Poemas neste tema
Outros
Humberto Fialho Guedes
Contemplação da Aurora
Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Por entre as mãos por entre os gestos
invisíveis no tecer as cores
formas e objetos compondo panoramas.
Deixar-se estar. Os olhos mansos
(derramado olhar banhando muros)
amanhecendo em concreção de pedra e limo;
o cais solene vai barrando águas
em postura de silêncio e longa espera.
Deixar-se estar. E as mãos
amaciando gestos revolvendo sonhos
na modulação do instante percebido
pelos rostos e corações em muda contemplação.
Deixar-se estar. Enquanto
(vivazes e esquivas) gaivotas brancas
sobrevoam ilhas; e o mar azul
(traçado em vagas e horizontes)
derrama nas praias restos de vento.
Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Para que nem um pensamento (fímbria de luz)
perturbe o enovelar-se que há no vôo
marítimo das ondas convertido em salto.
Deixar-se estar.
Contemplando os objetos esquecidos
( limitadas formas de extensão exata)
com amor de quem os tem como encontrados
depois de longa busca após os ter perdido.
(Velhos remos lembram velhos braços
ancorados ao velho porto do esquecimento;
contariam velhas estórias se pudessem
ser ouvidos em silêncio e muita fé)
Contemplando os objetos esquecidos:
barcos lemes búzios quilhas
velas e mastros tombados ao som dos ventos.
E enquanto o instante se consome lento
na floração de formas colorindo espaços
derramados sons revelam idos
e anunciam no tempo o que se aguarda:
ao longe se divisa e vão surgindo
corcéis de espuma patinando águas
desfazendo brumas semeando cravos
(brancos e breves) que se vão abrindo
em jorros de luz: cristais da aurora.
Por entre as mãos por entre os gestos
invisíveis no tecer as cores
formas e objetos compondo panoramas.
Deixar-se estar. Os olhos mansos
(derramado olhar banhando muros)
amanhecendo em concreção de pedra e limo;
o cais solene vai barrando águas
em postura de silêncio e longa espera.
Deixar-se estar. E as mãos
amaciando gestos revolvendo sonhos
na modulação do instante percebido
pelos rostos e corações em muda contemplação.
Deixar-se estar. Enquanto
(vivazes e esquivas) gaivotas brancas
sobrevoam ilhas; e o mar azul
(traçado em vagas e horizontes)
derrama nas praias restos de vento.
Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Para que nem um pensamento (fímbria de luz)
perturbe o enovelar-se que há no vôo
marítimo das ondas convertido em salto.
Deixar-se estar.
Contemplando os objetos esquecidos
( limitadas formas de extensão exata)
com amor de quem os tem como encontrados
depois de longa busca após os ter perdido.
(Velhos remos lembram velhos braços
ancorados ao velho porto do esquecimento;
contariam velhas estórias se pudessem
ser ouvidos em silêncio e muita fé)
Contemplando os objetos esquecidos:
barcos lemes búzios quilhas
velas e mastros tombados ao som dos ventos.
E enquanto o instante se consome lento
na floração de formas colorindo espaços
derramados sons revelam idos
e anunciam no tempo o que se aguarda:
ao longe se divisa e vão surgindo
corcéis de espuma patinando águas
desfazendo brumas semeando cravos
(brancos e breves) que se vão abrindo
em jorros de luz: cristais da aurora.
897
Henriqueta Lisboa
É Estranho
É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.
É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.
É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
(da obra Flor da Morte)
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.
É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.
É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
(da obra Flor da Morte)
2 170
Gustavo Alberto Corrêa Pinto
Haicai
Vulto de homem
contra o horizonte...
Solidão azul.
Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...
contra o horizonte...
Solidão azul.
Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...
1 119
Gustavo Alberto Corrêa Pinto
Haicai
Vulto de homem
contra o horizonte...
Solidão azul.
Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...
contra o horizonte...
Solidão azul.
Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...
1 119
Goulart Gomes
Mariniello
agosto seis
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa
caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais
tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada
e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa
caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais
tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada
e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...
893
Pedro António Correia Garção
Soneto
Três vezes vi, Marília, de alva lua,
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
1 701
Gabriel Nascente
Anjo em Ruínas
Ao poeta Antônio Carlos Osório, compadre
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
1 043
Gabriel Nascente
Anjo em Ruínas
Ao poeta Antônio Carlos Osório, compadre
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
1 043
Gabriel Nascente
Anjo em Ruínas
Ao poeta Antônio Carlos Osório, compadre
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
1 043
Gilberto Diener
Amor Caipirano
Vaga viola, viola cigana a clarear...
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
942
Guy Corrêa
Um País
Havia um povo
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
858
Guy Corrêa
Um País
Havia um povo
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
858
Glícia Rodrigues
Olhares Cruzados
Abro a janela
Vago o olhar
Sentimentos contidos
Ainda penso ignorar.
Das outras vezes encobri
Limpando a sacada
Regando o vaso
Hoje não
O sol insinua estardalhaço.
Da outra janela
Ele acena diminuindo espaços
Afagando meu corpo
Fingindo abraços.
Vago o olhar
Sentimentos contidos
Ainda penso ignorar.
Das outras vezes encobri
Limpando a sacada
Regando o vaso
Hoje não
O sol insinua estardalhaço.
Da outra janela
Ele acena diminuindo espaços
Afagando meu corpo
Fingindo abraços.
1 006
Gervásio de Pilares
Soneto
Ó triste mausoléu! Ó urna fria!
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
397
Flávio Villa-Lobos
Desencontro
Tantas mentiras dissemos um
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
863
Georgeocohama
O Jardim de Caminhos que se Bifurcam
A Caetano Veloso
A tarde era íntima, infinita.
Pareceu-me incrível que esse dia
sem premonições ou símbolos
fosse o de minha morte implacável.
Depois refleti
que todas as coisas nos acontecem;
precisamente,
precisamente agora.
Séculos de séculos
e apenas no presente ocorrem os fatos;
inumeráveis homens no ar,
na terra e mar,
e tudo o que realmente sucede,
sucede a mim.
Não é em vão que sou
bisneto daquele Tui Pen,
que foi governador de Yunan
e que renunciou ao poder temporal
aos prazeres da opressão,
da justiça,
do numeroso leito,
dos banquetes e ainda da erudição
e enclausurou-se
no Pavilhão da Límpida Solidão
para escrever um romance
que fosse ainda mais populoso
que o Hung Lu Meng
e para edificar um labirinto
em que todos os homens se perdessem.
Um labirinto de marfim,
inviolado e perfeito,
no cume de uma montanha.
Um labirinto mínimo,
disfarçado por arrozais
ou debaixo d’água.
Um labirinto de símboos,
infinito,
não já de quiosques oitavados
e de caminhos que voltam,
mas sim de rios e províncias e reinos.
Um labirinto de labirintos,
um sinuoso labirinto crescente
— um invisível labirinto de tempo —
que abarcasse o passado, o presente e o
futuro.
Os vários futuros, não todos,
o jardim de caminhos que se bifurcam.
A tarde era íntima, infinita.
A tarde era íntima, infinita.
Pareceu-me incrível que esse dia
sem premonições ou símbolos
fosse o de minha morte implacável.
Depois refleti
que todas as coisas nos acontecem;
precisamente,
precisamente agora.
Séculos de séculos
e apenas no presente ocorrem os fatos;
inumeráveis homens no ar,
na terra e mar,
e tudo o que realmente sucede,
sucede a mim.
Não é em vão que sou
bisneto daquele Tui Pen,
que foi governador de Yunan
e que renunciou ao poder temporal
aos prazeres da opressão,
da justiça,
do numeroso leito,
dos banquetes e ainda da erudição
e enclausurou-se
no Pavilhão da Límpida Solidão
para escrever um romance
que fosse ainda mais populoso
que o Hung Lu Meng
e para edificar um labirinto
em que todos os homens se perdessem.
Um labirinto de marfim,
inviolado e perfeito,
no cume de uma montanha.
Um labirinto mínimo,
disfarçado por arrozais
ou debaixo d’água.
Um labirinto de símboos,
infinito,
não já de quiosques oitavados
e de caminhos que voltam,
mas sim de rios e províncias e reinos.
Um labirinto de labirintos,
um sinuoso labirinto crescente
— um invisível labirinto de tempo —
que abarcasse o passado, o presente e o
futuro.
Os vários futuros, não todos,
o jardim de caminhos que se bifurcam.
A tarde era íntima, infinita.
945
Gaitano Antonaccio
Versos Finais
Meus poemas são doces notas do nosso amor
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
1 096
Gaitano Antonaccio
Versos Finais
Meus poemas são doces notas do nosso amor
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
1 096
Ana Garrett
Poder Cósmico
Poder cósmico tem esse teu olhar,
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
824
Goulart Gomes
Algaravia
o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
1 094
Goulart Gomes
Algaravia
o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
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Goulart Gomes
Algaravia
o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
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Glícia Rodrigues
Nada
Num dia cinza
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
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