Poemas neste tema
Alma
Ricardo Madeira
Frio e Só
(COMO SEMPRE)
A criança alegre e divertida
Deixou de acreditar no Pai Natal,
As prendas na sua longa lista não foram recebidas,
E o fiel cão jaz espalmado na estrada.
O espelho mostra algo de errado,
O adolescente espreme da cara a borbulha,
Mas nada muda.
O reflexo não mente, falta algo na sua vida,
Certifica-se que ainda o tem entre as pernas
E deixa a barba crescer...
Não resulta...
Homem sem amigos,
Achados e perdidos,
Gastando tudo o que pode
(Não necessariamente por ordem alfabética)
Em bebida e mulheres.
O velho ainda não sabe o que é a vida,
Chora sobre cabelo caído
Enquanto coça os genitais
(Agora, lamentavelmente, só com função urinária),
Desejando...
A morte...
Autópsia, médicos
Procuram estupefactos no peito frio cadáver
Um músculo há muito atrofiado,
Que nunca bateu...
O nome na sepultura
Por nenhum dos nove filhos bastardos lembrado,
Deixado abandonado para apodrecer
Frio e só...
Como sempre...
A criança alegre e divertida
Deixou de acreditar no Pai Natal,
As prendas na sua longa lista não foram recebidas,
E o fiel cão jaz espalmado na estrada.
O espelho mostra algo de errado,
O adolescente espreme da cara a borbulha,
Mas nada muda.
O reflexo não mente, falta algo na sua vida,
Certifica-se que ainda o tem entre as pernas
E deixa a barba crescer...
Não resulta...
Homem sem amigos,
Achados e perdidos,
Gastando tudo o que pode
(Não necessariamente por ordem alfabética)
Em bebida e mulheres.
O velho ainda não sabe o que é a vida,
Chora sobre cabelo caído
Enquanto coça os genitais
(Agora, lamentavelmente, só com função urinária),
Desejando...
A morte...
Autópsia, médicos
Procuram estupefactos no peito frio cadáver
Um músculo há muito atrofiado,
Que nunca bateu...
O nome na sepultura
Por nenhum dos nove filhos bastardos lembrado,
Deixado abandonado para apodrecer
Frio e só...
Como sempre...
883
Rita de Cássia
Pessoa
São tantas as minhas pessoas,
Tão diversa a minha face...
Conhece meus disfarces?
São quaisquer coisas boas;
É, talvez, o que devasse
Assim como um rio sem canoas...
São tantos os meus versos,
E tão falsa a minha imagem...
Compreende a minha mensagem?
Entendo, através dos meus nexos,
Os caminhos sem passagem;
Eram, talvez, possessos...
Sou fingidora e lástima
Aos leitores que percebem:
Cada verso é uma máscara ...
Tão diversa a minha face...
Conhece meus disfarces?
São quaisquer coisas boas;
É, talvez, o que devasse
Assim como um rio sem canoas...
São tantos os meus versos,
E tão falsa a minha imagem...
Compreende a minha mensagem?
Entendo, através dos meus nexos,
Os caminhos sem passagem;
Eram, talvez, possessos...
Sou fingidora e lástima
Aos leitores que percebem:
Cada verso é uma máscara ...
528
Paulo Augusto Rodrigues
Bicho
Hoje vive preso, trancado,
Atrás das cidades, inofensivo.
Existe apenas para lembrar-nos
Que um dia aquilo fomos nós.
A memória é como um zoológico
Isolando do mundo todo tipo de sentimentos animais
Que ainda não extinguimos.
Porém, o ritmo monótono e rápido da vida
Metralha, por aí, tudo que encontra
Matando espécies inteiras.
Resta o mêdo.
Que nunca durma o zelador.
Pois se assim for
Não existirá nenhuma lembrança real,
Viva.
Restará somente,
Fotos coloridas em livros desbotados
Mostrando a alma deste sentimento.
Desenhos a mão, esboços,
Num esforço de quem não sabe desenhar,
Num papel como este.
É essa a esperança,
Só depois de tudo acabado
Poderemos reconstruir.
Quando sofrer,
Rebusque a memória,
Numa jaula pequena, com a placa apagada,
Existe um bicho,
O mais indefeso.
Lá estava escrito...
Amor.
Atrás das cidades, inofensivo.
Existe apenas para lembrar-nos
Que um dia aquilo fomos nós.
A memória é como um zoológico
Isolando do mundo todo tipo de sentimentos animais
Que ainda não extinguimos.
Porém, o ritmo monótono e rápido da vida
Metralha, por aí, tudo que encontra
Matando espécies inteiras.
Resta o mêdo.
Que nunca durma o zelador.
Pois se assim for
Não existirá nenhuma lembrança real,
Viva.
Restará somente,
Fotos coloridas em livros desbotados
Mostrando a alma deste sentimento.
Desenhos a mão, esboços,
Num esforço de quem não sabe desenhar,
Num papel como este.
É essa a esperança,
Só depois de tudo acabado
Poderemos reconstruir.
Quando sofrer,
Rebusque a memória,
Numa jaula pequena, com a placa apagada,
Existe um bicho,
O mais indefeso.
Lá estava escrito...
Amor.
882
Paulo Augusto Rodrigues
Quero
Dores de menino.
Quero colo, carinho, abrigo,
Quero RocknRoll nos ouvidos,
E mais do que sangue nas veias.
E quero bomba, estrela cadente,
Quero guerra, medo e perigo.
Adrenalina e nostalgia.
Quero olhares perdidos achados,
Visões alucinantes existindo,
Horrores, Hiroximas e himens.
Homens de verdade.
Caráter, explosão e facadas.
Mães, pais e defuntos,
Filhos e netos,
Tensões, conflitos e alívios.
Quero tédio no sexo dos outros,
Liberdade de expressão a fórceps.
Quero paz...
De espírito.
Quero colo, carinho, abrigo,
Quero RocknRoll nos ouvidos,
E mais do que sangue nas veias.
E quero bomba, estrela cadente,
Quero guerra, medo e perigo.
Adrenalina e nostalgia.
Quero olhares perdidos achados,
Visões alucinantes existindo,
Horrores, Hiroximas e himens.
Homens de verdade.
Caráter, explosão e facadas.
Mães, pais e defuntos,
Filhos e netos,
Tensões, conflitos e alívios.
Quero tédio no sexo dos outros,
Liberdade de expressão a fórceps.
Quero paz...
De espírito.
806
Ricardo Madeira
Sonhos de Pó
The truth in me,
Too dark to see,
So bitter the taste,
Now the poison runs free.
-Mathias Lodmalm
Luz pálida,
A bela fragrância de uma lua calma,
Mas inútil,
É a escuridão que lhe abraça a alma.
As suas lágrimas,
Flores que o vento insiste em ceifar,
Imemoriais os tempos
Em que as estrelas lhe podiam falar.
Não se move,
Continua a querer o que não pode ter,
A chuva cai,
Deseja aquilo que não pode acontecer.
Os seus gritos
Embalam horrendos os seus ouvidos,
Sonhos de pó,
E o vazio que lhe perfaz os sentidos.
O relâmpago,
Um coração em brasa perde o brilho,
Depois trovão,
A noite que chama alto pelo seu filho.
Eco que persiste,
O bolso revela a lâmina sem hesitar,
E em vão resiste,
Dor esmaga o medo de se entregar.
Suave o corte,
Tal como as carícias de quem amou,
Chora na morte,
As lágrimas que também ela chorou
Quando a matou...
Too dark to see,
So bitter the taste,
Now the poison runs free.
-Mathias Lodmalm
Luz pálida,
A bela fragrância de uma lua calma,
Mas inútil,
É a escuridão que lhe abraça a alma.
As suas lágrimas,
Flores que o vento insiste em ceifar,
Imemoriais os tempos
Em que as estrelas lhe podiam falar.
Não se move,
Continua a querer o que não pode ter,
A chuva cai,
Deseja aquilo que não pode acontecer.
Os seus gritos
Embalam horrendos os seus ouvidos,
Sonhos de pó,
E o vazio que lhe perfaz os sentidos.
O relâmpago,
Um coração em brasa perde o brilho,
Depois trovão,
A noite que chama alto pelo seu filho.
Eco que persiste,
O bolso revela a lâmina sem hesitar,
E em vão resiste,
Dor esmaga o medo de se entregar.
Suave o corte,
Tal como as carícias de quem amou,
Chora na morte,
As lágrimas que também ela chorou
Quando a matou...
849
Ricardo Madeira
Memórias Perdidas de Tempos Esquecidos
Tudo o que tenho para te recordar
Está a meu lado: o teu vazio lugar
Que ninguém parece poder ocupar.
Que alternativa existe, para além de morrer,
Quando a única razão que temos para viver
É exactamente aquela que tentamos esquecer?
E o mais belo sonho que podemos sonhar
(O teu sorriso... Os teus olhos a brilhar...)
É aquele que temos de matar e enterrar...
As memórias perdidas de tempos esquecidos
Saem das sombras, voltam para me assombrar,
São os ecos das palavras que não te pude dizer,
Todos os sonhos que geram pesadelos ao acordar.
Um corredor sem sentido, nenhuma porta se abre,
Uma vida sem destino, a fechadura recusa a chave.
"Vem muerte tan escondida,
Que no te sienta venir,
Porque el plazer del morrir
No me torne á dar la vida."
-Miguel De Cervantes
Está a meu lado: o teu vazio lugar
Que ninguém parece poder ocupar.
Que alternativa existe, para além de morrer,
Quando a única razão que temos para viver
É exactamente aquela que tentamos esquecer?
E o mais belo sonho que podemos sonhar
(O teu sorriso... Os teus olhos a brilhar...)
É aquele que temos de matar e enterrar...
As memórias perdidas de tempos esquecidos
Saem das sombras, voltam para me assombrar,
São os ecos das palavras que não te pude dizer,
Todos os sonhos que geram pesadelos ao acordar.
Um corredor sem sentido, nenhuma porta se abre,
Uma vida sem destino, a fechadura recusa a chave.
"Vem muerte tan escondida,
Que no te sienta venir,
Porque el plazer del morrir
No me torne á dar la vida."
-Miguel De Cervantes
1 056
Paulo Augusto Rodrigues
Será
Será que não se vêem,
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
1 009
Ricardo Madeira
Fogo Imundo
Não dou sangue,
Mas roubo e tiro,
Sou vampiro.
Verdade crua!
Sou a Lua,
Brilho com a luz
Que não é minha.
Venho e vou,
A maré sou,
Afogo, inundo...
Teu mundo...
Mas roubo e tiro,
Sou vampiro.
Verdade crua!
Sou a Lua,
Brilho com a luz
Que não é minha.
Venho e vou,
A maré sou,
Afogo, inundo...
Teu mundo...
1 000
Raphael Luiz Junqueira
Soneto XVI
Não conheço que força ingente e estranha
Impeliu-me tristonho a tal afeto...
Nem sei que bem... que palpitar secreto
Põe-me ditoso e Amor meu Peito ganha!
Dos suspiros o som sereno e manso
Tomou-me ultimamente o peito aflito.
Ah! sonhos de paixão em que me agito!
Ah! vigílias em febre sem descanso!
Não sei que força esplêndida e plangente,
No coração o amor me vai soprando
Em me levando a esse suspiro infindo...
Não me importa saber — sentir somente:
Vivendo em ti eu morrerei cantando,
Morrendo em mim tu viverás sorrindo!
Impeliu-me tristonho a tal afeto...
Nem sei que bem... que palpitar secreto
Põe-me ditoso e Amor meu Peito ganha!
Dos suspiros o som sereno e manso
Tomou-me ultimamente o peito aflito.
Ah! sonhos de paixão em que me agito!
Ah! vigílias em febre sem descanso!
Não sei que força esplêndida e plangente,
No coração o amor me vai soprando
Em me levando a esse suspiro infindo...
Não me importa saber — sentir somente:
Vivendo em ti eu morrerei cantando,
Morrendo em mim tu viverás sorrindo!
1 032
Ribeiro Couto
O Longe e o Perto
Logo que a noite envolve em sombras o jardim
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.
Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.
Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.
Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.
Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.
1 411
Ricardo Madeira
O Mosteiro Abandonado
Murmúrios no vento...
Na mais alta montanha: mosteiro abandonado,
Perdido no tempo...
Neve (algodão?)
Cobre bela a paisagem (apenas imagem?)
Sob sol de Verão...
E ela chora, naquela janela aberta,
Aguardando, etérea, a altura certa:
Um só instante,
Tão distante...
Mas, um dia, o dia chegará,
Hora a hora, por essa hora esperará...
Um dia...
Talvez um dia...
E o vento trará nos braços alegria...
Na mais alta montanha: mosteiro abandonado,
Perdido no tempo...
Neve (algodão?)
Cobre bela a paisagem (apenas imagem?)
Sob sol de Verão...
E ela chora, naquela janela aberta,
Aguardando, etérea, a altura certa:
Um só instante,
Tão distante...
Mas, um dia, o dia chegará,
Hora a hora, por essa hora esperará...
Um dia...
Talvez um dia...
E o vento trará nos braços alegria...
957
Paulo Augusto Rodrigues
Secos
Sentimentos secos.
Áridos,
Nevrálgicos,
Rachados.
Torretes óbvios de terra bruta,
Endurecida.
E freáticos,
São os desejos passando imunes ao fundo.
Onde a umidade e o frescor,
Não afloram.
Às vezes,
O impermeável senso desvia lençóis.
E em crus colchões
Expõe.
A água da fonte.
Áridos,
Nevrálgicos,
Rachados.
Torretes óbvios de terra bruta,
Endurecida.
E freáticos,
São os desejos passando imunes ao fundo.
Onde a umidade e o frescor,
Não afloram.
Às vezes,
O impermeável senso desvia lençóis.
E em crus colchões
Expõe.
A água da fonte.
939
Rodrigues de Abreu
Mar Desconhecido
A Batista Pereira
Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!
Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.
Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...
Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.
Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.
Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.
Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!
Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.
Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...
Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.
Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.
Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.
1 183
Paulo Augusto Rodrigues
Especial
Uma noite especial
Fica involuntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Uma mulher especial
Fica voluntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Minha verdade,
é fundade pela lembrança
De uma noite especial
Em que uma mulher especial
Levou meu corpo a quase loucura
E meu coração a quase paixão.
Fica involuntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Uma mulher especial
Fica voluntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Minha verdade,
é fundade pela lembrança
De uma noite especial
Em que uma mulher especial
Levou meu corpo a quase loucura
E meu coração a quase paixão.
807
Rodrigo Guidi Peplau
Insano
Quero que saiam palavras de minha boca,
e que essas palavras reflitam em todos os cantos desse papel,
quero servir como um escravo de carne,
para expressar as palavras livres,
que flutuam pelos ares.
Use-me,
Aproveite de mim a matéria,
utilize de tudo, me roube as palavras, a caneta,
aproveite de mim a destreza,
minha mão ágil e minha cabeça,
tornam fácil fazer versos.
Furte de mim a paciência,
e toda a minha certeza,
me roube o conforto,
não deixe comodidade,
traga emoção, risco, entraves,
nada que me trave a mobilidade.
e que essas palavras reflitam em todos os cantos desse papel,
quero servir como um escravo de carne,
para expressar as palavras livres,
que flutuam pelos ares.
Use-me,
Aproveite de mim a matéria,
utilize de tudo, me roube as palavras, a caneta,
aproveite de mim a destreza,
minha mão ágil e minha cabeça,
tornam fácil fazer versos.
Furte de mim a paciência,
e toda a minha certeza,
me roube o conforto,
não deixe comodidade,
traga emoção, risco, entraves,
nada que me trave a mobilidade.
935
Paulo Augusto Rodrigues
Diamante
Me assustam as crenças.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
922
Ricardo Madeira
Sempre
Falta de ar,
Perda de visão:
Sintomas da morte,
Arautos da Escuridão.
Sinos que tocam,
Prisioneiro de um caixão,
Mas... Então?!...
Porque ainda bate o meu coração?
And it kept pulsing beneath the Earth,
A crimson jewel underneath six feet of dirt,
Forever waiting an impossible rebirth...
Perda de visão:
Sintomas da morte,
Arautos da Escuridão.
Sinos que tocam,
Prisioneiro de um caixão,
Mas... Então?!...
Porque ainda bate o meu coração?
And it kept pulsing beneath the Earth,
A crimson jewel underneath six feet of dirt,
Forever waiting an impossible rebirth...
940
Ricardo Hiroshi Minoda
Sambará
Sambará
Poesia pífia de atitudes
tais e quais fluídicas mesclas de suicidas
buscando nos regatos aleitamento das mães que estão longe
longe longe longe longe longe
Estou cansado
Spinoza espinhos coreos que espairam nos clowns de Shakespeare
lago
Iago
buscando em
poesia de doramor e amor tristeza
Chomsky CHOMSKY CHOMSKY CHOMSKY CHOMSKY
Auhm
transcende alma inconstante transcende o véu mítico da vida-merda
encalacrada na merda-invólucro de carne
choro entre as pernas abraçado de meu irmão
vento busco e me sufoco
poesia berrada por todos os portões do grande império pretérito
nas águas fios salgados dos pulmões cuspidos
lentes mortas desfocadas nos telhados
esquecido
Einstein will Einstein
Einstein will Ein Stein
Ein Stein
leben Ein Stein
Poesia pífia de atitudes
tais e quais fluídicas mesclas de suicidas
buscando nos regatos aleitamento das mães que estão longe
longe longe longe longe longe
Estou cansado
Spinoza espinhos coreos que espairam nos clowns de Shakespeare
lago
Iago
buscando em
poesia de doramor e amor tristeza
Chomsky CHOMSKY CHOMSKY CHOMSKY CHOMSKY
Auhm
transcende alma inconstante transcende o véu mítico da vida-merda
encalacrada na merda-invólucro de carne
choro entre as pernas abraçado de meu irmão
vento busco e me sufoco
poesia berrada por todos os portões do grande império pretérito
nas águas fios salgados dos pulmões cuspidos
lentes mortas desfocadas nos telhados
esquecido
Einstein will Einstein
Einstein will Ein Stein
Ein Stein
leben Ein Stein
606
Ricardo Madeira
Em Pântanos Esquecidos
Vejo fétidos seres disformes
Movendo-se em pântanos esquecidos,
Vultos nas brumas do mistério,
Sonhos para sempre perdidos.
Aqui vêm afogar a sua luz
Estrelas que do céu se desprenderam,
Tentando agora esquecer
Uma vida que nunca viveram.
Fétidos seres disformes,
Urrando ao vento sinfonias de tristeza,
Malévolas melodias de tão rara beleza,
Notas obscenas numa estranha cadência,
Majésticas vibrações de dor e violência.
Estralhaçando corações como uma seta,
Esta sua obra magna nunca se completa,
Há sempre novas notas de agonia da dor,
A implacável dor com o nome de amor...
Sou a luz que tu roubaste,
O sol que não voltará a brilhar,
Num destino sem saída,
Sem ninguém a quem rezar.
Renuncio ao meu coração,
Aquele que finges não ver,
Prefiro a mesma escuridão
Onde as estrelas vão morrer.
Atravesso fronteiras desconhecidas,
Caindo sem nunca poder parar,
Não sei para onde vou,
Estou ansioso por lá chegar.
"The moon is red and bleeeding,
The sun is burned and black,
The book of life is silent,
No turning back..."
-Iron Maiden
Movendo-se em pântanos esquecidos,
Vultos nas brumas do mistério,
Sonhos para sempre perdidos.
Aqui vêm afogar a sua luz
Estrelas que do céu se desprenderam,
Tentando agora esquecer
Uma vida que nunca viveram.
Fétidos seres disformes,
Urrando ao vento sinfonias de tristeza,
Malévolas melodias de tão rara beleza,
Notas obscenas numa estranha cadência,
Majésticas vibrações de dor e violência.
Estralhaçando corações como uma seta,
Esta sua obra magna nunca se completa,
Há sempre novas notas de agonia da dor,
A implacável dor com o nome de amor...
Sou a luz que tu roubaste,
O sol que não voltará a brilhar,
Num destino sem saída,
Sem ninguém a quem rezar.
Renuncio ao meu coração,
Aquele que finges não ver,
Prefiro a mesma escuridão
Onde as estrelas vão morrer.
Atravesso fronteiras desconhecidas,
Caindo sem nunca poder parar,
Não sei para onde vou,
Estou ansioso por lá chegar.
"The moon is red and bleeeding,
The sun is burned and black,
The book of life is silent,
No turning back..."
-Iron Maiden
851
Paulo Augusto Rodrigues
Chave
Existe um lugar.
Além...
Muito além do alcance da visão,
Muito aquém de qualquer percepção.
Oculto,
Difuso as especulações.
Sob sombras fulgurantes,
Ruço úmido,
Impenetrante...
Esconde,
Os vultos das paixões.
A sede,
O desejo,
As vontades,
As hesitações.
A fagulha da explosão,
Guardada,
Fechada.
As portas da ternura,
Mantêm-se seguras,
Bloqueando.
Os vários ódios dos dilemas,
Insultando.
Sobre a mesa posta,
Com doçuras e carinhos,
Expõem-se gloriosa
A chave,
Do caminho.
Além...
Muito além do alcance da visão,
Muito aquém de qualquer percepção.
Oculto,
Difuso as especulações.
Sob sombras fulgurantes,
Ruço úmido,
Impenetrante...
Esconde,
Os vultos das paixões.
A sede,
O desejo,
As vontades,
As hesitações.
A fagulha da explosão,
Guardada,
Fechada.
As portas da ternura,
Mantêm-se seguras,
Bloqueando.
Os vários ódios dos dilemas,
Insultando.
Sobre a mesa posta,
Com doçuras e carinhos,
Expõem-se gloriosa
A chave,
Do caminho.
928
Ricardo Moraes Ferreira
Soneto e Saudade
Jogai as flores com ternura
Sobre o jazigo de nosso passado
Amei-te com a inocente loucura
Daqueles que morrem sem ter pecado
Corri os verdes campos da esperança
Sob os olhos atentos do destino
De inocente - sorri quando criança
E de pirraça - fugi como um menino
Na fuga audaz passaram-se os anos
E a vida me volta num breve lampejo
Lamúrias cruéis de velhos enganos
Loucura fugaz de um novo desejo
Eu olho prá trás - cadê nossos planos?
As flores, o campo ; só tu que não vejo!
Sobre o jazigo de nosso passado
Amei-te com a inocente loucura
Daqueles que morrem sem ter pecado
Corri os verdes campos da esperança
Sob os olhos atentos do destino
De inocente - sorri quando criança
E de pirraça - fugi como um menino
Na fuga audaz passaram-se os anos
E a vida me volta num breve lampejo
Lamúrias cruéis de velhos enganos
Loucura fugaz de um novo desejo
Eu olho prá trás - cadê nossos planos?
As flores, o campo ; só tu que não vejo!
929
Ricardo Madeira
O Metropolitano
Num rosto
Nasceu e faleceu
Um sorriso
Que riu e ruiu.
Um Sol
Caído e ferido,
Astro-rei
Queimado, gelado.
Mas é assim que acaba tudo,
Sem saber aquilo que poderias ter alcançado,
O teu olhar tornou-se mudo,
Desconhecido um paraíso que jaz inexplorado.
Olhos sem brilho,
De luz despidos,
Nem caminho nem trilho,
Hotéis escuros...
Impuros...
Horror em tudo o que vês...
Olhos e caras,
Foges e páras,
Sombras e luzes,
Pregos e cruzes...
O som do martelo,
Tão suave, tão belo,
Apenas mais uma crucificação,
Apenas outra só razão
Para esquecer...
Para adormecer...
O túnel, o clarão,
Pensamentos, sentimentos a brotar,
O chiar e o trovão,
Tão poucos momentos, tanto para dar...
Em sangue um sol... não se tornará a erguer, infeliz...
Pedaços de algo outrora eterno são cadáver nos carris.
Nasceu e faleceu
Um sorriso
Que riu e ruiu.
Um Sol
Caído e ferido,
Astro-rei
Queimado, gelado.
Mas é assim que acaba tudo,
Sem saber aquilo que poderias ter alcançado,
O teu olhar tornou-se mudo,
Desconhecido um paraíso que jaz inexplorado.
Olhos sem brilho,
De luz despidos,
Nem caminho nem trilho,
Hotéis escuros...
Impuros...
Horror em tudo o que vês...
Olhos e caras,
Foges e páras,
Sombras e luzes,
Pregos e cruzes...
O som do martelo,
Tão suave, tão belo,
Apenas mais uma crucificação,
Apenas outra só razão
Para esquecer...
Para adormecer...
O túnel, o clarão,
Pensamentos, sentimentos a brotar,
O chiar e o trovão,
Tão poucos momentos, tanto para dar...
Em sangue um sol... não se tornará a erguer, infeliz...
Pedaços de algo outrora eterno são cadáver nos carris.
859
Ribeiro Couto
Soneto da Fiel Infância
Tudo que em mim foi natural — pobreza,
Mágoas de infância só, casa vazia,
Lutos, e pouco pão na pouca mesa —
Dói na saudade mais que então doía.
Da lamparina do meu qarto, acesa
No pequeno oratório noite e dia,
Vinha-me a sensação de uma riqueza
Que no meu sangue de menino ardia.
Altas horas, rezando no seu canto,
Minha mãe muitas vezes soluçava
E dava-me a beijar não sei que santo.
Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava,
Faz-me falta o cair daquele pranto
Com que ela junto ao peito me molhava.
Mágoas de infância só, casa vazia,
Lutos, e pouco pão na pouca mesa —
Dói na saudade mais que então doía.
Da lamparina do meu qarto, acesa
No pequeno oratório noite e dia,
Vinha-me a sensação de uma riqueza
Que no meu sangue de menino ardia.
Altas horas, rezando no seu canto,
Minha mãe muitas vezes soluçava
E dava-me a beijar não sei que santo.
Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava,
Faz-me falta o cair daquele pranto
Com que ela junto ao peito me molhava.
1 744
Paulo Augusto Rodrigues
Choro
Revendo as mesmas velhas fotos,
Relendo as mesmas lindas cartas,
Revivendo cada instante,
Cada detalhe.
Alguém canta na vitrola
Aquelas músicas esquecidas.
Ingenuidade perdida.
Neste momento de tristeza
Lembranças são troncos na água,
Me salvando a vida.
Impedindo que me afogue,
Nas correntezas e abismos
Que sobressaem neste dia.
O peso vem de fora,
Mas a força para suportá-lo
Esgota energias interiores.
Já não sinto meus membros...
As recordações voam sobre minha cabeça,
Se vão a garra e o ardor.
O tronco se afasta mais e mais,
As águas me engolem com ânsia.
Afundo...
E sinto que lá no fundo,
Choro.
Relendo as mesmas lindas cartas,
Revivendo cada instante,
Cada detalhe.
Alguém canta na vitrola
Aquelas músicas esquecidas.
Ingenuidade perdida.
Neste momento de tristeza
Lembranças são troncos na água,
Me salvando a vida.
Impedindo que me afogue,
Nas correntezas e abismos
Que sobressaem neste dia.
O peso vem de fora,
Mas a força para suportá-lo
Esgota energias interiores.
Já não sinto meus membros...
As recordações voam sobre minha cabeça,
Se vão a garra e o ardor.
O tronco se afasta mais e mais,
As águas me engolem com ânsia.
Afundo...
E sinto que lá no fundo,
Choro.
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