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Desejo

Jean de La Fontaine

Jean de La Fontaine

Invocação à volúpia

Sem ti, doce Volúpia, o viver e o morrer
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.

Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...

 
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Calex Fagundes

Calex Fagundes

Face do desejo

Lume.
A dança da chama,
bailarina esguia.

Pele.
Aceso toque da noite
leve invisível.

Antepercebe-se
a flauta do fauno
invadindo a sala.

A boca percorre
palavras de veludo
sorvidas aos tragos.

Sabe-se nada...
a alma é tomada
e tudo é momento.

Agora.
a noite é hora
neste aposento.

Toca o pêlo
entumescimento
das pontas.

Lambe a aura
da divindade
vaga.

Penumbra.
Chama do fogo,
lenho de carne.

Inebriam-se os lábios.
Frêmito.
Espírito absorvente da noite.

Cabelos
dedos em novelos
nebulosas e redondilhas.

Ilhas.
Crespos.
Águas.

Deitam-se a verter
ao sabor do nascituro,
eremita de fogo.

Gomo de fibras.
Lábio sorve a sede

da água que verte.

Um vaso aberto,
gardênia em chamas,
carmesim do fogo.

Ponto de fêmea.
Ambiente.
Atmosfera.

Hálito.
Perfume.
Máscara.

Sangue
em pele
marfim.

Cambraias
abertas
em pernas de mulher.

Heliocêntricos
raios olhos
fixos no nada.

Músculos tesos.
Úmida.
Tépida.

Abre-se a porta.
Rude o peregrino
chega e faz morada.

Língua molhada
ao encontro
de alvéolos e esponjas.

Água salgada
maresia de fêmea
Sede de nervos

e músculos
a forçar
entranhas.

Brumas
sangüíneas,
cama de ferro.

Fêmea de
pernas
escancaradas.

Cortina de gaze.
Vento marítimo.
Odor de dentro.

Envolvente
o prazer
da mulher deitada.

Faze de mim o tempo.
O simples pulsar
dentro de ti.

Anjo, te faço fêmea.
Mulher, te faço anjo.
Faço-te gozo.

O gozo de meu sangue
é o leite
que te serve.

Na águas de tua
fonte afogas
a minha sede.

A língua percorre
um fio na topografia
de montes e vales.

A fêmea é terra
latente na eterna
espera da semente.

Penumbra do quarto
olhos da noite.
Como me achas?

Como me vês?
Como sabes trazer-me
pra dentro de ti?

O vinho.
A noite.
O silêncio.

Nada além das janelas
Nem mesmo horizontes existem
num quarto de casal.

Deposito em ti a minha
Eternidade.
Sou teu amante.

E deito em ti
minhas surpresas em forma
de farsas adocicadas.

Quando dormes – e acordo
com teus gemidos – persigo
teu gozo com meu pensamento .

Vejo-te outra,
longe de mim,
a se espargir no éter.

Teu corpo é belo
tua mente, insana
quando deitas na cama

e te cobres de pétalas.
A alma da mulher
se esconde num beijo.

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Ivaldo Gomes

Ivaldo Gomes

Olha pro céu meu amor

Delba.

Você já viu a lua?
Pois é, esta ai fora,
Nua, que nem você.
Linda, muito linda.
Os raios entram pela
Fresta da janela.
Parece uma festa,
Que nem você que fica
De calcinhas e aninha as
Minhas fantasias,
Fantasminhas, da mina cabeça.
E eu aqui agarrado nesse lápis,
nesse papel, de gin tônica,
queijos e azeitonas.
Poemas atonal, atual, banal,
Que nem jornal, afinal,
É assim que eu tento ser feliz.
Brinco de ser feliz...
E por um triz, que nem chão de giz,
Riscado, desenhado nas paredes
Desse querer, e eu querendo o
Teu querer, sem querer ser muito
Exigente, inteligente...
Só um pouco.
Muito mais carnal, do que normal.
Talvez meio colegial, mas é legal
Te sentir assim.
Mas, você já viu a lua?
Pois é, tá nua, crua,
Que nem você...
E bebo o gin, assim,
Que nem você...
Os desejos sobem a cabeça,
Me imagino peregrino
Dos teus beijos.
Cigano, e não me engano,
Dos teus desejos.
Incenso na casa,
Cheiro doce de lotus ,
Intenso, e as vezes penso,
Através da luz bruxuleante dessas
Velas, que tu estás a caminho...
Aninho esse sonho, essa vontade,
E olho a lua, com olhos sisudos,
Mudos de te ver.
Você já viu a lua?
Pois é, tá na rua,
Pra todo mundo ver.
Alguns vêem... Outros não...
Então, eu penso no Pessoa...
E através do Pessoa, penso na
Pessoa de ti, que nem a lua.
É só a lua, e pronto.
Me invade, me preenche,
Enche e pronto.
Sem maiores explicações...
Não vim pra explicar.
Vim pra conquistar e
Ser conquistado.
Longe de mim ser colonizador.
A dor? Eu convivo com ela...
Vela? Não. Bela é a lua...
Bela é você.
Que vem vindo pela brecha da janela,
De cabelos soltos ao vento,
No meu pensamento, ungüento
Das minhas saudades.
Tarde? Não, é muito cedo
Pra ser infeliz.
Você já viu a lua?
Pois devia, tá linda.
Escorre no horizonte,
Qual chuva de prata.
As estrelas? Pobres das estrelas,
Nem brilham.
Também poderá...
Você e a lua juntas,
É covardia...
Tardia? Talvez, freguês
Dos teus afagos,
E o Alceu? Percebeu,
Escorre da vitrola, que nem
Lágrimas das velas.
Escorre quente, decente,
Indolente, entrementes,
Eu penso em você.
E a lua?
Tá lá ela...
Singela, donzela, e você,
É mais ela dentro de mim.
Only you!... Pois é...
Belchior na vitrola,
Controla o meu pensamento, e
Intenso eu me lembro de você.
Por quê? Ora.. "Diana, suburbana,
Suja de baton"...
Dê o tom, me suja de baton...
Eu te quero assim.
E esse poema, sem fim.
Eu acabo como?
De quimono? Não..
De quimono não.
Acabo sim, acabo!...
Acabo mesmo?
Não tenho tanta certeza.
Só a certeza dos teus afagos...
Assim fulgás, atrás dos teu carinhos.
Olha!... Olha pro céu...
Olha pro céu meu amor...
Tá vendo a lua?
Eu não... Só você.
Quer mais que isso?
Impossível.

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