Poemas neste tema
Alma
Paulo Henriques Britto
III
Há algum tempo coleciono cadáveres.
Minhas gavetas não têm mais lugar.
Eu curto o prazer meio besta
dos numismatas e taxidermistas.
Meus mortos gozam a eternidade postiça
dos bálsamos e etiquetas.
E assim convivemos todos
na mais perfeita urbanidade
nesse apartamento igualzinho
a qualquer outro da cidade.
Minhas gavetas não têm mais lugar.
Eu curto o prazer meio besta
dos numismatas e taxidermistas.
Meus mortos gozam a eternidade postiça
dos bálsamos e etiquetas.
E assim convivemos todos
na mais perfeita urbanidade
nesse apartamento igualzinho
a qualquer outro da cidade.
534
Paulo Henriques Britto
X
Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
767
Horácio Costa
Paisagem II
Sentado nesta bergère de courvin
sinto o poema chegar com ainda
menos urgência do que parece
condensarem-se as nuvens sobre a paisagem
que se descortina deste hospital
debruçado sobre a mais insípida
autopista ou avenida de fundo de vale
- que cada cidade tenha as suas
características é mais do que natural
e Dubai e Oslo só se encontram
por terem topônimos bissílabos-
e tais artérias são o próprio desta
na qual por bem nasci e na qual
se me for dado imprimir sobre
o meu devir bizarro a vontade
minha, hei de morrer e talvez
em algum espaço medical como este
e sempre na observação de plúmbeas
vastas nuvens, que obrigam recordar
a proximidade da serra e sua
exsudação e abaixo o sujo mar
per elas responsável, pai
esquecidiço e insolidário quem
nos filia a cada estação e quem
nos manda carícias sob forma de
sazonais monções.
Mudo
de posição como em Apipucos
Freyre o faria em outra bergère
mas não diviso sequer mentalmente
nenhum engenho de nome Noruega
na noite que se acende e sim
apenas o estertor de uma cidade
nem libertina nem libertária
nem escarrapachada em indolentes redes
mas que no supino anonimato garante
o quociente de cada habitante seu
à liberdade de escolha, dentro
dos limites xadrezes entre prédios
e vales e parcos parques e não mais.
Que
não se confunda tal simples solaz
ao exercício contumaz da fantasia:
aqui não cortam os ares de Batman
a capa nem Quasímodo horrendo
se esconde em nossa Sé e nem Rachel
Watson ou Esmeralda belas apeiam-se
dos incessantes vagões na Liberdade.
Há dias sinto emergir este poema
e serão tais nuvens baixas quem
o traz e de onde aportará que não
da sensação experimentada dia a dia
do perviver este espaço dia com dia
no fluxo de um rio ao inverso?
A hibridez do texto corresponde-lhe
e a mim, e ao desejo de plasmar-me
nele e nela e repetir e repetir
que a cidade que tudo isto origina
será o meu espelho colinado
e meus nervos e meu sangue
estas luzes que diviso mental e real-
mente, agora que a sobrevôo não
em rés búdico, que bem o quisera,
mas para começar a terminar
este registro que inda tarda.
As raízes do fícus, gigantescas,
entre as pistas da auto-bahn
esperam quem nelas se aninhe
e ao pé da copa frondosíssima,
como Buda, se ilumine; as encostas
lá embaixo, sulcadas entre bairros
de espigões, talvez possam sugerir
semi-aconcáguas aos do montanhismo
entusiastas, que por aqui transitem
e aos médicos, o vislumbre da
distante cúpula da Catedral, cujos
bronzes estão cobertos por cinábrio,
o bimbalar mouco de sinos em toque
fúnebre, que lhes imprima o significado
da vida de cada um de seus pacientes:
velhos imigrantes portugueses, mães
nordestinas deixadas por seus machos,
nisseis que se expressam por sorrisos
e o significado da minha vida em
particular, quase um gondoleiro âgé
neste Rialto em pane, vestido
com esta improvável camiseta
listrada de azul e branco e por hora
sentado a escrever este poema
nesta bergère de courvin
impessoalíssima e com os seus olhos
rasos d’água, como deve ser, enquanto
reflito sobre São Paulo e sua gente
neste pavilhão de funcionalidade
hospitalar, edificado num barranco
íngreme não: cânion sobre uma artéria
aberta no fundo de um vale coberto
por nuvens nuvens nuvens.
sinto o poema chegar com ainda
menos urgência do que parece
condensarem-se as nuvens sobre a paisagem
que se descortina deste hospital
debruçado sobre a mais insípida
autopista ou avenida de fundo de vale
- que cada cidade tenha as suas
características é mais do que natural
e Dubai e Oslo só se encontram
por terem topônimos bissílabos-
e tais artérias são o próprio desta
na qual por bem nasci e na qual
se me for dado imprimir sobre
o meu devir bizarro a vontade
minha, hei de morrer e talvez
em algum espaço medical como este
e sempre na observação de plúmbeas
vastas nuvens, que obrigam recordar
a proximidade da serra e sua
exsudação e abaixo o sujo mar
per elas responsável, pai
esquecidiço e insolidário quem
nos filia a cada estação e quem
nos manda carícias sob forma de
sazonais monções.
Mudo
de posição como em Apipucos
Freyre o faria em outra bergère
mas não diviso sequer mentalmente
nenhum engenho de nome Noruega
na noite que se acende e sim
apenas o estertor de uma cidade
nem libertina nem libertária
nem escarrapachada em indolentes redes
mas que no supino anonimato garante
o quociente de cada habitante seu
à liberdade de escolha, dentro
dos limites xadrezes entre prédios
e vales e parcos parques e não mais.
Que
não se confunda tal simples solaz
ao exercício contumaz da fantasia:
aqui não cortam os ares de Batman
a capa nem Quasímodo horrendo
se esconde em nossa Sé e nem Rachel
Watson ou Esmeralda belas apeiam-se
dos incessantes vagões na Liberdade.
Há dias sinto emergir este poema
e serão tais nuvens baixas quem
o traz e de onde aportará que não
da sensação experimentada dia a dia
do perviver este espaço dia com dia
no fluxo de um rio ao inverso?
A hibridez do texto corresponde-lhe
e a mim, e ao desejo de plasmar-me
nele e nela e repetir e repetir
que a cidade que tudo isto origina
será o meu espelho colinado
e meus nervos e meu sangue
estas luzes que diviso mental e real-
mente, agora que a sobrevôo não
em rés búdico, que bem o quisera,
mas para começar a terminar
este registro que inda tarda.
As raízes do fícus, gigantescas,
entre as pistas da auto-bahn
esperam quem nelas se aninhe
e ao pé da copa frondosíssima,
como Buda, se ilumine; as encostas
lá embaixo, sulcadas entre bairros
de espigões, talvez possam sugerir
semi-aconcáguas aos do montanhismo
entusiastas, que por aqui transitem
e aos médicos, o vislumbre da
distante cúpula da Catedral, cujos
bronzes estão cobertos por cinábrio,
o bimbalar mouco de sinos em toque
fúnebre, que lhes imprima o significado
da vida de cada um de seus pacientes:
velhos imigrantes portugueses, mães
nordestinas deixadas por seus machos,
nisseis que se expressam por sorrisos
e o significado da minha vida em
particular, quase um gondoleiro âgé
neste Rialto em pane, vestido
com esta improvável camiseta
listrada de azul e branco e por hora
sentado a escrever este poema
nesta bergère de courvin
impessoalíssima e com os seus olhos
rasos d’água, como deve ser, enquanto
reflito sobre São Paulo e sua gente
neste pavilhão de funcionalidade
hospitalar, edificado num barranco
íngreme não: cânion sobre uma artéria
aberta no fundo de um vale coberto
por nuvens nuvens nuvens.
672
Cida Pedrosa
ladainha para alberto da cunha melo
para a alma do poeta que se foi
eu rogo ao poema que componha o silêncio
para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva
para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida
para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro
para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão
para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho
para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão
para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta
para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor
para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas
para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos
para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias
para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
eu rogo ao poema que componha o silêncio
para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva
para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida
para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro
para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão
para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho
para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão
para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta
para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor
para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas
para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos
para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias
para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
987
Horácio Costa
RETRATO DE FAMÍLIA EM CAMBUQUIRA
Observai, ninguém escapa à gravidade
ao lidar com os mortos, o tom cai
ao profeta, ao poeta, como uma luva, uma uva,
observai enfim, desde a infância soubemos
que meditar acerca de mortos
nos lava a alma e prepara para a vida,
observai enfim os mortos,
reunidos não frente à sanha de algum especialista,
os nervos retesados, mas melhor dito
relaxados: vieram de São Paulo para tratar-se
com águas, o mais insípido, o mais velho
dos tratamentos, quando já fazia mesmo falta
algum que desse a Osório
a esperança de viver que, depois
de inumeráveis consultas, os doutores
já lhe haviam por bem suprimido, ou
diminuído, algo que os fotógrafos,
que jamais mentem, apenas confirmavam:
posa então, pai Osório, parece dizer a foto,
antes que anoiteça e que fotógrafo nenhum
possa jamais captar-te em sua câmara,
em seu escrutínio: abre-te à luz,
ainda tens vida, mesmo que aparentes
setenta aos teus quarenta e tantos,
bonacheirão, como tu habituaste a ser,
mesmo contra vento e maré:
senta-te frente à perscrutação de tuas rugas,
de tua pele precocemente escurecida
devido à taxa do ferro em teu corpo,
ninguém o descobriria até o final,
especialista nenhum até à hora da morte, quase.
Posa junto à tua mulher e à tua progênie,
já mortos tu e ela, e distantes uns dos outros
os que advieram desta, organiza os teus
para a posteridade, na frente os pais,
detrás os filhos, em perfeita escadinha,
do menor ao maior, da esquerda à direita.
Sempre ao alcance da vista, por décadas
mamãe teria esta foto sobre a lareira;
o seu significado último,
o que terá epitomizado,
morreu com ela.
Trinta e cinco anos depois,
os filhos três vivem em três continentes,
entre si não baralham velhas fotos
como cartas de um tarot fanado:
comunicam-se por fax e fone, quem diria que
compartilharam segredos, o da genética
e outros, a que ralos tempos foram dar
esses devires, tais estaturas? Escrevemos
como se fôssemos Tibério Cláudio Druso Nero,
de quem se disse que parecia uma abóbora togada
e algo sublime. Senta, nada lamentes:
nada sabes sobre o que passará a esta platéia
do teu sentar, ver o futuro só aos deuses é dado,
ou a Tirésias, e nada mais longe de ti:
as mordeduras da vaidade, bem, as desconheces,
e jamais experimentarás em vida a entropia
que as famílias provam depois que o fundador
desaparece. O teu sorriso brasileirão
exclui pendências, e confiado, só desconfia
de preocupações. No além, quem sabe a tua mulher
te contará tudo, todo o havido e o por haver,
que ela sim, devido a seu gênero e às naturais
proclividades, sempre foi futurante,
te falará sobre os limites entre as terras de cultivo
no momento de dividi-las, sobre as audiências e os juízes
e a estâmina que se deve ter, e quase sempre falta,
frente às decisões. Depois da tua morte
ela alugaria um apartamento no Rio de Janeiro,
na praça dita do Lido, sombreada por figueiras,
para pensar, dizia, face à incompreensão geral;
os móveis eram Luís XV, da Maison Jensen,
mas as esquadrias das janelas, das quais se descortinava
de perfil a cornija do Copacabana Palace,
estavam tomadas de salitre e os vidros tinham, parecia,
um bafo que só anos de ausência consegue nos trópicos juntar:
neste espaço elle ferait son deuil ; também tivemos direito
a um Cadillac rabo de peixe negro, com chofer.
Visitaríamos o Redentor, o Quitandinha, o mítico
Cassino da Urca, já então afundado numa decadência
muda e desbotada em sua pequena calheta
e onde vocês se conheceram em plena Era Vargas,
vivas ainda aquelas manhãs e aquelas noites
na memória dela e nos trinados de uma cultura
que languescia. Nessas excursões
Beatriz usava alpargatas negras, já então
lhe doíam os pés, e estamos falando de 1965.
Jamais chegaste a ver a tua viúva
subir pela escadaria da Penha de joelhos
e chorar agarrada ao filho menor no Jardim Botânico,
estás aí nesta foto prenhe de ti mesmo
e ignorante de que para ti no ano seguinte
não haveria a mesma data novamente.
Não sabemos qual será o dia
da nossa morte, é piedoso o Criador;
mas frente a meus olhos mortuórios
não espero outra imagem que não seja
a do meu amante adormecido, que a tua,
Osório, já se fez tarde, e velha como um bom
conhaque. Não há muito mais a dizer,
Maria Beatriz parecia uma ninfa em sua
roupa adolescente e ria para a ocasião,
mamãe estava um pouco gorda
e trazia estranhas meias de seda no clima estival
e o meu irmão, Osòrinho,
não olhava para a câmara: seus olhos buscavam
um distante horizonte quiçá inexistente.
Aí estávamos nós, os cinco, a família
au grand complet , gozando de uma salutar
estação de águas em -pasmo- Cambuquira.
Bossuet, o francês que imitou Vieira,
ao proferir a sua famosa nênia, contava
com o Louvre, com a Cour Carrée,
para louvar Henriette Stuart, dita
Madame, morta na juventude.
Com o que contarei eu além de meu próprio olhar
nesta foto? Inaugural, de água,
ele substitui os damascos cortesãos,
as corbeilles fúnebres, a música de órgão,
e através da câmara do fotógrafo
olha sempre ao futuro,
melancolicamente cristalino.
ao lidar com os mortos, o tom cai
ao profeta, ao poeta, como uma luva, uma uva,
observai enfim, desde a infância soubemos
que meditar acerca de mortos
nos lava a alma e prepara para a vida,
observai enfim os mortos,
reunidos não frente à sanha de algum especialista,
os nervos retesados, mas melhor dito
relaxados: vieram de São Paulo para tratar-se
com águas, o mais insípido, o mais velho
dos tratamentos, quando já fazia mesmo falta
algum que desse a Osório
a esperança de viver que, depois
de inumeráveis consultas, os doutores
já lhe haviam por bem suprimido, ou
diminuído, algo que os fotógrafos,
que jamais mentem, apenas confirmavam:
posa então, pai Osório, parece dizer a foto,
antes que anoiteça e que fotógrafo nenhum
possa jamais captar-te em sua câmara,
em seu escrutínio: abre-te à luz,
ainda tens vida, mesmo que aparentes
setenta aos teus quarenta e tantos,
bonacheirão, como tu habituaste a ser,
mesmo contra vento e maré:
senta-te frente à perscrutação de tuas rugas,
de tua pele precocemente escurecida
devido à taxa do ferro em teu corpo,
ninguém o descobriria até o final,
especialista nenhum até à hora da morte, quase.
Posa junto à tua mulher e à tua progênie,
já mortos tu e ela, e distantes uns dos outros
os que advieram desta, organiza os teus
para a posteridade, na frente os pais,
detrás os filhos, em perfeita escadinha,
do menor ao maior, da esquerda à direita.
Sempre ao alcance da vista, por décadas
mamãe teria esta foto sobre a lareira;
o seu significado último,
o que terá epitomizado,
morreu com ela.
Trinta e cinco anos depois,
os filhos três vivem em três continentes,
entre si não baralham velhas fotos
como cartas de um tarot fanado:
comunicam-se por fax e fone, quem diria que
compartilharam segredos, o da genética
e outros, a que ralos tempos foram dar
esses devires, tais estaturas? Escrevemos
como se fôssemos Tibério Cláudio Druso Nero,
de quem se disse que parecia uma abóbora togada
e algo sublime. Senta, nada lamentes:
nada sabes sobre o que passará a esta platéia
do teu sentar, ver o futuro só aos deuses é dado,
ou a Tirésias, e nada mais longe de ti:
as mordeduras da vaidade, bem, as desconheces,
e jamais experimentarás em vida a entropia
que as famílias provam depois que o fundador
desaparece. O teu sorriso brasileirão
exclui pendências, e confiado, só desconfia
de preocupações. No além, quem sabe a tua mulher
te contará tudo, todo o havido e o por haver,
que ela sim, devido a seu gênero e às naturais
proclividades, sempre foi futurante,
te falará sobre os limites entre as terras de cultivo
no momento de dividi-las, sobre as audiências e os juízes
e a estâmina que se deve ter, e quase sempre falta,
frente às decisões. Depois da tua morte
ela alugaria um apartamento no Rio de Janeiro,
na praça dita do Lido, sombreada por figueiras,
para pensar, dizia, face à incompreensão geral;
os móveis eram Luís XV, da Maison Jensen,
mas as esquadrias das janelas, das quais se descortinava
de perfil a cornija do Copacabana Palace,
estavam tomadas de salitre e os vidros tinham, parecia,
um bafo que só anos de ausência consegue nos trópicos juntar:
neste espaço elle ferait son deuil ; também tivemos direito
a um Cadillac rabo de peixe negro, com chofer.
Visitaríamos o Redentor, o Quitandinha, o mítico
Cassino da Urca, já então afundado numa decadência
muda e desbotada em sua pequena calheta
e onde vocês se conheceram em plena Era Vargas,
vivas ainda aquelas manhãs e aquelas noites
na memória dela e nos trinados de uma cultura
que languescia. Nessas excursões
Beatriz usava alpargatas negras, já então
lhe doíam os pés, e estamos falando de 1965.
Jamais chegaste a ver a tua viúva
subir pela escadaria da Penha de joelhos
e chorar agarrada ao filho menor no Jardim Botânico,
estás aí nesta foto prenhe de ti mesmo
e ignorante de que para ti no ano seguinte
não haveria a mesma data novamente.
Não sabemos qual será o dia
da nossa morte, é piedoso o Criador;
mas frente a meus olhos mortuórios
não espero outra imagem que não seja
a do meu amante adormecido, que a tua,
Osório, já se fez tarde, e velha como um bom
conhaque. Não há muito mais a dizer,
Maria Beatriz parecia uma ninfa em sua
roupa adolescente e ria para a ocasião,
mamãe estava um pouco gorda
e trazia estranhas meias de seda no clima estival
e o meu irmão, Osòrinho,
não olhava para a câmara: seus olhos buscavam
um distante horizonte quiçá inexistente.
Aí estávamos nós, os cinco, a família
au grand complet , gozando de uma salutar
estação de águas em -pasmo- Cambuquira.
Bossuet, o francês que imitou Vieira,
ao proferir a sua famosa nênia, contava
com o Louvre, com a Cour Carrée,
para louvar Henriette Stuart, dita
Madame, morta na juventude.
Com o que contarei eu além de meu próprio olhar
nesta foto? Inaugural, de água,
ele substitui os damascos cortesãos,
as corbeilles fúnebres, a música de órgão,
e através da câmara do fotógrafo
olha sempre ao futuro,
melancolicamente cristalino.
661
Cida Pedrosa
diáspora
abro os olhos
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
862
Paulo Henriques Britto
CREPUSCULAR
1.
Chegamos tarde. (Era sempre maio,
sempre madrugada. Tudo era turvo.
Éramos em bando. Por medo. Ou tédio.
Havia um lobo à solta na cidade
aberta, e uma loucura provisória
era a nossa premissa, nossa promessa.
Era preciso estar o tempo todo
atento, em transe, em trânsito, no assédio
a um ou outro flanco do lobo,
fugindo de junho, perseguindo o agora,
correndo o risco de ser só um rascunho.
Éramos em branco. Por um triz. Por ora.)
2.
Chegamos tarde, é claro. Como todos.
Chegamos tarde, e nosso tempo é pouco,
o tempo exato de dizer: é tarde.
Todas as sílabas imagináveis
soaram. Nada ficou por cantar,
nem mesmo o não-ter-mais-o-que-cantar,
o não-poder-cantar, já tão cantado
que se estiolou no infinito banal
de espelhos frente a frente a refletir-se,
restando da palavra só o resumo
da pálida intenção, indisfarçada,
de não dizer, dizendo, coisa alguma.
3.
E assim, os delicados desesperam
do imperativo de concatenar
nomes e coisas, como se o perigo
vivesse num vestígio do sentido,
na derradeira pedra sobre pedra
de um prédio alvo de atentados tantos,
e negam mesmo a possibilidade
de não negar tudo — sem se dar conta
de que, se fosse à vera a negação
e nela houvesse fundo e coerência,
não haveria língua em que a expressar
que não a algaravia do silêncio.
4.
Dúvida, porém, não há: língua é língua,
e clavicórdio, clavicórdio é.
Assim como a canção do clavicórdio
não é a mesma música do vento,
e o vento não é pássaro ou cigarra
que canta, sem que o saiba, o verão,
palavra é mais que o babujar do vento,
que o monocórdio de cigarra ou pássaro,
mais mesmo que o mais sábio clavicórdio.
Mais mágica que música, afinal,
a inflacionar o mundo de fantasmas.
Desses fantasmas se faz o real.
5.
Toda palavra já foi dita. Isso é
sabido. E há que ser dita outra vez.
E outra. E cada vez é outra. E a mesma.
Nenhum de nós vai reinventar a roda.
E no entanto cada um a re-
inventa, para si. E roda. E canta.
Chegamos muito tarde, e não provamos
o doce absinto e ópio dos começos.
E no entanto, chegada a nossa vez,
recomeçamos. Palavras tardias,
mas com vertiginosa lucidez —
o ácido saber de nossos dias.
6.
No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento,
há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,
mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará
a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que a julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.
Chegamos tarde. (Era sempre maio,
sempre madrugada. Tudo era turvo.
Éramos em bando. Por medo. Ou tédio.
Havia um lobo à solta na cidade
aberta, e uma loucura provisória
era a nossa premissa, nossa promessa.
Era preciso estar o tempo todo
atento, em transe, em trânsito, no assédio
a um ou outro flanco do lobo,
fugindo de junho, perseguindo o agora,
correndo o risco de ser só um rascunho.
Éramos em branco. Por um triz. Por ora.)
2.
Chegamos tarde, é claro. Como todos.
Chegamos tarde, e nosso tempo é pouco,
o tempo exato de dizer: é tarde.
Todas as sílabas imagináveis
soaram. Nada ficou por cantar,
nem mesmo o não-ter-mais-o-que-cantar,
o não-poder-cantar, já tão cantado
que se estiolou no infinito banal
de espelhos frente a frente a refletir-se,
restando da palavra só o resumo
da pálida intenção, indisfarçada,
de não dizer, dizendo, coisa alguma.
3.
E assim, os delicados desesperam
do imperativo de concatenar
nomes e coisas, como se o perigo
vivesse num vestígio do sentido,
na derradeira pedra sobre pedra
de um prédio alvo de atentados tantos,
e negam mesmo a possibilidade
de não negar tudo — sem se dar conta
de que, se fosse à vera a negação
e nela houvesse fundo e coerência,
não haveria língua em que a expressar
que não a algaravia do silêncio.
4.
Dúvida, porém, não há: língua é língua,
e clavicórdio, clavicórdio é.
Assim como a canção do clavicórdio
não é a mesma música do vento,
e o vento não é pássaro ou cigarra
que canta, sem que o saiba, o verão,
palavra é mais que o babujar do vento,
que o monocórdio de cigarra ou pássaro,
mais mesmo que o mais sábio clavicórdio.
Mais mágica que música, afinal,
a inflacionar o mundo de fantasmas.
Desses fantasmas se faz o real.
5.
Toda palavra já foi dita. Isso é
sabido. E há que ser dita outra vez.
E outra. E cada vez é outra. E a mesma.
Nenhum de nós vai reinventar a roda.
E no entanto cada um a re-
inventa, para si. E roda. E canta.
Chegamos muito tarde, e não provamos
o doce absinto e ópio dos começos.
E no entanto, chegada a nossa vez,
recomeçamos. Palavras tardias,
mas com vertiginosa lucidez —
o ácido saber de nossos dias.
6.
No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento,
há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,
mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará
a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que a julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.
514
Cida Pedrosa
Tereza
mãos enormes
as de Geraldo
tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza
quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa
de varanda
e passar uma semana em bariloche
neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo
mãos enormes
as de geraldo
tão grandes que se espremem nas algemas
e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida
no carro do IML
para exame de corpo de delito
sob suspeita de estrangulamento
as de Geraldo
tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza
quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa
de varanda
e passar uma semana em bariloche
neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo
mãos enormes
as de geraldo
tão grandes que se espremem nas algemas
e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida
no carro do IML
para exame de corpo de delito
sob suspeita de estrangulamento
903
Horácio Costa
Autorretrato num espelho de hotel
Nu, toalha nenhuma amarrada estrategicamente
Na cintura, a barba enrolada em cachinhos não
Mas desenhada como a de Prince, primeiro
Role-model,
Incide a luz como tem que ser: da direita inferior
E difunde-se para quem me vê como uma aparição
Poderosa, um Andrea Doria overweighted
Pintado por Bronzino não
Mas visto através da lente
De uma Diane Arbus
Compassiva.
“Ventripotent”, aprendi quando não tinha pança,
Na Aliança Francesa; logo depois os burgueses
De Hals me ensinaram que pode-se parecer bêbado
E próspero. Mas a minha cor
Raramente transparece a rosácea
Que floresce na derme holandesa:
Sou da tez, da consistência
Do Bacchino malato de Caravaggio,
Da dúbia cor dos romanos
Do Sodoma.
Um corpo que fora bem torneado
Pensa-se Tritão, ostras e mariscos
Pendurando-se pelo torso, por ti
Surpreendido face ao espelho.
Pensa-se Tritão, vê-se Netuno:
Nada melhor do que a tênue
Asa da mitologia
Para encobrir
A cor, o tempo, a pança.
Na cintura, a barba enrolada em cachinhos não
Mas desenhada como a de Prince, primeiro
Role-model,
Incide a luz como tem que ser: da direita inferior
E difunde-se para quem me vê como uma aparição
Poderosa, um Andrea Doria overweighted
Pintado por Bronzino não
Mas visto através da lente
De uma Diane Arbus
Compassiva.
“Ventripotent”, aprendi quando não tinha pança,
Na Aliança Francesa; logo depois os burgueses
De Hals me ensinaram que pode-se parecer bêbado
E próspero. Mas a minha cor
Raramente transparece a rosácea
Que floresce na derme holandesa:
Sou da tez, da consistência
Do Bacchino malato de Caravaggio,
Da dúbia cor dos romanos
Do Sodoma.
Um corpo que fora bem torneado
Pensa-se Tritão, ostras e mariscos
Pendurando-se pelo torso, por ti
Surpreendido face ao espelho.
Pensa-se Tritão, vê-se Netuno:
Nada melhor do que a tênue
Asa da mitologia
Para encobrir
A cor, o tempo, a pança.
685
Paulo Henriques Britto
No trivial do sanduíche
No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
723
Horácio Costa
Ulysses
A
Homero está sentado na ponta de uma pirâmide e coroado (com louros) por
um anjo cor-de-rosa. Ao fundo, o perfeito frontão de um templo, sustentado por
colunas jônicas. Tudo isto contra o alvorecer (ou o entardecer?) de um dia imóvel.
A base da pirâmide é formada por uma caterva de intelectuais franceses, entre
os quais um delicioso Molière, que exibe o rosto literário mais bonito da história.
Boileau sente a solenidade do momento e impõe respeito aos passantes.
- As perucas que usavam naquele tempo, tens razão, parecem-se mesmo a
corvos. E quem é aquele lá?
Não sei. Ronsard, Froissart.
Ou o Barão de Münchhausen. A quantas falsidades não ficam expostos os
artistas quando representados? Por isto Homero está cego, como Borges ou a Justiça.
Melhor assim, noli lhe tangere. E não percebe que representaram osdedos de seus pés,
gordos e potentes, como uma dezena de falos em repouso.
Feto, larva, mito, filho, Ulisses vive em seu peito: uma tatuagem a fogo, igual
as que ornam torsos de marinheiros nos cinco continentes e mandada fazer, talvez,
num humilde bordel do Pireu. Neste ato, vendados estão os demais outros: ninguém
percebe a marca persistente, da qual o sangue não pára de escorrer.
B
Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Mandei me amarrassem ao mastro central do barco; só assim veria e ouviria coisas
que homem nenhum sobreviveu para narrar a seu biógrafo. Programada é minha
infelicidade; a realista cicatriz que trago no rosto dará consolo a Auerbach --neste
universo nada se cria, tudo se transforma, ou pelo menos esta é a bíblia dos críticos
literários--. O barco desfila diante de sereias como se icebergs.
O porto não existe, não passa de um happy-end.
Homero, tão hábil, ver nunca atinou que Ninguém é meu exato nome.
C
- E aquele ali?
- E aquilo lá?
- E isto aqui?
Quem sabe. Verdadeiramente te importa, e porque? Não te bastam as estrelas,
uma pirâmide de vrais génies inoubliables, o peso da noite? Pois bem, afirmaste aos
quatro ventos meu ceticismo, meu "niilismo" virou conversation piece, teu
pedantismo crucifica, a mim atribuíste a culpa. Ato seguido, foste expiar-te em outro
texto, sei lá, em Leiria: sim, em Leiria, e topaste com outro vagido fragmentário,
outras interrogações.
E agora caminhas insaciável pelo museu.
- E esta sombra, que significa?
Nada.
Homero está sentado na ponta de uma pirâmide e coroado (com louros) por
um anjo cor-de-rosa. Ao fundo, o perfeito frontão de um templo, sustentado por
colunas jônicas. Tudo isto contra o alvorecer (ou o entardecer?) de um dia imóvel.
A base da pirâmide é formada por uma caterva de intelectuais franceses, entre
os quais um delicioso Molière, que exibe o rosto literário mais bonito da história.
Boileau sente a solenidade do momento e impõe respeito aos passantes.
- As perucas que usavam naquele tempo, tens razão, parecem-se mesmo a
corvos. E quem é aquele lá?
Não sei. Ronsard, Froissart.
Ou o Barão de Münchhausen. A quantas falsidades não ficam expostos os
artistas quando representados? Por isto Homero está cego, como Borges ou a Justiça.
Melhor assim, noli lhe tangere. E não percebe que representaram osdedos de seus pés,
gordos e potentes, como uma dezena de falos em repouso.
Feto, larva, mito, filho, Ulisses vive em seu peito: uma tatuagem a fogo, igual
as que ornam torsos de marinheiros nos cinco continentes e mandada fazer, talvez,
num humilde bordel do Pireu. Neste ato, vendados estão os demais outros: ninguém
percebe a marca persistente, da qual o sangue não pára de escorrer.
B
Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Mandei me amarrassem ao mastro central do barco; só assim veria e ouviria coisas
que homem nenhum sobreviveu para narrar a seu biógrafo. Programada é minha
infelicidade; a realista cicatriz que trago no rosto dará consolo a Auerbach --neste
universo nada se cria, tudo se transforma, ou pelo menos esta é a bíblia dos críticos
literários--. O barco desfila diante de sereias como se icebergs.
O porto não existe, não passa de um happy-end.
Homero, tão hábil, ver nunca atinou que Ninguém é meu exato nome.
C
- E aquele ali?
- E aquilo lá?
- E isto aqui?
Quem sabe. Verdadeiramente te importa, e porque? Não te bastam as estrelas,
uma pirâmide de vrais génies inoubliables, o peso da noite? Pois bem, afirmaste aos
quatro ventos meu ceticismo, meu "niilismo" virou conversation piece, teu
pedantismo crucifica, a mim atribuíste a culpa. Ato seguido, foste expiar-te em outro
texto, sei lá, em Leiria: sim, em Leiria, e topaste com outro vagido fragmentário,
outras interrogações.
E agora caminhas insaciável pelo museu.
- E esta sombra, que significa?
Nada.
683
Marco Lucchesi
Ubi es, Vita
O sono de Leopardi
o verbo de Clarice
e a sombra de Cioran
Vida vida
eis o botim
dos que reclamam vida
o verbo de Clarice
e a sombra de Cioran
Vida vida
eis o botim
dos que reclamam vida
760
Horácio Costa
Três laranjas
vida maior que eu próprio
anárquico proliferante alfabeto
que se detém como um gato rebelde
sobre a face sem fim desta laranja
sobre a mesa da sala pousada
asteróide abandonado ao próprio eixo
no crepúsculo explodido desde adentro
vida cristalizada num salto
sobre o verbo que encolhe as garras
sobre a pauta do minuto calmo
onde nesta pele ao azar incidem
as demais por nascer e as já pulsadas
poros espelhos de vulcões irradiantes
fruto estático, padrão concêntrico
reflexo amarelo de uma vida em transe
apetecível gota de um orgasmo cósmico
animal demais que se esconde em si
pelo prazer de dar-se e consumir-se inteiro
sob a urgência de meus sentidos turvos
vida que degusto e não compreendo
teu sumo é pouco para matar a sede
anárquico proliferante alfabeto
que se detém como um gato rebelde
sobre a face sem fim desta laranja
sobre a mesa da sala pousada
asteróide abandonado ao próprio eixo
no crepúsculo explodido desde adentro
vida cristalizada num salto
sobre o verbo que encolhe as garras
sobre a pauta do minuto calmo
onde nesta pele ao azar incidem
as demais por nascer e as já pulsadas
poros espelhos de vulcões irradiantes
fruto estático, padrão concêntrico
reflexo amarelo de uma vida em transe
apetecível gota de um orgasmo cósmico
animal demais que se esconde em si
pelo prazer de dar-se e consumir-se inteiro
sob a urgência de meus sentidos turvos
vida que degusto e não compreendo
teu sumo é pouco para matar a sede
734
Marco Lucchesi
Marco lucchesi
Marco lucchesi
é o nome
de uma nuvem
árdua pluriforme
ligeira
e imperscrutável
que se desmancha
na medida
em que se mostra
tão maleável
como
um serafim
tão
orgulhoso
como um paquiderme
um poço
estranho
mudo
e longilíneo
o medo para
fora e o grito
para dentro
marco lucchesi
nuvem
paquiderme
fera abismo
sem fundo
anjo da terra
monstro de
cega e cabal
contradição
é o nome
de uma nuvem
árdua pluriforme
ligeira
e imperscrutável
que se desmancha
na medida
em que se mostra
tão maleável
como
um serafim
tão
orgulhoso
como um paquiderme
um poço
estranho
mudo
e longilíneo
o medo para
fora e o grito
para dentro
marco lucchesi
nuvem
paquiderme
fera abismo
sem fundo
anjo da terra
monstro de
cega e cabal
contradição
734
Cida Pedrosa
DIFERENÇA
meu amor ouve fado
não rodopia
apenas baila e espreita.
eu gosto de tango.
minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
não rodopia
apenas baila e espreita.
eu gosto de tango.
minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
777
Cida Pedrosa
CÉU DE CONFEITEIRO
uma fatia de céu
é dada
nesta noite de maio
quinhão que cabe ao homem
que da janela espera
a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício
uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda
quinhão que cabe ao amor
em tempos de luas magras
é dada
nesta noite de maio
quinhão que cabe ao homem
que da janela espera
a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício
uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda
quinhão que cabe ao amor
em tempos de luas magras
679
Cida Pedrosa
UM CERTO SOL SOBRE SÃO PAULO
para maria josé oiticica
o sol se põe em são paulo
a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala
o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair
o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
grito
teu nome de ateu
são paulo anda à margem
à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós
são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
o sol se põe em são paulo
a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala
o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair
o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
grito
teu nome de ateu
são paulo anda à margem
à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós
são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
833
Paulo Henriques Britto
dez sonetos sentimentais - X
Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
817
Cida Pedrosa
MORTE SOB CARBONO
a floresta (dentro
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta
nomes números nódoas
as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário
— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra
as velhas
acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta
nomes números nódoas
as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário
— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra
as velhas
acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
722
Cida Pedrosa
fotografia de guerra
o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
956
Paulo Henriques Britto
MEMENTO MORI II
Luz frágil que brota no breu
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,
luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,
luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,
luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,
luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.
865
Paulo Henriques Britto
MEMENTO MORI I
Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.
Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.
lá onde o amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.
Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.
516
Paulo Henriques Britto
V
Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
727
Horácio Costa
A rã
Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
818