Poemas neste tema
Outros
Dílson Catarino
Sombra Calada
Por que ser eu, se posso ser o silêncio
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
806
Dílson Catarino
Sombra Calada
Por que ser eu, se posso ser o silêncio
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
806
Angela Carneiro
Armário
Arrumar o armário
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
1 808
Castro Alves
Mãe Penitente
"Ouve-me, pois!... Eu fui uma perdida;
Foi este o meu destino, a minha sorte...
Por esse crime é que hoje perco a vida,
Mas dele em breve há de salvar-me a morte!
"E minhaalma, bem vês, que não se irrita,
Antes bendiz estes mandões ferozes,
Eu seria talvez por ti maldita,
Filho! sem o batismo dos algozes!
"Porque eu pequei... e do pecado escuro
Tu foste o fruto cândido, inocente,
— Borboleta, que sai do — lodo impuro...
— Rosa, que sai de — pútrida semente!
"Filho! Bem vês... fiz o maior dos crimes:
— Criei um ente para a dor e a fome!
Do teu berço escrevi nos brancos vimes
O nome de bastardo — impuro nome.
"Por isso agora tua mãe te implora
E a teus pés de joelhos se debruça.
Perdoa à triste — que de angústia chora,
Perdoa à mártir — que de dor soluça!
"Mas um gemido a meus ouvidos soa...
Que pranto é este que em meu seio rola?
Meu Deus, é o pranto seu que me perdoa...
Filho, obrigada pela tua esmola!"
Foi este o meu destino, a minha sorte...
Por esse crime é que hoje perco a vida,
Mas dele em breve há de salvar-me a morte!
"E minhaalma, bem vês, que não se irrita,
Antes bendiz estes mandões ferozes,
Eu seria talvez por ti maldita,
Filho! sem o batismo dos algozes!
"Porque eu pequei... e do pecado escuro
Tu foste o fruto cândido, inocente,
— Borboleta, que sai do — lodo impuro...
— Rosa, que sai de — pútrida semente!
"Filho! Bem vês... fiz o maior dos crimes:
— Criei um ente para a dor e a fome!
Do teu berço escrevi nos brancos vimes
O nome de bastardo — impuro nome.
"Por isso agora tua mãe te implora
E a teus pés de joelhos se debruça.
Perdoa à triste — que de angústia chora,
Perdoa à mártir — que de dor soluça!
"Mas um gemido a meus ouvidos soa...
Que pranto é este que em meu seio rola?
Meu Deus, é o pranto seu que me perdoa...
Filho, obrigada pela tua esmola!"
4 199
Castro Alves
Adelaide Amaral
ARTISTA, tua voz é a melodia
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
2 315
Castro Alves
Adelaide Amaral
ARTISTA, tua voz é a melodia
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
2 315
Castro Alves
Adelaide Amaral
ARTISTA, tua voz é a melodia
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
2 315
Castro Alves
Adelaide Amaral
ARTISTA, tua voz é a melodia
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
2 315
Castro Alves
Adelaide Amaral
ARTISTA, tua voz é a melodia
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
2 315
Castro Alves
Adelaide Amaral
ARTISTA, tua voz é a melodia
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
De Sorrento nas veigas perfumosas;
É teu riso o esfolhar de brancas rosas,
Voar do cisne errante da poesia!
Quando gemes, o arcanjo da harmonia
Colhe em teus lábios flores odorosas,,
E do teu pranto as gotas preciosas
São estrelas de luz nalva do dia.
A Camélia esfolhada sobre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo,
A Hebréia, condenada sem remorso...
Tudo sublimas, tudo... eu digo em pasmo:
"Gênio, gênio... inda mais... supremo esforço
Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo".
2 315
Cândida Alves
Todo corpo
Todo corpo
Toda vida explica nos seus rastros
Sempre uma notícia escrita nos seus traços
Todos os anseios no mover dos braços
Todo corpo traz um benefício sobre suas curvas
E algum sacrifício com lembranças turvas
Marca suas dobras
Todo corpo amado ou desolado chora
Toda sua virtude e seu pecado aflora
Todo corpo uma mente oculta
Todo corpo é alma enquanto vida pulsa
Toda vida explica nos seus rastros
Sempre uma notícia escrita nos seus traços
Todos os anseios no mover dos braços
Todo corpo traz um benefício sobre suas curvas
E algum sacrifício com lembranças turvas
Marca suas dobras
Todo corpo amado ou desolado chora
Toda sua virtude e seu pecado aflora
Todo corpo uma mente oculta
Todo corpo é alma enquanto vida pulsa
1 052
Castro Alves
A Eugênia Câmara
AINDA UMA VEZ tu brilhas sobre o palco,
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
4 413
Castro Alves
No Fonte
I
"ERA HOJE ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.
II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como ua moça a brincar.
III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.
IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!
V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no baleeiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi? ! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.
VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s’entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro dágua cair.
VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só! ...
VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"
"ERA HOJE ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.
II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como ua moça a brincar.
III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.
IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!
V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no baleeiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi? ! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.
VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s’entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro dágua cair.
VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só! ...
VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"
2 142
Castro Alves
No Fonte
I
"ERA HOJE ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.
II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como ua moça a brincar.
III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.
IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!
V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no baleeiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi? ! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.
VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s’entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro dágua cair.
VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só! ...
VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"
"ERA HOJE ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.
II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como ua moça a brincar.
III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.
IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!
V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no baleeiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi? ! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.
VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s’entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro dágua cair.
VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só! ...
VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"
2 142
Angela Carneiro
Poevivendo
lendo poesia
de dia
me vêm
idéias loucas
roucas
louças
leio a morte
vejo-me morta
eu sem corpo
corpo torto
"oh! Sombra fútil chamada gente não fazes falta
a ninguém e ninguém faz falta a ti!"
Fernando Pessoa ressoa
é pessoa chamada gente.
E se me chamasse Raimundo?
É mundo o contrário de imundo?
Casa empilhada
em casais
casamento
acasalamentos.
lendo poesia
de dia
o dia vira noite
se é noite do poeta
Amo a bandeira
beijada baouçante
de Castro Alves
em Espumas Flutuantes
Flutuo eu também
para o futuro que vem
escrevo cartas a Luiz
amigos do Castro
nem tão casto
nem tão alvo
amo infinitamente o soneto
e me meto
na moradia
da poesia
de Vinícius de Morais
Tomo sorvete
sorvo palavras
de Cruz e Souza
Cruz Credo!
Tanto branco de um preto
que fico preta
sou Irene
entro no céu
como uma bandeira
do Manuel
E quero ter tudo
o anel e a luva
a luz brilha
sinto-me Cecília
Descubro oBrasil
melado em palavras novas
morro e vivo com
João Cabral
Que pais é este?
indago nas preces a Santa Ana
Com um pé em Colônia
outro em Roma
vou a Paris
e me enamoro
bonitinho como a poesia
do dia a dia
de Geraldy
e na volta do parque
vejo Dorothy
e sofro ser mulher
Volto para o Rio
e me rio
calo a boca
lutando contra moinhos
do Chico Buarque
Chega de tanto poema
sinto a métrica
a rima
o tema
teimosa leitora
de tantas letras
e tantas gentes
acordo
escovo os dentes.
de dia
me vêm
idéias loucas
roucas
louças
leio a morte
vejo-me morta
eu sem corpo
corpo torto
"oh! Sombra fútil chamada gente não fazes falta
a ninguém e ninguém faz falta a ti!"
Fernando Pessoa ressoa
é pessoa chamada gente.
E se me chamasse Raimundo?
É mundo o contrário de imundo?
Casa empilhada
em casais
casamento
acasalamentos.
lendo poesia
de dia
o dia vira noite
se é noite do poeta
Amo a bandeira
beijada baouçante
de Castro Alves
em Espumas Flutuantes
Flutuo eu também
para o futuro que vem
escrevo cartas a Luiz
amigos do Castro
nem tão casto
nem tão alvo
amo infinitamente o soneto
e me meto
na moradia
da poesia
de Vinícius de Morais
Tomo sorvete
sorvo palavras
de Cruz e Souza
Cruz Credo!
Tanto branco de um preto
que fico preta
sou Irene
entro no céu
como uma bandeira
do Manuel
E quero ter tudo
o anel e a luva
a luz brilha
sinto-me Cecília
Descubro oBrasil
melado em palavras novas
morro e vivo com
João Cabral
Que pais é este?
indago nas preces a Santa Ana
Com um pé em Colônia
outro em Roma
vou a Paris
e me enamoro
bonitinho como a poesia
do dia a dia
de Geraldy
e na volta do parque
vejo Dorothy
e sofro ser mulher
Volto para o Rio
e me rio
calo a boca
lutando contra moinhos
do Chico Buarque
Chega de tanto poema
sinto a métrica
a rima
o tema
teimosa leitora
de tantas letras
e tantas gentes
acordo
escovo os dentes.
1 038
Angela Carneiro
Poevivendo
lendo poesia
de dia
me vêm
idéias loucas
roucas
louças
leio a morte
vejo-me morta
eu sem corpo
corpo torto
"oh! Sombra fútil chamada gente não fazes falta
a ninguém e ninguém faz falta a ti!"
Fernando Pessoa ressoa
é pessoa chamada gente.
E se me chamasse Raimundo?
É mundo o contrário de imundo?
Casa empilhada
em casais
casamento
acasalamentos.
lendo poesia
de dia
o dia vira noite
se é noite do poeta
Amo a bandeira
beijada baouçante
de Castro Alves
em Espumas Flutuantes
Flutuo eu também
para o futuro que vem
escrevo cartas a Luiz
amigos do Castro
nem tão casto
nem tão alvo
amo infinitamente o soneto
e me meto
na moradia
da poesia
de Vinícius de Morais
Tomo sorvete
sorvo palavras
de Cruz e Souza
Cruz Credo!
Tanto branco de um preto
que fico preta
sou Irene
entro no céu
como uma bandeira
do Manuel
E quero ter tudo
o anel e a luva
a luz brilha
sinto-me Cecília
Descubro oBrasil
melado em palavras novas
morro e vivo com
João Cabral
Que pais é este?
indago nas preces a Santa Ana
Com um pé em Colônia
outro em Roma
vou a Paris
e me enamoro
bonitinho como a poesia
do dia a dia
de Geraldy
e na volta do parque
vejo Dorothy
e sofro ser mulher
Volto para o Rio
e me rio
calo a boca
lutando contra moinhos
do Chico Buarque
Chega de tanto poema
sinto a métrica
a rima
o tema
teimosa leitora
de tantas letras
e tantas gentes
acordo
escovo os dentes.
de dia
me vêm
idéias loucas
roucas
louças
leio a morte
vejo-me morta
eu sem corpo
corpo torto
"oh! Sombra fútil chamada gente não fazes falta
a ninguém e ninguém faz falta a ti!"
Fernando Pessoa ressoa
é pessoa chamada gente.
E se me chamasse Raimundo?
É mundo o contrário de imundo?
Casa empilhada
em casais
casamento
acasalamentos.
lendo poesia
de dia
o dia vira noite
se é noite do poeta
Amo a bandeira
beijada baouçante
de Castro Alves
em Espumas Flutuantes
Flutuo eu também
para o futuro que vem
escrevo cartas a Luiz
amigos do Castro
nem tão casto
nem tão alvo
amo infinitamente o soneto
e me meto
na moradia
da poesia
de Vinícius de Morais
Tomo sorvete
sorvo palavras
de Cruz e Souza
Cruz Credo!
Tanto branco de um preto
que fico preta
sou Irene
entro no céu
como uma bandeira
do Manuel
E quero ter tudo
o anel e a luva
a luz brilha
sinto-me Cecília
Descubro oBrasil
melado em palavras novas
morro e vivo com
João Cabral
Que pais é este?
indago nas preces a Santa Ana
Com um pé em Colônia
outro em Roma
vou a Paris
e me enamoro
bonitinho como a poesia
do dia a dia
de Geraldy
e na volta do parque
vejo Dorothy
e sofro ser mulher
Volto para o Rio
e me rio
calo a boca
lutando contra moinhos
do Chico Buarque
Chega de tanto poema
sinto a métrica
a rima
o tema
teimosa leitora
de tantas letras
e tantas gentes
acordo
escovo os dentes.
1 038
Marcolino Candeias
Aqui não tem sabiá
Para a Deka
Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui rapadura não tem meu bem
nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido
em tudo quanto é sítio. E mesmo
teu pezinho de jabuticá meu bem
já virou quindim
lá bem no meiinho da chacrinha da memória.
Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.
Mas não dá princesa pra chamar a polícia.
Isso são uns bem caipira nem sabem o que é cachaça. Tudo
uns tatu velho que não tem mais jeito.
É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra Bosco tu viras sagui
e por toda a casa
Uma orgia de orixás
bota uma alegria danada que desconchava direito
esta minha sisudez de quem nasceu no mar.
Aqui meu bem não tem sabiá não.
Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.
Tem você, né?
Marcolino Candeias
(Montréal, Novembro, 1990)
Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui rapadura não tem meu bem
nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido
em tudo quanto é sítio. E mesmo
teu pezinho de jabuticá meu bem
já virou quindim
lá bem no meiinho da chacrinha da memória.
Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.
Mas não dá princesa pra chamar a polícia.
Isso são uns bem caipira nem sabem o que é cachaça. Tudo
uns tatu velho que não tem mais jeito.
É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra Bosco tu viras sagui
e por toda a casa
Uma orgia de orixás
bota uma alegria danada que desconchava direito
esta minha sisudez de quem nasceu no mar.
Aqui meu bem não tem sabiá não.
Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.
Tem você, né?
Marcolino Candeias
(Montréal, Novembro, 1990)
1 484
Marcolino Candeias
Aqui não tem sabiá
Para a Deka
Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui rapadura não tem meu bem
nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido
em tudo quanto é sítio. E mesmo
teu pezinho de jabuticá meu bem
já virou quindim
lá bem no meiinho da chacrinha da memória.
Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.
Mas não dá princesa pra chamar a polícia.
Isso são uns bem caipira nem sabem o que é cachaça. Tudo
uns tatu velho que não tem mais jeito.
É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra Bosco tu viras sagui
e por toda a casa
Uma orgia de orixás
bota uma alegria danada que desconchava direito
esta minha sisudez de quem nasceu no mar.
Aqui meu bem não tem sabiá não.
Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.
Tem você, né?
Marcolino Candeias
(Montréal, Novembro, 1990)
Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui rapadura não tem meu bem
nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido
em tudo quanto é sítio. E mesmo
teu pezinho de jabuticá meu bem
já virou quindim
lá bem no meiinho da chacrinha da memória.
Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.
Mas não dá princesa pra chamar a polícia.
Isso são uns bem caipira nem sabem o que é cachaça. Tudo
uns tatu velho que não tem mais jeito.
É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra Bosco tu viras sagui
e por toda a casa
Uma orgia de orixás
bota uma alegria danada que desconchava direito
esta minha sisudez de quem nasceu no mar.
Aqui meu bem não tem sabiá não.
Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.
Tem você, né?
Marcolino Candeias
(Montréal, Novembro, 1990)
1 484
Castro Alves
Cansaço
O NÁUFRAGO nadou por longas horas...
Na praia dorme frio num desmaio.
A força após a luta abandonou-o,
Do sol queimou-lhe a face ardente raio.
Pois eu sou como o nauta... Após a luta
Meu amor dorme lânguido no peito.
Cansado... talvez morto, dorme e dorme
Da indiferença no gelado leito.
Sobre as asas velozes a andorinha
Maneira se lançou nos puros ares...
Veio após o tufão... lutou debalde,
Mas em breve boiou por sobre os mares.
Eu sou como a andorinha... Ergui meu vôo
Sobre as asas gentis da fantasia.
A descrença nublou-me o céu da vida...
E a crença estrebuchou numa agonia.
Como as flores de estufa que emurchecem
Lembrando o céu azul do seu país,
Minha alma vai morrendo, suspirando
Por seus perdidos sonhos tão gentis.
E que durma ... E que durma ... ó virgem santa,
Que criou sempre pura a fantasia,
Só a ti é que eu quero que te sentes
Ao meu lado na última agonia.
Na praia dorme frio num desmaio.
A força após a luta abandonou-o,
Do sol queimou-lhe a face ardente raio.
Pois eu sou como o nauta... Após a luta
Meu amor dorme lânguido no peito.
Cansado... talvez morto, dorme e dorme
Da indiferença no gelado leito.
Sobre as asas velozes a andorinha
Maneira se lançou nos puros ares...
Veio após o tufão... lutou debalde,
Mas em breve boiou por sobre os mares.
Eu sou como a andorinha... Ergui meu vôo
Sobre as asas gentis da fantasia.
A descrença nublou-me o céu da vida...
E a crença estrebuchou numa agonia.
Como as flores de estufa que emurchecem
Lembrando o céu azul do seu país,
Minha alma vai morrendo, suspirando
Por seus perdidos sonhos tão gentis.
E que durma ... E que durma ... ó virgem santa,
Que criou sempre pura a fantasia,
Só a ti é que eu quero que te sentes
Ao meu lado na última agonia.
2 641
Castro Alves
A Atriz Eugênio Câmara
No dia seguinte ao de uma vaia
sofrida no Teatro Santa Isabel, no
Recife.
HOJE ESTAMOS unidos a adorar-te
Tu és a nossa glória, a nossa fé,
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!...
Ontem a infâmia te cobria de lama
Mas pra insultar-te se cobriu de pó! ...
Miseráveis que ferem a fraqueza
De uma pobre mulher inerme, só!
Tu és tão grande como é grande o gênio
És tão brilhante como a própria luz,
Dentre os infames do calvário darte,
Tu foste o Cristo, foi o palco a cruz! ...
Mas estamos unidos a adorar-te!
Tu és a nossa glória, a nossa fé!
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!
sofrida no Teatro Santa Isabel, no
Recife.
HOJE ESTAMOS unidos a adorar-te
Tu és a nossa glória, a nossa fé,
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!...
Ontem a infâmia te cobria de lama
Mas pra insultar-te se cobriu de pó! ...
Miseráveis que ferem a fraqueza
De uma pobre mulher inerme, só!
Tu és tão grande como é grande o gênio
És tão brilhante como a própria luz,
Dentre os infames do calvário darte,
Tu foste o Cristo, foi o palco a cruz! ...
Mas estamos unidos a adorar-te!
Tu és a nossa glória, a nossa fé!
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!
2 491
Castro Alves
Um Raio de Luar
ALTA NOITE ele ergueu-se. Hirto, solene.
Pegou na mão da moça. Olhou-a fito...
Que fundo olhar!
Ela estava gelada, como a garça
Que a tormenta ensopou longe do ninho,
No largo mar.
Tomou-a no regaço... assim no manto
Apanha a mãe a criancinha loura,
Tenra a dormir.
Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...
Pálida e fria... Era talvez a morte...
Mas a sorrir.
Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe
O ressonar.
E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o coração no níveo seio
A titilar.
Morta não era! Enquanto um rir convulso
Contraíra as feições do homem silente
— Riso fatal.
Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiriçada pela mão da noite
Hirta, glacial!
Um momento de bruços sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro
Mais sinclinou...
Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso à flor dos lábios da criança
À flux boiou!
Qual o murzelo do penhasco à borda
Empina-se e cravando as ferraduras
Morde o escarcéu;
Um calafrio percorreu-lhe os músculos...
O vulto recuou!... A noite em meio
Ia no céu!
Pegou na mão da moça. Olhou-a fito...
Que fundo olhar!
Ela estava gelada, como a garça
Que a tormenta ensopou longe do ninho,
No largo mar.
Tomou-a no regaço... assim no manto
Apanha a mãe a criancinha loura,
Tenra a dormir.
Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...
Pálida e fria... Era talvez a morte...
Mas a sorrir.
Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe
O ressonar.
E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o coração no níveo seio
A titilar.
Morta não era! Enquanto um rir convulso
Contraíra as feições do homem silente
— Riso fatal.
Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiriçada pela mão da noite
Hirta, glacial!
Um momento de bruços sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro
Mais sinclinou...
Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso à flor dos lábios da criança
À flux boiou!
Qual o murzelo do penhasco à borda
Empina-se e cravando as ferraduras
Morde o escarcéu;
Um calafrio percorreu-lhe os músculos...
O vulto recuou!... A noite em meio
Ia no céu!
2 074
Castro Alves
Horas de Saudade
TUDO VEM me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase quinda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
DAvc-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não Vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo nalma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minhalma — o ninho!
Por onde trilhas — um perfume expande-se.
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço ...
E teu rastro de amor guarda minhalma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos! ...
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase quinda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
DAvc-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não Vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo nalma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minhalma — o ninho!
Por onde trilhas — um perfume expande-se.
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço ...
E teu rastro de amor guarda minhalma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos! ...
2 630
Castro Alves
Ao Violinista F Moniz Barreto Filho
(IMPILOVISO NO TEATRO SANTA ISABEL)
MOTE
"No teu arco prendeste à eternidade!"
Tobias Barreto.
ERA NO CÉU, à luz da lua errante,
Moema triste, abandonando os lares,
Cindia as vagas dos cerúleos mares
Te erguendo ao longe, ó peregrino infante!
Lá dos jardins sob o vergel fragrante,
A sombra dos maestros, sobre os ares,
Ouvias das estrelas os cantares
— Aves douro no espaço cintilante.
Mas quando o gênio teu se alteia aflito,
Da alabastrina luz à claridade,
Lançando flores, lá do céu proscrito,
Pasma Bellini; e em meio à imensidade
Diz a lua suspensa no infinito:
"No teu arco prendeste a eternidade!"
MOTE
"No teu arco prendeste à eternidade!"
Tobias Barreto.
ERA NO CÉU, à luz da lua errante,
Moema triste, abandonando os lares,
Cindia as vagas dos cerúleos mares
Te erguendo ao longe, ó peregrino infante!
Lá dos jardins sob o vergel fragrante,
A sombra dos maestros, sobre os ares,
Ouvias das estrelas os cantares
— Aves douro no espaço cintilante.
Mas quando o gênio teu se alteia aflito,
Da alabastrina luz à claridade,
Lançando flores, lá do céu proscrito,
Pasma Bellini; e em meio à imensidade
Diz a lua suspensa no infinito:
"No teu arco prendeste a eternidade!"
1 789
Castro Alves
Ao Violinista F Moniz Barreto Filho
(IMPILOVISO NO TEATRO SANTA ISABEL)
MOTE
"No teu arco prendeste à eternidade!"
Tobias Barreto.
ERA NO CÉU, à luz da lua errante,
Moema triste, abandonando os lares,
Cindia as vagas dos cerúleos mares
Te erguendo ao longe, ó peregrino infante!
Lá dos jardins sob o vergel fragrante,
A sombra dos maestros, sobre os ares,
Ouvias das estrelas os cantares
— Aves douro no espaço cintilante.
Mas quando o gênio teu se alteia aflito,
Da alabastrina luz à claridade,
Lançando flores, lá do céu proscrito,
Pasma Bellini; e em meio à imensidade
Diz a lua suspensa no infinito:
"No teu arco prendeste a eternidade!"
MOTE
"No teu arco prendeste à eternidade!"
Tobias Barreto.
ERA NO CÉU, à luz da lua errante,
Moema triste, abandonando os lares,
Cindia as vagas dos cerúleos mares
Te erguendo ao longe, ó peregrino infante!
Lá dos jardins sob o vergel fragrante,
A sombra dos maestros, sobre os ares,
Ouvias das estrelas os cantares
— Aves douro no espaço cintilante.
Mas quando o gênio teu se alteia aflito,
Da alabastrina luz à claridade,
Lançando flores, lá do céu proscrito,
Pasma Bellini; e em meio à imensidade
Diz a lua suspensa no infinito:
"No teu arco prendeste a eternidade!"
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