Poemas neste tema
Outros
João Moura Jr.
Nadando
Por incrível que pareça,
talvez o melhor estilo
para um poeta moderno
seja o estilo clássico, ou
nado de peito. Ele exige
certa contenção. Você
desliza nágua mansa-
mente, como se hesitasse.
Ao atingir a borda, é
impossível virar cam-
balhota, daí talvez ele
ser chamado clássico, ou
quem sabe é porque é o que serve
melhor para se observar
o que se passa ao redor,
isto é, fotografá-lo, ou
— evitando o anacronismo,
e já que falamos de água —
espelhá-lo, visto que o
espelho é por excelência
a metáfora do clássico.
Nadar é como uma cobra:
um constante enrodilhar-se
em pensamento por vezes
nada sublimes (que belo
traseiro ali adiante, etc.);
daí, em vez de estilo clássico,
talvez fosse mais correto
falar-se em mescla de estilos.
Nadar: um poema longo
em redondilha maior
com andamento de prosa
em que é difícil manter
o mesmo ritmo sempre
(Poe não dizia que um poema
deve necessariamente
ser breve?). Começa-se a
arfar, os músculos pesam,
respira-se irregular-
mente, o nado, apesar de
clássico, agora assemelha-se
a um poema moderno
(ou a um desaprendizado),
um poema que tivesse
uma piscina por tema,
e um nadador que insistisse,
já que escrever poesia
(principalmente hoje em dia)
é uma espécie de nada.
Nada. Nada. Nada. Nada.
talvez o melhor estilo
para um poeta moderno
seja o estilo clássico, ou
nado de peito. Ele exige
certa contenção. Você
desliza nágua mansa-
mente, como se hesitasse.
Ao atingir a borda, é
impossível virar cam-
balhota, daí talvez ele
ser chamado clássico, ou
quem sabe é porque é o que serve
melhor para se observar
o que se passa ao redor,
isto é, fotografá-lo, ou
— evitando o anacronismo,
e já que falamos de água —
espelhá-lo, visto que o
espelho é por excelência
a metáfora do clássico.
Nadar é como uma cobra:
um constante enrodilhar-se
em pensamento por vezes
nada sublimes (que belo
traseiro ali adiante, etc.);
daí, em vez de estilo clássico,
talvez fosse mais correto
falar-se em mescla de estilos.
Nadar: um poema longo
em redondilha maior
com andamento de prosa
em que é difícil manter
o mesmo ritmo sempre
(Poe não dizia que um poema
deve necessariamente
ser breve?). Começa-se a
arfar, os músculos pesam,
respira-se irregular-
mente, o nado, apesar de
clássico, agora assemelha-se
a um poema moderno
(ou a um desaprendizado),
um poema que tivesse
uma piscina por tema,
e um nadador que insistisse,
já que escrever poesia
(principalmente hoje em dia)
é uma espécie de nada.
Nada. Nada. Nada. Nada.
1 224
João Fortunato
Estela
Para Manuel Ribeiro de Paiva
Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.
Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.
E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…
Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.
Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.
E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…
800
José Maria Nascimento
A Vergonha
Estou me procurando a cada sombra
deste contraditório desencanto.
Estas mornas lágrimas cintilam
um afeto ruidosamente indeciso.
Já não sei se hoje estou despido
ou se neste Vale encontrarei o Manto
com que haverei nas tardes de cobrir
a nudez da minha vergonha no Paraíso.
deste contraditório desencanto.
Estas mornas lágrimas cintilam
um afeto ruidosamente indeciso.
Já não sei se hoje estou despido
ou se neste Vale encontrarei o Manto
com que haverei nas tardes de cobrir
a nudez da minha vergonha no Paraíso.
853
João Marcio Furtado Costa
Acróstico I
Acróstico I
(10/92)
Luz, raiaste, brilhaste intensamente,
Uníssono de louvor ao criador.
Instigante, deslumbrante, enaltecida,
Sangue, coração. Tu és só vida,
Acariciaste com tua presença nosso amor.
Cravo ou rosa? De que cor?
Anunciaste cedo que serias flor.
Retratada em prosa, verso ou aquarela,
Ostentas de maneira sempre bela,
Lindos, negros, olhos e cabelo a emoldurar.
Indescritível intensidade de amor, impossível de sonhar.
Nasceste para ser nossa rainha, nunca estarás sozinha,
Acima de tudo, viveremos pra te amar.
(10/92)
Luz, raiaste, brilhaste intensamente,
Uníssono de louvor ao criador.
Instigante, deslumbrante, enaltecida,
Sangue, coração. Tu és só vida,
Acariciaste com tua presença nosso amor.
Cravo ou rosa? De que cor?
Anunciaste cedo que serias flor.
Retratada em prosa, verso ou aquarela,
Ostentas de maneira sempre bela,
Lindos, negros, olhos e cabelo a emoldurar.
Indescritível intensidade de amor, impossível de sonhar.
Nasceste para ser nossa rainha, nunca estarás sozinha,
Acima de tudo, viveremos pra te amar.
1 155
João Marcio Furtado Costa
Acróstico I
Acróstico I
(10/92)
Luz, raiaste, brilhaste intensamente,
Uníssono de louvor ao criador.
Instigante, deslumbrante, enaltecida,
Sangue, coração. Tu és só vida,
Acariciaste com tua presença nosso amor.
Cravo ou rosa? De que cor?
Anunciaste cedo que serias flor.
Retratada em prosa, verso ou aquarela,
Ostentas de maneira sempre bela,
Lindos, negros, olhos e cabelo a emoldurar.
Indescritível intensidade de amor, impossível de sonhar.
Nasceste para ser nossa rainha, nunca estarás sozinha,
Acima de tudo, viveremos pra te amar.
(10/92)
Luz, raiaste, brilhaste intensamente,
Uníssono de louvor ao criador.
Instigante, deslumbrante, enaltecida,
Sangue, coração. Tu és só vida,
Acariciaste com tua presença nosso amor.
Cravo ou rosa? De que cor?
Anunciaste cedo que serias flor.
Retratada em prosa, verso ou aquarela,
Ostentas de maneira sempre bela,
Lindos, negros, olhos e cabelo a emoldurar.
Indescritível intensidade de amor, impossível de sonhar.
Nasceste para ser nossa rainha, nunca estarás sozinha,
Acima de tudo, viveremos pra te amar.
1 155
João Gulart de Souza Gomos
a insustentável leveza do amor
Que ninguém saiba:
falo dos teus olhos
Terras castanhas, precipício de almas;
Que ninguém veja:
falo do teu riso
Oceano de ritmos, vertigem e calma.
Que ninguém ouça:
falo da tua voz
Perdição de Ulisses em alto mar;
Que ninguém toque:
falo das tuas mãos
Recriar do mundo, elementar.
Que ninguém sinta:
falo da tua boca
Pura seda, roçar de borboletas;
Que ninguém aspire:
falo do teu cheiro
Inspiração eterna de poetas.
Que ninguém ouse:
falo do teu corpo
Porção visível do infinito;
Que ninguém duvide:
falo do que sinto
Amor assim não houve, mais bonito.
Que ninguém entenda:
o amor é um hiato
Entre o vivido e o sonhado;
Que ninguém tema:
o amor é imponderável
Fluido, muito além do leve ou do pesado.
Goulart Gomes, Salvador, BA
falo dos teus olhos
Terras castanhas, precipício de almas;
Que ninguém veja:
falo do teu riso
Oceano de ritmos, vertigem e calma.
Que ninguém ouça:
falo da tua voz
Perdição de Ulisses em alto mar;
Que ninguém toque:
falo das tuas mãos
Recriar do mundo, elementar.
Que ninguém sinta:
falo da tua boca
Pura seda, roçar de borboletas;
Que ninguém aspire:
falo do teu cheiro
Inspiração eterna de poetas.
Que ninguém ouse:
falo do teu corpo
Porção visível do infinito;
Que ninguém duvide:
falo do que sinto
Amor assim não houve, mais bonito.
Que ninguém entenda:
o amor é um hiato
Entre o vivido e o sonhado;
Que ninguém tema:
o amor é imponderável
Fluido, muito além do leve ou do pesado.
Goulart Gomes, Salvador, BA
909
José Eustáquio da Silva
Coadjuvante
não sou dono, tomo conta
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
1 095
José Eustáquio da Silva
Coadjuvante
não sou dono, tomo conta
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
1 095
José Fernandes Fafe
Testamento, entre os pinheiros e o mar
Se eu morrer primeiro do que tu,
salva a ternura que salvei.
Depois, se te doer, firma o olhar
nas ondas mais longínquas do mar largo,
destrói a dor nas lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e o cabelo,
pinheiro firme, cego dos sentidos,
entre as flores silvestres e a espuma...
E o indício de tudo ter passado
(eu, um tempo feliz que se recorda)
é sentires o longo, íntimo afago
do marulho do mar, mão pelos cabelos...
salva a ternura que salvei.
Depois, se te doer, firma o olhar
nas ondas mais longínquas do mar largo,
destrói a dor nas lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e o cabelo,
pinheiro firme, cego dos sentidos,
entre as flores silvestres e a espuma...
E o indício de tudo ter passado
(eu, um tempo feliz que se recorda)
é sentires o longo, íntimo afago
do marulho do mar, mão pelos cabelos...
959
José Fernandes Fafe
Sonho
A sua presença de mulher foi-se ausentando...
A um gesto seu, diáfano, alou-se o sofrimento...
Tudo era sua voz, mas sem significar
mais que o murmúrio dum encantamento...
Prendia-nos um fio de segredo, murmurado
pelos seus olhos baixados, antes dum sorriso,
com que a meus olhos as coisas se velaram
para lá do seu rosto assim preciso...
Pudor na sua alma ou nos meus dedos?
Como é indizível essa experiência de morrer!
O que me resta é regressar à Vida,
amá-la, delicadamente, como os mortos
— se os mortos pudessem reviver.
A um gesto seu, diáfano, alou-se o sofrimento...
Tudo era sua voz, mas sem significar
mais que o murmúrio dum encantamento...
Prendia-nos um fio de segredo, murmurado
pelos seus olhos baixados, antes dum sorriso,
com que a meus olhos as coisas se velaram
para lá do seu rosto assim preciso...
Pudor na sua alma ou nos meus dedos?
Como é indizível essa experiência de morrer!
O que me resta é regressar à Vida,
amá-la, delicadamente, como os mortos
— se os mortos pudessem reviver.
1 005
Jorge Nascimento
Temporalidade do Desígnio
Já é tempo de construir o poema,
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.
877
Jorge Nascimento
Temporalidade do Desígnio
Já é tempo de construir o poema,
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.
877
João Marcio Furtado Costa
Reflexão
Reflexão
(03/96)
Não procuro consolo,
A inocência se foi,
Se não fomos um todo,
Nada fomos depois.
Mas eu busco o resgate,
Digo não à razão,
Se cresci no vazio,
Ainda tenho o meu chão.
Nesse resto de estrada,
Se é a paixão quem conduz,
Atravesso o túnel,
Ao encontro da luz.
Quero crer na verdade,
Ressuscito o meu fogo,
Se é fato, a vontade,
Venceremos o jogo.
Recomêço e respeito,
O início, principia do fim.
Se abrires teu peito,
Então serás meu jardim.
Se eu paro e espero,
Vou querer respirar,
Mas se sei o que quero,
Por que não te encontrar?
Rasgo o orgulho, proponho,
Viverás só pra mim!
Instância, és de sonho,
Quando dizes que sim.
Pois mais vale a acolhida,
Que forneces ao par,
E anuncias a vida,
Se puderes me amar.
(03/96)
Não procuro consolo,
A inocência se foi,
Se não fomos um todo,
Nada fomos depois.
Mas eu busco o resgate,
Digo não à razão,
Se cresci no vazio,
Ainda tenho o meu chão.
Nesse resto de estrada,
Se é a paixão quem conduz,
Atravesso o túnel,
Ao encontro da luz.
Quero crer na verdade,
Ressuscito o meu fogo,
Se é fato, a vontade,
Venceremos o jogo.
Recomêço e respeito,
O início, principia do fim.
Se abrires teu peito,
Então serás meu jardim.
Se eu paro e espero,
Vou querer respirar,
Mas se sei o que quero,
Por que não te encontrar?
Rasgo o orgulho, proponho,
Viverás só pra mim!
Instância, és de sonho,
Quando dizes que sim.
Pois mais vale a acolhida,
Que forneces ao par,
E anuncias a vida,
Se puderes me amar.
864
João Nepomuceno Kubitschek
Eurico
Hermengarda! ousei amá-la
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
1 145
João Marcio Furtado Costa
Amartemática
Amartemática
(03/96)
Tem-se na adrenalina,
um perfeito combustível,
pra tornar a linha reta,
caminho impossível.
Por que, então, sentir-se,
andando em círculos,
se na verdade, somente,
perdeste os vínculos?
Vê que a sensação,
é de tormento e de frio,
quando a interseção,
é um conjunto vazio.
Se não é quadrado, o cateto,
ou se a hipotenusa é saliente,
pode pintar um triângulo,
de amor resiliente.
Relações de conjuntos,
tendendo a viscerais,
resolvem-se na união,
de soluções integrais.
Se plenas de prazer,
que sejam constantes,
ou frequência baixa,
para fases distantes.
Derivadas do amor,
são riscos incólumes,
dão origem às flores,
e séries de proles.
(03/96)
Tem-se na adrenalina,
um perfeito combustível,
pra tornar a linha reta,
caminho impossível.
Por que, então, sentir-se,
andando em círculos,
se na verdade, somente,
perdeste os vínculos?
Vê que a sensação,
é de tormento e de frio,
quando a interseção,
é um conjunto vazio.
Se não é quadrado, o cateto,
ou se a hipotenusa é saliente,
pode pintar um triângulo,
de amor resiliente.
Relações de conjuntos,
tendendo a viscerais,
resolvem-se na união,
de soluções integrais.
Se plenas de prazer,
que sejam constantes,
ou frequência baixa,
para fases distantes.
Derivadas do amor,
são riscos incólumes,
dão origem às flores,
e séries de proles.
664
João Manuel Simões
Diálogo Comigo
Falo comigo, falo.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.
O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.
Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.
Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.
Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.
O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.
Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.
Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.
Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.
996
João Manuel Simões
Diálogo Comigo
Falo comigo, falo.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.
O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.
Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.
Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.
Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.
O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.
Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.
Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.
Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.
996
José Eustáquio da Silva
Querer
luz pálida
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você
encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você
meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar
abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você
encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você
meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar
abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...
793
José Eustáquio da Silva
Querer
luz pálida
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você
encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você
meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar
abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você
encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você
meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar
abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...
793
José Eustáquio da Silva
Belos
cesta nba
violência aparthaid
um grito haiti
liberdade zumbi
tambores jamaicanos
oloduns brasil baiano
stevie wonder reluziu
tropicalizando gilberto gil
viva áfrica americana
viva o toque do pandeiro
cor não tem cor quando se ama
sou neguinho brasileiro
violência aparthaid
um grito haiti
liberdade zumbi
tambores jamaicanos
oloduns brasil baiano
stevie wonder reluziu
tropicalizando gilberto gil
viva áfrica americana
viva o toque do pandeiro
cor não tem cor quando se ama
sou neguinho brasileiro
883
José Eduardo Mendes Camargo
Coisas Minhas
As minhas palavras, por
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
668
José Eduardo Mendes Camargo
Coisas Minhas
As minhas palavras, por
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
668
José Eduardo Mendes Camargo
Coisas Minhas
As minhas palavras, por
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
668
João Cardoso de Meneses e Silva
A Serra de Paranapiacaba
Dorme; repousa em teu sono,
Da força pujante emblema,
Que tens o oceano por trono
E as nuvens por diadema!
Imóvel, muda, imponente,
Entestas com a excelsa frente
Das águias o azul império;
E em vastíssimo cenário
Da tormenta o quadro vário
Contemplas do espaço etéreo.
Salve, soberbo gigante,
Altivo Titã do mar,
Que aos pés contínuo descante
Ouves a vaga entoar!
Em teu manto de esmeraldas
Envolves as vastas faldas
E as empinadas cimeiras;
E a brisa te agita os cachos
E os verdejantes penachos
Da coroa de palmeiras.
Teus troncos, gravados do selo do tempo,
Meneiam aos ventos as soltas madeixas;
Quais harpas eólias, sussurram nos ares
Canções jubilosas, ou ternas endeixas.
És berço do raio; troantes estrofes
Entoa em teus bosques a voz dos trovões
E os ecos das grotas fiéis, repercutem
O tom fragoroso de roucos tufões.
Do raio ao fuzil horrendo,
E ao crebro trovão, que estruge,
De pavor estremecendo,
A feroz pantera ruge
A sinfonia assombrosa
Une-se nota estrondosa,
Que do fundo abismo sai:
É o som da catarata,
Que em alvos flocos de prata
Num leito de pedras cai.
Que majestade sublime,
Que poesia inefável
O belo ideal se imprime
Nesse quadro incomparável.
Essa cascata da serra
Parece um hino, que a terra,
Espontânea, aos céus eleva!
Então, nossa alma se humilha,
E, ante tanta maravilha,
Em santo arroubo se enleva.
Metais preciosos e gemas em cópia
Ocultas, ó serra, nas lúgubres furnas;
Retalham teu solo torrentes sem conto,
Que o velho granito despeja das urnas.
Povoam-te as selvas e negras gargantas
Inúmeras feras e enormes reptis;
Aí cantam aves, que as cores do íris
Desdobram nas asas de vário matiz.
Escuros despenhadeiros,
Se escuta o surdo ribombo,
Que vai ressoando, a espaços;
É despegado rochedo,
Pelo eriçado fraguedo
A fazer-se em mil pedaços.
Ali, que azul dilatado
Se vai prender ao dos céus?
É o mar que, encapelado,
Ergue os móveis escarcéus.
Então a vista desmaia,
Na amplidão, que além se espraia,
A perder-se no infinito.
E esse imenso panorama
De Deus o nome proclama,
Da face da terra escrito.
Desenham-se, às vezes, arfando nas ondas,
As velas de um barco, do vento enfunadas,
Quais alvas gaivotas, que à flor do oceano,
Brincando, resvalam com as asas nevadas.
Dos topes aéreos, estreitos e golfos
Semelham regatos, talhando as campinas;
Quais pontos esparsos, desdobram-se aos olhos
As casas e torres, ilhéus e colinas.
De teu cimo, a luz vibrando,
O sol na esfera flutua,
E o clarão pálido e brando
Merencória, verte a lua.
Outro céu de anil cintila
Na superfície tranqüila
Do mar, ardendo em fulgor;
E a onda, que não vanzeia,
Vem morrer na branca areia,
Orlando-a de espuma em flor.
Quem sabe se o cataclismo,
Que puniu a humanidade,
Não te fez surgir do abismo
Das ondas na imensidade?
Quem sabe, altaneira serra,
Se és coetânea da terra,
E do berço oriental?
Quem sabe de quanta vida
Foste a suprema guarida
No dilúvio universal?
Plantou-te nos mares o braço divino,
Ingente montanha — barreira das ondas! —
Quem dera perder-me contigo nas nuvens,
Também devassando mistérios, que sondas!
Prodígios, que encerras, são cordas sonoras
De uma harpa celeste de excelsa harmonia,
Que os hinos, que exala, perene descansam
A glória do Eterno, de noite e de dia.
Da força pujante emblema,
Que tens o oceano por trono
E as nuvens por diadema!
Imóvel, muda, imponente,
Entestas com a excelsa frente
Das águias o azul império;
E em vastíssimo cenário
Da tormenta o quadro vário
Contemplas do espaço etéreo.
Salve, soberbo gigante,
Altivo Titã do mar,
Que aos pés contínuo descante
Ouves a vaga entoar!
Em teu manto de esmeraldas
Envolves as vastas faldas
E as empinadas cimeiras;
E a brisa te agita os cachos
E os verdejantes penachos
Da coroa de palmeiras.
Teus troncos, gravados do selo do tempo,
Meneiam aos ventos as soltas madeixas;
Quais harpas eólias, sussurram nos ares
Canções jubilosas, ou ternas endeixas.
És berço do raio; troantes estrofes
Entoa em teus bosques a voz dos trovões
E os ecos das grotas fiéis, repercutem
O tom fragoroso de roucos tufões.
Do raio ao fuzil horrendo,
E ao crebro trovão, que estruge,
De pavor estremecendo,
A feroz pantera ruge
A sinfonia assombrosa
Une-se nota estrondosa,
Que do fundo abismo sai:
É o som da catarata,
Que em alvos flocos de prata
Num leito de pedras cai.
Que majestade sublime,
Que poesia inefável
O belo ideal se imprime
Nesse quadro incomparável.
Essa cascata da serra
Parece um hino, que a terra,
Espontânea, aos céus eleva!
Então, nossa alma se humilha,
E, ante tanta maravilha,
Em santo arroubo se enleva.
Metais preciosos e gemas em cópia
Ocultas, ó serra, nas lúgubres furnas;
Retalham teu solo torrentes sem conto,
Que o velho granito despeja das urnas.
Povoam-te as selvas e negras gargantas
Inúmeras feras e enormes reptis;
Aí cantam aves, que as cores do íris
Desdobram nas asas de vário matiz.
Escuros despenhadeiros,
Se escuta o surdo ribombo,
Que vai ressoando, a espaços;
É despegado rochedo,
Pelo eriçado fraguedo
A fazer-se em mil pedaços.
Ali, que azul dilatado
Se vai prender ao dos céus?
É o mar que, encapelado,
Ergue os móveis escarcéus.
Então a vista desmaia,
Na amplidão, que além se espraia,
A perder-se no infinito.
E esse imenso panorama
De Deus o nome proclama,
Da face da terra escrito.
Desenham-se, às vezes, arfando nas ondas,
As velas de um barco, do vento enfunadas,
Quais alvas gaivotas, que à flor do oceano,
Brincando, resvalam com as asas nevadas.
Dos topes aéreos, estreitos e golfos
Semelham regatos, talhando as campinas;
Quais pontos esparsos, desdobram-se aos olhos
As casas e torres, ilhéus e colinas.
De teu cimo, a luz vibrando,
O sol na esfera flutua,
E o clarão pálido e brando
Merencória, verte a lua.
Outro céu de anil cintila
Na superfície tranqüila
Do mar, ardendo em fulgor;
E a onda, que não vanzeia,
Vem morrer na branca areia,
Orlando-a de espuma em flor.
Quem sabe se o cataclismo,
Que puniu a humanidade,
Não te fez surgir do abismo
Das ondas na imensidade?
Quem sabe, altaneira serra,
Se és coetânea da terra,
E do berço oriental?
Quem sabe de quanta vida
Foste a suprema guarida
No dilúvio universal?
Plantou-te nos mares o braço divino,
Ingente montanha — barreira das ondas! —
Quem dera perder-me contigo nas nuvens,
Também devassando mistérios, que sondas!
Prodígios, que encerras, são cordas sonoras
De uma harpa celeste de excelsa harmonia,
Que os hinos, que exala, perene descansam
A glória do Eterno, de noite e de dia.
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