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Alma

Anne Sexton

Anne Sexton

Sylvias Death

Sylvias Death

O Sylvia, Sylvia,

with a dead box of stones and spoons,

with two children, two meteors

wandering loose in a tiny playroom,

with your mouth into the sheet,

into the roofbeam, into the dumb prayer,

(Sylvia, Sylvia

where did you go

after you wrote me

from Devonshire

about raising potatoes

and keeping bees?)

what did you stand by,

just how did you lie down into?

Thief --

how did you crawl into,

crawl down alone

into the death I wanted so badly and for so long,

the death we said we both outgrew,

the one we wore on our skinny breasts,

the one we talked of so often each time

we downed three extra dry martinis in Boston,

the death that talked of analysts and cures,

the death that talked like brides with plots,

the death we drank to,

the motives and the quiet deed?

(In Boston

the dying

ride in cabs,

yes death again,

that ride home

with our boy.)

O Sylvia, I remember the sleepy drummer

who beat on our eyes with an old story,

how we wanted to let him come

like a sadist or a New York fairy

to do his job,

a necessity, a window in a wall or a crib,

and since that time he waited

under our heart, our cupboard,

and I see now that we store him up

year after year, old suicides

and I know at the news of your death

a terrible taste for it, like salt,

(And me,

me too.

And now, Sylvia,

you again

with death again,

that ride home

with our boy.)

And I say only

with my arms stretched out into that stone place,

what is your death

but an old belonging,

a mole that fell out

of one of your poems?

(O friend,

while the moons bad,

and the kings gone,

and the queens at her wits end

the bar fly ought to sing!)

O tiny mother,

you too!

O funny duchess!

O blonde thing!

February 17, 1963

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José Hélder de Souza

José Hélder de Souza

Crepúsculo Plangente

...quando o sol da já declina...
Guerra Junqueira

Crepúsculo flamejante - nesta hora a minha avó Carmelina (há quanto tempo?)
entrava na nave escura da igreja matriz de Massapê. norte cearense, para rezar
ouvindo a "Ave Maria", de Charles Gounod, tocada, num harmônio, por sua
filha Enoi, cega e muda de nascença - neste crepúsculo de agora, não menos
rutilante, o sol meteu um raio através da vidraça e iluminou de face, duas pedras
postas ao pé da estante, bem junto da bengala avoenga, seixos rolados ornando
recanto desta sala sombria cheia de coisas e de recordações, como a da avó.

Uma das pedras, em forma de uma bola ovalada do tamanho de uma mão, veio
do rio Corumbá, Pirinópolis, apanhada depois da festa de ano novo de 1983,
a data deveria estar inscrita numa de suas rotundas faces, como lápide dos dias
idos a vagar soltos na memória esgarçada, sem registro lapidar.

A outra, menor, também branca e arredondada, mas chata, sem
qualquer grafia em suas faces, veio de longe, da praia do Camocim,
ali o rio Coreaú derramando suas poucas águas no Atlântico, no Ceará,
onde chorei meus primeiros desencantos, aos 10 anos.

Mas esta pedrinha a apanhei depois, bem depois, desiludido, quando lá fui,
Já velho, procurar ( não encontrei) os dias de eu menino. As duas pedras,
brancas como o leito dos rios que já foram, rememoram as idades, o sol
insiste em luz sobre suas faces mortas não inscritas, mas cheias de visões.

Enquanto há luz crepuscular e recordativa, a visão sobe e ilumina, na mesma
estante, alto do chão, um barco que nunca navegou: tem dois palmos, convés
baixo, imita rebocador: na coberta superior dá proa carrega, como únicos marujos,
dois copinhos; na meia nau, uma achatada garrafa de cristal, continente translúcido
de avinhados sonhos, lembrança de velhos dias e amoráveis encontros com meu pai
Raymundo Olavo que já se foi sem dizer adeus mas deixou a saudade feito barco
em miniatura navegando em minha estante me enchendo de etílicos sonhos, com
dois copos para mim mesmo que vivo e libo solitário.

Os raios do sol ainda me iludem e varam a vidraça mostrando uma coruja feia,
esculpida num tronco, e pousada em ilusórios livros também de madeira. Pássaro
de inaudita face, grandes asas fechadas sobre o tronco curto, sem vôo algum, veio
de longe. Seus cornos e seus olhos apagados são de depois dos amores praianos
da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, aí como dói ser antigo, vive-se olhando
para si mesmo a - fealdade da coruja - perdidos os encantos juvenis.

Atrás da coruja, em elegante moldura, o sol, que ainda insiste em iluminar esta
pequena sala em que abrigo meus desencantos, velhos e novos, mostra um antigo
retrato de dois jovens sob a chuva caminhando, metidos em capas de "shantung",
na Avenida Barão do Rio Branco, no Rio de Janeiro: eu mesmo quando ainda
freqüentava as alegres casas da rua Alice, metido num fato de casimira preta
riscado de listas brancas que a capa de todo não escondia, fumando o cigarro da
ilusão; e ao lado, meu inesquecível amigo Bolívar (Bolivár, como se dizia) Costa,
natural de Ubajara da Serra Grande, Ceará, mas o único cosmopolita que já vira,
capaz de dissertar sobre Arist6teles ou Platão e dizer quantas faces tem o universo,
curvo ou plano, medieval ou eisensteiniano e, por entre sabença, o gosto pela arte
literária, a recitar António Nobre, o "Auto das Ânsias": "Desde o Ódio ao Tédio.
Moléstias dAlma para as quais não há remédio". Igual só ao meu nojo de agora,
neste crepúsculo... Morreu, o Bolivár, quando não devia. deixando-me a imagem
de minha inovidável mocidade, o retrato na parede, perto da estante e da coruja,
mostrando minha antigüidade e a sua irreparável ausência.

O sol e seus persistentes raios vão subindo - quanto mais sobem mais vai se
indo para o poente o astro - e vejo um pássaro pousado sobre dicionários. Pequeno,
feito não sei de que matéria, veio da China, bico amarelo, cocuruto erguido em crista,
rabo longo, fecha as asas sobre altaneiro corpo, nunca voou desde que o comprei em
Manaus, quando lá fui com minha amada Neide, faz anos, ver como correm os rios e
como voam os pássaros, não este pousado em minhas ilusões. Não sei que música
tocando na eletrola, me diz: - Passarinhos são assim mesmo, só os vemos quando
pousados, se voam nunca mais os veremos, sonhos perdidos.

Perto do memorável passarinho quietíssimo, umas rubras rosas de plástico -
puros enganos - postas em esgalgados jarros, dois, de pedra sabão: tudo, sob os
últimos raios do sol, tediosas evocações - a avó encantadora da infância, o
sortilégio das pedras, dos rios, o barco navegando em seco nas recordações
paternas, a soturna coruja e o fascínio do pássaro imóvel, os rapazes do
retrato na parede, as rosas vermelhas dos sonhos, tudo se foi, tudo se vai,
o sol morrendo, eu vendo, pela janela, seu descair no horizonte fugidio e,
no escuro de agora, as incertezas de outro amanhecer, trevas, talvez, para
sempre ...

Brasília, ao crepúsculo do dia 21 de fevereiro de 1996.

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Judas Isgorogota

Judas Isgorogota

Língua Portuguesa

Quando vieste de além, entre a incerteza
E o destemor dos teus, vestida vinhas
Da mais bela roupagem portuguesa!
Ah! quem te vira o talhe puro, as linhas
Esculturais e a excelsa realeza
De rainha de todas as rainhas!

Vinhas do Tejo múrmuro... Trazias
Na voz magoada o som das melodias,
No olhar, a queixa dos que lá se vão...
E a tristeza de todas as cigarras,
E a saudade de todas as guitarras
A soluçar, dentro do coração!

Vinhas radiante! Sob os céus pasmados,
A Cruz de Cristo nas infladas velas
Te indicava o caminha do Ideal!
E mar em fora, recordando fados,
Eras a alma das próprias caravelas
Universalizando Portugal!

E que entontecimento e que vertigem
Quando chegaste, enfim, à terra virgem,
E nela ergueste os braços teus, em cruz...
E que emoção, quando o imortal Cruzeiro
Pôs a teus pés, diante do mundo inteiro,
Sua coroa esplêndida de luz!

Depois, rendendo humilde vassalagem,
Todos te deram as pepitas de ouro
Que enfeitaram teu seio juvenil.
De então, onde fulgisse tua imagem,
Fulgia às tuas mãos o áureo tesouro,
Imensurável, deste meu Brasil!

E, certa noite, ao pé da Guanabara,
Surges envolta só na tule rara
De amor e sonhos, que te deu Jaci...
E, armas à mão, morena entre as morenas,
Tendo à cabeça teu cocar de penas,
Te lançaste à conquista de Peri!

Ah! quem te visse, após, em pleno dia,
Desnuda, ao sol, não te conheceria...
Qual irmã gêmea de Paraguassu,
Desafiavas uma raça inteira
Com teus coleios de onça traiçoeira
E com o feitiço do teu colo nu...

Mas, quem te olhasse, a sós, na noite quente,
Ah! como te acharia diferente
Ao ver-te, olhos molhados, a chorar,
Tua guitarra amiga dedilhando,
O teu fado liró, triste, cantando
E os dois olhos perdidos lá no mar...

Se me alegra o te ver brasileirinha,
Oh! lusitana e doce língua minha,
Não me envaidece, entanto, essa ilusão...
Que hás de ser portuguesa, na verdade,
Enquanto houver no mundo uma saudade,
Uma guitarra, um fado e um coração!

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