Poemas neste tema
Desejo
António Carlos Belchior
Sensual
Quando eu cantar
quero ficar
molhado de suor
e por favor não vá pensar
que é só a luz do reflector
será minha alma que sua
sou um sol negro de dor
outro corpo a pele nua
carne músculo e suor
como um cão que uiva pra Lua
contra seu dono e feitor
bicho um animal ferido
no dia do caçador
humaníssimo gemido
raro e comum como o amor
Quando eu cantar
quero deixar você
molhado de amor
e por favor não vá pensar
que é só a noite ou o calor
Quero ver você ser
inteiramente tocada
pelo licor da saliva
a língua o beijo a palavra
minha voz quer ser o dedo
na tua chaga sagrada
uma voz feita de espinho
espora em teus membros cansados
sensual como o espírito
ou como o verbo encarnado
quero ficar
molhado de suor
e por favor não vá pensar
que é só a luz do reflector
será minha alma que sua
sou um sol negro de dor
outro corpo a pele nua
carne músculo e suor
como um cão que uiva pra Lua
contra seu dono e feitor
bicho um animal ferido
no dia do caçador
humaníssimo gemido
raro e comum como o amor
Quando eu cantar
quero deixar você
molhado de amor
e por favor não vá pensar
que é só a noite ou o calor
Quero ver você ser
inteiramente tocada
pelo licor da saliva
a língua o beijo a palavra
minha voz quer ser o dedo
na tua chaga sagrada
uma voz feita de espinho
espora em teus membros cansados
sensual como o espírito
ou como o verbo encarnado
1 139
Urhacy Faustino
De boca aberta
Em nossas brigas não voam televisões,
nem há corporais agressões:
o verbo é a flecha que nos perfura
mesmo nos tempos e modos que a gente se censura.
Trocamos o costumeiro texto sacana
por verborrágica luta insana
e, se alguém se sente em desvantagem,
apela pra figuras de linguagem,
misturando metáforas, pleonasmos,
com licenças poéticas, no orgasmo
ao medirem forças dois titãs.
Até que já sem fala, de manhã,
mais sedentos que famintos, como taças
nos bebemos um ao outro, extasiados
de repente sem palavras, embrigados,
(eis que a língua se enrola, a gramática falha),
nos lambemos em nossa cama de batalha,
onde desejos e tesões explodem atômicos
em delírios guturais, gozando afônicos.
nem há corporais agressões:
o verbo é a flecha que nos perfura
mesmo nos tempos e modos que a gente se censura.
Trocamos o costumeiro texto sacana
por verborrágica luta insana
e, se alguém se sente em desvantagem,
apela pra figuras de linguagem,
misturando metáforas, pleonasmos,
com licenças poéticas, no orgasmo
ao medirem forças dois titãs.
Até que já sem fala, de manhã,
mais sedentos que famintos, como taças
nos bebemos um ao outro, extasiados
de repente sem palavras, embrigados,
(eis que a língua se enrola, a gramática falha),
nos lambemos em nossa cama de batalha,
onde desejos e tesões explodem atômicos
em delírios guturais, gozando afônicos.
800
Artur Gomes
Galope
com espada
em riste
galopamos
pradarias
e lutamos
ferozmente
por dois segundos
e meio
tua fúria era louca
que agarrei-me
em tuas crinas
pra não cair na lama
mas o amor era tanto
e tanto era o prazer
que quando fomos pra cama
não tinha mais o que fazer.
em riste
galopamos
pradarias
e lutamos
ferozmente
por dois segundos
e meio
tua fúria era louca
que agarrei-me
em tuas crinas
pra não cair na lama
mas o amor era tanto
e tanto era o prazer
que quando fomos pra cama
não tinha mais o que fazer.
676
Gisela Rao
Motel Paradise
- Oi, eu sou o Adão...
- Adão?
- É, Adão, o Peladão...
- Ah, sei, já ouvi falar...
Eu sou a Eva...
- Minha costela tá doendo...
- Heim?
- Nada não, deixa para lá...
- Bom: vamos começar, né?
- Claro...
O que que eu faço?
- Ele não te ensinou?
- Nem...
- Ah, sei lá...
Eu acho que você põe a mão nesses dois
montinhos bicudos aqui em cima...
- Assim?
- É... Mas pode largar a maçã, se quiser...
- Ah, é, desculpe... Tô um pouco nervoso... E agora?
- Não tenho certeza, mas acho que você gruda o lugar
com que você fala no meu e mete esse negócio
vermelho molão lá dentro...
- Achim?
- Credo! Que bafo de onça...
- Desculpe... Peraí que eu vou mastigar umas pétalas de flor...
Nham, nham, nham... Melhorou?
- Melhorou...
- E agora?
- Sei lá... Tem certeza que Ele
não te disse?
- Disse... Disse que era para
você fazer carinho nesse treco
pendurado aqui que ele cresce...
- Nem morta! Eu tenho nojo...
Além do mais, eu também tenho medo. Sei lá de que
tamanho fica esse bicho...
- Precisa ficar com medo, não... Aposto que é menor
que certas coisinhas que você já viu por aí...
- Tá insinuando o que, heim, moleque?!?
- Tô falando dessa cobra asquerosa que não larga do
teu pé...
- Vai catar coquinho, cabeça de melão...
- Escuta aqui, ô, Maria Costela... Vamos começar
logo o serviço porque eu não tô a fim de agüentar
piripaque de mina fresca.
- Maria Costela é esse buraquinho que você tem aí atrás...
- Vai, abre logo essas pernas...
- Vê lá como fala, heim, Zé Parreira...
- Peraí... Peraí... Ó, o bicho cresceu, viu?
- Olha só... quem diria... E ficou duro pacas...
Ai... E se doer?
- Não dói, não...
- Tá bom, então manda pau...
- Taí, gostei... Vamos chamar o treco pendurado de pau!
- Legal... E ela?
- O buracão?
O buracão a gente chama de caverna peluda...
- Muito romântico...
- Arghhh!!!!
- Que foi?
- Tá tudo melado aí dentro!!!
Não vou meter meu "pau" aí nem que a
vaca tussa...
- Saco!
Vou reclamar com Ele..
Aliás, sabe o que eu acho? Acho que você é um
tremendo gayzão!!!
- Gayzão? Que que é isso?
- É homem que gosta de homem...
- Cadê o outro homem, burra?
- É mesmo, fica difícil ser gay por aqui...
- Nossa! Olha aquilo!!!
- O que?
Clunca!
- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!! Cafajeste!
Doeu viu...
- Relaxa, benzinho...
O pior já passou...
Olha, faz assim: quando eu for para cá,
você vai para lá... Quando eu for pra lá, você vem pra cá...
Tá bom?
- Tá...
- Então, vamos! Um, dois e...
Balança, balança, balança...
- Ai, Adão... Assim tá gostoso...
- Yes! Yes! Yes!
Hei! Para que serve esse negocinho aí em cima do
cavernão peludo?
- Não sei, mexe para ver...
Clica! Clica! Clica!
- Ai, mexe mais...
Não para! Não para! Não para!!!!!!!!!
- Não vo...vo... vo... vou... pa.. pa... pa...rar...
- Aaa...
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
- Ooo...
Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Pausa
- Ai, meu Deus do Céu... O que foi isso?
- Não sei, mas para mim foi bom demais...
Foi bom para você?
- Se foi...
Senti uma coisa estranha...
- Como o que?
Como se estivesse... no PARAÍSO...
- Pode crê!
- Adão?
- É, Adão, o Peladão...
- Ah, sei, já ouvi falar...
Eu sou a Eva...
- Minha costela tá doendo...
- Heim?
- Nada não, deixa para lá...
- Bom: vamos começar, né?
- Claro...
O que que eu faço?
- Ele não te ensinou?
- Nem...
- Ah, sei lá...
Eu acho que você põe a mão nesses dois
montinhos bicudos aqui em cima...
- Assim?
- É... Mas pode largar a maçã, se quiser...
- Ah, é, desculpe... Tô um pouco nervoso... E agora?
- Não tenho certeza, mas acho que você gruda o lugar
com que você fala no meu e mete esse negócio
vermelho molão lá dentro...
- Achim?
- Credo! Que bafo de onça...
- Desculpe... Peraí que eu vou mastigar umas pétalas de flor...
Nham, nham, nham... Melhorou?
- Melhorou...
- E agora?
- Sei lá... Tem certeza que Ele
não te disse?
- Disse... Disse que era para
você fazer carinho nesse treco
pendurado aqui que ele cresce...
- Nem morta! Eu tenho nojo...
Além do mais, eu também tenho medo. Sei lá de que
tamanho fica esse bicho...
- Precisa ficar com medo, não... Aposto que é menor
que certas coisinhas que você já viu por aí...
- Tá insinuando o que, heim, moleque?!?
- Tô falando dessa cobra asquerosa que não larga do
teu pé...
- Vai catar coquinho, cabeça de melão...
- Escuta aqui, ô, Maria Costela... Vamos começar
logo o serviço porque eu não tô a fim de agüentar
piripaque de mina fresca.
- Maria Costela é esse buraquinho que você tem aí atrás...
- Vai, abre logo essas pernas...
- Vê lá como fala, heim, Zé Parreira...
- Peraí... Peraí... Ó, o bicho cresceu, viu?
- Olha só... quem diria... E ficou duro pacas...
Ai... E se doer?
- Não dói, não...
- Tá bom, então manda pau...
- Taí, gostei... Vamos chamar o treco pendurado de pau!
- Legal... E ela?
- O buracão?
O buracão a gente chama de caverna peluda...
- Muito romântico...
- Arghhh!!!!
- Que foi?
- Tá tudo melado aí dentro!!!
Não vou meter meu "pau" aí nem que a
vaca tussa...
- Saco!
Vou reclamar com Ele..
Aliás, sabe o que eu acho? Acho que você é um
tremendo gayzão!!!
- Gayzão? Que que é isso?
- É homem que gosta de homem...
- Cadê o outro homem, burra?
- É mesmo, fica difícil ser gay por aqui...
- Nossa! Olha aquilo!!!
- O que?
Clunca!
- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!! Cafajeste!
Doeu viu...
- Relaxa, benzinho...
O pior já passou...
Olha, faz assim: quando eu for para cá,
você vai para lá... Quando eu for pra lá, você vem pra cá...
Tá bom?
- Tá...
- Então, vamos! Um, dois e...
Balança, balança, balança...
- Ai, Adão... Assim tá gostoso...
- Yes! Yes! Yes!
Hei! Para que serve esse negocinho aí em cima do
cavernão peludo?
- Não sei, mexe para ver...
Clica! Clica! Clica!
- Ai, mexe mais...
Não para! Não para! Não para!!!!!!!!!
- Não vo...vo... vo... vou... pa.. pa... pa...rar...
- Aaa...
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
- Ooo...
Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Pausa
- Ai, meu Deus do Céu... O que foi isso?
- Não sei, mas para mim foi bom demais...
Foi bom para você?
- Se foi...
Senti uma coisa estranha...
- Como o que?
Como se estivesse... no PARAÍSO...
- Pode crê!
968
Claudia Roquette-Pinto
Luz depois do mergulho
depois de te amar saio refrescada
transparente nascida água
matéria de cisterna
de fosso fundo eterna
na tua profundidade
depois de me encharcar volto cristalina
do escuro à tona respiro
busco a luz que te defina:
água, talvez
água fugaz corpo piscina
transparente nascida água
matéria de cisterna
de fosso fundo eterna
na tua profundidade
depois de me encharcar volto cristalina
do escuro à tona respiro
busco a luz que te defina:
água, talvez
água fugaz corpo piscina
1 006
Manuela Amaral
Grito erótico
Caluniaste o meu corpo
ao longo dos teus gestos
sem medida
Desde a palavra exacta
do meu sexo
e soletraste-me puta
Puta
Puta
Angustiosamente erótica
abri-me em coxas
e penetrei-te na minha fauna aquática
Grito marinho
a escorrer nas algas
do meu ventre
Puta
Puta.
ao longo dos teus gestos
sem medida
Desde a palavra exacta
do meu sexo
e soletraste-me puta
Puta
Puta
Angustiosamente erótica
abri-me em coxas
e penetrei-te na minha fauna aquática
Grito marinho
a escorrer nas algas
do meu ventre
Puta
Puta.
2 172
Ferreira Gullar
Um sorriso
Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas
quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas
quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?
4 345
António Lobo de Carvalho
Soneto V
Lamentando a desgraça dos freiráticos
Não há maior asneira neste mundo
Do que um homem comer uma punheta
Duma freira, que tem onde se meta
Um caralho bem grosso, e rubicundo:
De que serve estar vendo o cono imundo,
O pentelho que esconde a torpe greta,
E um dedinho que roça por tal greta,
Que leite faz lançar pouco, e injocundo?
Estar então um basbaque, uma alma bruta
Na pança a dar punhadas com canseira.
Enquanto a porra vê um pouco enxuta:
Ora torno a dizer, é grande asneira;
Pois vale mais foder a mais reles puta,
Do que estar vendo as pernas duma freiral
Não há maior asneira neste mundo
Do que um homem comer uma punheta
Duma freira, que tem onde se meta
Um caralho bem grosso, e rubicundo:
De que serve estar vendo o cono imundo,
O pentelho que esconde a torpe greta,
E um dedinho que roça por tal greta,
Que leite faz lançar pouco, e injocundo?
Estar então um basbaque, uma alma bruta
Na pança a dar punhadas com canseira.
Enquanto a porra vê um pouco enxuta:
Ora torno a dizer, é grande asneira;
Pois vale mais foder a mais reles puta,
Do que estar vendo as pernas duma freiral
1 905
José Eduardo Mendes Camargo
Querer
Quero massagear o teu corpo,
Como se te prestasse um tributo de paixão.
E com minhas mãos, como que num ritual,
Percorrer-te todos os caminhos
E dele extrair a chama da combustão.
E cheirá-la por inteiro,
No ardor de farejar o âmago de tua alma fêmea.
E beijá-la voluptuosamente e com meus lábios
Sorver o suor ensandecido de teus poros
Quero, então, corpos unidos,
Dançar ao som de teus gemidos e sussurros
A dança terna e alucinante do amor.
Como se te prestasse um tributo de paixão.
E com minhas mãos, como que num ritual,
Percorrer-te todos os caminhos
E dele extrair a chama da combustão.
E cheirá-la por inteiro,
No ardor de farejar o âmago de tua alma fêmea.
E beijá-la voluptuosamente e com meus lábios
Sorver o suor ensandecido de teus poros
Quero, então, corpos unidos,
Dançar ao som de teus gemidos e sussurros
A dança terna e alucinante do amor.
1 721
Jean de La Fontaine
Epigrama
Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os prazeres são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisso, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.
De prazeres que não separo.
A volúpia e os prazeres são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisso, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.
3 658
Marcela Collins
El obsexeo
EL OBSEXEO QUE ERECTA MI PENSARTE
Llamas de sangre. Tajos de fuego.
Juegos morbosos en mi cuerpo.
Risas morbosas en mi llanto.
Ellos se excitan. Ellos no entienden.
EL OBSEXEO QUE ERECTA MI PENSARTE.
Cae un diente quebrado sin clavar.
Cae una lengua rota en el vacío.
No hay efecto especial
que no fracase. Seduciendo.
No hay iluminador
que yo no apague. Seduciendo.
No hay otra conmoción que mí con yo.
Seduciendo.
Caricias clandestinas a
mis perversiones.
(EL OBSEXEO)
Escupo alguna sonrisa
(QUE ERECTA)
me sacudo algunas babas
(MI PENSARTE)
me saco algunos ojos.
Tanto hombre disecado por ignorancia
Y
EL OBSEXEO QUE ERECTA MI PENSARTE
se atrofia en tu silencio.
Llamas de sangre. Tajos de fuego.
Juegos morbosos en mi cuerpo.
Risas morbosas en mi llanto.
Ellos se excitan. Ellos no entienden.
EL OBSEXEO QUE ERECTA MI PENSARTE.
Cae un diente quebrado sin clavar.
Cae una lengua rota en el vacío.
No hay efecto especial
que no fracase. Seduciendo.
No hay iluminador
que yo no apague. Seduciendo.
No hay otra conmoción que mí con yo.
Seduciendo.
Caricias clandestinas a
mis perversiones.
(EL OBSEXEO)
Escupo alguna sonrisa
(QUE ERECTA)
me sacudo algunas babas
(MI PENSARTE)
me saco algunos ojos.
Tanto hombre disecado por ignorancia
Y
EL OBSEXEO QUE ERECTA MI PENSARTE
se atrofia en tu silencio.
1 054
Manuela Amaral
Auto de fé
Não me arrependo dos amores que tive
dos corpos de mulher por quem passei
a todos fui fiel
a todos eu amei
Não me arrependo dos dias e das noites
em que o meu corpo herói ganhou batalhas
A um palmo do umbigo eu fui primeira
a divina
a deusa
a verdadeira mulher – sem rival.
Amei tantas mulheres de que nem sei o nome
eu só me lembro apenas
de abraços
de pernas
de beijos
e orgasmos
E no amor que dei
e no Amor que tive
eu fui toda mulher – fui vertical
Eu fui mulher em espanto
fui mulher em espasmo
fui o canto proibido e solitário
Só tenho um itinerário: Amor-Mulher.
dos corpos de mulher por quem passei
a todos fui fiel
a todos eu amei
Não me arrependo dos dias e das noites
em que o meu corpo herói ganhou batalhas
A um palmo do umbigo eu fui primeira
a divina
a deusa
a verdadeira mulher – sem rival.
Amei tantas mulheres de que nem sei o nome
eu só me lembro apenas
de abraços
de pernas
de beijos
e orgasmos
E no amor que dei
e no Amor que tive
eu fui toda mulher – fui vertical
Eu fui mulher em espanto
fui mulher em espasmo
fui o canto proibido e solitário
Só tenho um itinerário: Amor-Mulher.
1 931
Vitorino Nemésio
Nova bárbara escrava
Barborinha uma crioula:
Faz de bahiana evocada
Num hotel de vidro e avenca;
Usa torço cor-de-rosa,
Pano-da-costa fingido,
Chambre crivado no seio:
Seu balangandã preserva-a
Bem menos que seu enleio.
Para não ver os meus olhos
– Figa branca, figa preta -
Atira-as pra trás nas costas,
Tão bem, que só vê diante
A cuia do vatapá:
Mas eu sei quantas pancadas,
Vindo assim, seu peito dá.
Peixinho moreno, pula
No aquário do hotel de luxo
Como gota de água ao céu:
Tem vergonha de ser mate,
O seu passo é como um véu.
Barborinha é uma crioula
(Mulatinha era demais):
As cores, à parte, são várias:
Unidinhas, são iguais.
Vem servir-me cor-de-rosa,
Parda me serve xinxim
(Pérfido, atraso o jantar
Fitando-a entro e mim).
Mas o que serve em verdade
A Barborinha morena,
Na sua saia bahiana
Com roda de campainha,
Não é o envisco que comem
Os peixes do hotel de vidro,
Mas a sua graça apenas.
Tão quente (sendo ela fria)!
E as mãos! as mãos! – tão pequenas,
Tão pequenas, que eu diria
Que as fazem penas – e fogem
As aves que há na Bahia!
Faz de bahiana evocada
Num hotel de vidro e avenca;
Usa torço cor-de-rosa,
Pano-da-costa fingido,
Chambre crivado no seio:
Seu balangandã preserva-a
Bem menos que seu enleio.
Para não ver os meus olhos
– Figa branca, figa preta -
Atira-as pra trás nas costas,
Tão bem, que só vê diante
A cuia do vatapá:
Mas eu sei quantas pancadas,
Vindo assim, seu peito dá.
Peixinho moreno, pula
No aquário do hotel de luxo
Como gota de água ao céu:
Tem vergonha de ser mate,
O seu passo é como um véu.
Barborinha é uma crioula
(Mulatinha era demais):
As cores, à parte, são várias:
Unidinhas, são iguais.
Vem servir-me cor-de-rosa,
Parda me serve xinxim
(Pérfido, atraso o jantar
Fitando-a entro e mim).
Mas o que serve em verdade
A Barborinha morena,
Na sua saia bahiana
Com roda de campainha,
Não é o envisco que comem
Os peixes do hotel de vidro,
Mas a sua graça apenas.
Tão quente (sendo ela fria)!
E as mãos! as mãos! – tão pequenas,
Tão pequenas, que eu diria
Que as fazem penas – e fogem
As aves que há na Bahia!
1 672
Fernando Correia Pina
Inter pudenda
Naquela estreita, deserta região
sempre assolada pelos temporais
que entre cona e cu, em depressão,
geram grossa chuva e vendavais,
naquele curto istmo que medeia,
abandonado, entre ânus e vagina,
nessa ponte que afasta e aproxima
da fecal matéria a seminal ideia
perde-se um homem olhando o escuro
e diz para consigo – onde é que eu furo? –
e, geralmente, fura mais acima
vencida a humana incerteza,
porque da cona lhe pode vir merda
mas do cu lhe virá merda com certeza.
sempre assolada pelos temporais
que entre cona e cu, em depressão,
geram grossa chuva e vendavais,
naquele curto istmo que medeia,
abandonado, entre ânus e vagina,
nessa ponte que afasta e aproxima
da fecal matéria a seminal ideia
perde-se um homem olhando o escuro
e diz para consigo – onde é que eu furo? –
e, geralmente, fura mais acima
vencida a humana incerteza,
porque da cona lhe pode vir merda
mas do cu lhe virá merda com certeza.
1 067
Tanussi Cardoso
As time goes by
Meu bem,
Me chama de Humphrey Bogart
Que eu te conto Casablanca.
Me tira esse sobretudo;
Sobretudo, conta tudo
Que eu te dou uma rosa branca.
Meu bem,
Me chama de Humphrey Bogart...
Te dou carona em meu carro
Chevrolet — que sou bacana;
Te levo, meu bem, pra cama
Fumamos nossa bagana;
Te provo que sou sacana...
Te faço toda a denguice:
Te dispo que nem a Ingrid,
Te dou filhos de montão
Só pra te ver sufocar...
Mas me chama de Humphrey Bogart!
Faço chover colorido
Como num bom musical.
Te chamo de Lauren Bacall!
Te danço, te canto, te mostro,
Entre as pernas, meu bom astral...
Te deixo pro enxoval
Meu chapéu preto de gangster,
Mil poemas de ninar...
Só pra te ouvir sussurrar:
Como te amo, meu Humphrey Bogart!
Me chama de Humphrey Bogart
Que eu te conto Casablanca.
Me tira esse sobretudo;
Sobretudo, conta tudo
Que eu te dou uma rosa branca.
Meu bem,
Me chama de Humphrey Bogart...
Te dou carona em meu carro
Chevrolet — que sou bacana;
Te levo, meu bem, pra cama
Fumamos nossa bagana;
Te provo que sou sacana...
Te faço toda a denguice:
Te dispo que nem a Ingrid,
Te dou filhos de montão
Só pra te ver sufocar...
Mas me chama de Humphrey Bogart!
Faço chover colorido
Como num bom musical.
Te chamo de Lauren Bacall!
Te danço, te canto, te mostro,
Entre as pernas, meu bom astral...
Te deixo pro enxoval
Meu chapéu preto de gangster,
Mil poemas de ninar...
Só pra te ouvir sussurrar:
Como te amo, meu Humphrey Bogart!
934
Fernando Py
Após o banho, nua
Após o banho, nua
ainda, o corpo úmido
ao meu encontro, visão,
relembro, cálido êxtase,
os seios entrevistos
no decote frouxo, agora, nua,
toalha molhando-se, ressurgem
após o banho,
fremindo, suave embalo, avidez
de língua e mãos, nua, vens,
perfume, sulcos na pele,
ansiada espera, curvas, a entrega
ao meu olhar, bocas, rosa
túmida, pétala, sucção, espuma,
resplandeces para mim, nua,
após o banho.
ainda, o corpo úmido
ao meu encontro, visão,
relembro, cálido êxtase,
os seios entrevistos
no decote frouxo, agora, nua,
toalha molhando-se, ressurgem
após o banho,
fremindo, suave embalo, avidez
de língua e mãos, nua, vens,
perfume, sulcos na pele,
ansiada espera, curvas, a entrega
ao meu olhar, bocas, rosa
túmida, pétala, sucção, espuma,
resplandeces para mim, nua,
após o banho.
1 338
Ondina Castilho
Sou sua pálida amante vaporosa
Sou sua pálida amante vaporosa,
Na volúpia das noites andaluzas.
Meu sangue ardente em minhas veias rolas...
Minha alma é uma fonte sonhadora.
Longe de ti bebo teus perfumes
Sonho com Você e me sinto seminua.
Na volúpia das noites andaluzas.
Meu sangue ardente em minhas veias rolas...
Minha alma é uma fonte sonhadora.
Longe de ti bebo teus perfumes
Sonho com Você e me sinto seminua.
954
Gastão de Holanda
Nota biográfica
Na leitura do abismo e seus açores
Teci a minha vida, entre moinhos
Atirei-me à ventura dos caminhos
E neles cultivei as mores dores.
Jamais ultrapassei os domadores
De outra profissão senão de espinhos,
Não apurei o faro dos focinhos
Mas despertei o mito dos amores.
Embora da maldade dos tiranos
Compusesse uma ópera canina,
Eu tive a recompensa do teu ânus.
Tesão com castidade não combina
Nem fodas retardadas pelos anos:
Ser puto de mulher, eis minha sina.
Teci a minha vida, entre moinhos
Atirei-me à ventura dos caminhos
E neles cultivei as mores dores.
Jamais ultrapassei os domadores
De outra profissão senão de espinhos,
Não apurei o faro dos focinhos
Mas despertei o mito dos amores.
Embora da maldade dos tiranos
Compusesse uma ópera canina,
Eu tive a recompensa do teu ânus.
Tesão com castidade não combina
Nem fodas retardadas pelos anos:
Ser puto de mulher, eis minha sina.
879
Chico Buarque
Amando sobre os jornais
Amando noite afora
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias
Amando noites a fio
Tramando coisas sobre os jornais
Fazendo entornar um rio
E arder os canaviais
Das páginas flageladas
Sorrimos mãos dadas e, inocentes
Lavamos os nossos sexos
Nas enchentes
Amando noites a fundo
Tendo jornais como cobertor
Podendo abalar
o mundo
No embalo do nosso amor
No ardor de tantos abraços
Caíram palácios
Ruiu um império
Os nosso olhos vidrados
De mistério
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias
Amando noites a fio
Tramando coisas sobre os jornais
Fazendo entornar um rio
E arder os canaviais
Das páginas flageladas
Sorrimos mãos dadas e, inocentes
Lavamos os nossos sexos
Nas enchentes
Amando noites a fundo
Tendo jornais como cobertor
Podendo abalar
o mundo
No embalo do nosso amor
No ardor de tantos abraços
Caíram palácios
Ruiu um império
Os nosso olhos vidrados
De mistério
1 488
Hilda Hilst
Aquele outro não via
Aquele Outro não via minha muita amplidão
Nada LHE bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)
Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma Fome irada e obsessiva?
Nada LHE bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)
Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma Fome irada e obsessiva?
1 463
Gloria Sartore
Cio
Entre as pernas te prendo
serpente e presa em duelo
Instintivos golpes
em oscena estratégia
– despudorada arma
Vitoriosa
bebo em teu cálice
o sêmen
...chove sobre o cio.
serpente e presa em duelo
Instintivos golpes
em oscena estratégia
– despudorada arma
Vitoriosa
bebo em teu cálice
o sêmen
...chove sobre o cio.
1 203
Hilda Hilst
E por que haverias de querer
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
1 933
Ernesto de Melo e Castro
Colhe os colhões a boca
colhe os colhões a boca
o barco a flor o mastro
a língua louca louca
o astro glande monstro
que a água que mostro
laiva o sabor do ouro
álcool que vem do mosto
leite que sabe a louro
pêlo de pele colhida
jeito informe que pica
alga onda comprida
que treme e foge e fica
colhe no ar e foge
a árvore da vida
o barco a flor o mastro
a língua louca louca
o astro glande monstro
que a água que mostro
laiva o sabor do ouro
álcool que vem do mosto
leite que sabe a louro
pêlo de pele colhida
jeito informe que pica
alga onda comprida
que treme e foge e fica
colhe no ar e foge
a árvore da vida
1 527
Hilda Hilst
Araras versáteis
Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
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