Poemas neste tema
Alma
Ricardo Madeira
Tempestade Sol
I
As cordas da minha guitarra
Fazem as nuvens chorar,
Cada nota de tristeza
Milhões de lágrimas faz derramar.
O sol foge para longe
E o vento ergue-se, irado,
Enquanto as nuvens se reúnem
Ao som de acordes do diabo.
Caem as árvores na tormenta,
As flores vergam-se, fracas,
Suas as pétalas arrancadas,
Os dedos do vento tal facas.
II
Uma paisagem de tons laranja,
E toda a fúria se acalma,
Sol aquece novamente a alma,
Para muito longe se foi
Tempestade...
III
Tempo está de sol,
Rasteja lento o caracol,
Noutra terra distante...
Debaixo do gigante carvalho,
Naquela sombra de Verão,
A brisa afaga o teu vestido,
Passeias entre flocos de algodão.
As cordas da minha guitarra
Fazem as nuvens chorar,
Cada nota de tristeza
Milhões de lágrimas faz derramar.
O sol foge para longe
E o vento ergue-se, irado,
Enquanto as nuvens se reúnem
Ao som de acordes do diabo.
Caem as árvores na tormenta,
As flores vergam-se, fracas,
Suas as pétalas arrancadas,
Os dedos do vento tal facas.
II
Uma paisagem de tons laranja,
E toda a fúria se acalma,
Sol aquece novamente a alma,
Para muito longe se foi
Tempestade...
III
Tempo está de sol,
Rasteja lento o caracol,
Noutra terra distante...
Debaixo do gigante carvalho,
Naquela sombra de Verão,
A brisa afaga o teu vestido,
Passeias entre flocos de algodão.
1 020
Rodrigo Guidi Peplau
Redonda, brilhante e provocativa
A mancha amarela
que se alonga pelo mar até aqui,
parece querer me levar
fascinado pela sua origem.
Ela ora se expõe,
ora se esconde
num jogo humano de sedução.
O caminho vai se abrindo
a medida que me aproximo,
sem o que se preocupar,
sem o que temer.
Nesse ritual mágico de união
entre a lua e o poeta
não penso nada, apenas sinto
não julgo nada, apenas vejo
e seu desfecho é tão incerto
quanto o final de qualquer poema.
que se alonga pelo mar até aqui,
parece querer me levar
fascinado pela sua origem.
Ela ora se expõe,
ora se esconde
num jogo humano de sedução.
O caminho vai se abrindo
a medida que me aproximo,
sem o que se preocupar,
sem o que temer.
Nesse ritual mágico de união
entre a lua e o poeta
não penso nada, apenas sinto
não julgo nada, apenas vejo
e seu desfecho é tão incerto
quanto o final de qualquer poema.
1 031
Ricardo Madeira
Epitáfio
Se uma estrela cai na Terra,
Logo no céu nasce mais uma,
E, na praia, vinda da espuma
Surge outra estrela-do-mar.
Uma morre mas duas nascem,
O Universo acabou a ganhar,
O que me deu, voltou a tirar,
O que invejou teve de matar.
Se algum deus ou demónio pudesse...
Se pudesse as minhas preces atender,
Eu dar-lhe-ia, aqui juro, a minha alma
Se não fosse já tua e a pudesse vender.
E tocam os sinos enquanto a chuva cai,
Mas na aurora de um novo amanhecer,
Repousas ainda pálida e só num caixão,
Apenas bela e quieta, sem nada fazer,
Engraçado...
Pareces não ouvir nada do que estou a dizer...
"What do you say to the dead?
Will you forgive me for living?"
-Black Sabbath
Logo no céu nasce mais uma,
E, na praia, vinda da espuma
Surge outra estrela-do-mar.
Uma morre mas duas nascem,
O Universo acabou a ganhar,
O que me deu, voltou a tirar,
O que invejou teve de matar.
Se algum deus ou demónio pudesse...
Se pudesse as minhas preces atender,
Eu dar-lhe-ia, aqui juro, a minha alma
Se não fosse já tua e a pudesse vender.
E tocam os sinos enquanto a chuva cai,
Mas na aurora de um novo amanhecer,
Repousas ainda pálida e só num caixão,
Apenas bela e quieta, sem nada fazer,
Engraçado...
Pareces não ouvir nada do que estou a dizer...
"What do you say to the dead?
Will you forgive me for living?"
-Black Sabbath
934
Ribeiro Couto
Chuva
A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
1 307
Paulo Augusto Rodrigues
Vida
Vem vida,
Porque eu não posso parar.
Vem noite,
Porque eu não posso parar.
Vem gente,
Venham todos,
Não me deixem pensar.
Não durmam,
Não me deixem lembrar...
Me salvem da tal solidão.
Que solidão mais sofrida,
É a solidão do amor,
É a solidão da saudade.
Um simples vacilo,
Ela vem, entra, para,
Estanca os músculos,
Embota a mente,
Turva a visão.
Esmaga,
Entristece,
Arranca,
Rasga,
Dói,
Mata.
Vem Vida,
Porque eu não posso...
Porque eu não posso parar.
Vem noite,
Porque eu não posso parar.
Vem gente,
Venham todos,
Não me deixem pensar.
Não durmam,
Não me deixem lembrar...
Me salvem da tal solidão.
Que solidão mais sofrida,
É a solidão do amor,
É a solidão da saudade.
Um simples vacilo,
Ela vem, entra, para,
Estanca os músculos,
Embota a mente,
Turva a visão.
Esmaga,
Entristece,
Arranca,
Rasga,
Dói,
Mata.
Vem Vida,
Porque eu não posso...
992
Paulo Augusto Rodrigues
Moça
É de noite, noite de sábado.
Há movimento de gente, copos,
Mas em mim não há nada.
Para mim, as ruas estão vazias,
As pessoas perdidas,
Os caminhos escuros.
É de noite, noite de qualquer dia.
Há estrelas no céu
Iluminando a semente.
Fazendo crescer na lembrança,
O ponto luminoso e brilhante,
Que acende,
A imagem sorrisamente cativante
Da amizade calada.
É de noite, noite que aumenta a distância,
Mas, é de dia que a saudade gritante
Da amiga,
Estoura.
É momentâneo, mas é profundo.
Que vontade descabida
De estar neste momento,
Ao seu lado, tranqüilo,
Numa quieta cidade.
Talvez até,
Curitiba.
Há movimento de gente, copos,
Mas em mim não há nada.
Para mim, as ruas estão vazias,
As pessoas perdidas,
Os caminhos escuros.
É de noite, noite de qualquer dia.
Há estrelas no céu
Iluminando a semente.
Fazendo crescer na lembrança,
O ponto luminoso e brilhante,
Que acende,
A imagem sorrisamente cativante
Da amizade calada.
É de noite, noite que aumenta a distância,
Mas, é de dia que a saudade gritante
Da amiga,
Estoura.
É momentâneo, mas é profundo.
Que vontade descabida
De estar neste momento,
Ao seu lado, tranqüilo,
Numa quieta cidade.
Talvez até,
Curitiba.
1 044
Rodrigo L. A. Santos
Quem entende
Quem entende
A vida?
Quando
Vivia na luz
Minha alma
Penava sozinha
No escuro
Quando
Estou no escuro
Minha alma
Dança alegre
Sob uma facho de luz
RLAS
A vida?
Quando
Vivia na luz
Minha alma
Penava sozinha
No escuro
Quando
Estou no escuro
Minha alma
Dança alegre
Sob uma facho de luz
RLAS
1 041
Ricardo Madeira
As Vozes da Noite
O Sol não nasce para os que amam,
A Lua, negra, não os pode consolar,
Uma a uma, apagam-se as estrelas,
Até não ficar nada para os iluminar.
Enterrados, numa sepultura sem nome,
Para sempre aprisionados no seu caixão,
Sentindo na língua o sabor dos vermes,
Os sonhos agora pregos no seu coração.
Espectros, vagueiam ainda sem destino,
Para sempre movidos pela perpétua dor,
Tentando libertar-se do que já perderam,
Sabendo que não há vida depois do amor.
"Morte..."
Desejo morto, a causa do seu sinistro pranto,
Direito negado aos seres do mais puro branco.
"Morte..."
Acariciando o silêncio, por um breve momento,
Um suspiro arrancado à pálida noite pelo vento.
A Lua, negra, não os pode consolar,
Uma a uma, apagam-se as estrelas,
Até não ficar nada para os iluminar.
Enterrados, numa sepultura sem nome,
Para sempre aprisionados no seu caixão,
Sentindo na língua o sabor dos vermes,
Os sonhos agora pregos no seu coração.
Espectros, vagueiam ainda sem destino,
Para sempre movidos pela perpétua dor,
Tentando libertar-se do que já perderam,
Sabendo que não há vida depois do amor.
"Morte..."
Desejo morto, a causa do seu sinistro pranto,
Direito negado aos seres do mais puro branco.
"Morte..."
Acariciando o silêncio, por um breve momento,
Um suspiro arrancado à pálida noite pelo vento.
956
Rozania Moraes
Amor de Mar
Noite de luzes.
os lábios do poeta
bebem lágrimas
do mar, salgadas.
A beira do mar se enfeita
de gente que vem e vai
como movimentos do mar
suaves afagos
mãos presas ao olhar
ondas dançam, eróticas
a tocar os lábios das pedras
beijo roubado, beijo furtivo
beijos molhados, salgados.
Noite azul
Flutuando no escuro
o astro branco
derrama raios leitosos
na espuma da água.
A praia se esvazia
para o mar que a ama
no silêncio, na areia, nas pedras
madrugada adentro.
Noite sensual
corpos à espera do dia
embalados pela canção
de outro poeta, tocada ao longe
nos bares do cais,
canção de outro amor
que se lançou ao mar
e dele nunca mais voltou.
os lábios do poeta
bebem lágrimas
do mar, salgadas.
A beira do mar se enfeita
de gente que vem e vai
como movimentos do mar
suaves afagos
mãos presas ao olhar
ondas dançam, eróticas
a tocar os lábios das pedras
beijo roubado, beijo furtivo
beijos molhados, salgados.
Noite azul
Flutuando no escuro
o astro branco
derrama raios leitosos
na espuma da água.
A praia se esvazia
para o mar que a ama
no silêncio, na areia, nas pedras
madrugada adentro.
Noite sensual
corpos à espera do dia
embalados pela canção
de outro poeta, tocada ao longe
nos bares do cais,
canção de outro amor
que se lançou ao mar
e dele nunca mais voltou.
432
Ricardo Madeira
Em Vales Encantados
O rio parou
E perguntou
À bela princesa (que na margem
Olhava o reflexo da sua imagem)
O porquê das suas lágrimas.
Depois continuou
E dias depois voltou
Carregando na sua corrente
Mensagem de teor urgente
Enviada pelo príncipe.
Milhares de flores,
Mil dores e amores,
Orquídeas, papoilas e rosas
Que flutuavam vagorosas
Desde destino longínquo.
E uma sublime doce canção
Atravessou os vales encantados
Serpenteando entre o silêncio
Daqueles bosques perfumados.
E perguntou
À bela princesa (que na margem
Olhava o reflexo da sua imagem)
O porquê das suas lágrimas.
Depois continuou
E dias depois voltou
Carregando na sua corrente
Mensagem de teor urgente
Enviada pelo príncipe.
Milhares de flores,
Mil dores e amores,
Orquídeas, papoilas e rosas
Que flutuavam vagorosas
Desde destino longínquo.
E uma sublime doce canção
Atravessou os vales encantados
Serpenteando entre o silêncio
Daqueles bosques perfumados.
956
Rosani Abou Adal
Madrugada
Na placidez da noite,
o apito do guarda-noturno.
Um silvo longo e um breve.
A cadela ladra assustada
com medo da madrugada cálida.
Deitada no meio da rua,
de pernas para o alto,
a gata se lambe sossegada, tranqüila.
Um sibilo agudo se faz presente
na solidão noturna.
Nas casas silenciosas
as pessoas dormem,
cerradas entre quarto paredes,
revelam os segredos da familiaridade.
A gata permanece sobre o asfalto
fazendo confidências individuais.
A cadela frente ao portão
assiste a quietude da noite.
O homem sonha profundo,
o colchão grita frases de amor.
O guarda da noite vigia as casas,
observa as amigas da vida noturna.
Em frente à minha janela assovia
três vezes e prossegue a caminhada.
Acompanhada do meu isolamento
escuto silvos e observo as pessoas
caladas em suas privacidades.
Deitada no meu leito,
coberta com meu manto,
repouso com sofreguidão.
A gata, a cadela, o guarda,
companheiros da madrugada.
o apito do guarda-noturno.
Um silvo longo e um breve.
A cadela ladra assustada
com medo da madrugada cálida.
Deitada no meio da rua,
de pernas para o alto,
a gata se lambe sossegada, tranqüila.
Um sibilo agudo se faz presente
na solidão noturna.
Nas casas silenciosas
as pessoas dormem,
cerradas entre quarto paredes,
revelam os segredos da familiaridade.
A gata permanece sobre o asfalto
fazendo confidências individuais.
A cadela frente ao portão
assiste a quietude da noite.
O homem sonha profundo,
o colchão grita frases de amor.
O guarda da noite vigia as casas,
observa as amigas da vida noturna.
Em frente à minha janela assovia
três vezes e prossegue a caminhada.
Acompanhada do meu isolamento
escuto silvos e observo as pessoas
caladas em suas privacidades.
Deitada no meu leito,
coberta com meu manto,
repouso com sofreguidão.
A gata, a cadela, o guarda,
companheiros da madrugada.
1 113
Raniere Rodrigues dos Santos
Onde Estás?
Eu te amo,
Não sei se te amo.
Eu te desejo,
Não sei se te desejo.
Eu te conheço,
Não sei se te conheço.
Apenas sei que em algum momento
Estiveste perto de mim.
Isso demonstra o prcsente
E este talvez inexistente
Demonstra lembranças,
O passado, por sua vez, compensou,
Compensou meu coração inesquecivelmente.
Saudade, esta está
A te procurar
E vê que não há como encontrar
A não ser desencadear
E peregrinar
A procura
De onde estás.
Não sei se te amo.
Eu te desejo,
Não sei se te desejo.
Eu te conheço,
Não sei se te conheço.
Apenas sei que em algum momento
Estiveste perto de mim.
Isso demonstra o prcsente
E este talvez inexistente
Demonstra lembranças,
O passado, por sua vez, compensou,
Compensou meu coração inesquecivelmente.
Saudade, esta está
A te procurar
E vê que não há como encontrar
A não ser desencadear
E peregrinar
A procura
De onde estás.
867
Raniere Rodrigues dos Santos
O Pássaro
Olho para traz
E nada vejo.
A demonstração
Aparece
E revela
O pássaro.
Simples,
Quieto,
Tentando voar,
Para no céu brilhar.
Sabendo
Que não é chegada a hora,
Ele esperneia e chora
E só o sonho o consola.
Ele serve,
Ele encanta,
Ele escreve poesia
Rimando com a alegria.
O show
Chega
E o pássaro
Voa.
Ele brilha
Entre as estrelas
E toca
Uma paralisia.
Que pássaro
Danado,
Já tem filhos
E os protege.
O espetáculo
É preparado
E o pássaro
Fica todo embelezado.
O sucesso,
É o futuro
Que se torna presente
Para o pássaro contente.
Olho para trás
E vejo que há passado
Olho para frente
E vejo que há futuro de um presente
E nada vejo.
A demonstração
Aparece
E revela
O pássaro.
Simples,
Quieto,
Tentando voar,
Para no céu brilhar.
Sabendo
Que não é chegada a hora,
Ele esperneia e chora
E só o sonho o consola.
Ele serve,
Ele encanta,
Ele escreve poesia
Rimando com a alegria.
O show
Chega
E o pássaro
Voa.
Ele brilha
Entre as estrelas
E toca
Uma paralisia.
Que pássaro
Danado,
Já tem filhos
E os protege.
O espetáculo
É preparado
E o pássaro
Fica todo embelezado.
O sucesso,
É o futuro
Que se torna presente
Para o pássaro contente.
Olho para trás
E vejo que há passado
Olho para frente
E vejo que há futuro de um presente
941
Cleonice Rainho
O Rio
A água vai passando
limpinha, limpinha,
espelho do caminho
onde muita gente para,
a se mirar...
Fico olhando...
é bom ver a água passar.
Fraquinha,
na gruta escondida nasceu.
Bebeu o orvalho da serra,
pelo vale desceu,
retratando a paisagem.
E as folhas emurchecidas,
a sua frescura,
reverdeceram-se
milagrosamente.
Rio, recebeu riachos e córregos,
cresceu... ficou importante,
e pontes ganhou
para a estrada
que o engenheiro
traçou.
Encontrou umas pedras,
tropeçou... e, em caídas e quedas,
morro abaixo rolou,
virou cachoeira,
girou, girou,
energia e força
fazendo gerar.
Ergueu-se
em saltos de espuma
e, lá longe, longe
se abriu em remanso...
Foi descansar
junto aos boizinhos
que estavam a pastar...
Depois , as cidades
irá limpar,
antes de correr pro mar.
Destino de água corrente,
faz a gente pensar.
limpinha, limpinha,
espelho do caminho
onde muita gente para,
a se mirar...
Fico olhando...
é bom ver a água passar.
Fraquinha,
na gruta escondida nasceu.
Bebeu o orvalho da serra,
pelo vale desceu,
retratando a paisagem.
E as folhas emurchecidas,
a sua frescura,
reverdeceram-se
milagrosamente.
Rio, recebeu riachos e córregos,
cresceu... ficou importante,
e pontes ganhou
para a estrada
que o engenheiro
traçou.
Encontrou umas pedras,
tropeçou... e, em caídas e quedas,
morro abaixo rolou,
virou cachoeira,
girou, girou,
energia e força
fazendo gerar.
Ergueu-se
em saltos de espuma
e, lá longe, longe
se abriu em remanso...
Foi descansar
junto aos boizinhos
que estavam a pastar...
Depois , as cidades
irá limpar,
antes de correr pro mar.
Destino de água corrente,
faz a gente pensar.
799
Rosani Abou Adal
Passáro-Concorde
Trilhar caminhos e sentir teu cheiro
nas plantas, florestas, flores,
campos e no ar.
Voar o céu como um pássaro-concorde
e encontrar-te, passageiro
de minhas asas perdidas.
Navegar mares e oceanos
e avistar-te, comandante
deste barco sem
bússola.
nas plantas, florestas, flores,
campos e no ar.
Voar o céu como um pássaro-concorde
e encontrar-te, passageiro
de minhas asas perdidas.
Navegar mares e oceanos
e avistar-te, comandante
deste barco sem
bússola.
917
Reginaldo Leal
A Morte, pois me mostraram a vida
trago a morte não como farsa
mas farta, ufana.
Zela pelo meu segredo
distraída, necessária, apressada
indivisível, única,
derradeira como eu.
persegue não a mim
mas aos meus passos
pois sequer me espera.
não me cansa
doura-me juventude
soma o sol, meu sol
minha estrada inteira
deseja o meu amor
questiona o meu desejo
sorri com o meu erro.
corre a morte
em busca de mais uma aventura
me ama, me trai
pois tem a mim
seu próximo ato
seu amo, seu guerreiro
que atravessa a fantasia
que sorri de medo
e falta.
trago a morte, inteira
infinita como meu âmago
incontestável e indesejável
que não pernoita
apenas espreme o ego
inconfundível como eu mesmo
apagado, vivo e morto.
trago a morte
não por essência ou desespero
mas porque o tempo me conta
e não me exclui,
porque não me esconde a náusea
nem me põe o rancho da maldade.
a morte quer apenas
fluir meu contentamento
acender a estrada, via láctea.
a morte nunca me deixará sozinho
como se eu fosse a vida inteira
reservado, preparado para a sorte.
a morte não me dará vida
mas me esconderá
dos transeuntes, dos descaminhos
e não me postará por inveja
em quase todos que me vêem.
mas farta, ufana.
Zela pelo meu segredo
distraída, necessária, apressada
indivisível, única,
derradeira como eu.
persegue não a mim
mas aos meus passos
pois sequer me espera.
não me cansa
doura-me juventude
soma o sol, meu sol
minha estrada inteira
deseja o meu amor
questiona o meu desejo
sorri com o meu erro.
corre a morte
em busca de mais uma aventura
me ama, me trai
pois tem a mim
seu próximo ato
seu amo, seu guerreiro
que atravessa a fantasia
que sorri de medo
e falta.
trago a morte, inteira
infinita como meu âmago
incontestável e indesejável
que não pernoita
apenas espreme o ego
inconfundível como eu mesmo
apagado, vivo e morto.
trago a morte
não por essência ou desespero
mas porque o tempo me conta
e não me exclui,
porque não me esconde a náusea
nem me põe o rancho da maldade.
a morte quer apenas
fluir meu contentamento
acender a estrada, via láctea.
a morte nunca me deixará sozinho
como se eu fosse a vida inteira
reservado, preparado para a sorte.
a morte não me dará vida
mas me esconderá
dos transeuntes, dos descaminhos
e não me postará por inveja
em quase todos que me vêem.
807
Reynaldo Valinho Alvarez
Não Busco Outro Caminho, Cedo a Calma
Não busco outro caminho, cedo a calma
À angústia de lavrar no mesmo chão.
A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.
Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra a penetrá-la
Para entregar-lhe o amor de uma semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.
No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro.
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.
A pá o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.
A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência.
À angústia de lavrar no mesmo chão.
A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.
Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra a penetrá-la
Para entregar-lhe o amor de uma semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.
No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro.
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.
A pá o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.
A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência.
981
Renata Trocoli
Teu Amor
Teu Amor
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas mãos me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.
Teu doce beijo acaricia meus lábios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor é novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraços
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me dá esperanças de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presença.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peço com todo coração que ela me abençoe
com tua presença a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor tão puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos corações.
Este amor vem de longe,
vem do alto e é benção dos céus.
É perfeito e verdadeiro,
é sentimento que não se sente por qualquer um,
que não brinca com o coração
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas mãos me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.
Teu doce beijo acaricia meus lábios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor é novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraços
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me dá esperanças de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presença.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peço com todo coração que ela me abençoe
com tua presença a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor tão puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos corações.
Este amor vem de longe,
vem do alto e é benção dos céus.
É perfeito e verdadeiro,
é sentimento que não se sente por qualquer um,
que não brinca com o coração
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
961
Rosani Abou Adal
Semifusa de Pétalas
Se as rosas expressassem meus sentimentos,
o roseiral seria uma orquestra
de melodias divinas,
os botões não murchariam,
brotariam a cada amanhecer
como um acorde harmônico.
Os espinhos, uma canção serena.
Pausa. Uma semibreve,
uma semifusa de pétalas.
Silêncio. As flores vibram acordes.
Uma melodia nasce em minhalma.
Não sei mais quem sou.
Pétala,
rosa,
acorde?
o roseiral seria uma orquestra
de melodias divinas,
os botões não murchariam,
brotariam a cada amanhecer
como um acorde harmônico.
Os espinhos, uma canção serena.
Pausa. Uma semibreve,
uma semifusa de pétalas.
Silêncio. As flores vibram acordes.
Uma melodia nasce em minhalma.
Não sei mais quem sou.
Pétala,
rosa,
acorde?
943
Raul de Leoni
Crepuscular
Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.
Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.
Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.
Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.
Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.
Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.
Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...
1 472
Raquel Naveira
Napoleão
Sonhei que era Napoleão
Como qualquer louco
Que tem direito a seu sonho.
Como Napoleão
Sonhei com uma coroa,
Um manto,
Um naco de mundo entre os dentes.
Como Napoleão
Sonhei com palácios,
Abelhas, lírios,
Passeios num cavalo branco.
Como Napoleão
Sonhei com pirâmides,
Tempestades de neve,
Uma cama de campanha no deserto.
Como Napoleão
Acordei
E não era dono de nada,
De nenhuma ilha,
De nenhuma bússola,
De nenhuma glória.
Como Napoleão
Acordei e vi que tudo era sonho.
Como qualquer louco
Que tem direito a seu sonho.
Como Napoleão
Sonhei com uma coroa,
Um manto,
Um naco de mundo entre os dentes.
Como Napoleão
Sonhei com palácios,
Abelhas, lírios,
Passeios num cavalo branco.
Como Napoleão
Sonhei com pirâmides,
Tempestades de neve,
Uma cama de campanha no deserto.
Como Napoleão
Acordei
E não era dono de nada,
De nenhuma ilha,
De nenhuma bússola,
De nenhuma glória.
Como Napoleão
Acordei e vi que tudo era sonho.
1 269
Raimundo Correia
Ondas
Ilha de atrozes degredos!
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.
Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.
Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.
Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.
No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.
Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...
Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.
Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.
Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.
Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.
Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.
Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.
Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.
No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.
Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...
Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.
Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.
Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.
Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...
1 949
Rosani Abou Adal
Código Morse
Bolhas de espuma boiam sobre a água,
código morse da espécie Beta
comunicando que é adulto
e precisa uma fêmea para acasalar.
Olhos tristes e pequenos
protestam a solidão aquática.
No fundo do aquário, sem mover nadadeiras,
sonha com a azulzinha, a vermelhinha
para compartilhar carinho e afeto.
Seu coração vazio e infeliz.
Fala português e portunhol
com suas guelras.
Ninguém entende a mensagem.
Tenta outra vez,
o código sem tradução.
O Beta codifica a solidão oculta
- a companheira invisível
surge do outro lado do aquário.
código morse da espécie Beta
comunicando que é adulto
e precisa uma fêmea para acasalar.
Olhos tristes e pequenos
protestam a solidão aquática.
No fundo do aquário, sem mover nadadeiras,
sonha com a azulzinha, a vermelhinha
para compartilhar carinho e afeto.
Seu coração vazio e infeliz.
Fala português e portunhol
com suas guelras.
Ninguém entende a mensagem.
Tenta outra vez,
o código sem tradução.
O Beta codifica a solidão oculta
- a companheira invisível
surge do outro lado do aquário.
1 049
Rosani Abou Adal
Nua
Sinto-me como um cabide
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
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