Poemas neste tema
Alma
Daniel Loureiro
Uma Crença
Jazer tão perto da morte
onde talvez a sorte
de nós, a espécie condenada
a entender para sentir angústia
nas misérias dos prazeres mundanos
ópios de vida que nos causam danos
feridas ocultas agora libertas
Rasgar a libertação
Argh!
Esse Deus contraditório
Piedoso e cruel
Aos crentes fornece seus favos de fel
o consolo débil, frágil
de uma crença como tábua última
Sua mediocridade ilhada
Assim me faço pagão
Diversos Deuses me Divertem
Imperfeições gregas tão civilizadas...
Ânsia pela vida como ser a vida sua
Nua de mandanças do dever ideal
onde talvez a sorte
de nós, a espécie condenada
a entender para sentir angústia
nas misérias dos prazeres mundanos
ópios de vida que nos causam danos
feridas ocultas agora libertas
Rasgar a libertação
Argh!
Esse Deus contraditório
Piedoso e cruel
Aos crentes fornece seus favos de fel
o consolo débil, frágil
de uma crença como tábua última
Sua mediocridade ilhada
Assim me faço pagão
Diversos Deuses me Divertem
Imperfeições gregas tão civilizadas...
Ânsia pela vida como ser a vida sua
Nua de mandanças do dever ideal
858
Deborah Brennand
Sem Preconceito
Senta no primeiro degrau
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
1 261
Cid Vale Ferreira
Quermesse
Sou um para cada um.
O que sou, sou de acordo com quem me assiste.
Estando só, que não me vejam.
Se me virem, que eu não perceba,
pois que no escuro, sozinho,
sou legião...
O que sou, sou de acordo com quem me assiste.
Estando só, que não me vejam.
Se me virem, que eu não perceba,
pois que no escuro, sozinho,
sou legião...
494
Domingos Caldas Barbosa
A Ternura Brasileira
Não posso negar, não posso,
Não posso por mais que queira,
Que o meu coração se abrasa
De ternura Brasileira.
Uma alma singela e rude
Sempre foi mais verdadeira,
A minha por isso é própria
De ternura Brasileira.
Lembra na última idade
A paixão lá da primeira,
Tenho nos últimos dias
A ternura Brasileira.
Vejo a carrancuda morte
Ameigar sua viseira,
Por ver que ao matar-me estraga
A ternura Brasileira.
Caronte, que chega à barca,
E que me chama à carreira,
Vê que o batel vai curvando
Coa ternura Brasileira.
Mal piso sobre os Elísios,
Outra sombra companheira
Chega, pasma, e não conhece
A ternura Brasileira.
Eu vejo a infeliz, Rainha
Que morre em ampla fogueira,
Por não achar em Enéias
A ternura Brasileira.
Do mundo a última parte
Não tem frase lisonjeira,
As três que a têm não conhecem
A ternura Brasileira.
Do mundo a última parte
Foi sempre em amar primeira
Pode às três servir de exemplo
A ternura Brasileira.
Não posso por mais que queira,
Que o meu coração se abrasa
De ternura Brasileira.
Uma alma singela e rude
Sempre foi mais verdadeira,
A minha por isso é própria
De ternura Brasileira.
Lembra na última idade
A paixão lá da primeira,
Tenho nos últimos dias
A ternura Brasileira.
Vejo a carrancuda morte
Ameigar sua viseira,
Por ver que ao matar-me estraga
A ternura Brasileira.
Caronte, que chega à barca,
E que me chama à carreira,
Vê que o batel vai curvando
Coa ternura Brasileira.
Mal piso sobre os Elísios,
Outra sombra companheira
Chega, pasma, e não conhece
A ternura Brasileira.
Eu vejo a infeliz, Rainha
Que morre em ampla fogueira,
Por não achar em Enéias
A ternura Brasileira.
Do mundo a última parte
Não tem frase lisonjeira,
As três que a têm não conhecem
A ternura Brasileira.
Do mundo a última parte
Foi sempre em amar primeira
Pode às três servir de exemplo
A ternura Brasileira.
1 531
Carolina Vigna Prado
Angústias de uma espera
Deixei o telefone no máximo na esperança de você ligar.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.
860
Corrêa da Silva
Saudade
De xale posto nos ombros,
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
396
Cynara Novaes
Meus noturnos
Meus noturnos
amanhecem
em tuas alvoradas
e continuam dia a fora
noite a dentro
invetendo fuso horários
enlouquecidos pela
falta das estrelas.
amanhecem
em tuas alvoradas
e continuam dia a fora
noite a dentro
invetendo fuso horários
enlouquecidos pela
falta das estrelas.
923
Daniel Loureiro
O Carvão e o Tempo
Os dias se repetem
se repetem os dias
Os dias
se repetem
os dias
Eu gostaria de um dia repetir um dia
Em que a gente se encontrasse
se AMAssaSSE
O que te me atrai
é a diferença
e a minha crença... bem...
Beijos
Beijos
TEMPO
O teu pensamento
é meu, penso atento
e o meu desalento
é a tua fuga fácil
TEMPO
As tuas imagens
quase são miragens
impressões elétricas
nas cores vitais
TEMPO
Irradias tantas impressões
e as minhas impressões
por um breve momento
são todo o meu mundo
TEMPO
Calma! já estamos indo
e ele continua vindo
sem nunca esperar
Os dias se repetem
Se repetem os dias
Se repetem
os dias
repetem-se
Então estamos juntos
Bela, etérea e tão real
Estamos juntos
A natureza enlouquece
Juntos
O chumbo não pesa
o tempo despreza
e o carvão...
agora é diamante.
se repetem os dias
Os dias
se repetem
os dias
Eu gostaria de um dia repetir um dia
Em que a gente se encontrasse
se AMAssaSSE
O que te me atrai
é a diferença
e a minha crença... bem...
Beijos
Beijos
TEMPO
O teu pensamento
é meu, penso atento
e o meu desalento
é a tua fuga fácil
TEMPO
As tuas imagens
quase são miragens
impressões elétricas
nas cores vitais
TEMPO
Irradias tantas impressões
e as minhas impressões
por um breve momento
são todo o meu mundo
TEMPO
Calma! já estamos indo
e ele continua vindo
sem nunca esperar
Os dias se repetem
Se repetem os dias
Se repetem
os dias
repetem-se
Então estamos juntos
Bela, etérea e tão real
Estamos juntos
A natureza enlouquece
Juntos
O chumbo não pesa
o tempo despreza
e o carvão...
agora é diamante.
916
Dante Milano
Canção Bêbeda
Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.
Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.
E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.
Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.
Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,
Bêbedo, bêbedo, bêbedo,
Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,
Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.
E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.
Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.
E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.
Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.
Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,
Bêbedo, bêbedo, bêbedo,
Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,
Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.
E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.
1 152
Clóvis Ramos
Humilde Estrebaria
Um fenômeno estranho acontecia
nas terras de Judá. Eis que os pastores
ouviram vozes de anjos em louvores
ao pequenino filho de Maria.
A noite era de místicos fulgores,
noite serena, noite de poesia.
Sobre as palhas de humilde estrebaria,
dormitava Jesus por entre flores.
Uma estrela de brilho nunca visto,
aparecera nessa noite e os Magos
vieram de longe em caravanas de ouro...
"Glória a Deus nas alturas!" Glória ao Cristo!
Maria — Mãe — porém, em pranto e afagos,
temia a sorte do seu filho louro.
nas terras de Judá. Eis que os pastores
ouviram vozes de anjos em louvores
ao pequenino filho de Maria.
A noite era de místicos fulgores,
noite serena, noite de poesia.
Sobre as palhas de humilde estrebaria,
dormitava Jesus por entre flores.
Uma estrela de brilho nunca visto,
aparecera nessa noite e os Magos
vieram de longe em caravanas de ouro...
"Glória a Deus nas alturas!" Glória ao Cristo!
Maria — Mãe — porém, em pranto e afagos,
temia a sorte do seu filho louro.
868
Cynara Novaes
O barco passou
O barco passou
e o vento passou
e o sol não veio
não veio
A nuvem passou
a manhã passou
e a alegria não veio
não veio
A menina passou
a moça passou
e a lua não veio
não veio
A menina ficou
o tempo ficou
pois a vida não veio
não veio
e o vento passou
e o sol não veio
não veio
A nuvem passou
a manhã passou
e a alegria não veio
não veio
A menina passou
a moça passou
e a lua não veio
não veio
A menina ficou
o tempo ficou
pois a vida não veio
não veio
1 028
José Maria da Costa e Silva
Soneto
A morte da ilustríssima senhora D. Maria
Constância Lima Barbosa
Aquele coração, em que eu reinava,
O rosto, em que meus olhos se reviam,
Os lábios, que a voz doce desprendiam,
Que de minha alma os seios penetrava:
O peito, que a meu peito eu apertava,
Os braços, que amorosos me cingiam,
Mil graças, prendas mil, que revestiam
O encantador objeto, que adorava.
Tudo ao sepulcro foi com Márcia, aquela
Que eu tanto celebrei na ebúrnea lira,
Na estação juvenil, jucunda, e bela.
Márcia! Márcia cedeu da morte à ira?...
Oh! como poderá viver sem ela,
O amante, que por ela em vão suspira?
Constância Lima Barbosa
Aquele coração, em que eu reinava,
O rosto, em que meus olhos se reviam,
Os lábios, que a voz doce desprendiam,
Que de minha alma os seios penetrava:
O peito, que a meu peito eu apertava,
Os braços, que amorosos me cingiam,
Mil graças, prendas mil, que revestiam
O encantador objeto, que adorava.
Tudo ao sepulcro foi com Márcia, aquela
Que eu tanto celebrei na ebúrnea lira,
Na estação juvenil, jucunda, e bela.
Márcia! Márcia cedeu da morte à ira?...
Oh! como poderá viver sem ela,
O amante, que por ela em vão suspira?
1 117
Cunha Santos Filho
Cirrose Azul
São os testículos de Deus que agora arranco
na marcha em que não marcho pois sou manco
na mesa em que me esfumo no vinho do mal
rolo-me por mim, que sou barranco
choro de beber, choro e me tranco
que nem o olho aceita o choro do chacal
Porque quis eu dar outro murro em Cristo
com toda alma danada de um Buda misto
e ser punido, hoje, por não ter pais
se nem sequer é minha roupa e eu nem visto
quero ser homem — sou apenas quisto
quero ser carne — sou só cicatriz
Não tive a vez do azul quando do gozo
a mim foi dada a queda, nunca o pouso
e outros retesaram-me no chão
assim, ó vil cantiga que eu nem ouso
nesta cama de gato é que eu repouso
ferreado da violenta compulsão
Não irei longe. É certo, me esfarinho
o séquito do demo é o eu sozinho
o eu, ou 10, milhões mamando a paz
— por tantas vezes destruí meu ninho
sou como inseto que alagado em vinho
afoga, arqueja, sofre e bebe mais
Tridente, fogo, rastro de cometa
o mundo onde estou é uma maleta
trancada aos ais das mães e aos ais dos pais
vivo de espirros — gripe de escopeta
entregador de horror, eu estafeta
que desde que se foi, não foi jamais
Bebo meu sangue seco na tigela — e frio —
tantos se juntam pra eu ser vazio
tantos se aninham pra me reverter
eu, que de um só, após, me fiz um trio
durmo em mim mesmo e choro enquanto rio
de ver meu próprio riso apodrecer
..................................................................
Mas há um cão distante que poreja
há uma lombriga douro que me beija
e alguém que ri falido de tormento
há uma carne sem sal, que de sal seja
que eu me mudei pra um balde de cerveja
e fiz de um copo meu apartamento.
na marcha em que não marcho pois sou manco
na mesa em que me esfumo no vinho do mal
rolo-me por mim, que sou barranco
choro de beber, choro e me tranco
que nem o olho aceita o choro do chacal
Porque quis eu dar outro murro em Cristo
com toda alma danada de um Buda misto
e ser punido, hoje, por não ter pais
se nem sequer é minha roupa e eu nem visto
quero ser homem — sou apenas quisto
quero ser carne — sou só cicatriz
Não tive a vez do azul quando do gozo
a mim foi dada a queda, nunca o pouso
e outros retesaram-me no chão
assim, ó vil cantiga que eu nem ouso
nesta cama de gato é que eu repouso
ferreado da violenta compulsão
Não irei longe. É certo, me esfarinho
o séquito do demo é o eu sozinho
o eu, ou 10, milhões mamando a paz
— por tantas vezes destruí meu ninho
sou como inseto que alagado em vinho
afoga, arqueja, sofre e bebe mais
Tridente, fogo, rastro de cometa
o mundo onde estou é uma maleta
trancada aos ais das mães e aos ais dos pais
vivo de espirros — gripe de escopeta
entregador de horror, eu estafeta
que desde que se foi, não foi jamais
Bebo meu sangue seco na tigela — e frio —
tantos se juntam pra eu ser vazio
tantos se aninham pra me reverter
eu, que de um só, após, me fiz um trio
durmo em mim mesmo e choro enquanto rio
de ver meu próprio riso apodrecer
..................................................................
Mas há um cão distante que poreja
há uma lombriga douro que me beija
e alguém que ri falido de tormento
há uma carne sem sal, que de sal seja
que eu me mudei pra um balde de cerveja
e fiz de um copo meu apartamento.
1 168
Daniel Loureiro
Oscilações na Linha Tênue da Loucura
O impulso
fazia de mim
avulso.
Depois cedi
ao pulso e ele
me mantinha
aqui assim.
O discurso
que me possui
agora é outro;
é o torto
de volta à superfície.
fazia de mim
avulso.
Depois cedi
ao pulso e ele
me mantinha
aqui assim.
O discurso
que me possui
agora é outro;
é o torto
de volta à superfície.
921
Clélia Romano
Resistência
De todas as formas te resisti,
seja pela tua voz que parecia caipira,
pela cor da pele de quem fuma demais,
pelo bafo pesado de quem não respira
pelo que dizias, e não dizias mais.
Pelo beijo que me davas, com a língua
entravas entraves em minha mente,
e eu dizia chega, pára!
E paravas, fazias de morto,
como cão adestrado!
Eu te via tão submisso,
aos teus desejos e aos meus,
que menino assustado,
pobre homem castrado!
Foi dessa forma que te resisti,
sem que percebesse.
Não suportava te amar,
se te cedesse.
seja pela tua voz que parecia caipira,
pela cor da pele de quem fuma demais,
pelo bafo pesado de quem não respira
pelo que dizias, e não dizias mais.
Pelo beijo que me davas, com a língua
entravas entraves em minha mente,
e eu dizia chega, pára!
E paravas, fazias de morto,
como cão adestrado!
Eu te via tão submisso,
aos teus desejos e aos meus,
que menino assustado,
pobre homem castrado!
Foi dessa forma que te resisti,
sem que percebesse.
Não suportava te amar,
se te cedesse.
804
Chagas Val
Poema 10
A vida reinventada
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.
1 318
Dante Milano
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
1 309
Deborah Brennand
Só Alguns Cravos
Nada sei de tílias e carvalhos
agapantos, tulipas, jasmins do Cairo.
Conheço bem urtiga, as locas, o mato
algemas de cipós, liana em laços.
Por sorte, só por sorte ainda guardo,
naquele pote a colônia macerada
— dói a alma, dói e não passa —
lembrando a timidez dos bredos
selvagens.
E, agora para enfeitar uma casa
alva casa entre gramas sem trato
vôo pousado, varanda em asas
eu escolhi, só alguns cravos.
Cravos sem sangue, mas... encarnados.
agapantos, tulipas, jasmins do Cairo.
Conheço bem urtiga, as locas, o mato
algemas de cipós, liana em laços.
Por sorte, só por sorte ainda guardo,
naquele pote a colônia macerada
— dói a alma, dói e não passa —
lembrando a timidez dos bredos
selvagens.
E, agora para enfeitar uma casa
alva casa entre gramas sem trato
vôo pousado, varanda em asas
eu escolhi, só alguns cravos.
Cravos sem sangue, mas... encarnados.
1 221
Clóvis Ramos
São Luís
I
Em São Luís há sobradões, ermidas
que lembram do passado o tempo nobre,
a beleza sem par, que não se encobre
no silêncio das coisas esquecidas.
Pelas ruas estreitas e avenidas,
quanta história de amor! Basta se dobre
uma esquina e, de novo, rico ou pobre,
vibram no coração doces feridas!
Ah! tudo em São Luís vira poesia
na saudade que vem, terna saudade,
que nos maltrata e nos alivia!
E sonhando um amor, espero, ainda,
rever a terra da felicidade,
que tanto quero, com ternura infinda.
II
Estou em São Luís e, novamente,
cantarola em meu peito um amor antigo.
Digo num verso comovido e ardente,
tudo o que sinto como meu castigo.
Por uma rua ensolarada sigo
e meu pensar, talvez, ninguém pressente.
Ahi meu sonho de amor, que ainda persigo!
Ai! saudade que fere ferozmente!
Pelas praças, que flores perfumosas!
O sol as beija como beija as rosas
dos lábios da mulher que se quer bem.
São Luís é a cidade da ternura...
Em cada canto um sonho meu perdura,
perdura, em cada canto, o olhar de alguém.
Em São Luís há sobradões, ermidas
que lembram do passado o tempo nobre,
a beleza sem par, que não se encobre
no silêncio das coisas esquecidas.
Pelas ruas estreitas e avenidas,
quanta história de amor! Basta se dobre
uma esquina e, de novo, rico ou pobre,
vibram no coração doces feridas!
Ah! tudo em São Luís vira poesia
na saudade que vem, terna saudade,
que nos maltrata e nos alivia!
E sonhando um amor, espero, ainda,
rever a terra da felicidade,
que tanto quero, com ternura infinda.
II
Estou em São Luís e, novamente,
cantarola em meu peito um amor antigo.
Digo num verso comovido e ardente,
tudo o que sinto como meu castigo.
Por uma rua ensolarada sigo
e meu pensar, talvez, ninguém pressente.
Ahi meu sonho de amor, que ainda persigo!
Ai! saudade que fere ferozmente!
Pelas praças, que flores perfumosas!
O sol as beija como beija as rosas
dos lábios da mulher que se quer bem.
São Luís é a cidade da ternura...
Em cada canto um sonho meu perdura,
perdura, em cada canto, o olhar de alguém.
1 144
Camilo Mota
Mantra
torno-me puro
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
972
Carlos Newton Júnior
Pantera
Jamais a vi verdadeira
— o hálito quente e o frio olhar —
para além das rijas barras
que mundo nenhum retém:
encontrei-a nas palavras
precisas, que são ferro e pedra,
sangue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.
E eram tantas as panteras
nas diversas traduções
do mesmíssimo poema.
Em todas, o vulto negro
num silêncio ditirambo
com seus coturnos de seda.
— o hálito quente e o frio olhar —
para além das rijas barras
que mundo nenhum retém:
encontrei-a nas palavras
precisas, que são ferro e pedra,
sangue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.
E eram tantas as panteras
nas diversas traduções
do mesmíssimo poema.
Em todas, o vulto negro
num silêncio ditirambo
com seus coturnos de seda.
980
Carvalho Nogueira
Paula Ney
Era mesmo o poeta Paula Ney:
apareceu-me em sonho. Recordou
horas a fio uma porção de coisas
e leu-me uns versos que escreveu no céu.
Disse que os velhos poetas cearenses
da ingênua Fortaleza do passado
estão pedindo missa. E suas almas
continuam penando de saudade.
Contou também que, certa madrugada,
rogou licença a Deus e veio aqui
para rever a "loira desposada".
Nesse instante, seus olhos marejaram
e, quando quis falar o que faltava,
as palavras morreram de tristeza.
apareceu-me em sonho. Recordou
horas a fio uma porção de coisas
e leu-me uns versos que escreveu no céu.
Disse que os velhos poetas cearenses
da ingênua Fortaleza do passado
estão pedindo missa. E suas almas
continuam penando de saudade.
Contou também que, certa madrugada,
rogou licença a Deus e veio aqui
para rever a "loira desposada".
Nesse instante, seus olhos marejaram
e, quando quis falar o que faltava,
as palavras morreram de tristeza.
833
Carlos Magalhães de Azeredo
Despedida
Não me coroes, Alma querida, de rosas: o encanto
Da juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.
Também não me coroes de louros: a Glória não fala
Ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.
Coroa-me des heras, que abraçam as graves ruínas:
São da humildade símbolo e da tristeza eterna ...
Da juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.
Também não me coroes de louros: a Glória não fala
Ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.
Coroa-me des heras, que abraçam as graves ruínas:
São da humildade símbolo e da tristeza eterna ...
915
Carvalho Nogueira
Oração da Noite
— Meu Deus, eu agradeço mais um dia
de vida neste mundo de emoções,
também peço perdão pelos pecados
que cometi, por mais que os evitasse.
E por esses pecados, de joelhos,
perdão suplico, cheio de remorso,
pedindo forças, luzes e talento
para evitá-los quando me tentarem.
Como dissestes que a gente batesse,
que as portas se abririam de repente,
rogo pela felicidade dos meus filhos.
Pelas almas dos maus também eu rogo,
pelos que sofrem, pelos que não sabem
rezar uma palavra de perdão.
de vida neste mundo de emoções,
também peço perdão pelos pecados
que cometi, por mais que os evitasse.
E por esses pecados, de joelhos,
perdão suplico, cheio de remorso,
pedindo forças, luzes e talento
para evitá-los quando me tentarem.
Como dissestes que a gente batesse,
que as portas se abririam de repente,
rogo pela felicidade dos meus filhos.
Pelas almas dos maus também eu rogo,
pelos que sofrem, pelos que não sabem
rezar uma palavra de perdão.
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