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Desejo

Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Quarto Poema

Eu durmo, mas o meu coração vela.
Ouço baterem à porta.

— Abre, minha irmã, minha amada,
minha pomba, minha eleita.
Que a minha cabeça está coberta de orvalho,
meus cabelos estão cheios das gotas da noite.»

— Já despi minha túnica, como a tornarei a vestir?
Já meus pés lavei, como os sujarei de novo?»

Já o meu amado passa a mão pelo postigo:
e de súbito estremecem-me as entranhas.

Levantei-me da cama para abrir ao meu amado,
e de minhas mãos se desprendia o perfume da mirra,
de meus dedos se desprendia o perfume da mirra virgem
sobre o fecho da porta.
Eu abri ao meu amado, mas ele já partira.

Meu coração estremecera à sua voz,
e agora procurava-o, e ele tinha desaparecido.
Agora chamava-o, e ele não respondia.
Encontraram-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
Espancaram-me e feriram-me, e roubaram-me o manto —
os guardas das muralhas da cidade.

— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
que se virdes o meu amado
lhe digais que estou doente de amor.

Coro das raparigas de Jerusalém

Que tem o teu amado mais que os outros,
ó mais bela entre as mulheres?
Que tem o teu amado mais que os outros,
para que assim te lamentes?

O meu amado é puro e forte, o melhor entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro virgem;
seus cabelos, palmas negras, asas de corvo.
São pombas os olhos, pombas na agua de um tanque,
pombas banhando-se em leite,
pousadas nas aguas.

As faces, canteiros de aromas, maciços perfumados;
e os lábios, lírios escorrendo mirra virgem.
Esferas de ouro, as mãos — esferas com pedras de Tarsis.
E as pernas são brancas colunas de mármore
sobre bases de ouro limpo.

Ele é como o Líbano, único
como os cedros do Líbano.

E a sua voz é branca, e tudo
é magnífico.

Assim é o meu amigo, o meu amado,
ó raparigas de Jerusalém.

Coro das raparigas de Jerusalém

Para onde foi o teu amado, ó mais bela entre as mulheres?
Que caminho tomou ele, que o procuramos contigo?

O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados,
para colher lírios,
para nos jardins apascentar o seu rebanho.
Eu sou do meu amado e ele é meu.
Ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Canção Em Quatro Sonetos

A maçã precipitada, os incêndios da noite, a neve forte

e a rude beleza da cabeça.
— Quem ouvirá em que planetas esta imagem
da minha morte, quando eu abrir o lenço
sobre o coração terrível e suspenso?
Uma criança de sorriso cru
vive em mim sem dar um passo, amando
respirar em sua roupa o cheiro
do sangue maternal. O vício
do sono apouca as frias glicínias
do seu cabelo inocente,
inocente. Ela não sofre e apenas sente
a máquina que é, com cabeleira e dedos cheios

de energia rápida: a magia, os segredos.

Tantos nomes que não há para dizer o silêncio—

a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.

Evapora-se a roupa, mas não sinto.

Ás vezes, sobre um soneto voraz e abrupto, passa

uma rapariga lenta que não sabe,
e cuja graça se abaixa e movimenta na obscura
pintura de um paraíso mortal.
Nesse soneto nocturno escrevo que grito, ou então que durmo,
ou que às vezes enlouqueço. E a matéria grave
e delicada do seu corpo pousa no centro
desse sopro feroz. E o soneto
veloz abranda um pouco, e ela curva o corpo
teatral — e o ânus sobe como uma flor animal.
O meu pénis avança, no soneto que soletro
como uma dança, ou um peixe negro nos
frios planos sombrios e sonâmbulos:

— a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus.

Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre

os cotovelos. Batem as folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés em movimento no meio
do meu coração. O nome:
madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça

olha a loucura com seu nome: indecifrável, cego.
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Herberto Helder

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estava o rei em suas câmaras, mandou que lhe trouxessem as
fêmeas,
disse:
entre os sete e os setenta, ineptas, hábeis,
de ao pé das águas,
e lhes imitem o movimento,
ou ásperas, ou raparigas que se desfaçam quase
de serem súbito tocadas,
inacessíveis no sentido mais recôndito,
fúlgidas, frígidas,
fêmeazinhas de cândido repouso carnal,
e então o demónio as possua e elas subam acima de qualquer
linha,
que em eu, rei, as tocando, logo soçobrem,
logo tremam, gritem, se desfaçam e refaçam e subam
como se Deus as tocasse entre o cu e a côna,
oh fêmeas ininterruptas,
quero-as de todas as raças, longilíneas, espessas, sedosas,
árduas, amaras,
bravas debaixo das minhas unhas,
ou humílimas como cadelas domésticas domadas pelas palavras,
ou subtis movidas lunaticamente pela forma poética
— quero ser confirmado,
intrínseco,
tornado vasto como dez campos de aveia compacta,
rio fantasista concorrido por outros mais pequenos,
disse: vão à caça e tragam-mas:
nuas, vestidas, violentas, descalças, catorzinhas, inspiradas,
revoltas, ou como óleo entre os dedos,
e que cheirem ou a cabra ou a jasmim —
lírico, difuso, suprarreal, nocturno,
estava o rei em suas câmaras dolorosas e ordenou as músicas,
e perguntou alguém: ^Salomé, a cabeça de S. João Baptista
sangrando numa bandeja de ouro?
(não a cômo! — gritou ele),
ou a teoria dodecafónica,
ou uma frauta cabreira,
ou a voz acerbadamente fugida da Dietrich,
ou esse fantasma de voz quebrada pelo soluço da Marilyn,
ou Mahalia Jackson,
para ele, rei em suas câmaras, morrer durante a noite inteira?
— só lhe falta a rapariga esquiva que ele pense que é um enigma,
só lhe falta saber tudo,
só lhe falta a mulher para morrer com ele,
a mulher que só há nele, no fundo,
a morta nele que de noite ressuscita,
e pelo dia todo de cada dia da terra
lhe rouba a alma,
o ceptro,
o segredo de ser senhor de tudo
(menos dela que é pensamento sensível
dos elementos juntos dois feito como do mundo,
etc.)
tragam-ma —
e vão trazendo mas nunca lhe trazem a mulher que está nele,
e ele não lhe toca nem de olhos nem de boca nem do nó de um só d<
da mão que firma o ceptro sobre a terra,
o rei sozinho no meio das mulheres menos a outra
(que é mãe e filha de todas),
e que pode um rei assim fazer senão deixar que as águas o subam
pelas câmaras acima e afoguem tudo,
como o mundo está sempre à espera que aconteça,
pois está escrito nos livros,
está marcado a fogo nas cabeças,
treme em todos os sentidos de quem vive nas câmaras,
ela nas altas montanhas ele ao rés das águas baixas,
sobre o tremor do maremoto,
sobre a ameaça maior do desejo do seu corpo pelo corpo que está
selado dentro dele,
porque ele é rei apenas no fundo dos espelhos que estremecem
cheios de água,
— levem (lavem) a minha cara, eu sou outro,
levem a minha alma,
levem a minha amante e troquem-ma por outra,
outra mais conforme à mulher que não existe,
e ponham tão baixo a música que deitado no chão estreme
só eu a ouça, a música escrita apenas
para a minha loucura, a paixão, a aflição, a explicação
da minha biografia irónica e sensível:
e não se esqueçam: as putas todas e as virgens todas nas minhas
câmaras vazias,
manda o rei terrífico com voz política,
aquela voz que de muito falar já treme um pouco,
que eles não saibam sobretudo que já estou demente
(mas toda a gente sabe),
tragam-me as putas todas, religiosas, profanas ou outras,
o meu pénis tem o tamanho de um ceptro
(e ergue o ceptro que tem cerca de metro e meio,
e na verdade o sexo dele é até maior um pouco),
traspasso-as da côna ao coração
(e que mulher não tremeria de pânico e oculto gozo?),
e assim passa ele o tempo e o medo e o mundo
A MORTE S E M M E S T E 713
e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,
vou morrer como um cão deitado à fossa!
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Herberto Helder

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aos vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda,
vê-se o halo da aparecida, catorzinha, onda defronte, no soalho, para
cima,
rebenta a mais que a nossa altura,
brilha com tudo o que é de fora:
quadris onde a luz é elástica ou se rasga,
luz que salta do cabelo,
joelhos, púbis, umbigo,
auréolas dos mamilos,
boca,
amo-te com dom e susto,
eles dizem que a beleza perdeu a aura, e eu não percebo, creio
que é um tema geral da crítica académica: dessacralização, etc., mas
tenho tão pouco tempo, eis o que penso:
décimo quarto piso da luz e, no tôpo, a, tècnicamente definida, lucarr
que é por onde se faz com que a luz se fac
e a beleza é sim incompreensível,
é terrível, já se sabia pelo menos desde o Velho Testamento,
a beleza quando avança terrível como um exército,
e eu trabalho quanto posso pela sua violência,
e tu, catorze, floral, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus
setenta e sete vezes êrro
de sôbre os teus soalhos até à eternidade,
com o apenas turvo e sôfrego
tempo onde muito aprendo que só me restam indecência, idade, desgovêrno,
e sim pedofilia, crime gravíssimo
mas como crime, pedofilia, se a beleza, essa, desencontrada
nas contas, é que é abusiva?
e se me é defêsa, e terrível como um exército que avança, eu,
setenta e sete de morte e teoria:
o acesso à música, o rude júbilo, o poema destrutivo, amo-te
com assombro,
eu que nunca te falei da falta de sentido,
porque o único sentido, digo-to agora, é a beleza mesmo,
a tua, a proibida, entrar por mim adentro
e fazer uma grande luz agreste, de corpo e encontro, de ver a Deus se
houvesse, luz terrestre, em mim, bicho vil e vicioso
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Herberto Helder

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glória dos objectos!
cada nome é cada vez mais novo,
e diz o povo: encarnado é escuridão,
e eu digo: tu daí do meio das coisas, faz isto:
uma coralina molhada, uma nêspera, um maço de bocas-de-lobo,
flores ávidas,
mas não as faças nunca com risca administrativa,
faz à mão canhota, depressa, esperta,
risca espumante, o ar entre
o cabelo e a cabeça, e o vidro que anda no ar como a água anda nas
tábuas,
até que o ar seja luz em redor do teu cabelo,
antes isso do que se entenda: e o frio se infunda nas frutas para se
comerem frescas,
a luz que anda no cabelo primeiro desfaz a cara,
depois a alma,
depois abre todas as coisas fechadas,
mas não abras mão de nada, fecha a chave na mão esquerda e abre
o mundo com ela,
risca as formas ditas ou outras,
a laranja obsessiva,
ou a medida às escuras: faz-te a ti mesma:
por trás das coxas,
por entre as ancas,
onde o sangue se desmancha e de onde te alcança toda,
de que estremeces da vulva à língua,
debaixo das unhas,
nas gengivas,
de que sofres como de uma louca alegria,
rastro de coralina húmida
ou malha de luz na malha de água até que galáxia,
o rastro — dizia eu — da lesma,
risca disjuntiva,
é o mesmo,
de um lado ao outro das mesas metidas dentro das casas,
de um lado ao outro das casas que circundam as pessoas,
de um lado ao outro o sangue toma posse de um corpo,
se a madeira onde se assenta alguém se torna fria,
encarnada, quente, clara,
e vida e morte sabem como é que as coisas se fazem,
quando alguém se assenta nelas, as cadeiras iluminam-se
pelo sangue posto nelas, e as mesas em que se escreve
talvez um dia se exaltem
do escrito ou do riscado,
alimentos, mãos, roupas, bocas, bebidas, pêlos como auréolas
de ambos os sexos,
todos os dias de todos os anos de todas as duas vidas,
macho e fêmea
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Herberto Helder

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e eu reluzo no fundo de um universo que desconheço,
e sou um nome apenas,
Constelação do Lobo,
mas saindo desse nome remoto entro logo na mais extraordinária
autoria,
e caçam-me através de velhas florestas côr de púrpura,
e cortam-me a língua para eu não uivar de um monte a outro o
louvor da Loba,
mas que me importa?
suba-te pelo dorso, com mão ou sôpro, uma labareda maior do que
tu própria,
farejo-te, lambo-te côna e bôca,
mordo-te as coxas e o pescoço até ficar bêbado,
e com sangue na bôca entro em ti e dentro de ti faço um nó enquanto
me semeio,
e há uma espécie de doçura que nos oculta,
e toda a noite se vê arder o ramo de fogo do poema que se depura:
quando penso nos grandes dias findos,
en respirant j’attire vers moi l’air,
la terre tremble partout où je vais,
eu que era o louco dos loucos,
rápido e rijo como o rei dos lobos,
até os cães me sabiam do medo,
e veio a Loba,
só a chamei como se fôra a morte que me doía, coração e testículos
entre os membros,
glória da terra,
mas sou a mesma constelação no mesmo mundo escuro,
criatura ligada a outra por um nome luminoso,
uma doçura que a violência criou na gravíssima floresta púrpura,
onde pela raiz me arrancaram a língua para eu não chamar nunca ms
a minha Lof
nem ter o poder dos meus poemas
Biographies des troubadours, Jean Boutières
Les troubadours, Jacques Roubaud
Antologia poética de Ezra Pound, org. Augusto de Campos
não some, que eu lhe procuro, e lhe boto
faca à garganta,
ou na cabeleira tanta tanto fogo que você vira incêndio
em que se não tem mão, puta,
eu sei mas não me importa, quero é te apanhar
em uma braçada como de espuma,
mas se some eu lhe dano, essa sim, a puta de sua vida,
alta criatura chegada na terra muda,
em todo lado,
o dia todo,
a noite toda,
como se vê que uma árvore tem tanta folha luzindo
em toda parte dela e do vento e do tempo,
não some não, que eu desmundo
cada sítio do mundo onde
você estava ou está ou há-de estar, e comunico só do toque
que lhe pônho num mamilo,
no umbigo,
no clitóris,
na unha mindinha do pé esquerdo,
só porque tu estremece dos estudos de meus dedos exultantes,
não some nunca, fica morrendo de meu sôpro,
ou dá luz como fôlha contada uma por cima de outra
que é isso: puta?
pequena, se fôr às raízes latinas,
mas tudo cresceu tamanho, grão de cobre
esparzido pelas capitais do corpo: púbis, cabeça,
porque você é tão cerrada em sua vida própria,
trigo na noite,
excessiva beleza terrestre bruxuleando um pouco adentro,
que bèsteira de lhe chamar de puta,
de pequena,
ou mesmo se lhe chame de grande puta,
se der o fora
jai dolor!
se sabedes novas da minha amiga, socorro de minha baixa biografia,
ai Deus e u é?
vou à procura, encontro, jógo
vitríolo em teu rosto, desfiguro, ou com o calor da mão te lavro
por você acima,
casa ardendo cheia de uma estréia incalculável,
jah minha boca lhe come externa de nenhuma roupa sôbre que
carne soberba!
das plantas dos pés às pálpebras,
inteira,
e outra vez dos giolhos ou joelhos, como queira, à côna, e da côna,
divertimento linguístico lato sensu,
ao rés da penugem na testa rápida, amor,
não provoque, não some, que esse
beijo que agora coméço é para não
acabar nunca,
não queira que eu vá crer em Deus e pedir milagre,
fique, tão puta quanto seja, com
seu jeito de água marítima,
balançando, menininha, barca bêbeda,
mas enredada em mim como o alimento luminoso,
ah se incendeie a gente um do outro, que morte
ou vida mais total
não há, não some não, amor
da puta de minha vida indistinta,
noite onde me envolvo para sempre,
que simples, contudo, com tudo isso, que é se cruzar com o mundo,
fique, fica junto, funda fêmea, que você já me está
fundada no sangue desde que outrora, e agora, e na hora da nossa
belo belo é o meu amado correndo pelas colinas como um cêrvo:
e se um dia eu lhe sumi, venho
indo, agora, vindo, chegando contra você,
coberta de oiro fino, a luz movendo meu cabelo, em cima da água fri
e depois tu vai e vem defronte de minha porta,
e pára,
e toca nos fechos dela cerrada sobre si própria, e se
me turvam as entranhas, se
sobressaltam,
o mundo está cheio de água,
está cheio de meu regresso,
e em um grande espaço eu que sou transparente a você que és coroai
cada vez me chego mais batendo direito,
me põe como um sêlo em teu braço,
porque o amor é mais forte que a eternidade dos mortos,
e eu estou deitada, e levanto de minha cama, e você vem avançando,
e sobe da noite como uma coluna de ar ou uma ressaca de água, e
rompe por minha casa, e me ata de boca e sexo,
tu de pé eu de giolbos te tomo em minha boca
tua boca obscura
e teu pênis arrojado, e lhe mordo manselinho, e depois lhe devoro
aonde faz o nó do sôpro,
oh me ama delicada, como me beijara, uma a uma, pés e mãos,
as unhas,
e tanto se me está crecendo o cabelo que vejo êle debaixo de tua fome,
sim me come de meu cabelo até o mais raso,
no chão do mundo,
e com teus braços terríveis me cruza toda,
que ainda me está doendo do pêso de seu beijo
na risca rosa no meio de virilha até virilha,
e entra em mim e que as coxas me estremeçam,
te mete inteiro
por boca e cu e côna adentro,
que os que louvam a Deus esse Deus os devora,
como a fêmea louva-a-deus ao macho, puta,
rediviva, tua, nunca sumo para sempre que sempre me restituo,
andando sobre água fria
oh noche, que juntaste amada con amado, amado en la amada
transformado!
: inexplicável: claro
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Herberto Helder

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resposta a uma carta
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
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Herberto Helder

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travesti, brasileiro, dote escandaloso, leio, venha ser minha fêmea,
deslumbrou a terra ávida com suas mamas luminosas
e um coiso grego,
como de mármore, compacto, digo, maciço, intacto, empolgante,
grosso, grande, grego,
e a língua desconversável com a língua então falada,
bruteza,
frescura,
clarão físico,
vivaz nos modos de fazer não uma coisa ou duas
mas todas,
num volteio de mão avêssa e acesa,
poema
da língua concêntrica que me criou até ao júbilo e eu criei contra o
poder do mundo com
presteza mercurial,
instinto,
intuito,
crítica da razão pura,
curtas metragens mais que ofuscantes: luciferinas,
até às iluminações transformadoras,
já tive sim todas as iluminações, todas, consumptivas,
que se lixe a vida,
que se lixe a mente,
vida e mente por uma palavra única,
vem das montagens visuais da infância da língua, coisas
com luz própria a que se não chegava, e a mão queimada, e penso:
vou meter a mão inteira pelo fogo dentro,
e não vou tirá-la nunca,
e nunca mais regressarei dessa palavra,
e pergunto porque estou vivo:
por amor de vinte e três palavras mais ou menos loucas,
glória às uniões inalcançáveis,
eu fodo, se me dão licença,
numa língua que vem com avidez mamífera
dos fundos da
língua portuguesa, só fodo nela,
por paixão,
matricialidade,
monogamia,
por conhecer linha a linha o corpo que se move,
a luz que levanta,
o ar que consome,
o que faz às pessoas quando dele se aproximam,
só isso me interessa naqueles com quem fodo,
ígneo donaire,
dom,
alerta,
décimo sexto sentido,
poucos poderes de salvação e obra mas
estrela muitíssima, tremenda, às labaredas,
a dança dionisíaca já dentro do abismo,
que se foda em alta língua,
é um mistério,
venha ser inadmissível, luminoso, fêmea, empolgante, grego,
quero eu dizer:
fodam comigo no mistério das línguas,
obrigado
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