Poemas neste tema
Outros
Antonio Roberval Miketen
Lição da Luz
I
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
980
Antonio Roberval Miketen
Lição da Luz
I
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
980
Antônio Massa
Voar
O vero ato de voar
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
873
Antônio Massa
Voar
O vero ato de voar
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
873
Antônio Massa
Voar
O vero ato de voar
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
873
Albano Dias Martins
Trapézio
Volúvel foi o nome escolhido para a entronização da festa. Para seu ornamento, a máscara.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.
976
Germano Machado
A poética de Antônio Massa
Mosaico é termo relativo ao grande profeta e legislador do Antigo Testamento — Moisés, um grande líder e condutor, figura destacada no pensamento universal e de seu povo. O livro do jovem Antônio Massa tem algo desse mosaísmo, pois jovem embora, seus poemas indicam força e até madureza imprópria. Os poemas Cartesianos, Brasil, Hino Independente, Anjo Torto; Morte em Solstício; Fundo; Tarifa, Inverno Materialista e tantos outros movem-nos um fio condutor de criatividade e de pensamento. Prelúdio às Faces do Poema lembra o sentido drummondiano, no conjunto, dentro do temperamento aberto. Em Galeria Técnica, Antônio Massa como que atinge um barroco moderno e, mesmo com o espaço curto, cito-lhe este versete final: "Proibido a estranha / entrada das pessoas / na estranha entrada / desprovida de entalhes / proibidos, proibitivos / e tão cultuados / das galerias imersas / nas entranhas da vida / Proibido a vida / das pessoas que entraram".
Antônio Massa significa para o CEPA uma expressão renovadora nos 45 anos desta entidade que vem de 51. À quase noite, boca larga da boca que se vai espreguiçando, de um dia deste ano, aparece, conversa comigo e Alexandro J. Santos. Li algumas poesias suas, achei-as fortes e maturas para um rapaz. Está conosco e, com outros, espero (verbo que mais uso com freqüência, talvez obsedante) venha a ser/fazer a Geração de Fim de Século diante do Terceiro Milênio de um CEPA que sobreviva a seu fundador. O que me deixa vangloriado é que, aos setenta anos, ainda, nessa monomania da minha existência, que é o CEPA, tenho forças Juvenis (não riam) para sonhar e ver, nos que me aparecem, os apóstolos de uma idéia-ideal. Ingênuo? Sim, poeta, alienado do poderio da máquina e da fabricação de máquinas humanas, junto-me a esses moços, como Antônio Massa, que ainda ousam poetar.
Termino com um poema-lição, italiano e latino-americano, lição para este mundo agora: "Eu nasci / Está no papel / Eleitor / Está no papel /Identidade / Duas vias Ambas no papel / Minha vida Plastificada / Minha Pessoa Resumida a 3x4 / Minha revolta Autenticada 6.586.598-71 / Está no papel e em todos os papéis / homens carimbados / buscando papel de gente". Não surge aurora em um Poema assim tão humanístico e vital?
Germano Machado
Antônio Massa significa para o CEPA uma expressão renovadora nos 45 anos desta entidade que vem de 51. À quase noite, boca larga da boca que se vai espreguiçando, de um dia deste ano, aparece, conversa comigo e Alexandro J. Santos. Li algumas poesias suas, achei-as fortes e maturas para um rapaz. Está conosco e, com outros, espero (verbo que mais uso com freqüência, talvez obsedante) venha a ser/fazer a Geração de Fim de Século diante do Terceiro Milênio de um CEPA que sobreviva a seu fundador. O que me deixa vangloriado é que, aos setenta anos, ainda, nessa monomania da minha existência, que é o CEPA, tenho forças Juvenis (não riam) para sonhar e ver, nos que me aparecem, os apóstolos de uma idéia-ideal. Ingênuo? Sim, poeta, alienado do poderio da máquina e da fabricação de máquinas humanas, junto-me a esses moços, como Antônio Massa, que ainda ousam poetar.
Termino com um poema-lição, italiano e latino-americano, lição para este mundo agora: "Eu nasci / Está no papel / Eleitor / Está no papel /Identidade / Duas vias Ambas no papel / Minha vida Plastificada / Minha Pessoa Resumida a 3x4 / Minha revolta Autenticada 6.586.598-71 / Está no papel e em todos os papéis / homens carimbados / buscando papel de gente". Não surge aurora em um Poema assim tão humanístico e vital?
Germano Machado
1 072
Albano Dias Martins
Crepúsculo de Agosto
Para a minha filha
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
1 463
Antônio Massa
Revelação
Uma única testemunha;
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
996
Antônio Massa
Revelação
Uma única testemunha;
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
996
Albano Dias Martins
Como um Archote
Vem tudo à superfície.
Como se
dentro da casa
um maremoto levantasse
as pedras todas, uma a uma; como se
no centro, iluminadas,
as esferas rodassem
no seu eixo — tudo
de repente se inclina, tudo arde
nesta fogueira acesa
como um archote de sangue, uma lua
de enxofre.
Como se
dentro da casa
um maremoto levantasse
as pedras todas, uma a uma; como se
no centro, iluminadas,
as esferas rodassem
no seu eixo — tudo
de repente se inclina, tudo arde
nesta fogueira acesa
como um archote de sangue, uma lua
de enxofre.
1 172
Anderson Braga Horta
Oração
A Casa de meu Pai tem muitas moradas.
O universo é meu lar.
Não conheço fronteiras.
Pequeno verme num pomar de estrelas,
deu-me o pai infinitas vidas
para em todas ardê-las.
No seio de meu Pai estou, mesmo na queda.
Sem desespero encaro
minha pobre verdade.
E sei, por este mesmo anseio de alto,
que — além da eternidade —
me espera a eternidade.
O universo é meu lar.
Não conheço fronteiras.
Pequeno verme num pomar de estrelas,
deu-me o pai infinitas vidas
para em todas ardê-las.
No seio de meu Pai estou, mesmo na queda.
Sem desespero encaro
minha pobre verdade.
E sei, por este mesmo anseio de alto,
que — além da eternidade —
me espera a eternidade.
1 146
Álvares de Azevedo
Trindade
A vida é uma planta misteriosa
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
3 737
Álvares de Azevedo
Trindade
A vida é uma planta misteriosa
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
3 737
Álvares de Azevedo
Dinheiro
Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune, adoré; on a consideration,
honneur, qualités, vertus. Quand on n’a point d’argent, on est dans la
dépendance de toutes choses et de tout le monde.
Chateaubriand
Sem ele não há cova- quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dânaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
honneur, qualités, vertus. Quand on n’a point d’argent, on est dans la
dépendance de toutes choses et de tout le monde.
Chateaubriand
Sem ele não há cova- quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dânaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
2 771
Almeida Garrett
Tronco Despido (1828)
Virgílio,
Sine nomine corpus
Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indifrente,
Vão-me as horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tam triste viver.
Sine nomine corpus
Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indifrente,
Vão-me as horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tam triste viver.
3 126
Aleilton Fonseca
Um Poema de Jorge de Lima
Jorge de Lima (1893-1953) escreveu um poema intitulado "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado ao pintor Cândido Portinari (Cf: LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, 2 v, v 1, p. 237) que ficou praticamente esquecido pelos estudiosos. Isto talvez se deva ao fato deste poema estar, de certa forma, fora das características gerais da poesia do poeta alagoano. Trata-se de um poema em prosa, condensado em apenas um parágrafo, no qual podemos perceber duas partes justapostas. Eis a primeira:
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
1 932
Aleilton Fonseca
Um Poema de Jorge de Lima
Jorge de Lima (1893-1953) escreveu um poema intitulado "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado ao pintor Cândido Portinari (Cf: LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, 2 v, v 1, p. 237) que ficou praticamente esquecido pelos estudiosos. Isto talvez se deva ao fato deste poema estar, de certa forma, fora das características gerais da poesia do poeta alagoano. Trata-se de um poema em prosa, condensado em apenas um parágrafo, no qual podemos perceber duas partes justapostas. Eis a primeira:
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
1 932
Aleilton Fonseca
Um Poema de Jorge de Lima
Jorge de Lima (1893-1953) escreveu um poema intitulado "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado ao pintor Cândido Portinari (Cf: LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, 2 v, v 1, p. 237) que ficou praticamente esquecido pelos estudiosos. Isto talvez se deva ao fato deste poema estar, de certa forma, fora das características gerais da poesia do poeta alagoano. Trata-se de um poema em prosa, condensado em apenas um parágrafo, no qual podemos perceber duas partes justapostas. Eis a primeira:
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
1 932
Aleilton Fonseca
Um Poema de Jorge de Lima
Jorge de Lima (1893-1953) escreveu um poema intitulado "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado ao pintor Cândido Portinari (Cf: LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, 2 v, v 1, p. 237) que ficou praticamente esquecido pelos estudiosos. Isto talvez se deva ao fato deste poema estar, de certa forma, fora das características gerais da poesia do poeta alagoano. Trata-se de um poema em prosa, condensado em apenas um parágrafo, no qual podemos perceber duas partes justapostas. Eis a primeira:
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
1 932
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Nossa Senhora da Piedade
Acolho-te em meus braços
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
1 091
Alfredo José Assunção
Lembranças
Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
1 070
Cláudio Alex
Farol Escarlate
I
Ah sim... sou eu...
Estava aqui pensando que a tarde invernal
poderia, como solar, trazer-te.
Boa tarde... sempre te espero.
Tua voz de garota, agora, comendo bolo.
Sim... te amo toda
Toda te quero.
Sempre.
Ah! O feitiço do amor prometido eterno.
A certeza do Sol e Lua gêmeos.
Que se apague a luz no eclipse
para que se amem nos escuro
esses dois amantes.
Pois o destino aperta o laço.
Estás de volta?
Chegou agosto... como disseram as cartas.
As cartas de tarot.
De novo aquela proximidade de alma.
O elo sensorial das coisas
que te trazem para junto e te mantêm comigo.
Cá estou eu, sábado,
fones no ouvido,
na tua mesma freqüência.
Sim, estou de novo dentro de ti.
Sim, estou aqui de novo
com essa coisa que preenche tudo.
Sim, te amo, sempre te amo
isso nunca irá acabar.
II
Cansada de atender
ao que lhe exige o comportamento.
Na rigidez dos dias, sem motivo,
sem o sol das hora hipotéticas,
sem o sol do brilho das clarezas.
Confusa!
Espécie perdida entre os afazeres.
Numa casa perdida aos acasos.
Numa cidade menor do que o próprio instinto.
Um confinamento no ermo atrás das nuvens.
O que se encontra atrás das nuvens?
O amor perdido em páginas de mensagens?
Onde está ele agora?
Onde ela está?
O frio de todos os invernos
a carcomer as fibras dos nervos.
Onde está a dona de si mesma?
Onde está a última tentação da carne?
Onde está o filho do acaso perdido na última morada?
A morada da última felicidade.
Percorrer as alamedas de volta prá casa.
Percorrer a aléas de volta prá si.
Tornar a encontrar-se, consigo, num dia futuro.
Beber aquela água, da mesma fonte,
até então envolta pela macegas de seus receios.
Estás de novo de volta.
Queres de novo a si mesma.
Retomar o tema do amor inacabado...
e a sinfonia da mulher que és.
Quem foi ela?
Onde estão aquelas manhãs?
Onde o sol brilhava diferente?
Quando a vida parecia ter a cor das horas?
Onde estiveste nesse exílio de ti?
Sim, percorrer os caminhos de volta...
É necessário ser.
Ou teu destino será ser apenas um resto de si?
E permanecer num eterno ter a fazer?
Eu hoje numa outra estação,
aguardo o comboio que te trás de volta.
Outra vida, outra plataforma.
Outra parada do além-sempre.
...da continuidade vital.
Da vida que sempre nos exige
o extrato contábil do ser nós mesmos.
Aguardo teu trem chegar
com a tranqüilidade na alma
de quem aprendeu que toda hora chega.
...e que o comboio sempre chega.
Tranqüilo na plataforma,
um homem diferente,
mas dentro de tua essência.
Dono de uma amor mais maduro.
Dono de mim, espero tua chegada.
Não, não é retorno.
É uma nova chegada.
É uma nova mulher
que encontra um novo homem
numa gare do destino.
O que persiste dentro de ambos é o amor.
O mesmo amado amor que ensinou a ser
Algo mais que a soma das vidas.
Que não se conteve dentro do frasco imposto
e, volátil, escapou, percolou os interstícios,
atravessou as distâncias e se misturou num éter
que sou eu e que és tu...
o dois-um transformado...
e que resiste a tudo.
Não... não existem recipientes que nos contenham!
Atravessaremos por todas as frestas...
Porque sempre haverá um meio
de recuperar a felicidade apenas adiada.
III
Você sabe onde está?
Ensina-me o caminho
para ir te buscar.
Eu preciso te encontrar
e te mostrar de ti.
Deitar minha voz em teus ouvidos.
Deitar meu olhar em seus olhos.
Sobre ti.
E fazer-te lembrar de ti.
Quem é você?
Ainda te lembra?
Percebes o exílio?
O que seria de ti
ao encontrar teu espelho
refletido em meus olhos.
Onde estão teus olhos?
Para onde olham agora?
E o que vêem?
Vislumbram o encanto das horas?
Percebem as cores da manhã?
Pressentem a magia dos momentos?
Sabem do toque intuído no bico do seio?
Sentem aquela emoção de encontrar o querido?
Do dia-após-dia que não cansa nunca?
Daquilo que sempre conduz a mais?
Ai... quanta saudade!
Quanta saudade de abranger-te, completa,
em meus braços.
Quanta ansiedade de saber-se pleno
de um amor infinito.
Não, não se corrói com a passagem das horas.
Não, não se dilui com o encanto das águas.
Eu estou aqui, renovado, mas teu.
Eu estou aqui e sou teu.
Espero o momento do reencontro,
pois sou teu,
permaneço teu,
sempre serei teu.
IV
Por que vacilas?
Fizestes tanto e agora
esboças desencanto.
Por que se embrenhar
nas malhas de seu medo?
Você já sabe que sempre é tarde,
Que nunca é cedo?
Que o momento é quando
se sente as veias palpitando.
E que o tempo deixado
jamais poderá ser reparado.
V
A noite traz-me o cheiro dos bálsamos.
O odor dos campos, a brisa das florestas.
As almas que pactuam o local do encontro,
acima das nuvens, por demais atalhos.
O fino eriçar dos pelos de tuas coxas.
O suave murmúrio oriundo de teu ventre.
De repente tudo é pele.
A seda das manhãs
tocadas pelo sol de inverno.
Noite e dia encontram-se no quarto.
O silêncio suburbano
entrecortado pelos fogos dos balões.
O fino estremecer dos músculos incautos.
O mover das pernas que abrem passagem
para que se mate a sede
de todos os dias aziagos.
O farfalhar das cobertas
num repente abandonadas ao lado.
VI
Um vale de luzes sob a janela.
Debruço na madrugada o meu hálito...
A febre de uma bronquite mal curada
a derramar espasmos sobre as estrelas.
Estou longe, sim, estou longe.
Nesta madrugada me perdes um pouco.
Sobra-me, no entanto, à luz das aparências...
Move-me a paz do silêncio através dos éteres.
Saio de mim, percorro as asas.
As vagas que incendeiam
as torres das refinarias
ao longe desse horizonte.
As contas dos colares das luzes da cidade.
O vento frio do último estertor de inverno.
O farol escarlate da usina.
A fumaça fabril do céu suburbano.
Estou aqui... estou aqui...
Estou longe do alcance de tuas buscas.
Longe do teu olhar e ouvido perscrutador.
Mas eu estou em teu silêncio
dessa noite de solidão,
vivência do desperdício,
da cidade, um precipício,
de ser mais uma noite vazia.
VII
As nuvens construíram um teto baixo...
sei que teu vôo perfura o céu
acima das nuvens.
Enquanto permaneço aqui
onde tudo é tão longe
e a viagem nunca começa.
Estou preso ao meu nada.
Atado ao rodapé dos vazios.
Onde eu tenho para ir?
Quais são os caminhos do vácuo?
Resta o amanhã de tudo:
as horas mortas de tuas tardes,
onde te lembres de ti;
onde juntas os fragmentos
e refaz-se o todo de ti.
Como se perder no cotidiano?
Fácil... quando o dia-a-dia apaga
o fogo de até mesmo existir.
- Não sou infeliz!
Mas não és feliz!
O que te resta na abundância?
Diga-me o dia de ir.
Abre a porta do teu endere
Ah sim... sou eu...
Estava aqui pensando que a tarde invernal
poderia, como solar, trazer-te.
Boa tarde... sempre te espero.
Tua voz de garota, agora, comendo bolo.
Sim... te amo toda
Toda te quero.
Sempre.
Ah! O feitiço do amor prometido eterno.
A certeza do Sol e Lua gêmeos.
Que se apague a luz no eclipse
para que se amem nos escuro
esses dois amantes.
Pois o destino aperta o laço.
Estás de volta?
Chegou agosto... como disseram as cartas.
As cartas de tarot.
De novo aquela proximidade de alma.
O elo sensorial das coisas
que te trazem para junto e te mantêm comigo.
Cá estou eu, sábado,
fones no ouvido,
na tua mesma freqüência.
Sim, estou de novo dentro de ti.
Sim, estou aqui de novo
com essa coisa que preenche tudo.
Sim, te amo, sempre te amo
isso nunca irá acabar.
II
Cansada de atender
ao que lhe exige o comportamento.
Na rigidez dos dias, sem motivo,
sem o sol das hora hipotéticas,
sem o sol do brilho das clarezas.
Confusa!
Espécie perdida entre os afazeres.
Numa casa perdida aos acasos.
Numa cidade menor do que o próprio instinto.
Um confinamento no ermo atrás das nuvens.
O que se encontra atrás das nuvens?
O amor perdido em páginas de mensagens?
Onde está ele agora?
Onde ela está?
O frio de todos os invernos
a carcomer as fibras dos nervos.
Onde está a dona de si mesma?
Onde está a última tentação da carne?
Onde está o filho do acaso perdido na última morada?
A morada da última felicidade.
Percorrer as alamedas de volta prá casa.
Percorrer a aléas de volta prá si.
Tornar a encontrar-se, consigo, num dia futuro.
Beber aquela água, da mesma fonte,
até então envolta pela macegas de seus receios.
Estás de novo de volta.
Queres de novo a si mesma.
Retomar o tema do amor inacabado...
e a sinfonia da mulher que és.
Quem foi ela?
Onde estão aquelas manhãs?
Onde o sol brilhava diferente?
Quando a vida parecia ter a cor das horas?
Onde estiveste nesse exílio de ti?
Sim, percorrer os caminhos de volta...
É necessário ser.
Ou teu destino será ser apenas um resto de si?
E permanecer num eterno ter a fazer?
Eu hoje numa outra estação,
aguardo o comboio que te trás de volta.
Outra vida, outra plataforma.
Outra parada do além-sempre.
...da continuidade vital.
Da vida que sempre nos exige
o extrato contábil do ser nós mesmos.
Aguardo teu trem chegar
com a tranqüilidade na alma
de quem aprendeu que toda hora chega.
...e que o comboio sempre chega.
Tranqüilo na plataforma,
um homem diferente,
mas dentro de tua essência.
Dono de uma amor mais maduro.
Dono de mim, espero tua chegada.
Não, não é retorno.
É uma nova chegada.
É uma nova mulher
que encontra um novo homem
numa gare do destino.
O que persiste dentro de ambos é o amor.
O mesmo amado amor que ensinou a ser
Algo mais que a soma das vidas.
Que não se conteve dentro do frasco imposto
e, volátil, escapou, percolou os interstícios,
atravessou as distâncias e se misturou num éter
que sou eu e que és tu...
o dois-um transformado...
e que resiste a tudo.
Não... não existem recipientes que nos contenham!
Atravessaremos por todas as frestas...
Porque sempre haverá um meio
de recuperar a felicidade apenas adiada.
III
Você sabe onde está?
Ensina-me o caminho
para ir te buscar.
Eu preciso te encontrar
e te mostrar de ti.
Deitar minha voz em teus ouvidos.
Deitar meu olhar em seus olhos.
Sobre ti.
E fazer-te lembrar de ti.
Quem é você?
Ainda te lembra?
Percebes o exílio?
O que seria de ti
ao encontrar teu espelho
refletido em meus olhos.
Onde estão teus olhos?
Para onde olham agora?
E o que vêem?
Vislumbram o encanto das horas?
Percebem as cores da manhã?
Pressentem a magia dos momentos?
Sabem do toque intuído no bico do seio?
Sentem aquela emoção de encontrar o querido?
Do dia-após-dia que não cansa nunca?
Daquilo que sempre conduz a mais?
Ai... quanta saudade!
Quanta saudade de abranger-te, completa,
em meus braços.
Quanta ansiedade de saber-se pleno
de um amor infinito.
Não, não se corrói com a passagem das horas.
Não, não se dilui com o encanto das águas.
Eu estou aqui, renovado, mas teu.
Eu estou aqui e sou teu.
Espero o momento do reencontro,
pois sou teu,
permaneço teu,
sempre serei teu.
IV
Por que vacilas?
Fizestes tanto e agora
esboças desencanto.
Por que se embrenhar
nas malhas de seu medo?
Você já sabe que sempre é tarde,
Que nunca é cedo?
Que o momento é quando
se sente as veias palpitando.
E que o tempo deixado
jamais poderá ser reparado.
V
A noite traz-me o cheiro dos bálsamos.
O odor dos campos, a brisa das florestas.
As almas que pactuam o local do encontro,
acima das nuvens, por demais atalhos.
O fino eriçar dos pelos de tuas coxas.
O suave murmúrio oriundo de teu ventre.
De repente tudo é pele.
A seda das manhãs
tocadas pelo sol de inverno.
Noite e dia encontram-se no quarto.
O silêncio suburbano
entrecortado pelos fogos dos balões.
O fino estremecer dos músculos incautos.
O mover das pernas que abrem passagem
para que se mate a sede
de todos os dias aziagos.
O farfalhar das cobertas
num repente abandonadas ao lado.
VI
Um vale de luzes sob a janela.
Debruço na madrugada o meu hálito...
A febre de uma bronquite mal curada
a derramar espasmos sobre as estrelas.
Estou longe, sim, estou longe.
Nesta madrugada me perdes um pouco.
Sobra-me, no entanto, à luz das aparências...
Move-me a paz do silêncio através dos éteres.
Saio de mim, percorro as asas.
As vagas que incendeiam
as torres das refinarias
ao longe desse horizonte.
As contas dos colares das luzes da cidade.
O vento frio do último estertor de inverno.
O farol escarlate da usina.
A fumaça fabril do céu suburbano.
Estou aqui... estou aqui...
Estou longe do alcance de tuas buscas.
Longe do teu olhar e ouvido perscrutador.
Mas eu estou em teu silêncio
dessa noite de solidão,
vivência do desperdício,
da cidade, um precipício,
de ser mais uma noite vazia.
VII
As nuvens construíram um teto baixo...
sei que teu vôo perfura o céu
acima das nuvens.
Enquanto permaneço aqui
onde tudo é tão longe
e a viagem nunca começa.
Estou preso ao meu nada.
Atado ao rodapé dos vazios.
Onde eu tenho para ir?
Quais são os caminhos do vácuo?
Resta o amanhã de tudo:
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onde te lembres de ti;
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Cláudio Alex
Poesia Diária
- Um digest diário sobre poesia em português.
O que traz este digest:
- poesias de autores que escrevem na língua
portuguesa;
- poesias estrangeiras traduzidas para o
português;
- poesias inéditas e novos poetas;
- ensaios, críticas sobre poesia;
- textos em prosa poética;
- biografias;
- notícias sobre prêmios e concursos;
- dicas sobre novos lançamentos em poesia;
- dicas para quem está começando a escrever;
- dicas sobre a poesia na Internet.
Se você gosta de poesia terá sempre contato com
uma seleção criteriosa e bem cuidada...
Se você é poeta, já tem trabalhos reconhecidos,
o Poesia Diária traz a oportunidade de troca de
experiências e conhecer os novos rumos...
Se você está começando agora, está querendo mostrar
seus poemas, integrar-se em grupos de poesia, conhecer
o caminho da poesia...
Se você é crítico de literatura precisa estar em
contato com o meio veloz da poesia cibernética...
Se você é editor, não pode deixar de atentar para
os novos talentos...
Existem várias razões para assinar Poesia Diária
e juntar-se a um grupo de 500 assinantes situados
em todos os cantos do mundo.
---
Como assinar:
============
Escreva um mail para:
- [email protected]
dizendo, simplesmente:
inscreva poesia.
O que traz este digest:
- poesias de autores que escrevem na língua
portuguesa;
- poesias estrangeiras traduzidas para o
português;
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