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Poemas neste tema

Alma

Renato Rezende

Renato Rezende

[Troll]

Da importância de não se ter amigos

O saber é uma superstição,
um vício.

Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.

Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.

O amor sustenta o artista.

Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.

Grau Zero.

Pego meu chapéu e saio da minha mente.

Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.

A língua destrói constantemente

[a possibilidade de se dizer]

Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.

O que acontece na vida não importa.

Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.

Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.

Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.

Solto

Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões

Já não acredito
em que eu penso—

sou o que penso

eu era pensamento
mas não sou

mais

Nada é onde há palavra

Máscaras
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Estilhaços]

[estar: dois ou mais
locais ao mesmo tempo.]

Já sei o que vou fazer. Nada.
E quando o dinheiro acabar? Nada.

Do chão ninguém passa.

Eu não tenho compromisso com o real.

De vez em quando rompe-se um espelho.

Ainda não suporto
a força desse gozo.

Vou-me embora para Pasárgada? Que nada
Vou ficar aqui mesmo
Aqui
sou amigo dos meus inimigos, rei dos mosquitos.

Quanto mais belo, mais verdadeiro
Quanto mais verdadeiro, mais pleno

Tudo que é dito é desmentido.
Tudo o que é, também não é.

Estamos todos aqui de forma oblíqua—estilhaços.

Quando virarei do avesso?

A arte de estar onde se está

Ser é estar

esse habitar, esse ser quem é dentro de si

Penso, logo penso que existo.

só as ações são sólidas

o importante não é estar aqui ou ali
estar com este ou aquela

pq a pressa em morrer?
logo logo estará morto

a vida nunca é a vida
viver nunca é viver

Toda cultura inventa um corpo

Quer chá? Não quer chá.

Viver é sempre um construir

Uma coisa de barro é mais humana que uma de plástico?

Por quê?

Há palavras sagradas?

Há uma força maior? Algo que nos atravessa?

Ser Renato como poderia ser qualquer pessoa. O Renato tem seu destino. Ser Renato sendo o que observa o Renato, sendo o que assiste, estupefato, divertido, o filme do desenvolver da vida do Renato. Ser Renato não sendo o Renato, e sim aquele que assiste. Ser aquele que testemunha a vida do Renato sendo o Renato. Ser o que assiste—ser o observador—a vida do Renato interferindo na vida do Renato através do Amor.
Ser o que assiste amando. O ponto de encontro entre o Renato sendo e o que o assiste enquanto: é o Amor.

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Renato Rezende

Renato Rezende

[Abelhas]

Ele pensa que existe, mas no fundo, quem existe sou apenas eu. Sem saber quem é, ele rodopia sem parar pelo mundo. Como uma borboleta, como um beija-flor, sem núcleo, sem centro, vazio-oco. Na caverna dele estou eu, mas ele não me vê, escondida que estou em luz. Por isso ele gira estonteante, amando tudo o que sente, o que vê, o que toca. Eu o fiz para isso mesmo. Para ele me amar. Um dia eu me revelo e ele me descobre.

Ele é apenas uma sombra, no fundo, seu medo tem fundamento. Intui que não existe, sabe que vai morrer. Quem existe sou eu: não mais a Morte, mas a Bem-Aventurança.

A pessoa viva deseja. A morta ama.

Eu sou sempre-viva porque todos os dias me despedaço por ele.
Todos os dias bebo meu próprio sangue por ele. Você se sacrificaria por mim?

Mais cedo ou mais tarde, tem um dia em que o teto cai, a gente rola para dentro do próprio ralo. Minha amiga: eu fico aqui, de boca aberta, esperando, torcendo. Você terá coragem de passar por esse ralo? Você vem jorrar em minha boca?

Eu não escrevo poemas; eu sou um poema. Eu escrevo pessoas. Por exemplo, agora, estou escrevendo você.

Enquanto você se transforma em palavras, eu te transformo em pessoa. Sei que é difícil de entender, mas é assim mesmo. Você é como um molde de cera, um equilíbrio de passagem. Assim que esvaziarse toda em palavra e seu frágil molde derreter pelo meu fogo, vai perceber surpresa que em seu lugar você agora é: ouro. Vida nova.

Vida viva. Ouro aéreo: luz: o universo iluminado. Vai se sentir virada do avesso. Grata: esse trabalho quem faz sou eu.

Mas é preciso que você queira. É preciso que você me deseje obscenamente. Venha, minha amiga, sejamos cachorras.

Não se assuste. Minha função é pôr a mão na sua caixa de marimbondos. Libertar suas abelhas vermelhas, ferozes. Você multiplicada, dividida, em milhões de abelhas douradas pelo espaço aberto. Você suportará seu próprio zumbir?

Eu posso perfeitamente mastigar abelhas vivas. Quer ver?
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Renato Rezende

Renato Rezende

Odysseus

One day, taking a coffee break, he noticed a book someone had forgotten on a table.
Surprised, he saw the book was written on his native language. He brought it to the kitchen and
tried to read while working. But he didn't have a chance. At the end of the day he took the book
home. He was excited.
It was the story of Odysseus and during the night, reading it in his room, he felt his heart
being overwhelmed by beauty. He read all night long and the next day he didn't show up for work.
Instead, he went for a walk with no directions. It was the beginning of spring and everything was
beautiful, everyone looked happy. He was surprised he hadn't really noticed the spring before. He
walked to a park in the top of a hill and sat down.
He stayed there for a long time. From there he could see the whole city and the suburbs. He
remembered some passages of the book; the beauty of it had remained with him. He had a strange
feeling; he felt his heart was so big he could fit the whole world in it. Suddenly he stood up and
shouted: I'm Odysseus!


Poderia ser em sueco: En dag under en kaffepaus lade han marke till en bok som någon hade glömt på ett bord. Till
sin förvåning såg han att boken var skriven på hans eget modersmål. Han tog den med sig till köket och försökte läsa
medan han arbetade. Men det gick inte alls. När dagen var slut tog han med sig boken hem. Han var entusiastisk. Det
var berättelsen om Odysseus och under natten medan han läste boken i sitt rum, kände han att hans hjärta var
överväldigat av dess skönhet. Han läste hela natten och nästa dag gick han inte till sitt arbete. Istället tog han en
promenad utan mål. Våren hade just börjat och allt var väckert, alla såg lyckliga ut. Det förvånade honom att han inte
lagt märke till våren tidigare. Han gick till en park på en kulle och satte sig ned. Han stannade där länge. Därifrån
kunde han se hela staden och förstäderna. Han erinrade sig några avsnitt ur boken, dess skönhet hade förblivit hos
honom. Han hade en underlig känsla, han kände att hans hjärta var så stort att det rymde hela världen. Plötsligt reste
han sig upp och skrek: Jag är Odysseus!
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Ensaios]

Saberei renascer em vida?

De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.

Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.

Ensaios.

Vou perder o medo de ficar louco.

Começar a ser o que eu sou.

Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto

Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.

Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.

Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.

Por acaso eu sou eu.

Eu:

Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.

Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.

Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.

Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.

Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.

Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.

É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.

AMA ET FAC UT VIS

Tenho sido meticulosamente destruído.

Era uma casa abandonada, sem telhado

e as vacas

a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):

era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.

Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.

Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.

Eu vivo minha vida como se eu não existisse.

A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.

Não me importo com o que possa vir a acontecer.

Eu só sossegarei com o silêncio.

Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.

Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.

Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
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