Poemas neste tema
Desejo
Angela Santos
Cerrado
Toma- me....
pela mão ou inteira
e despe-me de tudo
o que não seja vida
Leva-me a um lugar
onde em mim te sinta
e adormeça a ira
de ser no presente
um ser adiado
Leva-me
ao lugar onde a vida se escuta
no mais fundo silêncio,
onde as pedras são corpos
que ao nosso se ajustam
e onde um sussurro
- vindo, quem sabe de onde-
vive preso ao ar...
Lá, onde à raiz, profundas
as águas nos devolvem
me deitarei, um dia
pronta para a terra
me engolir inteira
e parir de novo
E assim renascida
a dentes eu rasgo
o umbilical fio
que me traz suspensa
entre a noite presente
e as manhãs de oiro
onde a vida a esmo
não me furta os sonhos.
pela mão ou inteira
e despe-me de tudo
o que não seja vida
Leva-me a um lugar
onde em mim te sinta
e adormeça a ira
de ser no presente
um ser adiado
Leva-me
ao lugar onde a vida se escuta
no mais fundo silêncio,
onde as pedras são corpos
que ao nosso se ajustam
e onde um sussurro
- vindo, quem sabe de onde-
vive preso ao ar...
Lá, onde à raiz, profundas
as águas nos devolvem
me deitarei, um dia
pronta para a terra
me engolir inteira
e parir de novo
E assim renascida
a dentes eu rasgo
o umbilical fio
que me traz suspensa
entre a noite presente
e as manhãs de oiro
onde a vida a esmo
não me furta os sonhos.
1 062
Angela Santos
Corpos
Das noites de néon que celebramos
perdura a chama
e queimam ainda meus lábios
as memórias
que não se dissolvem nos dias
Cada gesto novo
recomeça a viagem, a descoberta,
e no amplexo das tuas coxas, perdida
eu reencontro
os sons e os cheiros
num lugar qualquer de mim guardados,
antes de partir
Entre os meus e os teus olhos
estende-se a languidez cúmplice
decifrando sinais
de velhos amantes,
da tua à minha boca
a curta distancia
de um sopro vai
e tudo em nós se mistura...
em tuas mãos, o ritual do fogo se inicia
e cresce a lava do desejo
que nos arrasta
por entre sussurros e explosões
E é num mar de calmaria,
na embriaguez dos ópios naturais,
que nossos corpos
húmidos, quentes, saciados
desaguam.
perdura a chama
e queimam ainda meus lábios
as memórias
que não se dissolvem nos dias
Cada gesto novo
recomeça a viagem, a descoberta,
e no amplexo das tuas coxas, perdida
eu reencontro
os sons e os cheiros
num lugar qualquer de mim guardados,
antes de partir
Entre os meus e os teus olhos
estende-se a languidez cúmplice
decifrando sinais
de velhos amantes,
da tua à minha boca
a curta distancia
de um sopro vai
e tudo em nós se mistura...
em tuas mãos, o ritual do fogo se inicia
e cresce a lava do desejo
que nos arrasta
por entre sussurros e explosões
E é num mar de calmaria,
na embriaguez dos ópios naturais,
que nossos corpos
húmidos, quentes, saciados
desaguam.
710
Angela Santos
Dionísiaca
Assomas à
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
1 166
Angela Santos
Meu Bem Querer
Surge
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
1 208
Fernando Fabião
Dá-me Sempre Esse Dom
Dá-me sempre
esse Dom
Obscuro e precário esse fulgor da cinza
Essa pureza na alegria da terra
Dá-me uma cisterna de luz
Um cântaro de água aprisionada
Dá-me a tua aurora e o teu presságio
Para eu dançar no centro da noite
E na orla do coração
Escutar os pássaros.
esse Dom
Obscuro e precário esse fulgor da cinza
Essa pureza na alegria da terra
Dá-me uma cisterna de luz
Um cântaro de água aprisionada
Dá-me a tua aurora e o teu presságio
Para eu dançar no centro da noite
E na orla do coração
Escutar os pássaros.
768
Cláudia Marczak
O Sexo é Sagrado
O sexo é
sagrado,
como salgadas são as gotas de suor
que brotam dos meus poros
e encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
onde me torno uma deusa enlouquecida
sentindo teus pelos sobre a minha pele.
Neste instante já não sou nada,
somente corpo,
boca,
pele,
pêlos,
línguas,
bocas.
E a vida brota da semente,
dos poucos segundos de êxtase.
Tuas mãos como um brinquedo
passeiam pelo meu corpo.
Não revelam segredos
desvendam apenas o pudor do mundo,
descobrem a febre dos animais.
Então nos tornamos um
ao mesmo tempo em que
a escuridão explode em festa.
A noite amanhece sem versos,
com a música do seu hálito ofegante.
O sol brota de dentro de mim.
Breves segundos.
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.
Eu fui feliz.
sagrado,
como salgadas são as gotas de suor
que brotam dos meus poros
e encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
onde me torno uma deusa enlouquecida
sentindo teus pelos sobre a minha pele.
Neste instante já não sou nada,
somente corpo,
boca,
pele,
pêlos,
línguas,
bocas.
E a vida brota da semente,
dos poucos segundos de êxtase.
Tuas mãos como um brinquedo
passeiam pelo meu corpo.
Não revelam segredos
desvendam apenas o pudor do mundo,
descobrem a febre dos animais.
Então nos tornamos um
ao mesmo tempo em que
a escuridão explode em festa.
A noite amanhece sem versos,
com a música do seu hálito ofegante.
O sol brota de dentro de mim.
Breves segundos.
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.
Eu fui feliz.
1 083
Fernando Mendes Vianna
Oratório dos Corpos (trechos)
Segue os ditames do
teu corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
……….
O corpo não
precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice
ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
teu corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
……….
O corpo não
precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice
ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
991
Anjo Hazel
Façamos Um Trato Esta Noite
Façamos
um trato esta noite...não sejamos tão realistas.
Você geme e suspira, eu ouço
enquanto minha boca te explora como louco
flutuando em luas surrealistas.
Façamos um trato esta noite... efêmera é esta carne
que nos lacra.
O tempo pára enquanto te despes.
O mundo desaba quando te vestes.
Ama-me antes que o pudor te rasgue como faca.
Façamos um trato esta noite... as lágrimas são cristais
do coração.
Eu sinto o fel em teus lábios maculados.
Vejo o abismo de teus olhos mascarados
que se escondem atrás de tormentos vãos...
Façamos um trato esta noite... não adianta fugir da própria
vida !
Ainda temes a flor pelos espinhos.
Ainda crês que terminaremos sozinhos.
E o amor é não mais que uma mentira.
Façamos um trato esta noite...prometo te convencer na quietude
que o amor ideal é ao desfolhar dos dias
a felicidade nublando nosso ódio
e ter consigo sempre esta virtude.
um trato esta noite...não sejamos tão realistas.
Você geme e suspira, eu ouço
enquanto minha boca te explora como louco
flutuando em luas surrealistas.
Façamos um trato esta noite... efêmera é esta carne
que nos lacra.
O tempo pára enquanto te despes.
O mundo desaba quando te vestes.
Ama-me antes que o pudor te rasgue como faca.
Façamos um trato esta noite... as lágrimas são cristais
do coração.
Eu sinto o fel em teus lábios maculados.
Vejo o abismo de teus olhos mascarados
que se escondem atrás de tormentos vãos...
Façamos um trato esta noite... não adianta fugir da própria
vida !
Ainda temes a flor pelos espinhos.
Ainda crês que terminaremos sozinhos.
E o amor é não mais que uma mentira.
Façamos um trato esta noite...prometo te convencer na quietude
que o amor ideal é ao desfolhar dos dias
a felicidade nublando nosso ódio
e ter consigo sempre esta virtude.
1 013
Fernando Tavares Rodrigues
Como se Estivesse Apaixonado
Para quem
não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer.
Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.
Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante...
não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer.
Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.
Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante...
1 134
Cristiane Neder
Em Uma Só Unidade
Bis,
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.
Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.
Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.
Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.
Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.
Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.
Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
912
Angela Santos
Os Olhos do Tempo
Espraiam-se
meus gestos
insinuando desejos que se calam à passagem
do tempo em mim,
mas teimo ainda ser e acreditar
Desfio esperas e no meu regaço
silencio suspiros,
e é na brancura de um certo vazio
que ensaio abraços
perdidos na noite
que se deita a meu lado
E fico pensando
num pássaro que risca
breve o imenso espaço,
quisera eu planar
e voar assim também…
Mas meu coração,
hoje agrilhoado
prende-me a este instante…
quero o que me enche,
quero o que me falta
tenho o que não quero
tenho o que me farta
Olho o tempo e sinto-me
ser a fiandeira do irrepetível
momento que passa
e sinto crescer dentro do meu peito
como prenhe ventre
a imensa a saudade
que não sei se mata
ou aviva a alma
meus gestos
insinuando desejos que se calam à passagem
do tempo em mim,
mas teimo ainda ser e acreditar
Desfio esperas e no meu regaço
silencio suspiros,
e é na brancura de um certo vazio
que ensaio abraços
perdidos na noite
que se deita a meu lado
E fico pensando
num pássaro que risca
breve o imenso espaço,
quisera eu planar
e voar assim também…
Mas meu coração,
hoje agrilhoado
prende-me a este instante…
quero o que me enche,
quero o que me falta
tenho o que não quero
tenho o que me farta
Olho o tempo e sinto-me
ser a fiandeira do irrepetível
momento que passa
e sinto crescer dentro do meu peito
como prenhe ventre
a imensa a saudade
que não sei se mata
ou aviva a alma
1 005
Isabel Machado
Diz
Sim... pode
falar...
fale de paixão
fale de tesão
fale do teu jeito
que não é maldito
fale sussurrando tudo
ao meu ouvido
como um zumbido
de prazer...
Diga... diga que está apaixonado
diga que és o meu amado
desde outra vida
e que nada será violado
além da paixão
e que sempre haverá o cuidado
de nos pertencer...
... proteção...
Diz... diz que desejas o meu último sorriso
diz tudo aquilo que eu preciso
diga o que quer
e o que não quer
teu coração...
é tudo permitido
êxtase de emoção.
falar...
fale de paixão
fale de tesão
fale do teu jeito
que não é maldito
fale sussurrando tudo
ao meu ouvido
como um zumbido
de prazer...
Diga... diga que está apaixonado
diga que és o meu amado
desde outra vida
e que nada será violado
além da paixão
e que sempre haverá o cuidado
de nos pertencer...
... proteção...
Diz... diz que desejas o meu último sorriso
diz tudo aquilo que eu preciso
diga o que quer
e o que não quer
teu coração...
é tudo permitido
êxtase de emoção.
964
José Carlos Ferreira
O sexo sem risco
O sexo sem
risco não:
sem rabisco não há poema
nem nuvens cúmulus-nimbus no céu.
Traçados, medidos os modos
de agir, de gozo,
restam regra e exceção.
A frestra, a nesga, a execração.
Problema em sexo:
não.
Não
tem esse jeito agressivo de se escrever, ininterrupto, enérgico.
Pois sexo n érgico quero.
risco não:
sem rabisco não há poema
nem nuvens cúmulus-nimbus no céu.
Traçados, medidos os modos
de agir, de gozo,
restam regra e exceção.
A frestra, a nesga, a execração.
Problema em sexo:
não.
Não
tem esse jeito agressivo de se escrever, ininterrupto, enérgico.
Pois sexo n érgico quero.
761
Angela Santos
Sinais
Nas
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
1 196
Fernando Tavares Rodrigues
Jantar
Jantar
sozinho, comer
O resto da minha sede.
Como se alguém repartisse
A fome de apetecer
Outro corpo que se bebe
E que depois nos fugisse....
sozinho, comer
O resto da minha sede.
Como se alguém repartisse
A fome de apetecer
Outro corpo que se bebe
E que depois nos fugisse....
1 041
Geraldo Pinto Rodrigues
Pélvicas Angras
Pélvicas angras
aonde veleja
meu barco ébrio
entre suores.
Meu barco púbico
roçando o porto
de tuas ancas,
nos desesperos.
Se a quilha agito
qual um corcel,
nos descampados
já faço água
neste batel
desgovernado
nos teus desmandos.
Só sigo a viagem,
mais confortado,
quando fundeio
nos teus abraços.
Enfim, assédios
de muitos frêmitos
me desintegram
nos teus penhascos!
aonde veleja
meu barco ébrio
entre suores.
Meu barco púbico
roçando o porto
de tuas ancas,
nos desesperos.
Se a quilha agito
qual um corcel,
nos descampados
já faço água
neste batel
desgovernado
nos teus desmandos.
Só sigo a viagem,
mais confortado,
quando fundeio
nos teus abraços.
Enfim, assédios
de muitos frêmitos
me desintegram
nos teus penhascos!
1 032
Fernando Namora
Profecia
Nem me
disseram ainda
para o que vim.
Se logro ou verdade
Se filho amado ou rejeitado.
mas sei
que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo
e no meu sangue veias se abriram
noutro sangue....
A ele obedeço,
sempre,
a esse incitamento mudo.
Também sei
que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto
sempre,
que não posso recuar.
disseram ainda
para o que vim.
Se logro ou verdade
Se filho amado ou rejeitado.
mas sei
que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo
e no meu sangue veias se abriram
noutro sangue....
A ele obedeço,
sempre,
a esse incitamento mudo.
Também sei
que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto
sempre,
que não posso recuar.
2 348
Angela Santos
Mil Sóis
De
noites de mil sóis
se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego
noites de mil sóis
se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego
826
Fernando Tavares Rodrigues
Rosa dos Ventos
Ao sul de mim existe um porto
Que não se bebe.
Apenas se pressente.
Me embriaga
E , contudo, não se mede.
Mulher cujo perfume só recordo
Na madrugada fria, ainda doente.
A Norte, porém, quando confessa
Vontades que traz apetecidas
Confesso que me aquece, nessa pressa,
Outras mulheres que cria já esquecidas.
A Oeste bastava outra vontade
Para alcançar a praia repetida
Que outro gesto quisera e de vaidade.
Finalmente, a Leste, a despedida,
Abraço que ficou por acabar,
Palavra de começo e de partida
Que o tempo não deixou acreditar...
Que não se bebe.
Apenas se pressente.
Me embriaga
E , contudo, não se mede.
Mulher cujo perfume só recordo
Na madrugada fria, ainda doente.
A Norte, porém, quando confessa
Vontades que traz apetecidas
Confesso que me aquece, nessa pressa,
Outras mulheres que cria já esquecidas.
A Oeste bastava outra vontade
Para alcançar a praia repetida
Que outro gesto quisera e de vaidade.
Finalmente, a Leste, a despedida,
Abraço que ficou por acabar,
Palavra de começo e de partida
Que o tempo não deixou acreditar...
972
Fernando Tavares Rodrigues
ComPassos
Como compassos
Abrem-se em passos maiores
Apressadas, inquietas,
Sóbrias, nuas, indiscretas,
Lânguidas, em lentos passos,
Por avenidas, esquinas, corredores,
As duas pernas da mulher.
Secreto o centro que as une
E as afasta
Mantendo aceso o lume
Desse calor que as não gasta.
Deixam rastos, desenhos, arabescos
Pelas calçadas, ruas e passeios,
Se nos prometem na cor dos lábios frescos
A sombra nua da rosa dos seus seios.
Como se cruzam e se abrem em desafio,
Como convidam, sem silencio, se ela quer
A esse galope, às vezes terno, às vezes frio
À rédea solta rumo ao centro da mulher.
Marcam , a andar, o ritmo do Universo,
Do coração conhecem a rotina.
Por uma flor, às vezes por um verso
Da pura e casta desperta a libertina.
Compasso vivo, metrónomo complexo
Que marca o tempo e o andamento do prazer,
Chama-se amor ou profissão ou apenas sexo,
Seja ela amante, prostituta ou só mulher.
Abrem-se em passos maiores
Apressadas, inquietas,
Sóbrias, nuas, indiscretas,
Lânguidas, em lentos passos,
Por avenidas, esquinas, corredores,
As duas pernas da mulher.
Secreto o centro que as une
E as afasta
Mantendo aceso o lume
Desse calor que as não gasta.
Deixam rastos, desenhos, arabescos
Pelas calçadas, ruas e passeios,
Se nos prometem na cor dos lábios frescos
A sombra nua da rosa dos seus seios.
Como se cruzam e se abrem em desafio,
Como convidam, sem silencio, se ela quer
A esse galope, às vezes terno, às vezes frio
À rédea solta rumo ao centro da mulher.
Marcam , a andar, o ritmo do Universo,
Do coração conhecem a rotina.
Por uma flor, às vezes por um verso
Da pura e casta desperta a libertina.
Compasso vivo, metrónomo complexo
Que marca o tempo e o andamento do prazer,
Chama-se amor ou profissão ou apenas sexo,
Seja ela amante, prostituta ou só mulher.
1 040
Jorge de Sena
Em Louvor da Promiscuidade
Quem tem de amor,
físico amor, ideia
que os olhos não possuem qual amor façamos
e que ele não vive do que os outros façam
ante os curiosos olhos com que bebamos
o ritmo das ancas como as formas
enlaçadas por mãos e pernas, sexos e bocas,
de pudicícia desastrada e matrimónica
com prostituta ou esposa. ou vive
de imaginar paixões por um só corpo
que não são mais que tê-lo tido e o hábito
de continuar a tê-lo. amor-amor
é uma outra coisa, mas não isto
nem o prazer que é feito de um prazer alheio
feito só de prazer sem pensamento
- que no promiscuo amor o imaginar
é só imaginar-se o que varia em acto.
físico amor, ideia
que os olhos não possuem qual amor façamos
e que ele não vive do que os outros façam
ante os curiosos olhos com que bebamos
o ritmo das ancas como as formas
enlaçadas por mãos e pernas, sexos e bocas,
de pudicícia desastrada e matrimónica
com prostituta ou esposa. ou vive
de imaginar paixões por um só corpo
que não são mais que tê-lo tido e o hábito
de continuar a tê-lo. amor-amor
é uma outra coisa, mas não isto
nem o prazer que é feito de um prazer alheio
feito só de prazer sem pensamento
- que no promiscuo amor o imaginar
é só imaginar-se o que varia em acto.
3 893
Angela Santos
Cansaços
Verde
planície,
teus olhos
teu corpo
doce orvalho em minha pele
Meu sol a pino
flamejante a tua língua
arrastando do meu corpo
exausto
restos de frio.
planície,
teus olhos
teu corpo
doce orvalho em minha pele
Meu sol a pino
flamejante a tua língua
arrastando do meu corpo
exausto
restos de frio.
638
Angela Santos
Entrelinhas
Ali
naquele instante em que não paramos,
não vimos
que não há dias iguais
no seu aparente igual suceder
Um banco de jardim
um sol morno
a tarde que lenta cai,
rodopiando em correrias
uma criança, um cão
e lá longe a linha do horizonte
fundindo tons de azul
Aqui, fixando um sol laranja
dois amantes se entreolham
e tocam num gesto subtil,
seus dedos se enlaçam
e de repente o corpo respira desejo.
E enchem a vida
os quotidianos, vulgares, ínfimos sinais
passamos, e passamos adiante
sem decifrar na superfície do acontecer
que nada se repete,
que não há dias iguais.
naquele instante em que não paramos,
não vimos
que não há dias iguais
no seu aparente igual suceder
Um banco de jardim
um sol morno
a tarde que lenta cai,
rodopiando em correrias
uma criança, um cão
e lá longe a linha do horizonte
fundindo tons de azul
Aqui, fixando um sol laranja
dois amantes se entreolham
e tocam num gesto subtil,
seus dedos se enlaçam
e de repente o corpo respira desejo.
E enchem a vida
os quotidianos, vulgares, ínfimos sinais
passamos, e passamos adiante
sem decifrar na superfície do acontecer
que nada se repete,
que não há dias iguais.
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Angela Santos
Por Dentro
Dentro
do meu peito
há um grito que não solto
um espinho que não cravei
uma espada
que não quis
voltada contra o que sou
Dentro do meu peito
há uma ave que não voa
da janela sem horizonte
onde pousada ficou
Dentro do meu peito
há um sol em declínio
uma gaveta fechada
onde guardei os sentidos
e a chave que a abriria
perdeu-se ou enferrujou.
Dentro do meu peito
emparedado há um rio
galgando as margens
que o prendem
na senda da sua foz…
e indómito busca caminho
sem saber se vai chegar
à boca desse mar imenso
que se liga a outro mar.
do meu peito
há um grito que não solto
um espinho que não cravei
uma espada
que não quis
voltada contra o que sou
Dentro do meu peito
há uma ave que não voa
da janela sem horizonte
onde pousada ficou
Dentro do meu peito
há um sol em declínio
uma gaveta fechada
onde guardei os sentidos
e a chave que a abriria
perdeu-se ou enferrujou.
Dentro do meu peito
emparedado há um rio
galgando as margens
que o prendem
na senda da sua foz…
e indómito busca caminho
sem saber se vai chegar
à boca desse mar imenso
que se liga a outro mar.
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