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Poemas neste tema

Alma

Carla Dias

Carla Dias

Azul

O que vê, são pedras que o tempo cuidou para que se transformassem numa "obra além da arte".
Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.
O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.
As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,
apoiada,
escondendo-se os vestígios de seu olhar.
Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.
A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.

Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.
Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.
As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.
A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!
A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.

Queria ultrapassar.

Ele bebia sua bebida com gosto de nada.
A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.
A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.

Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.

Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!

Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!
Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.

Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...
o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.
E havia aquele que optava pela inerte indiferença.
Ele queria a provocante sensação de existir.
Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,
sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,
o gosto,
o gozo.
Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.

O que há entre seu dia e sua noite?

Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!
Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...
e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.

Há um baú cheio de revelações e,
apesar da necessidade de revira-lo,
jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.
E eu,
passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!

É que eu amo ...

E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.

Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.

Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.

Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios
e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.
Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.
Então, amo um sonho inquieto,
um homem que vive a caminhar ...
ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.

Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.
Ele a pega,
beleza ressequida e de essência medieval,
visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,
lá está estampada!

Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.
O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.
Pousam olhares azuis de "ele"
que ama e confunde-se ao sentir
o beijo que não aconteceu.

Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!

Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.

O quadro umedece a seca e estéril realidade.

Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.

Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.

Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.
A vida fere e cura.

Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...

tecendo sonhos ...

colhendo luas ....

olhando o céu ... azul.

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Daniela Name

Daniela Name

Poeta e fingidor atrás das grades

A balada do cárcere
Bruno Tolentino.
Editora Topbooks
130 páginas • R$ 20
Com quem Bruno Tolentino vai brigar desta vez? Muitos podem estar se fazendo esta pergunta agora, enquanto lêem mais uma reportagem sobre o polêmico autor de "As horas de Katharina".
Faz sentido. Tolentino se especializou em provocar debates inflamados nos jornais. Já discutiu com Caetano Veloso, os irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos, o ensaísta Antônio Paulo Graça e o poeta Ivan Junqueira. Agora, aproveita o lançamento de um novo livro para desenferrujar a metralhadora giratória.
Sentado à mesa de um restaurante no Centro, Tolentino reza para agradecer o peixe grelhado com batatas antes de começar a falar sobre "A balada do cárcere", livro de poemas que narra a sua experiência numa penitenciária de Londres. O poeta foi preso em 1989, por porte de drogas, passou 22 meses detido e acabou organizando um workshop de criação poética para os outros presos - a maioria semi-analfabeta.
- Foi nessa época que percebi que conseguia escrever sem o auxílio da cocaína - conta Tolentino. - Devo isso à cadeia. Achava que era a droga que me inspirava, porque eu tinha que achar uma explicação para tanta inspiração. Tive um longo envolvimento com o "sublime pó" e ficava espantadíssimo de escrever tão bem, mas depois vi que não era a droga que tornava meus versos magníficos: eles já eram muito bons mesmo.
Poeta diz que será compreendido pela próxima geraçãoNo almoço de duas horas, o auto-elogio aumenta à medida em que o peixe e as batatas vão sumindo do prato. Tolentino não parece se incomodar em ser mais conhecido pelo que fala nos jornais do que pelo que escreve nos livros. Perguntado se sua obra terá fôlego para continuar sendo lida daqui a cem anos, ele disse acreditar que muito antes disso os leitores já terão se rendido ao seu talento:
- Fui bonito, rico, gostoso, inteligente e poliglota, enfim, uma obra-prima - afirma. - A vaidade para mim sempre foi uma coisa natural... Quando descobri que eu também escrevia bem, me pareceu um pouquinho demais, mas era verdade. Mas sempre fui mais orgulhoso do que vaidoso. Sei que vai demorar muito menos que cem anos para eu ser lido e aceito, isso já vai se dar na próxima geração. Vão entender que sou o Fernando Pessoa daqui, que eu trouxe universalidade à nossa poesia.
Tolentino se considera um oásis de talento no deserto da poesia nacional. Acredita que as mulheres de sua geração são muito melhores que os homens, e por isso dedica "A balada do cárcere" a Orides Fontela, Adélia Prado e Neide Archanjo. Ele diz que o título de sua "balada" é um clara citação ao livro homônimo de Oscar Wilde, embora acredite que seus versos são menos pessoais que os do autor inglês.
- Dou voz a um preso, Nick, que matou a mulher. Através dele, falo da cadeia e da experiência com minha própria mulher, de quem tinha me separado um pouco antes. Enquanto escrevia, lembrava da imagem dela, belíssima, me olhando através da janela do trem. Oscar Wilde fala de si mesmo mais diretamente.
Também garante que existem diferenças em relação ao conteúdo homossexual do poema de Wilde. Acusado por Antônio Paulo Graça de ter feito um "opúsculo homossexual", Tolentino conta que ficou isolado na cadeia, por isso não recebeu nenhuma cantada:
- O único contato que tinha com os outros era na hora dos seminários de poesia. Mas lá dá vontade de fazer muita coisa, ainda mais porque minha sentença inicial era de 11 anos. Não sei o que aconteceria se eu ficasse com um daqueles homens na mesma cela. Meu poema tem um mesmo ponto de partida que o de Oscar Wilde: um sujeito que matou a mulher. Mas ele é muito mais pessoal do que eu, embora eu use o poema para refletir sobre a relação com minha mulher.
Elogiado pelo poeta Ferreira Gullar, que assina a quarta capa do livro, "A balada do cárcere" mistura a realidade da cadeia e mitologia grega e recebeu o Prêmio Cruz e Souza de 1995. Meio brincando, meio falando a verdade, Tolentino diz que irá à Academia Brasileira de Letras perguntar se vai receber o Prêmio
Machado de Assis este ano ou no ano que vem. Ele acredita que a crítica literária brasileira vive um de seus piores momentos:
- Não consigo achar nenhum crítico bom - diz ele. - São todos uns canalhas, não destaco ninguém, a não ser para o pelotão de fuzilamento. São todos podres, todos vendidos. Prestam mais atenção em Mano Caê e nos Chicos-chicos no fubá da vida do que nos verdadeiros poetas. Há uma menina que está publicando uma tese feita na Sorbonne sobre a solidão na literatura brasileira vista pela obra de Caetano Veloso. Francamente, um ensaio como esse cabe num bueiro de Liliputh. Mas nossos críticos vão dar atenção, porque não estão interessados em literatura.
O peixe já está no fim, sobram as batatas. Tolentino pede barrigas-de-freira como sobremesa, explicando minuciosamente a um espantado garçom que a culpa da "gravidez das freirinhas" não é dele. Enquanto espera, o poeta mostra que não aposentou o veneno da língua. Diz que soube por outras pessoas que tinha brigado com Ivan Junqueira, mas adorou romper relações com o poeta:
- Ele tinha me chamado para ser jurado de um concurso. Aceitei, mas resolvi sair do júri na última hora, para poder me candidatar ao prêmio. Ele ficou magoado. Tudo bem, isso foi uma bênção. Fiquei livre de uma múmia empolada. O fato de eu escrever muito bem milita contra mim, minha briga com Juju-quequeira vem daí.
Os irmãos Campos são o alvo predileto do poeta, que escreveu o ensaio "Os sapos de ontem" com o único intuito de criticar o concretismo. Para Tolentino, o movimento só pôde existir porque São Paulo é uma terra cheia de pensadores e filósofos - como Sérgio Buarque de Holanda e Sergio Milliet - mas sempre foi pobre de poetas.
- Os paulistas só produziram Vicente de Carvalho e Ribeiro Couto, este um poeta menorzinho - avalia. - Cassiano Ricardo nem comento, porque estamos à mesa. E Mario de Andrade me dá vontade de rir. O concretismo está fazendo 40 anos de farsa.
Haroldo e Augusto ainda não conseguiram ser tão bonitos por dentro quanto são por fora.

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Caio Porfírio Carneiro

Caio Porfírio Carneiro

Espelho de Duas Faces

Este livro de Rosani Abou Adal, dividido em segmentos, conforme a abordagem temática dos poemas, guarda aquela conhecida homogeneidade criadora da poeta, tão sutilmente lírica, que já a consagrou perante a crítica e o público.
Tudo que nasce do talento de Rosani é a um tempo perquirição interior e observação aguda da vida; vibração de amor, do instante erótico à sua contemplação quase divinatória; integração da própria alma à Alma da natureza e das coisas, em alcance ecológico que resiste e denuncia o vezo destruidor do homem; clamor de liberdade, no seu sentido mágico e viageiro, que a leva a outras plagas, como à procura de uma unção plena com o próprio universo; vibração do seu carma, seu id e ego maiores e inconscientes, em procura das suas raízes ancestrais, tão vívidas, como se ela própria se envolvesse num tapete mágico para uma visão e vivência amiga junto ao Nilo e às pirâmides do Egito.
A poesia de Rosani Abou Adal, toda ela, das curtas às maiores, é igualmente um espelho de duas faces, para além do que possa ela ter de multifacetada: é fotográfica e contemplativa. Ou seja: é ela mesma, poeta, e a projeção de si, não com vistas a uma imponderável continuidade da própria vida, mas um quê de busca do amor totalizante, que é, ou há de ser, a solidão somada às inquietações do mundo. O amor, aqui, é erotizante e dadivoso. A solidão, aqui, não se anula em devaneios. Há sempre um caminho de fuga. Rosani, ao mesmo tempo que expõe e mostra, contempla, sublima, vai e vem, mas sem tergiversação.

Presa no meu dormitório
tento dividir a solidão com o peixe
cercado de paredes de vidro.

Auto-retrato, um dos segmentos, não é só a visão e confissão de si própria. Soma-se a isto o que antes foi exposto na abordagem da sua poesia em conjunto.

Estou tão só dentro de mim
que até as estrelas emudeceram.

A metáfora estelar assinala a solidão sofrida e lhe dá o anteparo para que ela, poeta, por mais que se veja só, deixe entreaberta uma visão plena de vida. É que, por outro lado, o seu veio romântico é forte, chegando, às vezes, àquela fulguração só alcançada pelos bons poetas.
Todos os blocos seguem este ritmo notável de contensão e espiralação poética. Como ela própria diz: "Sou uma eremita que divaga nas ruas, / bares, matos, casas, em todos os lugares/ nos dias sem sol, nas noites sem luar e estrelas/ em busca das belezas da vida e da alma."
Rosani parece solfejar canções, espargir oferendas, com a mesma leveza dalma como vai à denúncia com o aríete e o látego. Há um pouco de magia nisto. Há um pouco de mistério invisível nestes poemas. Há um pouco de prece. Há uma totalização de vida.
A Vida exsurge plena nestes poemas de versos notáveis, treliçados de Amor latejante:

No amanhecer, ao meio-dia,
no entardecer, no silêncio da noite,
a todo instante, a cada segundo
beijo tua face, mãos, boca...

E da fragilidade vai em busca da força cósmica:

Há momentos em que me sinto
tão forte quanto as montanhas do Tibet...

Existem instantes em que sou
tão grande quanto a força divina...

Temos, nesta Catedral do Silêncio, não só silêncio ( no seu sentido metafórico), nem só sonhos (como sugeriu o Poeta), mas uma nave ampla de pulsações poéticas que vão à alma de qualquer leitor.

Leia obra poética de Rosani Abou Adal

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