Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Charles Bukowski
A Sova do Consolo
numa semana eu tive 6 mulheres diferentes
em 6 camas diferentes
(tirei uma quinta-feira de folga
para descansar)
e só falhei
sexualmente
uma noite,
a última noite da semana:
aconteceu quando eu estava em ação.
ela levou para o lado pessoal.
agora fiquei com uma só mulher
e eu não a traio.
quando você constata que pode se foder
facilmente
você constata que não precisa sair
por aí
simplesmente fodendo mulheres
e usando seus banheiros e seus
chuveiros e suas toalhas
e suas entranhas,
seus pensamentos, seus
sentimentos.
agora tenho um belo jardim lá fora.
ela o plantou.
eu o rego diariamente.
vasos de plantas pendem de cordas.
estou em paz.
ela fica aqui 3 dias por semana
então volta para sua casa.
o carteiro me pergunta: “ei, o que
aconteceu com todas as suas mulheres? você
costumava ter umas duas delas
sentadas na sua varanda quando eu passava
por aqui...”
“Sam”, eu lhe digo, “eu estava começando
a me sentir como um consolo...”
o cara da entrega de bebidas aparece:
“ei, cara! onde foi parar a mulherada toda?
você está sozinho nesta noite...”
“mais bebida pra mim,
Ernie...”
fodi a cidade, bebi a
metrópole, trepei com o país,
mijei no universo.
resta pouco a fazer exceto
firmar posição e relaxar.
tenho um belo jardim.
tenho uma mulher adorável.
já não me sinto como um
consolo.
eu me sinto como um homem.
a sensação é bem
melhor, é
mesmo. não se preocupem
comigo.
em 6 camas diferentes
(tirei uma quinta-feira de folga
para descansar)
e só falhei
sexualmente
uma noite,
a última noite da semana:
aconteceu quando eu estava em ação.
ela levou para o lado pessoal.
agora fiquei com uma só mulher
e eu não a traio.
quando você constata que pode se foder
facilmente
você constata que não precisa sair
por aí
simplesmente fodendo mulheres
e usando seus banheiros e seus
chuveiros e suas toalhas
e suas entranhas,
seus pensamentos, seus
sentimentos.
agora tenho um belo jardim lá fora.
ela o plantou.
eu o rego diariamente.
vasos de plantas pendem de cordas.
estou em paz.
ela fica aqui 3 dias por semana
então volta para sua casa.
o carteiro me pergunta: “ei, o que
aconteceu com todas as suas mulheres? você
costumava ter umas duas delas
sentadas na sua varanda quando eu passava
por aqui...”
“Sam”, eu lhe digo, “eu estava começando
a me sentir como um consolo...”
o cara da entrega de bebidas aparece:
“ei, cara! onde foi parar a mulherada toda?
você está sozinho nesta noite...”
“mais bebida pra mim,
Ernie...”
fodi a cidade, bebi a
metrópole, trepei com o país,
mijei no universo.
resta pouco a fazer exceto
firmar posição e relaxar.
tenho um belo jardim.
tenho uma mulher adorável.
já não me sinto como um
consolo.
eu me sinto como um homem.
a sensação é bem
melhor, é
mesmo. não se preocupem
comigo.
741
Charles Bukowski
É Nosso
há sempre aquele espaço ali
pouco antes de nos pegarem
aquele espaço
aquele belo relaxante
o respiro
quando estamos, digamos,
desabados numa cama
pensando em nada
ou digamos
enchendo um copo com água da
torneira
quando estamos enlevados pelo
nada
aquele
espaço
puro e suave
vale
séculos de
existência
digamos
só pra você coçar o pescoço
ao contemplar pela janela um
galho nu
aquele espaço
ali
antes de nos pegarem
garante
que
quando pegarem
não vão
pegar tudo
jamais.
pouco antes de nos pegarem
aquele espaço
aquele belo relaxante
o respiro
quando estamos, digamos,
desabados numa cama
pensando em nada
ou digamos
enchendo um copo com água da
torneira
quando estamos enlevados pelo
nada
aquele
espaço
puro e suave
vale
séculos de
existência
digamos
só pra você coçar o pescoço
ao contemplar pela janela um
galho nu
aquele espaço
ali
antes de nos pegarem
garante
que
quando pegarem
não vão
pegar tudo
jamais.
1 191
Charles Bukowski
Um Poema Ordinário
já que vocês sempre quiseram
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
1 113
Charles Bukowski
A Maldição Mágica
nunca gostei da ideia de morar na rua então mantive distância da sopa
dos pobres, dos bancos de sangue e das assim chamadas
doações.
fiquei tão terrivelmente magro que se
eu virasse de lado era difícil enxergar minha sombra sob um
sol forte do meio-dia.
não tinha importância para mim contanto que eu mantivesse distância da
multidão
e mesmo lá embaixo se tratava de
uma multidão exitosa e de uma multidão
fracassada.
não creio que eu fosse louco
mas muitos dos
loucos acham
isso
mas eu acho
agora
que se algo me salvou
foi o fato de ter evitado a
multidão
isso foi minha
comida
ainda
é.
me coloquem numa sala com mais do que
3 pessoas
eu tendo a me comportar
de um jeito bem
esquisito.
uma vez
até perguntei à minha esposa: escuta, eu devo ter
uma doença... será que devo procurar um
psiquiatra?
meu Deus, eu disse, ele é capaz de me curar
e aí o que é que eu vou
fazer?
ela só ficou me olhando
e nós esquecemos
a coisa
toda.
dos pobres, dos bancos de sangue e das assim chamadas
doações.
fiquei tão terrivelmente magro que se
eu virasse de lado era difícil enxergar minha sombra sob um
sol forte do meio-dia.
não tinha importância para mim contanto que eu mantivesse distância da
multidão
e mesmo lá embaixo se tratava de
uma multidão exitosa e de uma multidão
fracassada.
não creio que eu fosse louco
mas muitos dos
loucos acham
isso
mas eu acho
agora
que se algo me salvou
foi o fato de ter evitado a
multidão
isso foi minha
comida
ainda
é.
me coloquem numa sala com mais do que
3 pessoas
eu tendo a me comportar
de um jeito bem
esquisito.
uma vez
até perguntei à minha esposa: escuta, eu devo ter
uma doença... será que devo procurar um
psiquiatra?
meu Deus, eu disse, ele é capaz de me curar
e aí o que é que eu vou
fazer?
ela só ficou me olhando
e nós esquecemos
a coisa
toda.
1 225
Charles Bukowski
Todo Mundo Fala Demais
quando
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
1 065
Charles Bukowski
Bem, É Assim Que É...
às vezes quando tudo parece estar no
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
1 152
Charles Bukowski
Zero
sentado aqui olhando o ponteiro de segundos do TIMEX dar voltas e mais
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
1 234
Charles Bukowski
Sozinho Num Tempo de Exércitos
eu tinha 22 anos naquela pensão na Filadélfia e eu estava faminto e
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
1 091
Charles Bukowski
Algumas Pessoas
algumas pessoas nunca enlouquecem.
eu, por exemplo, me deitarei atrás do sofá
por 3 ou 4 dias.
me encontrarão ali.
é Querubim, dirão, e
verterão vinho por minha garganta
esfregarão meu peito
hão de me ungir com óleos.
então, me erguerei com um rugido,
um brado, fúria –
amaldiçoarei a todos e ao universo
enquanto lançarei seus pedaços sobre o
gramado.
me sentirei muito melhor
sentado junto a ovos e torradas,
murmurando uma cançãozinha
de súbito me torno tão adorável e
rosado como
uma baleia empanturrada.
algumas pessoas nunca enlouquecem.
que vidas verdadeiramente horrendas
elas devem levar.
eu, por exemplo, me deitarei atrás do sofá
por 3 ou 4 dias.
me encontrarão ali.
é Querubim, dirão, e
verterão vinho por minha garganta
esfregarão meu peito
hão de me ungir com óleos.
então, me erguerei com um rugido,
um brado, fúria –
amaldiçoarei a todos e ao universo
enquanto lançarei seus pedaços sobre o
gramado.
me sentirei muito melhor
sentado junto a ovos e torradas,
murmurando uma cançãozinha
de súbito me torno tão adorável e
rosado como
uma baleia empanturrada.
algumas pessoas nunca enlouquecem.
que vidas verdadeiramente horrendas
elas devem levar.
1 354
Charles Bukowski
O Corpo
estive
enforcado aqui
decapitado
há tanto tempo
que o corpo já esqueceu
por que
ou onde ou quando isto
aconteceu
e os dedos dos pés
avançam em sapatos
que não estão nem
aí
e ainda que
os dedos das mãos
fatiem coisas e
segurem coisas e
movam coisas e
toquem
coisas
como
laranjas
maçãs
cebolas
livros
corpos
já não tenho
suficiente certeza
do que essas coisas
são
são em sua maioria
como
lamparina e
névoa
então com frequência as mãos
buscarão pela
cabeça perdida
como as mãos de uma
criança
em volta de uma bola
um bloco
de ar e madeira –
sem dentes
sem partes pensantes
e quando uma janela
se escancara
para uma
igreja
colina
mulher
cachorro
ou algum ser cantante
os dedos da mão
são insensíveis à vibração
porque eles não possuem
ouvidos
insensíveis à cor porque
eles não têm
olhos
insensíveis ao cheiro
por não terem nariz
o país prossegue assim
sem sentido
os continentes
as luzes diurnas e as noites
brilham
nas minhas
unhas sujas
e em algum espelho
meu rosto
um bloco para desaparecer
parte gasta da bola de uma
criança
enquanto todos os lugares se
movem
vermes e aviões
fogos na terra
altas violetas em santidade
minhas mãos deixam tudo ir tudo ir
tudo ir
enforcado aqui
decapitado
há tanto tempo
que o corpo já esqueceu
por que
ou onde ou quando isto
aconteceu
e os dedos dos pés
avançam em sapatos
que não estão nem
aí
e ainda que
os dedos das mãos
fatiem coisas e
segurem coisas e
movam coisas e
toquem
coisas
como
laranjas
maçãs
cebolas
livros
corpos
já não tenho
suficiente certeza
do que essas coisas
são
são em sua maioria
como
lamparina e
névoa
então com frequência as mãos
buscarão pela
cabeça perdida
como as mãos de uma
criança
em volta de uma bola
um bloco
de ar e madeira –
sem dentes
sem partes pensantes
e quando uma janela
se escancara
para uma
igreja
colina
mulher
cachorro
ou algum ser cantante
os dedos da mão
são insensíveis à vibração
porque eles não possuem
ouvidos
insensíveis à cor porque
eles não têm
olhos
insensíveis ao cheiro
por não terem nariz
o país prossegue assim
sem sentido
os continentes
as luzes diurnas e as noites
brilham
nas minhas
unhas sujas
e em algum espelho
meu rosto
um bloco para desaparecer
parte gasta da bola de uma
criança
enquanto todos os lugares se
movem
vermes e aviões
fogos na terra
altas violetas em santidade
minhas mãos deixam tudo ir tudo ir
tudo ir
1 377
Charles Bukowski
Não Apareça Por Aqui, Mas Se Você Vier...
sim, claro, estarei por aqui a não ser que tenha saído
não bata se as luzes estiverem apagadas
ou se ouvir vozes ou quando eu
possa estar lendo Proust
se alguém tiver passado um Proust por debaixo da porta
ou algum dos ossos dele para o meu ensopado,
e não posso emprestar dinheiro ou
o telefone
ou o que resta do meu carro
embora eu possa conseguir para você o jornal de ontem
uma velha camisa ou um sanduíche à bolonhesa
ou um sofá para dormir
se você não é de gritar à noite
e pode falar sobre suas coisas
isso é normal;
tempos difíceis se abatem sobre todos nós
a diferença é que não estou tentando criar uma família
para mandar para Harvard
ou comprar propriedades de caça,
não estou mirando alto
tento apenas me manter vivo
um pouco mais de tempo,
assim se você às vezes bater à porta
e eu não responder
e não houver uma mulher por aqui
talvez eu tenha quebrado a mandíbula
e esteja atrás de um arame
ou atrás das borboletas no meu
papel de parede,
quero dizer que se eu não atendo
eu não atendo, e o motivo é que
ainda não estou pronto para matar você
ou amar ou mesmo aceitar você,
significa que não quero falar
que estou ocupado, louco, satisfeito
ou preparando uma corda para o enforcamento;
então mesmo que você veja as luzes acesas
e escute algum som
de respiração ou reza ou cantoria
de um rádio ou dos dados rolando
ou da máquina de escrever –
vá embora, não é o dia
a noite, a hora certa;
não se trata da ignorância da falta de polidez,
não quero machucar ninguém, nem mesmo um inseto
mas é que às vezes eu reúno evidências de um certo tipo
que requer alguma classificação
e seus olhos azuis, sejam eles azuis
e seus cabelos, se você os tem
ou sua mente – eles não podem entrar
até que a corda esteja cortada ou atada
ou até que eu tenha me barbeado
em novos espelhos, até que o mundo
tenha parado ou se aberto
para sempre.
não bata se as luzes estiverem apagadas
ou se ouvir vozes ou quando eu
possa estar lendo Proust
se alguém tiver passado um Proust por debaixo da porta
ou algum dos ossos dele para o meu ensopado,
e não posso emprestar dinheiro ou
o telefone
ou o que resta do meu carro
embora eu possa conseguir para você o jornal de ontem
uma velha camisa ou um sanduíche à bolonhesa
ou um sofá para dormir
se você não é de gritar à noite
e pode falar sobre suas coisas
isso é normal;
tempos difíceis se abatem sobre todos nós
a diferença é que não estou tentando criar uma família
para mandar para Harvard
ou comprar propriedades de caça,
não estou mirando alto
tento apenas me manter vivo
um pouco mais de tempo,
assim se você às vezes bater à porta
e eu não responder
e não houver uma mulher por aqui
talvez eu tenha quebrado a mandíbula
e esteja atrás de um arame
ou atrás das borboletas no meu
papel de parede,
quero dizer que se eu não atendo
eu não atendo, e o motivo é que
ainda não estou pronto para matar você
ou amar ou mesmo aceitar você,
significa que não quero falar
que estou ocupado, louco, satisfeito
ou preparando uma corda para o enforcamento;
então mesmo que você veja as luzes acesas
e escute algum som
de respiração ou reza ou cantoria
de um rádio ou dos dados rolando
ou da máquina de escrever –
vá embora, não é o dia
a noite, a hora certa;
não se trata da ignorância da falta de polidez,
não quero machucar ninguém, nem mesmo um inseto
mas é que às vezes eu reúno evidências de um certo tipo
que requer alguma classificação
e seus olhos azuis, sejam eles azuis
e seus cabelos, se você os tem
ou sua mente – eles não podem entrar
até que a corda esteja cortada ou atada
ou até que eu tenha me barbeado
em novos espelhos, até que o mundo
tenha parado ou se aberto
para sempre.
1 173
Charles Bukowski
Uma Nota Sobre Cartas de Rejeição
não é lá coisa muito boa
não conseguir entender
se se trata da
parede
da mente humana
sono
plena consciência
sexo
excreção
ou quase tudo
que você possa nomear
ou
não.
quando uma galinha
apanha sua minhoca
a galinha entende
e quando a minhoca
pega você
(morto ou vivo)
sou obrigado a dizer,
mesmo através de sua falta
de sensibilidade,
que a minhoca o
desfruta.
é como quando você
mandar este poema
de volta
e eu descobrirei
que ele não
conseguiu ser entendido
ou havia
minhocas mais gordas
ou a galinha
não conseguia
enxergar.
da próxima vez
que quebrar um ovo
pensarei em
você.
mexer com um
garfo
e então acender
o fogo
se eu
tiver
um.
não conseguir entender
se se trata da
parede
da mente humana
sono
plena consciência
sexo
excreção
ou quase tudo
que você possa nomear
ou
não.
quando uma galinha
apanha sua minhoca
a galinha entende
e quando a minhoca
pega você
(morto ou vivo)
sou obrigado a dizer,
mesmo através de sua falta
de sensibilidade,
que a minhoca o
desfruta.
é como quando você
mandar este poema
de volta
e eu descobrirei
que ele não
conseguiu ser entendido
ou havia
minhocas mais gordas
ou a galinha
não conseguia
enxergar.
da próxima vez
que quebrar um ovo
pensarei em
você.
mexer com um
garfo
e então acender
o fogo
se eu
tiver
um.
1 006
Charles Bukowski
Multa
abandonei mais uma vez o emprego
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
1 187
Charles Bukowski
Feijão Com Alho
isto basta em sua importância:
resfrie seus sentimentos,
isto é melhor do que se barbear
ou cozinhar feijão com alho.
é o mínimo que podemos fazer
esta pequena bravura de conhecimento
e claro que há
também loucura e terror
em saber
que uma parte de você
em que se deu corda como a um relógio
não pode jamais voltar a girar
uma vez que pare.
mas agora
há um tique-taque debaixo de sua camisa
e você mexe os feijões com uma colher,
um amor morto, um amor distante
outro amor...
ah! tantos amores quanto feijões
sim, conte-os agora
triste, triste
seus sentimentos fervendo sobre a chama,
abaixe o fogo.
resfrie seus sentimentos,
isto é melhor do que se barbear
ou cozinhar feijão com alho.
é o mínimo que podemos fazer
esta pequena bravura de conhecimento
e claro que há
também loucura e terror
em saber
que uma parte de você
em que se deu corda como a um relógio
não pode jamais voltar a girar
uma vez que pare.
mas agora
há um tique-taque debaixo de sua camisa
e você mexe os feijões com uma colher,
um amor morto, um amor distante
outro amor...
ah! tantos amores quanto feijões
sim, conte-os agora
triste, triste
seus sentimentos fervendo sobre a chama,
abaixe o fogo.
1 298
Charles Bukowski
Torres de Metralhadora & Relógios de Ponto
sinto-me logrado por néscios
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
716
Charles Bukowski
Alma
oh, como eles se preocupam com minha
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
1 293
Charles Bukowski
Chopin Bukowski
este é meu piano.
o telefone toca e as pessoas perguntam,
o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?
e eu digo,
estou ao piano.
o quê?
desligo.
as pessoas precisam de mim. eu as
completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.
mas se as vejo muito seguido
eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.
meu piano me diz coisas em
troca.
às vezes as coisas estão
confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.
às vezes me sinto enferrujado
desafinado. isso
faz parte.
posso me sentar e vomitar sobre as
teclas
mas é meu
vômito.
é melhor do que sentar em uma sala
com 3 ou 4 pessoas e
seus pianos.
este é meu piano
e é melhor que os deles.
e eles gostam e desgostam
dele.
o telefone toca e as pessoas perguntam,
o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?
e eu digo,
estou ao piano.
o quê?
desligo.
as pessoas precisam de mim. eu as
completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.
mas se as vejo muito seguido
eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.
meu piano me diz coisas em
troca.
às vezes as coisas estão
confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.
às vezes me sinto enferrujado
desafinado. isso
faz parte.
posso me sentar e vomitar sobre as
teclas
mas é meu
vômito.
é melhor do que sentar em uma sala
com 3 ou 4 pessoas e
seus pianos.
este é meu piano
e é melhor que os deles.
e eles gostam e desgostam
dele.
1 287
Manuel Bandeira
Retrato
O sorriso escasso,
O riso-sorriso,
À risada nunca.
(Como quem consigo
Traz o sentimento
Do madrasto mundo.)
Com os braços colados
Ao longo do corpo,
Vai pela cidade
Grande e cafajeste,
Com o mesmo ar esquivo
Que escolheu nascendo
Na esquiva Itabira.
Aprendeu com ela
Os olhos metálicos
Com que vê as coisas:
Sem ódio, sem ênfase,
Às vezes com náusea.
Ferro de Itabira,
Em cujos recessos
Um vedor, um dia,
Um vedor — o neto —
Descobriu infante
As fundas nascentes,
O veio, o remanso
Da escusa ternura.
O riso-sorriso,
À risada nunca.
(Como quem consigo
Traz o sentimento
Do madrasto mundo.)
Com os braços colados
Ao longo do corpo,
Vai pela cidade
Grande e cafajeste,
Com o mesmo ar esquivo
Que escolheu nascendo
Na esquiva Itabira.
Aprendeu com ela
Os olhos metálicos
Com que vê as coisas:
Sem ódio, sem ênfase,
Às vezes com náusea.
Ferro de Itabira,
Em cujos recessos
Um vedor, um dia,
Um vedor — o neto —
Descobriu infante
As fundas nascentes,
O veio, o remanso
Da escusa ternura.
1 442
Manuel Bandeira
Elegia de Agosto
Não os decepcionarei.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
936
Manuel Bandeira
André
André, André, André,
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
1 069
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira
(Sousa Bandeira.
O nome inteiro
Tinha Carneiro.)
Eu me interrogo:
— Manuel Bandeira,
Quanta besteira!
Olha uma cousa:
Por que não ousa
Assinar logo
Manuel de Sousa?
(Sousa Bandeira.
O nome inteiro
Tinha Carneiro.)
Eu me interrogo:
— Manuel Bandeira,
Quanta besteira!
Olha uma cousa:
Por que não ousa
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Manuel de Sousa?
1 138
Manuel Bandeira
Bonheur Lyrique
Coeur de phtisique
O mon ceeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Um bonheur qui soit comme le piteux lustucru en chiffon d'une enfant pauvre
— Fait par elle-même.
O mon ceeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Um bonheur qui soit comme le piteux lustucru en chiffon d'une enfant pauvre
— Fait par elle-même.
1 492
Manuel Bandeira
Versos de Natal
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pór os seus chinelinhos atrás da porta.
1939
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pór os seus chinelinhos atrás da porta.
1939
2 407
Manuel Bandeira
Epílogo
Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...
Quando o acabei — a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta mortacor
Da senilidade e da amargura...
— O meu carnaval sem nenhuma alegria!...
1919
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...
Quando o acabei — a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta mortacor
Da senilidade e da amargura...
— O meu carnaval sem nenhuma alegria!...
1919
1 310