Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Paulo F. Cunha
Solidão
Eu me examino na solidão ,
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
769
Oliveira Roma
Ciência Humana
Sentindo quanto ardor um visionário sente,
Sonhando uma verdade ideal mas fugidia,
Segue o Homem, a lutar, por essa estranha via
Que liga o berço ansioso ao túmulo silente.
Perscruta, indaga, inquire e, dolorosamente,
Vacila a cada passo, e vaga em fantasia,
Pois a meta final é como a orla sombria
Do horizonte, que foge, inconstante, da gente.
Um momento parece alcançar o que quer;
Logo, porém, resvala, impróvido e impotente,
Num engano grosseiro e insólito qualquer.
E nessas mutações os dias se consomem...
Na dúvida consiste, inevitavelmente,
O resumo total de toda a ciência do Homem!
Sonhando uma verdade ideal mas fugidia,
Segue o Homem, a lutar, por essa estranha via
Que liga o berço ansioso ao túmulo silente.
Perscruta, indaga, inquire e, dolorosamente,
Vacila a cada passo, e vaga em fantasia,
Pois a meta final é como a orla sombria
Do horizonte, que foge, inconstante, da gente.
Um momento parece alcançar o que quer;
Logo, porém, resvala, impróvido e impotente,
Num engano grosseiro e insólito qualquer.
E nessas mutações os dias se consomem...
Na dúvida consiste, inevitavelmente,
O resumo total de toda a ciência do Homem!
805
Paulo F. Cunha
Transparência
Por que , quando estás perto ,
sou transparente à ti ?
Por que , quando estás longe
sou transparente ao mundo ?
Por que não sou sólido , opaco
como os outros ?
Ou será que não vejo os outros ,
preocupado com minha transparência . ,
sou transparente à ti ?
Por que , quando estás longe
sou transparente ao mundo ?
Por que não sou sólido , opaco
como os outros ?
Ou será que não vejo os outros ,
preocupado com minha transparência . ,
954
Ona Gaia
Quando a alma
Quando a alma
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
833
Ona Gaia
Cacófato Mental
Não importa a marca
semente com mente
não mente
semente sem mente
demente
semente demente
somente.
semente com mente
não mente
semente sem mente
demente
semente demente
somente.
1 040
Ona Gaia
O Sentido do Amor
Devir Louco
Que me desculpem os seus exacerbados paladinos, mas o devir louco é o reino das paixões. E a paixão? oh! a paixão, o que é isto caro leitor? É bem possível que você tenha a sua opinião. Apesar disso, permita que eu externe a minha. Bem, antes de mais nada a coloquemos no seu devido lugar, ou seja, dentro do corpo. Afinal, toda e qualquer paixão emana do corpo e o corpo é a sua fonte primeira e última. No corpo, a paixão é uma das nossas emoções, como o medo, o susto, a alegria, a coragem e etc. Inclusive, delas, é a principal, posto ser através da paixão que os animais suprem suas necessidades básicas, como a alimentação e o acasalamento. Decididamente, por ser uma emoção básica em qualquer animal, a paixão não é uma conquista da civilização ou da cultura. A paixão, sem dúvida, não é uma invenção humana.
Os seres humanos, entretanto, incorporaram as diversas paixões possíveis, isto é, as emoções, aos seus códigos, símbolos e condutas culturais. Entre os procedimentos necessários da paixão, decodificados e incorporados nas manifestações culturais, um dos mais antigos é a postura de caçador. Esta veio a ser a base modeladora de muitos mitos e ritos ao longo dos 100 mil anos de existência do Homo sapiens sapiens. No bojo dessa postura caçadora veio a paixão pela guerra.
Como condição necessária da vida animal, as emoções evocam situações restritivas uma vez que as necessidades são necessárias apenas enquanto o prazer é ausente. Se há falta, há necessidade e a sua satisfação é o seu limite. Além da necessidade há outra coisa, mas não mais o domínio da emoção. Há sentimento. Porém, a satisfação de uma paixão é o fim e início de outra falta. O ciclo gira em torno da necessidade, da falta e da satisfação, que neste caso, é sempre provisória: mais cedo ou mais tarde o caçador deverá sair à campo atrás de mais caça. E a satisfação, então passageira, não será nada mais ou nada menos do que o retorno da superação de uma necessidade insistindo em voltar. O retorno da necessidade através da permanência da falta, aflora assim que o desejo é satisfeito.
Não há como escapar disso amigo. Se a paixão é uma emoção necessária, sua satisfação deverá ser permanentemente ratificada. Neste caso, enquanto expressão básica da vida animal, a paixão existe porque existe a fome e a reprodução, que garantem a sobrevivência das espécies. Portanto, a paixão está presente no ser humano, assim como está presente nos animais selvagens, sejam mamíferos, répteis ou aves, porque é um instinto básico da luta pela sobrevivência. A paixão, quem diria, hem? é uma emoção demasiada animal!
A guerra só é possível quando existe a paixão por uma causa, na qual a luta pela sobrevivência, traduzida como necessidade de conquista, é um poderoso argumento de convencimento. Entretanto, se é necessidade, isto é, se a paixão é da conta dos instintos e, obviamente, do corpo, então seus parâmetros emocionais estão diretamente relacionados aos ciclos vitais. Ciclos esses que se colocam entre o nascimento e a morte. Em síntese, entre o prazer da vida (o prazer do ganho) e a dor da morte ( dor da perda).
Enquanto substrato de emoções tão díspares, como aquelas que se manifestam no prazer ou na dor, a paixão se manifesta positiva ou negativamente, dependendo do nível da falta a ser satisfeita. Em nome da satisfação da necessidade ausente, a luta e a morte são perfeitamente justificáveis.
Ah, a morte! Limite de toda e qualquer necessidade: a morte de um em prol da permanência de outro; o caçador mata a caça para permanecer vivo; para suprir uma falta só identificável na sua necessidade particular; identidade que só enxerga a si mesmo, acabando por excluir tudo o que é diferente, externo ou estranho. Porém, a natureza caçadora desconhece que ninguém abate uma presa impunemente. Todos os atos efetivados, unicamente, com a emoção da conquista, compromete os corpos envolvidos para sempre. Portanto, a conquista do outro ou do mundo, para a glória do ego, compromete o eu, o outro e ou o mundo, numa mesma miragem sem cor.
Como a paixão se manifesta no corpo, para o corpo e pela química do corpo, que segundo alguns até pode ser identificada e quantificada, ele é a sua catedral. Por isso que a morte desde o início, foi uma questão importante para a consciência. Uma vez que todo esforço visava a manutenção do corpo, como a sua ruína poderia ser tão inexorável, irrevogável, inevitável e improrrogável? Não, não poderia. A morte não era o limite do corpo e, com isto, descobriram a alma, coisa cuja estrutura invisível, sobrevivia além da carne. Opa, incrível! para espanto de alguns, logo descobriram que a alma também apresentava necessidades a serem satisfeitas. Daí inventaram a religião e, as suas manifestações, que desde sempre, foram expressadas através da paixão. Trágica paixão.
As necessidades da alma seriam carências muito profundas que, por sua vez, no extremo oposto, estavam na essência da vida. Por isto o homem inventou este artifício chamado religião, decidido a suprir a maior de todas as faltas, a da vida depois da morte. Visando preencher suas bases: falta, identidade, necessidade e exclusão; desviaram todos os recursos excedentes - aqueles os quais ficaram além das necessidades, quando foram produzidos ao longo do desenvolvimento das civilizações urbanas -, para um corpo invisível, intangível e cujas necessidades e faltas, de fato, ninguém sabia dizer ao certo quais eram. E muitos, em nome disto, se desviaram da natureza e do próprio corpo, porque quiseram acreditar que a vida, a eterna, não era física, porém incorpórea; incomensurável e perfeita mas no entanto, absolutamente fora deste mundo.
Projetada para o espaço inatingível, a paixão criou deuses, santos e até homens coroados por espíritos sobrenaturais, que se apropriando de necessidades divinas impossíveis, justificaram conquistas, massacres, extermínios e a exploração de uns poucos sobre a maioria. E o poder de alguns homens ser mais especial que dos demais mortais, encontrava justificativa por estes se nomearem os representantes, na Terra, das necessidades espirituais segundo as quais eles deveriam suprir.
Está claro que a paixão é eminentemente masculina. Afinal ela não foi aperfeiçoada pelo caçador e pelo guerreiro? Então!?!.. Nada de ilusão, óbvio que ela também está presente na mulher. Aliás, a eminência masculina da paixão no ser humano não se manifesta, forçosamente, do mesmo modo como nos demais representantes do reino animal. É mais que sabido, que entre os leões, por exemplo, são as fêmeas que caçam. Entretanto, cada animal é um animal e embora a paixão se manifeste em todos, foram os homens, através da caça e da guerra, que lapidaram e legaram às civilizações, a atitude apaixonada. A paixão, na mulher, veio a ser reconhecida apenas quando a alma foi descoberta. E o ingresso delas nos rituais até então masculinos, de iniciação espiritual, veio a ser tardio.
Entre as paixões que se manifestam na mulher, a especial, é a que diz respeito à reprodução. Por conta disto a paixão, na mulher, é mais objetivamente (efetivamente) agradável do que no homem. Ou seja, a mulher sente no corpo a satisfação da necessidade reprodutora. Através do sexo, a mulher tem no prazer, algo muito mais objetivo que o homem. Nele, as paixões da caça, guerra e religião, tornam-no mais subjetivo, muito mais estratégico. Na mulher não. Seu corpo físico é um campo de emoções poderosas, pois dele emanam sensações orgânicas, muito mais ricas do que nos homens. Mas ela também está entre o prazer e a dor e nela isto é muito mais bem percebido, visto não adiantar a satisfação de certas faltas, mesmo na fartura haverá a menstruação e senão, a dor do parto.
Na base da nossa atual civilização, entre as paixões, aquelas que foram consideradas as mais importantes de todas, são as da alma. E com um significado trágico: na Idade Média isto se tornou mais claro, ao interpretarem
Que me desculpem os seus exacerbados paladinos, mas o devir louco é o reino das paixões. E a paixão? oh! a paixão, o que é isto caro leitor? É bem possível que você tenha a sua opinião. Apesar disso, permita que eu externe a minha. Bem, antes de mais nada a coloquemos no seu devido lugar, ou seja, dentro do corpo. Afinal, toda e qualquer paixão emana do corpo e o corpo é a sua fonte primeira e última. No corpo, a paixão é uma das nossas emoções, como o medo, o susto, a alegria, a coragem e etc. Inclusive, delas, é a principal, posto ser através da paixão que os animais suprem suas necessidades básicas, como a alimentação e o acasalamento. Decididamente, por ser uma emoção básica em qualquer animal, a paixão não é uma conquista da civilização ou da cultura. A paixão, sem dúvida, não é uma invenção humana.
Os seres humanos, entretanto, incorporaram as diversas paixões possíveis, isto é, as emoções, aos seus códigos, símbolos e condutas culturais. Entre os procedimentos necessários da paixão, decodificados e incorporados nas manifestações culturais, um dos mais antigos é a postura de caçador. Esta veio a ser a base modeladora de muitos mitos e ritos ao longo dos 100 mil anos de existência do Homo sapiens sapiens. No bojo dessa postura caçadora veio a paixão pela guerra.
Como condição necessária da vida animal, as emoções evocam situações restritivas uma vez que as necessidades são necessárias apenas enquanto o prazer é ausente. Se há falta, há necessidade e a sua satisfação é o seu limite. Além da necessidade há outra coisa, mas não mais o domínio da emoção. Há sentimento. Porém, a satisfação de uma paixão é o fim e início de outra falta. O ciclo gira em torno da necessidade, da falta e da satisfação, que neste caso, é sempre provisória: mais cedo ou mais tarde o caçador deverá sair à campo atrás de mais caça. E a satisfação, então passageira, não será nada mais ou nada menos do que o retorno da superação de uma necessidade insistindo em voltar. O retorno da necessidade através da permanência da falta, aflora assim que o desejo é satisfeito.
Não há como escapar disso amigo. Se a paixão é uma emoção necessária, sua satisfação deverá ser permanentemente ratificada. Neste caso, enquanto expressão básica da vida animal, a paixão existe porque existe a fome e a reprodução, que garantem a sobrevivência das espécies. Portanto, a paixão está presente no ser humano, assim como está presente nos animais selvagens, sejam mamíferos, répteis ou aves, porque é um instinto básico da luta pela sobrevivência. A paixão, quem diria, hem? é uma emoção demasiada animal!
A guerra só é possível quando existe a paixão por uma causa, na qual a luta pela sobrevivência, traduzida como necessidade de conquista, é um poderoso argumento de convencimento. Entretanto, se é necessidade, isto é, se a paixão é da conta dos instintos e, obviamente, do corpo, então seus parâmetros emocionais estão diretamente relacionados aos ciclos vitais. Ciclos esses que se colocam entre o nascimento e a morte. Em síntese, entre o prazer da vida (o prazer do ganho) e a dor da morte ( dor da perda).
Enquanto substrato de emoções tão díspares, como aquelas que se manifestam no prazer ou na dor, a paixão se manifesta positiva ou negativamente, dependendo do nível da falta a ser satisfeita. Em nome da satisfação da necessidade ausente, a luta e a morte são perfeitamente justificáveis.
Ah, a morte! Limite de toda e qualquer necessidade: a morte de um em prol da permanência de outro; o caçador mata a caça para permanecer vivo; para suprir uma falta só identificável na sua necessidade particular; identidade que só enxerga a si mesmo, acabando por excluir tudo o que é diferente, externo ou estranho. Porém, a natureza caçadora desconhece que ninguém abate uma presa impunemente. Todos os atos efetivados, unicamente, com a emoção da conquista, compromete os corpos envolvidos para sempre. Portanto, a conquista do outro ou do mundo, para a glória do ego, compromete o eu, o outro e ou o mundo, numa mesma miragem sem cor.
Como a paixão se manifesta no corpo, para o corpo e pela química do corpo, que segundo alguns até pode ser identificada e quantificada, ele é a sua catedral. Por isso que a morte desde o início, foi uma questão importante para a consciência. Uma vez que todo esforço visava a manutenção do corpo, como a sua ruína poderia ser tão inexorável, irrevogável, inevitável e improrrogável? Não, não poderia. A morte não era o limite do corpo e, com isto, descobriram a alma, coisa cuja estrutura invisível, sobrevivia além da carne. Opa, incrível! para espanto de alguns, logo descobriram que a alma também apresentava necessidades a serem satisfeitas. Daí inventaram a religião e, as suas manifestações, que desde sempre, foram expressadas através da paixão. Trágica paixão.
As necessidades da alma seriam carências muito profundas que, por sua vez, no extremo oposto, estavam na essência da vida. Por isto o homem inventou este artifício chamado religião, decidido a suprir a maior de todas as faltas, a da vida depois da morte. Visando preencher suas bases: falta, identidade, necessidade e exclusão; desviaram todos os recursos excedentes - aqueles os quais ficaram além das necessidades, quando foram produzidos ao longo do desenvolvimento das civilizações urbanas -, para um corpo invisível, intangível e cujas necessidades e faltas, de fato, ninguém sabia dizer ao certo quais eram. E muitos, em nome disto, se desviaram da natureza e do próprio corpo, porque quiseram acreditar que a vida, a eterna, não era física, porém incorpórea; incomensurável e perfeita mas no entanto, absolutamente fora deste mundo.
Projetada para o espaço inatingível, a paixão criou deuses, santos e até homens coroados por espíritos sobrenaturais, que se apropriando de necessidades divinas impossíveis, justificaram conquistas, massacres, extermínios e a exploração de uns poucos sobre a maioria. E o poder de alguns homens ser mais especial que dos demais mortais, encontrava justificativa por estes se nomearem os representantes, na Terra, das necessidades espirituais segundo as quais eles deveriam suprir.
Está claro que a paixão é eminentemente masculina. Afinal ela não foi aperfeiçoada pelo caçador e pelo guerreiro? Então!?!.. Nada de ilusão, óbvio que ela também está presente na mulher. Aliás, a eminência masculina da paixão no ser humano não se manifesta, forçosamente, do mesmo modo como nos demais representantes do reino animal. É mais que sabido, que entre os leões, por exemplo, são as fêmeas que caçam. Entretanto, cada animal é um animal e embora a paixão se manifeste em todos, foram os homens, através da caça e da guerra, que lapidaram e legaram às civilizações, a atitude apaixonada. A paixão, na mulher, veio a ser reconhecida apenas quando a alma foi descoberta. E o ingresso delas nos rituais até então masculinos, de iniciação espiritual, veio a ser tardio.
Entre as paixões que se manifestam na mulher, a especial, é a que diz respeito à reprodução. Por conta disto a paixão, na mulher, é mais objetivamente (efetivamente) agradável do que no homem. Ou seja, a mulher sente no corpo a satisfação da necessidade reprodutora. Através do sexo, a mulher tem no prazer, algo muito mais objetivo que o homem. Nele, as paixões da caça, guerra e religião, tornam-no mais subjetivo, muito mais estratégico. Na mulher não. Seu corpo físico é um campo de emoções poderosas, pois dele emanam sensações orgânicas, muito mais ricas do que nos homens. Mas ela também está entre o prazer e a dor e nela isto é muito mais bem percebido, visto não adiantar a satisfação de certas faltas, mesmo na fartura haverá a menstruação e senão, a dor do parto.
Na base da nossa atual civilização, entre as paixões, aquelas que foram consideradas as mais importantes de todas, são as da alma. E com um significado trágico: na Idade Média isto se tornou mais claro, ao interpretarem
752
Nilton Santos Filho
Poeta Baiano Contemporâneo
I
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...
Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.
II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...
Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.
III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.
Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.
Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.
IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.
Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.
Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.
V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.
Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.
VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.
Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.
Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.
Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...
Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.
II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...
Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.
III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.
Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.
Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.
IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.
Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.
Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.
V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.
Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.
VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.
Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.
Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.
Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...
571
Nelson Nunes
Clarice
Clara mente a se alimentar do plasma.
Plástica sensação a vibrar-me o corpo.
Paralelo traçado entre o perfeito e o sublime.
Cada palavra composta no fluxo do instante-já.
Entre mentes sobressai a ponta da estrela
a brilhar em girassóis da terra distante.
Sangue sangue sugo tinto vinho verde musgo
da veia aberta de teu coração de riso russo.
Ferido feliz perto do coração selvagem,
desperto na noite de um sonho acredoce.
E do parto sofrido das entranhas do tempo
parto pungido na direção de tua claridade.
Plástica sensação a vibrar-me o corpo.
Paralelo traçado entre o perfeito e o sublime.
Cada palavra composta no fluxo do instante-já.
Entre mentes sobressai a ponta da estrela
a brilhar em girassóis da terra distante.
Sangue sangue sugo tinto vinho verde musgo
da veia aberta de teu coração de riso russo.
Ferido feliz perto do coração selvagem,
desperto na noite de um sonho acredoce.
E do parto sofrido das entranhas do tempo
parto pungido na direção de tua claridade.
899
Natércia Freire
O Rosto que não tem Rosto
Eu tinha uns olhos de neve
no tempo do vendaval;
sob os olhos, flores geladas;
por sobre o espelho tremente
finas bagas de cristal.
O tempo do vendaval
governa ainda os meus dias.
E um arrais de neves frias
põe cansaços de metal
nas doces melancolias.
Nas noites de lume fosco
sobre a água corredia,
um rosto que não tem rosto
e que se esfuma no dia
preside ao branco cenário
de uma única harmonia ...
Vendaval de mãos tão frias:
deslaça-me estes cabelos,
abre-me os braços sem elos,
faz de mim águas sombrias,
sem canto de rouxinóis
nem folhagem protetora,
nem melodias de aurora,
nem mansos beijos de sóis.
Inunda-me estes ouvidos
de raízes muito velhas;
põe longe as festas vermelhas
que eu tive nos meus sentidos,
e de uma vez para sempre
livra-me toda de mim.
no tempo do vendaval;
sob os olhos, flores geladas;
por sobre o espelho tremente
finas bagas de cristal.
O tempo do vendaval
governa ainda os meus dias.
E um arrais de neves frias
põe cansaços de metal
nas doces melancolias.
Nas noites de lume fosco
sobre a água corredia,
um rosto que não tem rosto
e que se esfuma no dia
preside ao branco cenário
de uma única harmonia ...
Vendaval de mãos tão frias:
deslaça-me estes cabelos,
abre-me os braços sem elos,
faz de mim águas sombrias,
sem canto de rouxinóis
nem folhagem protetora,
nem melodias de aurora,
nem mansos beijos de sóis.
Inunda-me estes ouvidos
de raízes muito velhas;
põe longe as festas vermelhas
que eu tive nos meus sentidos,
e de uma vez para sempre
livra-me toda de mim.
1 277
Joaquim Namorado
Legenda
Façam ruínas
do que me afirmo,
espalhem ao vento as cinzas
do que sou:
na parcela mais remota do que fui
estou.
do que me afirmo,
espalhem ao vento as cinzas
do que sou:
na parcela mais remota do que fui
estou.
1 913
Nilto Maciel
Dor
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
como se fosse puro, imaculado,
como se fosse um anjo, um serafim,
como se fosse deus, imune à dor.
Eu nada sinto, dor nenhuma tenho,
quer na cabeça, quer no amargo peito.
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
perfeitamente são me sinto e puro.
Se existe mal em mim, se existe dor,
é a de morrer tão cedo, a pleno sol,
envelhecer como qualquer mortal.
E a dor maior, minha senhora bela,
é dentro dalma, bem profunda e aguda,
a dor chamada angústia, a dor de ser.
como se fosse puro, imaculado,
como se fosse um anjo, um serafim,
como se fosse deus, imune à dor.
Eu nada sinto, dor nenhuma tenho,
quer na cabeça, quer no amargo peito.
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
perfeitamente são me sinto e puro.
Se existe mal em mim, se existe dor,
é a de morrer tão cedo, a pleno sol,
envelhecer como qualquer mortal.
E a dor maior, minha senhora bela,
é dentro dalma, bem profunda e aguda,
a dor chamada angústia, a dor de ser.
893
Mário Pederneiras
Caminho Errado
(fragmento)
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
1 245
Mirella Márcia
Quinto Soneto
O primeiro véu foi densa névoa, Narciso,
E foi preciso com um sopro eu rasgar.
O segundo véu foi só a mágoa, água
Para navegar. Outro ainda irá restar?
Um terceiro véu vem do luar, amor, ou
Dessa garça que eu toco ao te tocar? Ou
Do piano, cujo som ouvi no ar? Será
Que forças eu terei p’ra atravessar? Pois há
De mim a mim um véu maior que todo o mar,
Mas vou ao lar! És maravilha, dos amores
Minha ilha por visitar! És Tordesilha
Me cortando sem cessar e ainda a filha,
Rima que não cesso de aleitar com este mito
Que me ensina a sina, forma prima de amar.
E foi preciso com um sopro eu rasgar.
O segundo véu foi só a mágoa, água
Para navegar. Outro ainda irá restar?
Um terceiro véu vem do luar, amor, ou
Dessa garça que eu toco ao te tocar? Ou
Do piano, cujo som ouvi no ar? Será
Que forças eu terei p’ra atravessar? Pois há
De mim a mim um véu maior que todo o mar,
Mas vou ao lar! És maravilha, dos amores
Minha ilha por visitar! És Tordesilha
Me cortando sem cessar e ainda a filha,
Rima que não cesso de aleitar com este mito
Que me ensina a sina, forma prima de amar.
907
Millôr Fernandes
Reflexão Sobre a Reflexão
Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.
1 573
Marly de Oliveira
Não conheci o desterro
Não conheci o desterro,
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?
1 200
Maria de Lourdes Hortas
Recado
Mas quanto mais me alongo mais me achego
Camões/Sonetos
Nenhuma carta
porém ressoam versos:
sabor de mel lavando o sal do pranto
vale de léguas, fronteira inconsistente
pois tantas milhas de mim jamais se apartam.
Que longe ou perto refaço a mesma rota
ao cais seguro, definitivo porto
onde me espero
e sempre me encontro.
Camões/Sonetos
Nenhuma carta
porém ressoam versos:
sabor de mel lavando o sal do pranto
vale de léguas, fronteira inconsistente
pois tantas milhas de mim jamais se apartam.
Que longe ou perto refaço a mesma rota
ao cais seguro, definitivo porto
onde me espero
e sempre me encontro.
920
Marly de Oliveira
Eu tão prepositiva, desfaleço
Eu, tão prepositiva, desfaleço,
na contorção do que se me propõe:
o mundo não se esquiva à inquisição,
o medo não é bom amigo, o medo
indica a minha forma de não ver
a vã provocação.
Que estreito este caminho, que murado!
Tão pouco que eu ousasse e já seria
talvez o passo necessário
no sentido de ter ou de abster-me,
mas sempre um passo, um movimento,
a voz, um surdo grito, sussurrando
o enleio que o amor conhece,
entretecendo com a hera que cobre o corpo
a matéria do meu espírito,
o seu sigilo, a disputa, os meus dispersos sentidos.
na contorção do que se me propõe:
o mundo não se esquiva à inquisição,
o medo não é bom amigo, o medo
indica a minha forma de não ver
a vã provocação.
Que estreito este caminho, que murado!
Tão pouco que eu ousasse e já seria
talvez o passo necessário
no sentido de ter ou de abster-me,
mas sempre um passo, um movimento,
a voz, um surdo grito, sussurrando
o enleio que o amor conhece,
entretecendo com a hera que cobre o corpo
a matéria do meu espírito,
o seu sigilo, a disputa, os meus dispersos sentidos.
1 184
Maria Lucia Miranda Afonso
Delicadeza
Delicadeza
Uma pessoa tão delicada...
como uma chuva de cristal caindo nas rochas:
inútil tentar segurá-la com as mãos,
inevitável que algumas gotas se despedacem...
Tenho compaixão por ela,
é tão delicado ser delicado!
É tão duro ser delicada consigo mesma
quando se é tão delicada...
É tão duro, e tão delicado!
Uma pessoa tão delicada...
como uma chuva de cristal caindo nas rochas:
inútil tentar segurá-la com as mãos,
inevitável que algumas gotas se despedacem...
Tenho compaixão por ela,
é tão delicado ser delicado!
É tão duro ser delicada consigo mesma
quando se é tão delicada...
É tão duro, e tão delicado!
947
Maria Inês Gambogi
Com um pouco menos de liberdader
Com um pouco menos de liberdade
não se capta a translucidez da vida.
Com um pouco a mais de ilusão
as vida é árida.
Com um pouco mais de hipocrisia
a vida fere a qualquer momento.
Com um olhar de soslaio
a vida não ocorre em nossa existência.
Com opiniões de formação perene
a nossa vida não sai para além de si mesma.
Um naco a mais de frustração
e a vida enm nos roça!
Com os nossos próprios desejos à frente
e a vida de ninguém nos interessa.
No cotidiano de nossas impessoalidades
impurezas e lamentos
a vida surge de dentro de nossa inocência
quando nos perdemos de vista
e vivemos todas as peles ganhando uma delicadeza
sem nome e sem vizinho.
Sem poesia
e a vida não vai.
não se capta a translucidez da vida.
Com um pouco a mais de ilusão
as vida é árida.
Com um pouco mais de hipocrisia
a vida fere a qualquer momento.
Com um olhar de soslaio
a vida não ocorre em nossa existência.
Com opiniões de formação perene
a nossa vida não sai para além de si mesma.
Um naco a mais de frustração
e a vida enm nos roça!
Com os nossos próprios desejos à frente
e a vida de ninguém nos interessa.
No cotidiano de nossas impessoalidades
impurezas e lamentos
a vida surge de dentro de nossa inocência
quando nos perdemos de vista
e vivemos todas as peles ganhando uma delicadeza
sem nome e sem vizinho.
Sem poesia
e a vida não vai.
770
Mário Donizete Massari
Cais
O cais é o fim
e o início
chegada e ponto de partida.
Abraça as ondas,
recolhe navios
e retém vez ou outra
pedaços de vida
(uma saudade que fica)
Hoje o mar está calmo
E o cais medita
(penso na vida)
refaço os erros
do dia a dia.
Náufrago das horas
sou como o cais,
da eterna reconstrução
da vida.
Um bem estar me habita.
Sou no cais um
porto seguro
e me sinto forte e íntegro.
e o início
chegada e ponto de partida.
Abraça as ondas,
recolhe navios
e retém vez ou outra
pedaços de vida
(uma saudade que fica)
Hoje o mar está calmo
E o cais medita
(penso na vida)
refaço os erros
do dia a dia.
Náufrago das horas
sou como o cais,
da eterna reconstrução
da vida.
Um bem estar me habita.
Sou no cais um
porto seguro
e me sinto forte e íntegro.
954
João José Menescal de O. Saldanha
Qualquer Coisa
Quando a claridade abortar
E deixar o quarto escuro,
Quero estar lá
Para ver de quem são as estrelas.
Quando o sono dominar
As mentes fatigadas,
Quero estar vivo
Para ver quais serão os sonhos.
Porque qualquer lembrança
Das tuas palavras,
São as notas pesadas
De um piano em prelúdio
A comover minha emoção.
Que qualquer coisa tua,
Meu Deus!
É a lembrança da grama fresca,
Da relva boa, gostosa de deitar.
E tuas mãos...
Conchas quentes...
Confortáveis,
Macias,
Seguras,
Transmitem calmaria
Aos meus devaneios.
Quando as toco,
Pouso.
Quando não,
Caio.
Queda alta...
Lenta e agonizante,
Parece verter dos lustrais
Irradiações intensas.
Porém não.
Não são nada disso!
São as lágrimas de minha consciência
A turvar minha visão
Diante da realidade
Da distância que corrói...
...Quando qualquer coisa sua
maltratar minha saudade,
quero estar forte
e poder respirar fundo.
Fortaleza, 29 de agosto de 1996
E deixar o quarto escuro,
Quero estar lá
Para ver de quem são as estrelas.
Quando o sono dominar
As mentes fatigadas,
Quero estar vivo
Para ver quais serão os sonhos.
Porque qualquer lembrança
Das tuas palavras,
São as notas pesadas
De um piano em prelúdio
A comover minha emoção.
Que qualquer coisa tua,
Meu Deus!
É a lembrança da grama fresca,
Da relva boa, gostosa de deitar.
E tuas mãos...
Conchas quentes...
Confortáveis,
Macias,
Seguras,
Transmitem calmaria
Aos meus devaneios.
Quando as toco,
Pouso.
Quando não,
Caio.
Queda alta...
Lenta e agonizante,
Parece verter dos lustrais
Irradiações intensas.
Porém não.
Não são nada disso!
São as lágrimas de minha consciência
A turvar minha visão
Diante da realidade
Da distância que corrói...
...Quando qualquer coisa sua
maltratar minha saudade,
quero estar forte
e poder respirar fundo.
Fortaleza, 29 de agosto de 1996
788
Mário Donizete Massari
Figurante
(uma canção)
Tantas palavras não ditas
na vida (fadiga)
o que buscamos está longe
está perto demais
aportado no cais
Buscando verdades me apego
a mentiras
dias desse qualquer dia
me rendo ao que sou
ou serei jamais
Nas mãos o que resta do
grande artefato
plano bordado de coisas errôneas
quase sempre banais
Movimento sereno de um corpo
enrustido de mágoas
lágrimas molham e ferem
o olhar
NÃO PAGAREI OS PECADOS DO [MUNDO
QUERO ANTES UM PORTO SEGURO
NAUFRAGAR MEUS DESEJOS[INCERTOS
ANCORAR MINHA SEDE NO MAR
NÃO SEREI HERÓI DESTE TEMPO
FIGURANTE DE UM SONHO A MAIS
NO CENÁRIO DE EXTREMO[CONFLITO
DESTE CIRCO ARMADO NO AR
Tantos momentos que a gente
descobre
de repente se morre
e ficamos de luto
em pleno verão
No céu desses olhos
o brilho mais forte
fugindo do norte
caímos na angústia
da agreste ilusão
Os filhos nos braços
os braços cansados
lábios cerrados
perderam o brilho e a cor
e o som
NÃO PAGAREI OS PECADOS . . .
Tantas palavras não ditas
na vida (fadiga)
o que buscamos está longe
está perto demais
aportado no cais
Buscando verdades me apego
a mentiras
dias desse qualquer dia
me rendo ao que sou
ou serei jamais
Nas mãos o que resta do
grande artefato
plano bordado de coisas errôneas
quase sempre banais
Movimento sereno de um corpo
enrustido de mágoas
lágrimas molham e ferem
o olhar
NÃO PAGAREI OS PECADOS DO [MUNDO
QUERO ANTES UM PORTO SEGURO
NAUFRAGAR MEUS DESEJOS[INCERTOS
ANCORAR MINHA SEDE NO MAR
NÃO SEREI HERÓI DESTE TEMPO
FIGURANTE DE UM SONHO A MAIS
NO CENÁRIO DE EXTREMO[CONFLITO
DESTE CIRCO ARMADO NO AR
Tantos momentos que a gente
descobre
de repente se morre
e ficamos de luto
em pleno verão
No céu desses olhos
o brilho mais forte
fugindo do norte
caímos na angústia
da agreste ilusão
Os filhos nos braços
os braços cansados
lábios cerrados
perderam o brilho e a cor
e o som
NÃO PAGAREI OS PECADOS . . .
878