brasil,
Em prêmio dai-me
Muxoxos, queixas,
Quindins, me deixas,
E beijos mil.
1 222
Tatiana Ramminger
Só o olhar do outro
Só o olhar do outro
Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...
Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...
1 323
Severiano de Resende
Bellua
Como, neste lagoal surdo, surde elétrica e lesta
A Fera? Como, sem que o passo em relvas resvalasse,
O monstro, que a campanha e a vila infesta,
Penetra o meu castelo e vem olhar-me face a face?
(Vejo-o surgir diante de mim no espelho
ígneo e fosforescente
Todo tinto de verde e de vermelho,
E senta-se, sem que eu lhe diga que se sente.)
Mas sob o manto astral aos meus ombros esparso
A essência do meu ser recôndito eu disfarço.
Mira-me de alto a baixo e dos pés à cabeça
E da cabeça aos pés
E do meu corpo esfuracando a impermeável e espessa
Penumbra, arranca-me a alma (em vão!) e inquire-me: "Quem és?"
Como se este medonho híspido avejão de outro mundo
(E de outras eras)
Não temesse que do meu cérebro arguto e profundo
Me saísse em resposta esta outra pergunta: "Quem eras?"
Ou: "Quem foste?" porque, sem erro algum, eu bem conheço
De onde este fantasma vem.
E preciso não é remontar ao começo
Do caos primevo, que os arcanos do cosmos contém,
Para desmascará-lo e conhecê-lo bem.
MAS DENTRO EM MlM RESPLENDE A ÁRVORE DO BEM.
A Fera? Como, sem que o passo em relvas resvalasse,
O monstro, que a campanha e a vila infesta,
Penetra o meu castelo e vem olhar-me face a face?
(Vejo-o surgir diante de mim no espelho
ígneo e fosforescente
Todo tinto de verde e de vermelho,
E senta-se, sem que eu lhe diga que se sente.)
Mas sob o manto astral aos meus ombros esparso
A essência do meu ser recôndito eu disfarço.
Mira-me de alto a baixo e dos pés à cabeça
E da cabeça aos pés
E do meu corpo esfuracando a impermeável e espessa
Penumbra, arranca-me a alma (em vão!) e inquire-me: "Quem és?"
Como se este medonho híspido avejão de outro mundo
(E de outras eras)
Não temesse que do meu cérebro arguto e profundo
Me saísse em resposta esta outra pergunta: "Quem eras?"
Ou: "Quem foste?" porque, sem erro algum, eu bem conheço
De onde este fantasma vem.
E preciso não é remontar ao começo
Do caos primevo, que os arcanos do cosmos contém,
Para desmascará-lo e conhecê-lo bem.
MAS DENTRO EM MlM RESPLENDE A ÁRVORE DO BEM.
673
Salette Tavares
Enigma Lua
Esqueceste
o touroe o grito
a parede brancae fria
a cabeça decepadaenfunada
vento sangueferido.
Esqueceste
a lâmpada no tetoamarelo
rio de sombracorrido
cavalo eriçadona tábua
no quarto.
Esqueceste
a cova ondeSangue e olhos
enterraste
Esqueceste e alienado nos salões
ficastecheirando orquídeasinodoras
sapatinhos de papaocos
réplicas estéticasà metralha
dos aviões.
Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?
Quem te poderá julgar?
Eu só sei rasgar enigma
contra razões da terra
olhos que espanto me crava
na lua da tarde que erra.
Presença de transparência
na força que assim me arde
na lua de noite branca
me banho fantasma árvore.
Sombra na sombra lua
enigma junto à janela.
Esqueceste
mas não comigo
esqueceste a lâmpada amarelado abrigo
e as quatro paredesfrias.
Esqueceste
mas não comigo,
o touroe o grito
a parede brancae fria
a cabeça decepadaenfunada
vento sangueferido.
Esqueceste
a lâmpada no tetoamarelo
rio de sombracorrido
cavalo eriçadona tábua
no quarto.
Esqueceste
a cova ondeSangue e olhos
enterraste
Esqueceste e alienado nos salões
ficastecheirando orquídeasinodoras
sapatinhos de papaocos
réplicas estéticasà metralha
dos aviões.
Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?
Quem te poderá julgar?
Eu só sei rasgar enigma
contra razões da terra
olhos que espanto me crava
na lua da tarde que erra.
Presença de transparência
na força que assim me arde
na lua de noite branca
me banho fantasma árvore.
Sombra na sombra lua
enigma junto à janela.
Esqueceste
mas não comigo
esqueceste a lâmpada amarelado abrigo
e as quatro paredesfrias.
Esqueceste
mas não comigo,
1 577
Tereza Cristina Fraga
Querendo
O sol penetra
Traz as pessoas para começar o dia.
As crianças sonolentas
Os adultos quase despertos.
Na copa eståo as Marias
Na porta o Joåo
Nas ruas a solidåo.
Sobre um céu
Dentro da terra
E o mar qual distante de meus olhos
Que eståo perto do cerrado
Tristes
Encabulados.
Procurando uma vontade
Esse tolo desejo
De mato molhado.
De um bicho ao meu lado.
Traz as pessoas para começar o dia.
As crianças sonolentas
Os adultos quase despertos.
Na copa eståo as Marias
Na porta o Joåo
Nas ruas a solidåo.
Sobre um céu
Dentro da terra
E o mar qual distante de meus olhos
Que eståo perto do cerrado
Tristes
Encabulados.
Procurando uma vontade
Esse tolo desejo
De mato molhado.
De um bicho ao meu lado.
840
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
A que não veio
Setembro. Nesta noite perfumada
espero-te. E não sei se vens, ao certo.
Pode ser que te percas pela estrada,
temerosa da chama que te oferto.
Neste leito - sozinho, inquieto. E cada
rumor que ouço, me torna mais desperto.
Iluzão...Não chegaste, minha amada,
nem me troxeste o níveo seio aberto.
Já se adelgaça a névoa dos caminhos.
Ante a luz matinal, que se anuncia,
há bulícios e músicas nos ninhos.
E eu, taciturno, mas, em ti pensando,
fecho os olhos cansados para o dia
como quem fica ainda te esperando.
espero-te. E não sei se vens, ao certo.
Pode ser que te percas pela estrada,
temerosa da chama que te oferto.
Neste leito - sozinho, inquieto. E cada
rumor que ouço, me torna mais desperto.
Iluzão...Não chegaste, minha amada,
nem me troxeste o níveo seio aberto.
Já se adelgaça a névoa dos caminhos.
Ante a luz matinal, que se anuncia,
há bulícios e músicas nos ninhos.
E eu, taciturno, mas, em ti pensando,
fecho os olhos cansados para o dia
como quem fica ainda te esperando.
885