Poemas neste tema
Alma
Marina Colasanti
De encrespado dorso
Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 093
Marina Colasanti
O perigo é quando
No ano de mil quinhentos e quarenta e dois
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
1 127
Marina Colasanti
Uma maçã
Há uma maçã pousada
no poema
com sua esfericidade
irretocável.
Essa maçã faz do poema
prato
instaura a luz que
com volutas claras
desenha as quinas
e apoia as sombras
que com ela nascem.
Humilde
me pergunto
se esse desenho é
natureza-morta
ou se
como minh'alma indica
é agora
e sempre
natureza viva.
no poema
com sua esfericidade
irretocável.
Essa maçã faz do poema
prato
instaura a luz que
com volutas claras
desenha as quinas
e apoia as sombras
que com ela nascem.
Humilde
me pergunto
se esse desenho é
natureza-morta
ou se
como minh'alma indica
é agora
e sempre
natureza viva.
1 277
Marina Colasanti
Desde que
Desde que operou o nariz
essa mulher joga a cabeça para trás
e ri.
Livrou-se do perfil
que era dela e
das outras mulheres da família
apagou
do seu espelho
o espelho da sua mãe.
De leve rosto
inaugura sua dinastia
e seu passado
sem lembrar que
no escuro silêncio do sangue
sorri
vingativo
o dna.
essa mulher joga a cabeça para trás
e ri.
Livrou-se do perfil
que era dela e
das outras mulheres da família
apagou
do seu espelho
o espelho da sua mãe.
De leve rosto
inaugura sua dinastia
e seu passado
sem lembrar que
no escuro silêncio do sangue
sorri
vingativo
o dna.
1 147
Marina Colasanti
Quando fomos a Delfos
Eu estava encharcada de cortisona
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
1 237
Marina Colasanti
Pobre seria sem elas a porcelana chinesa
Porque ia chover
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
971
Marina Colasanti
Talvez saiba
Meu braço é uma extensão imensa
longa colina plana
que o cotovelo rompe
e que o pulso ameaça.
E nessa geografia pulsante
floresta dos meus finos pelos
um inseto desbrava
o áspero chão.
Menos que um ponto
malvisível
sinto o peso nenhum das patas filiformes
pousando em alternância
sobre a pele.
O inseto vai
e talvez saiba aonde
a cabeça examina um lado e outro
os olhos indistintos deste nada
caçam atentos.
Tudo é perigo no seu curto tempo
e no peito
se é peito que se chama
o escuro mais escuro desse corpo
um coração bombeia
em puro medo.
longa colina plana
que o cotovelo rompe
e que o pulso ameaça.
E nessa geografia pulsante
floresta dos meus finos pelos
um inseto desbrava
o áspero chão.
Menos que um ponto
malvisível
sinto o peso nenhum das patas filiformes
pousando em alternância
sobre a pele.
O inseto vai
e talvez saiba aonde
a cabeça examina um lado e outro
os olhos indistintos deste nada
caçam atentos.
Tudo é perigo no seu curto tempo
e no peito
se é peito que se chama
o escuro mais escuro desse corpo
um coração bombeia
em puro medo.
1 172
Marina Colasanti
Cuidando de comida
Na sala de cima
meu marido escreve.
Embaixo
na cozinha
faço tinir as louças.
Ponho-me em seu lugar
ouvindo sem ouvir
este bater de prato
contra prato
acalanto que encobre o ronronar macio
do laptop.
Ponho-me em meu lugar
nesta cozinha
e escorro
e enxugo
e pico sobre a tábua
palavras e verduras
com que depois
à mesa
darei comida
à alma.
meu marido escreve.
Embaixo
na cozinha
faço tinir as louças.
Ponho-me em seu lugar
ouvindo sem ouvir
este bater de prato
contra prato
acalanto que encobre o ronronar macio
do laptop.
Ponho-me em meu lugar
nesta cozinha
e escorro
e enxugo
e pico sobre a tábua
palavras e verduras
com que depois
à mesa
darei comida
à alma.
1 205
Marina Colasanti
Aquele ponto preciso
Na minha sala apascento
um rebanho de cadeiras
mudas ovelhas pacientes
desde sempre tosquiadas
que sobre o piso encerado
seu próprio reflexo pastam.
Com elas faço o que quero
ponho ao redor da mesa
encosto perto da porta
arrasto levanto empurro
sem quebrantar sua obediência
sem que nas quatro patas
-rijas embora
se manifeste impaciência.
Mas como o touro na arena busca
entre areia a querência
assim as minhas cadeiras
marcam de taco a taco
seu ponto de preferência
e nesse lugar se assentam
- se assim se pode dizer -
com muito mais conveniência.
É como se em certos pontos
dessa quietude aparente
as cadeiras escolhessem
aquele ponto preciso
único ponto entre tantos
em que já não são ovelhas
aquele ponto secreto
em que os dentes se arreganham
e se desfraldam as unhas
e os seres mansos se voltam
capazes de fazer frente
ao fero ataque
do lobo.
um rebanho de cadeiras
mudas ovelhas pacientes
desde sempre tosquiadas
que sobre o piso encerado
seu próprio reflexo pastam.
Com elas faço o que quero
ponho ao redor da mesa
encosto perto da porta
arrasto levanto empurro
sem quebrantar sua obediência
sem que nas quatro patas
-rijas embora
se manifeste impaciência.
Mas como o touro na arena busca
entre areia a querência
assim as minhas cadeiras
marcam de taco a taco
seu ponto de preferência
e nesse lugar se assentam
- se assim se pode dizer -
com muito mais conveniência.
É como se em certos pontos
dessa quietude aparente
as cadeiras escolhessem
aquele ponto preciso
único ponto entre tantos
em que já não são ovelhas
aquele ponto secreto
em que os dentes se arreganham
e se desfraldam as unhas
e os seres mansos se voltam
capazes de fazer frente
ao fero ataque
do lobo.
998
Marina Colasanti
Se cárcere não for
Como dizer
prisões
a esses espaços
se o cárcere não for
o humano corpo?
As correntes pendentes das arcadas
as escadas
as represas de luz contendo
as sombras
quantas vezes os vi
dentro do peito
abismo
onde a carne se perde,
calabouço.
Rangem as engrenagens denteadas
movendo mós de pedra
o sangue escorre
ou o grito
geme ferida a corda
na polia.
Tudo é pedra
e madeira
no arcabouço
tudo é osso.
Cárceres de invenção
que não se inventam
visão do condenado
ou carcereiro
retrato
que Piranesi fez
da sua masmorra.
prisões
a esses espaços
se o cárcere não for
o humano corpo?
As correntes pendentes das arcadas
as escadas
as represas de luz contendo
as sombras
quantas vezes os vi
dentro do peito
abismo
onde a carne se perde,
calabouço.
Rangem as engrenagens denteadas
movendo mós de pedra
o sangue escorre
ou o grito
geme ferida a corda
na polia.
Tudo é pedra
e madeira
no arcabouço
tudo é osso.
Cárceres de invenção
que não se inventam
visão do condenado
ou carcereiro
retrato
que Piranesi fez
da sua masmorra.
1 136
Marina Colasanti
E rainúnculos
Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 130
Marina Colasanti
Chamava-se Gina
Minha babá foi encontrada
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
1 237
Marina Colasanti
Paisagem entre vidro e espelho
Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
1 085
Marina Colasanti
E mais existo
Os filósofos querem que o vermelho
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
949
Marina Colasanti
De Guido Reni
Com a mesma elegância
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
660
Marina Colasanti
Migração
Crescem
ultimamente
na ponta dos meus dedos
unhas
que a princípio pensei
não fossem minhas.
Estriadas
espessas
comandando um feitio outro que a pele
pequenos cascos quase
embora claros.
A memória
depois
entregou-me
a visão das mesmas unhas
na ponta de uma mão mais delicada,
a mão da minha avó.
Como andorinhas
as unhas
migraram da mão dela
à minha
de um verão apagado
a um resto de verão.
Rijos bicos sem asas
legado
que em nossa descendência
faz seu ninho.
ultimamente
na ponta dos meus dedos
unhas
que a princípio pensei
não fossem minhas.
Estriadas
espessas
comandando um feitio outro que a pele
pequenos cascos quase
embora claros.
A memória
depois
entregou-me
a visão das mesmas unhas
na ponta de uma mão mais delicada,
a mão da minha avó.
Como andorinhas
as unhas
migraram da mão dela
à minha
de um verão apagado
a um resto de verão.
Rijos bicos sem asas
legado
que em nossa descendência
faz seu ninho.
1 220
Marina Colasanti
Porque era moda
Ela tinha uma peruca no banheiro
- no tempo em que usávamos perucas -
e rolos espalhados no mármore da pia.
Tanto tempo passado
volto a encontrá-la e
diante dos seus cabelos lisos me pergunto
em que gaveta
em que caixa
em que tumba de papelão ou pano
terão ido parar aqueles cachos
aqueles também cabelos
cortados um dia de outra mulher
por preço vil.
- no tempo em que usávamos perucas -
e rolos espalhados no mármore da pia.
Tanto tempo passado
volto a encontrá-la e
diante dos seus cabelos lisos me pergunto
em que gaveta
em que caixa
em que tumba de papelão ou pano
terão ido parar aqueles cachos
aqueles também cabelos
cortados um dia de outra mulher
por preço vil.
1 097
Marina Colasanti
Desde o início
Na escura caixa do peito
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
1 171
Marina Colasanti
Livres à noite
Tirar o sutiã à noite
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
1 027
Marina Colasanti
De quem hoje penso
Olhando os velhos
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
1 109
Marina Colasanti
No túmulo de inox
Morto
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
1 088
Marina Colasanti
Com seu grito imenso
O moço meu vizinho
jogou-se da janela.
Quinze andares
abismo de pastilhas azuis
céu vertical
que acaba no cimento.
Nenhum arbusto ou galho
na descida
nenhuma mão estendida
e as janelas iguais
que ninguém abre.
Agora
quando olho da rua
o meu edifício
vejo um corpo caindo
ao lado esquerdo
caindo sempre
e sempre ali suspenso
um corpo mudo
com seu grito imenso.
jogou-se da janela.
Quinze andares
abismo de pastilhas azuis
céu vertical
que acaba no cimento.
Nenhum arbusto ou galho
na descida
nenhuma mão estendida
e as janelas iguais
que ninguém abre.
Agora
quando olho da rua
o meu edifício
vejo um corpo caindo
ao lado esquerdo
caindo sempre
e sempre ali suspenso
um corpo mudo
com seu grito imenso.
1 142
Marina Colasanti
Pela janela aberta
Se deitada de costas
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
1 191
Marina Colasanti
Neblina no lago de Como
Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 241