Poemas neste tema
Alma
Fernando Tavares Rodrigues
A Ti
Aos trista e sete anos do teu corpo,
Às vinte e quatro horas da tua carne
E ao desejo que , às vezes, é tão pouco
E ao amor que,mesmo assim, ainda arde
Ao ciíme da tua boca, quando calas
Ao silêncio dos teus olhos, quando choras
E aos teus braços nus, quando me abraças
E ao teu ventre que é tão breve quando parto.
E às tuas esperanças vãs que eu alimento
A ao ópio do teu sonho onde me tardo,
E a ti onde, afinal, não aconteço....
Às vinte e quatro horas da tua carne
E ao desejo que , às vezes, é tão pouco
E ao amor que,mesmo assim, ainda arde
Ao ciíme da tua boca, quando calas
Ao silêncio dos teus olhos, quando choras
E aos teus braços nus, quando me abraças
E ao teu ventre que é tão breve quando parto.
E às tuas esperanças vãs que eu alimento
A ao ópio do teu sonho onde me tardo,
E a ti onde, afinal, não aconteço....
1 278
1
Joaquim Pessoa
Outono
Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
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1
Joaquim Pessoa
Soneto Primeiro
Não foi Guevarra, mãe, quem te rasgou
Com os punhais do frio pela manhã.
Foi quando eu te feri que um cão ladrou.
Das rosas veio um cheiro a hortelã!
Nos mastros adejavam as gaivotas.
Era Fevereiro. E a noite um pesadelo.
Da chuva que caía algumas gotas
Quiseram repousar no teu cabelo.
E eu nasci. No quarto ninguém estava.
À porta só a chuva é que teimava
Em molhar os lençóis da tua cama.
Não foi Guevarra, mãe, quem tu pariste
Foi um grito do povo azul e triste
Na noite em que chorei luas de lama.
Com os punhais do frio pela manhã.
Foi quando eu te feri que um cão ladrou.
Das rosas veio um cheiro a hortelã!
Nos mastros adejavam as gaivotas.
Era Fevereiro. E a noite um pesadelo.
Da chuva que caía algumas gotas
Quiseram repousar no teu cabelo.
E eu nasci. No quarto ninguém estava.
À porta só a chuva é que teimava
Em molhar os lençóis da tua cama.
Não foi Guevarra, mãe, quem tu pariste
Foi um grito do povo azul e triste
Na noite em que chorei luas de lama.
1 367
1
Angela Santos
As Tuas Mãos
Nas
tuas mãos
está guardado um segredo
que eu procuro desvendar
nas tuas mãos
vislumbro o afago
que espanta o medo
Das tuas mãos
sobe uma melodia
que embebeda meus olhos
e as minhas se as tocam
cercam-nas como prisão
por tanto quererem
em si guardá-las
As tuas mãos
são o lugar onde termina
o abraço se me enlaças,
as tuas mãos guardam o toque de veludo,
e trémulas fazem explodir em mim
mil sois de Agosto
As tuas mãos tecem em seus
gestos delicadas rendas que eu cuido e guardo
para debruar o manto
que há - de cobrir
o teu corpo e o meu
Nas tuas mãos, se as toco
sinto o fogo que te abrasa a alma
o mesmo fogo que me toma e leva
na inexplicável vibração
que em nós soa.
tuas mãos
está guardado um segredo
que eu procuro desvendar
nas tuas mãos
vislumbro o afago
que espanta o medo
Das tuas mãos
sobe uma melodia
que embebeda meus olhos
e as minhas se as tocam
cercam-nas como prisão
por tanto quererem
em si guardá-las
As tuas mãos
são o lugar onde termina
o abraço se me enlaças,
as tuas mãos guardam o toque de veludo,
e trémulas fazem explodir em mim
mil sois de Agosto
As tuas mãos tecem em seus
gestos delicadas rendas que eu cuido e guardo
para debruar o manto
que há - de cobrir
o teu corpo e o meu
Nas tuas mãos, se as toco
sinto o fogo que te abrasa a alma
o mesmo fogo que me toma e leva
na inexplicável vibração
que em nós soa.
2 181
1
Fernando Tavares Rodrigues
As Time Goes By
Como o
tempo passa
Enquanto ficamos sós...
Passamos nós pelo tempo
Ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois á taça
O que afinal sou eu só
- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.
tempo passa
Enquanto ficamos sós...
Passamos nós pelo tempo
Ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois á taça
O que afinal sou eu só
- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.
1 205
1
Angela Santos
Auscultação
Agora
paro mais vezes,
paro e perscruto o silencio…
escuto, sem saber bem o que oiço
Quem sabe se a voz do mundo,
como o correr silencioso de um rio,
a espraiar-se na foz de um poema,
palavra a palavra erguido
construindo um sentido.
E se paro, e oiço, sinto "isto"…
e isto que sinto, como dize-lo?
isto que arranco a um lugar em mim,
ou a um lugar longe que de mim se acerca,
como voz que com o vento chegasse
quando eu em silencio posta.
Talvez que do coração
"isso" não seja mais que o sussurro,
colhido naquele instante
em que a mente se ausenta
para lhe dar voz.
paro mais vezes,
paro e perscruto o silencio…
escuto, sem saber bem o que oiço
Quem sabe se a voz do mundo,
como o correr silencioso de um rio,
a espraiar-se na foz de um poema,
palavra a palavra erguido
construindo um sentido.
E se paro, e oiço, sinto "isto"…
e isto que sinto, como dize-lo?
isto que arranco a um lugar em mim,
ou a um lugar longe que de mim se acerca,
como voz que com o vento chegasse
quando eu em silencio posta.
Talvez que do coração
"isso" não seja mais que o sussurro,
colhido naquele instante
em que a mente se ausenta
para lhe dar voz.
1 210
1
Fernando Pinto do Amaral
Á Chegada do Inverno
Nem sempre
a vida acolhe ou alimenta
os nomes do passado, o seu abismo
repetido num sonho, na mais lenta
assombração, no mais íntimo sismo
Do que chamamos alma. Não existo
sem essa febre mansa que relembro
enquanto as nuvens cobrem tudo isto
com o frio escuro de um dezembro
Longe de mim, de ti, de qualquer lei
ou juízo a que dêmos um sentido:
o que finjo saber é o que não sei
e as palavras colam-se ao ouvido.
a vida acolhe ou alimenta
os nomes do passado, o seu abismo
repetido num sonho, na mais lenta
assombração, no mais íntimo sismo
Do que chamamos alma. Não existo
sem essa febre mansa que relembro
enquanto as nuvens cobrem tudo isto
com o frio escuro de um dezembro
Longe de mim, de ti, de qualquer lei
ou juízo a que dêmos um sentido:
o que finjo saber é o que não sei
e as palavras colam-se ao ouvido.
2 171
1
Jorge de Sena
Bucólica e Nâo
Há sempre poetas para fazer versos à terra,
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos- que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musgentos
em troncos. Ou no chão buracos de formigas,
e de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
É orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
rios e regatos murmurantes- que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
Jorrando intermitentes num agudo jacto?
que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos- que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musgentos
em troncos. Ou no chão buracos de formigas,
e de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
É orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
rios e regatos murmurantes- que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
Jorrando intermitentes num agudo jacto?
que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?
3 746
1
Cora Coralina
Todas as vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
2 672
1
Odylo Costa Filho
O Amor Calado
Ainda que o canto desça, de atropelo
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
1 329
1
Joaquim Pessoa
De onde chegam estas palavras?
De onde me chegam estas palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?
Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.
Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?
Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.
Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.
2 189
1
Angela Santos
A Casa do Silêncio
Sabes, na
luminosidade difusa
Do cair do dia
Nos interstícios de sombra e luz
Sobe-me ao peito o tremor
Que vem dos tempos
Sem memória
Em que o teu nome era o nome
que eu sem saber
em mim trazia
Difusa a luz da memória
incide sobre a estreita nesga
e é por ela que entram
os sinais onde te leio
e só no silencio entendo
o pretérito que não sei dizer
És
antes do tempo que atravesso
sei-o nas entrelinhas do meu ser....
e é na tua voz que acordo
de um sono milenar.
Nela regresso ao espelho
Onde de novo te vejo
mas esse fundo do fundo
da palavra não consentida.
De olhos fechados tacteio
como cego a luz perdida
e abro de par em par
um mui antigo portal
e a nave do silencio
que o tempo vence, atravessa-o
E nesse lugar sem nome
de todos os nomes guarida,
a voz do vento desvenda
o nome que desde sempre
no fundo do meu ser se abriga.
luminosidade difusa
Do cair do dia
Nos interstícios de sombra e luz
Sobe-me ao peito o tremor
Que vem dos tempos
Sem memória
Em que o teu nome era o nome
que eu sem saber
em mim trazia
Difusa a luz da memória
incide sobre a estreita nesga
e é por ela que entram
os sinais onde te leio
e só no silencio entendo
o pretérito que não sei dizer
És
antes do tempo que atravesso
sei-o nas entrelinhas do meu ser....
e é na tua voz que acordo
de um sono milenar.
Nela regresso ao espelho
Onde de novo te vejo
mas esse fundo do fundo
da palavra não consentida.
De olhos fechados tacteio
como cego a luz perdida
e abro de par em par
um mui antigo portal
e a nave do silencio
que o tempo vence, atravessa-o
E nesse lugar sem nome
de todos os nomes guarida,
a voz do vento desvenda
o nome que desde sempre
no fundo do meu ser se abriga.
815
1
Angela Santos
Jogo de Palavras
Desatei
o emaranhado do sentir
e com simples palavras arrumei a cabeça
de uma forma única
Deixei crescer e avançar o poema
Ao ritmo de palavras simples
que não são diferentes das que usamos sempre
que dizemos pão ou dizemos paz
se dizemos dor, punhal silêncio e sol
se dizemos amor, seda ou espinhos
se dizemos dia, música e ventania
se dizemos saudade e ao dize-la a sentimos
Com palavras toscas, simples ou debruadas
fazemos sentido, deixamos recados
recados da alma
que emergem dos cantos onde entra a luz
ou desses lugares lúgubres e sombrios
mas sempre a palavra será esse fio
o que nos conduz
ao lado de fora desses labirintos.
Amo na palavra
esse modo único de ser e dizer
e que simples seja
pra fazer a vez do gesto que toca,
do olho que explode
do corpo que tremulo exala paixão
Que a palavra diga, simplesmente diga
e não faça nunca o papel da vida,
mas se como ela é
pulsão, sangue, corrente e grito
quando à boca assoma a palavra certa
é a própria vida
que em si mesma digo.
o emaranhado do sentir
e com simples palavras arrumei a cabeça
de uma forma única
Deixei crescer e avançar o poema
Ao ritmo de palavras simples
que não são diferentes das que usamos sempre
que dizemos pão ou dizemos paz
se dizemos dor, punhal silêncio e sol
se dizemos amor, seda ou espinhos
se dizemos dia, música e ventania
se dizemos saudade e ao dize-la a sentimos
Com palavras toscas, simples ou debruadas
fazemos sentido, deixamos recados
recados da alma
que emergem dos cantos onde entra a luz
ou desses lugares lúgubres e sombrios
mas sempre a palavra será esse fio
o que nos conduz
ao lado de fora desses labirintos.
Amo na palavra
esse modo único de ser e dizer
e que simples seja
pra fazer a vez do gesto que toca,
do olho que explode
do corpo que tremulo exala paixão
Que a palavra diga, simplesmente diga
e não faça nunca o papel da vida,
mas se como ela é
pulsão, sangue, corrente e grito
quando à boca assoma a palavra certa
é a própria vida
que em si mesma digo.
2 463
1
Irene Lisboa
Jeito de Escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do
nem, do nada, da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do
nem, do nada, da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
1 944
1
Dorothy Parker
Ser mulher
Por que será que quando estou em Roma
daria tudo para estar em casa na redoma
mas se estou na minha terra americana
minha alma deseja a cidade italiana?
E quando com você, meu amor, meu remédio,
fico espetacularmente cheia de tédio
Mas se você se levantar e me deixar
Grito para você voltar?
daria tudo para estar em casa na redoma
mas se estou na minha terra americana
minha alma deseja a cidade italiana?
E quando com você, meu amor, meu remédio,
fico espetacularmente cheia de tédio
Mas se você se levantar e me deixar
Grito para você voltar?
1 669
1
Fernando Namora
Intervalo
Quando nasci,
em rendas e afagos
Os rouxinóis vinham com a aurora esperar a Primavera
Mas o seu canto
Emudeceu de espanto
Como se o meu choro os degolasse.
Minha mãe, nessa noite,
Sonhara com o aceno húmido de um lenço
Branco
Num dia de partida.
Ó Terra
eu cheguei e tu ficaste ainda.
Porque não estoiraste se foste iludida
em rendas e afagos
Os rouxinóis vinham com a aurora esperar a Primavera
Mas o seu canto
Emudeceu de espanto
Como se o meu choro os degolasse.
Minha mãe, nessa noite,
Sonhara com o aceno húmido de um lenço
Branco
Num dia de partida.
Ó Terra
eu cheguei e tu ficaste ainda.
Porque não estoiraste se foste iludida
2 259
1
Angela Santos
Cristais
Abri nossos
peitos
como quem rasga a rocha virgem
e nela procura sinais antigos sedimentados ler…
Olhei o
teu peito a custo se abrindo
imanando luz, e de luz sedento
inscrições
antigas ao sol emergiam
refulgindo dizeres que busquei saber
e aos meus
olhos, o teu peito era
um nocturno incêndio
queimando em silêncio
silencio
de pérolas, pérolas de gelo
rolando sobre o meu
Expus o
meu peito porque nele eu quis
ver o que acontece sobre rocha virgem
depois de rasgada se desnudando à luz.
Olhei dentro
do que somos,
com olhos de chama viva
buscando ainda a centelha
que há-de brilhar na noite
e atravessar os cristais incrustados neste tempo
que transcorre sobre nós
Por essa
chama estendi
meus olhos para além dos dias
e com esses olhos vi dentro dos finos cristais
procurando ir mais longe disso que sente em mim.
E foi na
rocha rasgada,
que em meu peito descobri,
que a traços leves gravei
o esboço de um porto e até um cais de chegada
e desenhei na esperança
a ponte que atravessa
sombras, dúvidas e até a certeza
de que vou onde me leva
minha estrela - guia
peitos
como quem rasga a rocha virgem
e nela procura sinais antigos sedimentados ler…
Olhei o
teu peito a custo se abrindo
imanando luz, e de luz sedento
inscrições
antigas ao sol emergiam
refulgindo dizeres que busquei saber
e aos meus
olhos, o teu peito era
um nocturno incêndio
queimando em silêncio
silencio
de pérolas, pérolas de gelo
rolando sobre o meu
Expus o
meu peito porque nele eu quis
ver o que acontece sobre rocha virgem
depois de rasgada se desnudando à luz.
Olhei dentro
do que somos,
com olhos de chama viva
buscando ainda a centelha
que há-de brilhar na noite
e atravessar os cristais incrustados neste tempo
que transcorre sobre nós
Por essa
chama estendi
meus olhos para além dos dias
e com esses olhos vi dentro dos finos cristais
procurando ir mais longe disso que sente em mim.
E foi na
rocha rasgada,
que em meu peito descobri,
que a traços leves gravei
o esboço de um porto e até um cais de chegada
e desenhei na esperança
a ponte que atravessa
sombras, dúvidas e até a certeza
de que vou onde me leva
minha estrela - guia
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Angela Santos
Entre Margens
Acho-me,
desencontro-me
amaino se posso
os demónios
Aposso-me das espectrais
sombras que vagueiam
na antecâmara de mim
De sonhos e caminhos
é feito o mundo
o meu
o outro de que me aparto
de cacos e restos do velho
O novo teima
entre os escombros das implacáveis leis
do mais forte
da gravidade
da entropia
e da sua negação
E então?
Então o sonho é o que sobra
e o rasgo de alma por onde ele brota
E além - sonho
as cores, a luz, as palavras, o poema
as barreiras vencidas, a cabeça a prumo
a teimosia...acreditar ainda
E além de tudo o amor.. amar
amar-te
o que faz sentir-me
o que faz sentido
E o mar.....
o que sem ti
faz doer!
desencontro-me
amaino se posso
os demónios
Aposso-me das espectrais
sombras que vagueiam
na antecâmara de mim
De sonhos e caminhos
é feito o mundo
o meu
o outro de que me aparto
de cacos e restos do velho
O novo teima
entre os escombros das implacáveis leis
do mais forte
da gravidade
da entropia
e da sua negação
E então?
Então o sonho é o que sobra
e o rasgo de alma por onde ele brota
E além - sonho
as cores, a luz, as palavras, o poema
as barreiras vencidas, a cabeça a prumo
a teimosia...acreditar ainda
E além de tudo o amor.. amar
amar-te
o que faz sentir-me
o que faz sentido
E o mar.....
o que sem ti
faz doer!
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Fernando Tavares Rodrigues
Talvez Amanhã
Talvez
amanhã eu saiba
Talvez amanhã eu siga.
Talvez amanhã não caiba
Nas palavras que te diga...
Entretanto, que sei eu?
Eu que não sei o que sou.
Depois do que aconteceu,
Apesar do que acabou.
Não vamos dormir agora
- que a manhã é uma promessa
que o teu sorriso devora.
Vamos despir-nos depressa
Ainda temos uma hora
Antes que o sonho adormeça.
amanhã eu saiba
Talvez amanhã eu siga.
Talvez amanhã não caiba
Nas palavras que te diga...
Entretanto, que sei eu?
Eu que não sei o que sou.
Depois do que aconteceu,
Apesar do que acabou.
Não vamos dormir agora
- que a manhã é uma promessa
que o teu sorriso devora.
Vamos despir-nos depressa
Ainda temos uma hora
Antes que o sonho adormeça.
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Angela Santos
Odes de Luz
Ia pelas praças que inventava
acordando uma saudade antiga…
manhãs de sol, a orla da praia
luz e cores pela alma bebidas
e o tempo a escoar-se lento
num vago murmúrio de eras perdidas
ressurgindo, assim, o canto e o sol
odes de luz reflectiam…
os olhos curados renegavam sombras
e outra vez e outra
acreditar podiam.
acordando uma saudade antiga…
manhãs de sol, a orla da praia
luz e cores pela alma bebidas
e o tempo a escoar-se lento
num vago murmúrio de eras perdidas
ressurgindo, assim, o canto e o sol
odes de luz reflectiam…
os olhos curados renegavam sombras
e outra vez e outra
acreditar podiam.
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Ana Luísa Amaral
Pequenos Mosaicos
É agora - na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir. Um palco
a lua. Eu observada de fora da janela.
O terror de pensar: o pesadelo
de me sentir duas pela primeira vez
falado. é de amor este poema
e de visões: ondulantes cortinas
noutra que me é igual.
Porque no pesadelo e de repente
o futuro rasgou-se, as cortinas
soltaram-se. Na profecia
só ficaste tu.
E a tua falta mais que a tua
ausência em pequeno mosaico
se fechou. Entendo agora como uma cadeira
pode ser só esta cadeira porque
é tua.
e a madrugada por abrir. Um palco
a lua. Eu observada de fora da janela.
O terror de pensar: o pesadelo
de me sentir duas pela primeira vez
falado. é de amor este poema
e de visões: ondulantes cortinas
noutra que me é igual.
Porque no pesadelo e de repente
o futuro rasgou-se, as cortinas
soltaram-se. Na profecia
só ficaste tu.
E a tua falta mais que a tua
ausência em pequeno mosaico
se fechou. Entendo agora como uma cadeira
pode ser só esta cadeira porque
é tua.
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Joaquim Pessoa
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
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Virgínia Schall
Evocação feminina
(Dedico este poema às poetas Bárbara Heliodora, Cecília Meireles,
Henriqueta Lisboa (in memoria) e especialmente à poeta e amiga
Stella Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres
poetas de todos os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos
séculos.)
Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras
E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.
Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes
Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias
Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.
O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?
Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas
Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!
Henriqueta Lisboa (in memoria) e especialmente à poeta e amiga
Stella Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres
poetas de todos os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos
séculos.)
Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras
E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.
Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes
Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias
Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.
O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?
Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas
Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!
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