Poemas neste tema
Outros
Isabel Machado
Suprema
Suprema força que me atrai
para o que temo
e o meu temor me excita mais
e mais... e mais...
Suprema calma que te encarna
e não me acalma
e a tua mansa, mansa fala
já calou...
Supremo canto dos teus lábios
talvez escárnio
de mim mesma...
talvez a vida
louca vida
me roubou...
Suprema luz que me fascina...
supremo enlevo
que me toca
e dia-a-dia
dia-a-dia
me assassina...
para o que temo
e o meu temor me excita mais
e mais... e mais...
Suprema calma que te encarna
e não me acalma
e a tua mansa, mansa fala
já calou...
Supremo canto dos teus lábios
talvez escárnio
de mim mesma...
talvez a vida
louca vida
me roubou...
Suprema luz que me fascina...
supremo enlevo
que me toca
e dia-a-dia
dia-a-dia
me assassina...
975
Iderval Miranda
Do Amor e da Loucura
I
diz-se o amor,
o divino
em sua proximidade.
a loucura,
ele mesmo
em sua simplicidade.
juntos,
ainda ele em sua totalidade.
II
o simples traço fará desvendar
o desespero contido no coração
de quem se quer prazer e dor.
e este corpo de mulher
dilacerado pela recusa incontida
do não?
basta, que venha o longe
e eterna seja a carne,
catedral de prazer e dor.
III
buscar o amor
em claro dia
é vã tentativa.
ao longe,
um brilho na escuridão
da tormentosa noite.
adiante,
além do obscuro
do obscuro.
IV
pois o obscuro
revela-se num rosto de mulher.
e quem
loucamente ama o longe
verá o um
eternizado em amor e gozo.
pois o um
revela-se no rosto do um.
V
pois que tudo seja
vanidade e absinto,
o nada será sempre o nada
e o longe findará aqui, dentro de nós.
e esta busca insensata,
quando terá fim?
VI
terás a argila como princesa
e no vergel dos desesperados
serás o fruto maior.
é certo que tudo é um
e mesmo assim,
ante ele, serás o outro.
e o amor mostrará sua face
em forma de mulher e sonho,
e terás o fogo, a paixão e o prazer
não a felicidade,
pois tu és tu,
outro um ante o um.
VII
(desperto pela guitarra do morto)
o prazer
é um.
(ao lado da mulher amada)
o prazer
é um.
(ante a última deidade)
o prazer
é um.
- o prazer é um -
(ainda assim)
o prazer
é um.
VIII
e eis o corpo
do longe e longe
ainda.
e quem mais,
pois o tudo lembrar
é apenas renegar-se.
e esta sombra
do longe e longe
ainda?
IX
e eis que meus sonhos
nomeiam teu corpo
a diluir-se em bruma, névoa
e nada
X
clara paisagem do nada
tu dirás
longe longe longe
mulher
deserto e desespero.
diz-se o amor,
o divino
em sua proximidade.
a loucura,
ele mesmo
em sua simplicidade.
juntos,
ainda ele em sua totalidade.
II
o simples traço fará desvendar
o desespero contido no coração
de quem se quer prazer e dor.
e este corpo de mulher
dilacerado pela recusa incontida
do não?
basta, que venha o longe
e eterna seja a carne,
catedral de prazer e dor.
III
buscar o amor
em claro dia
é vã tentativa.
ao longe,
um brilho na escuridão
da tormentosa noite.
adiante,
além do obscuro
do obscuro.
IV
pois o obscuro
revela-se num rosto de mulher.
e quem
loucamente ama o longe
verá o um
eternizado em amor e gozo.
pois o um
revela-se no rosto do um.
V
pois que tudo seja
vanidade e absinto,
o nada será sempre o nada
e o longe findará aqui, dentro de nós.
e esta busca insensata,
quando terá fim?
VI
terás a argila como princesa
e no vergel dos desesperados
serás o fruto maior.
é certo que tudo é um
e mesmo assim,
ante ele, serás o outro.
e o amor mostrará sua face
em forma de mulher e sonho,
e terás o fogo, a paixão e o prazer
não a felicidade,
pois tu és tu,
outro um ante o um.
VII
(desperto pela guitarra do morto)
o prazer
é um.
(ao lado da mulher amada)
o prazer
é um.
(ante a última deidade)
o prazer
é um.
- o prazer é um -
(ainda assim)
o prazer
é um.
VIII
e eis o corpo
do longe e longe
ainda.
e quem mais,
pois o tudo lembrar
é apenas renegar-se.
e esta sombra
do longe e longe
ainda?
IX
e eis que meus sonhos
nomeiam teu corpo
a diluir-se em bruma, névoa
e nada
X
clara paisagem do nada
tu dirás
longe longe longe
mulher
deserto e desespero.
741
Inês Romano
Encanto
Tu me fascinas e encantas
como o fazem as sereias
com navegantes intrépidos
de incauta inocência
incrédulos dos perigos.
Me atraem teus mistérios
e teu canto me seduz
para mergulhar em teus domínios
me esquecer do que sou, do que fui,
para somente — ser — em ti.
como o fazem as sereias
com navegantes intrépidos
de incauta inocência
incrédulos dos perigos.
Me atraem teus mistérios
e teu canto me seduz
para mergulhar em teus domínios
me esquecer do que sou, do que fui,
para somente — ser — em ti.
778
João Bosco da Encarnação
Essa Noite
Essa Noite
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
952
João Bosco da Encarnação
Essa Noite
Essa Noite
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
952
João Alexandre Júnior
Flúvio-Cosmo-Variantes
Há um mini-Jesus Cristo
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
766
Isabel Machado
Estranha
Sou estranha
dentro do meu próprio espaço!
Como posso não estranhar-me
no teu?
Sou vaga nuvem
em noite de tempestade!
A ansiedade me crucifica
mas a paixão não se liberta...
Tenho as asas abertas
para o mundo
terrível mundo que eu enfrento
pelo buraco da fechadura!
Estranha é a coragem
aprisionada
Estranho é quando estou
apaixonada
Estranho-me tudo
Estranho-me nada...
dentro do meu próprio espaço!
Como posso não estranhar-me
no teu?
Sou vaga nuvem
em noite de tempestade!
A ansiedade me crucifica
mas a paixão não se liberta...
Tenho as asas abertas
para o mundo
terrível mundo que eu enfrento
pelo buraco da fechadura!
Estranha é a coragem
aprisionada
Estranho é quando estou
apaixonada
Estranho-me tudo
Estranho-me nada...
1 081
Jáder de Carvalho
Trova
Meu olhar é um lampião,
vertendo, em luz dolorida,
toda uma velha paixão
na esquina da tua vida.
vertendo, em luz dolorida,
toda uma velha paixão
na esquina da tua vida.
636
Jônatas Batista
A Aranha
Estende o fio fino e a fina trama tece
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
1 167
Jônatas Batista
A Aranha
Estende o fio fino e a fina trama tece
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
1 167
Jônatas Batista
A Aranha
Estende o fio fino e a fina trama tece
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
1 167
Jáder de Carvalho
Eu me enganei
Eu me enganei quando disse: "É o fim!"
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
775
Isabel Vilhena
Alma das Coisas
Olhando a serra, lá distante,
E o sol que sobre a serra desce,
Escuto nesse instante
O pássaro feliz e as flores da campina,
O arvoredo que vive sem saber
Agasalhando a paz dos ninhos,
Dizerem sua prece!
E quando no horizonte o dia acorda,
Na pompa da alvorada,
À hora virginal do amanhecer,
É para mim como se eu mesma visse
O próprio Deus olhando para o mundo!
Então, minha alma reza ajoelhada,
Em silêncio profundo,
A prece mais bonita que eu já disse
E que a ninguém na terra eu vou dizer!
Ao ver o rio deslizar sereno,
Na sua vida plena de bonança,
Nessa marcha saudosa de partida,
Refletindo no espelho de águas mansas
Um retalho do céu todo estrelado,
Os ninhos e um pedaço da montanha,
Eu o comparo àquele que, na vida,
É bem feliz, porque o rio
Sonha acordado...
E sem saber que sonha!
E o sol que sobre a serra desce,
Escuto nesse instante
O pássaro feliz e as flores da campina,
O arvoredo que vive sem saber
Agasalhando a paz dos ninhos,
Dizerem sua prece!
E quando no horizonte o dia acorda,
Na pompa da alvorada,
À hora virginal do amanhecer,
É para mim como se eu mesma visse
O próprio Deus olhando para o mundo!
Então, minha alma reza ajoelhada,
Em silêncio profundo,
A prece mais bonita que eu já disse
E que a ninguém na terra eu vou dizer!
Ao ver o rio deslizar sereno,
Na sua vida plena de bonança,
Nessa marcha saudosa de partida,
Refletindo no espelho de águas mansas
Um retalho do céu todo estrelado,
Os ninhos e um pedaço da montanha,
Eu o comparo àquele que, na vida,
É bem feliz, porque o rio
Sonha acordado...
E sem saber que sonha!
1 036
Truck Tumleh
Mar
Sinto dentro do corpo
Um mar de sentimentos.
Tenho canalizá-lo
E expressá-lo em palavras.
Não consigo.
É muita água...
É muito sentimento..
Peço que entenda mais,
Do que possa perdoar...
Você não imagina...
O que sinto
Quando o mar
Que carrego
Entra em ressaca.
Um mar de sentimentos.
Tenho canalizá-lo
E expressá-lo em palavras.
Não consigo.
É muita água...
É muito sentimento..
Peço que entenda mais,
Do que possa perdoar...
Você não imagina...
O que sinto
Quando o mar
Que carrego
Entra em ressaca.
821
Cida Jappe
Papel em Branco
Eu quis
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
1 015
Cida Jappe
Papel em Branco
Eu quis
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
1 015
Cida Jappe
Papel em Branco
Eu quis
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
1 015
J. Anderson
Invenção do Vento
No casarão vazio...
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.
1 091
Ivan Junqueira
Palimpsesto
A Antônio Carlos Secchin
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
1 555
Ivan Junqueira
Palimpsesto
A Antônio Carlos Secchin
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
1 555
Ivan Junqueira
Palimpsesto
A Antônio Carlos Secchin
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
1 555
Truck Tumleh
Rotina
a lua
se esconde,
estrelas desaparecem,
o pássaro canta.
o sol
entra sala a dentro
e o relógio dispara;
o sono se despede
acordo.
saio.
como se fosse
um robô,
caio na rotina.
as coisas
que antes havia citado,
somem por trás
dos meus ombros.
pego um ônibus cheio,
por estar cheio de tudo
e eu de todos
não percebo
quem levou minha carteira.
uma bala perdida
atinge o poema.
he-mor-ra-gia!
sinal vermelho.
freio!
como um coração
que anuncia
sua última batida.
se esconde,
estrelas desaparecem,
o pássaro canta.
o sol
entra sala a dentro
e o relógio dispara;
o sono se despede
acordo.
saio.
como se fosse
um robô,
caio na rotina.
as coisas
que antes havia citado,
somem por trás
dos meus ombros.
pego um ônibus cheio,
por estar cheio de tudo
e eu de todos
não percebo
quem levou minha carteira.
uma bala perdida
atinge o poema.
he-mor-ra-gia!
sinal vermelho.
freio!
como um coração
que anuncia
sua última batida.
903
Ivan Junqueira
Esse punhado de ossos
A Moacyr Félix
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
2 438
Ives Gandra da Silva Martins
Elegia da Ponte Descoberta
Sobre a ponte do meu ao teu retrato
O silêncio cantava silencioso.
Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.
Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.
Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.
O silêncio cantava silencioso.
Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.
Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.
Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.
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