Poemas neste tema
Amizade
Charles Bukowski
Carta Para Um Amigo Com Um Problema Doméstico:
Olá Carl:
não se preocupe por sua esposa ter fugido de você
ela simplesmente não te entendia.
um pneu me furou hoje na autoestrada
e tive que trocar a roda com uns cheira-
dores voando em seus Maseratis soprando vento na minha
bunda.
o principal é você simplesmente tocar sua vida
e seguir fazendo aquilo que você precisa fazer, ou melhor –
aquilo que você quer fazer.
eu estava no consultório do dentista esses dias
e li uma publicação médica
e ela dizia
que você só precisa
viver até o ano 2020 d.C. e aí
se você tiver dinheiro suficiente
quando seu corpo morrer será possível transplantar seu
cérebro num corpo sem carne que te dá
visão e movimento – tipo você pode pedalar uma
bicicleta ou qualquer coisa do tipo e você também
não perderá tempo urinando ou defe-
cando ou comendo – você só ganha um
tanquinho de sangue no alto da cabeça pra encher
mais ou menos uma vez por mês – é uma espécie de óleo
pro cérebro.
e não se preocupe, tem até sexo, dizem,
só que é um pouco diferente (haha) você pode
ficar metendo até ela implorar pra você parar!
(ela só vai te largar por não aguentar mais
em vez de querer mais.)
esse é o lance do transplante sem carne.
mas tem outra alternativa: eles podem
transplantar o seu cérebro num corpo vivo
cujo cérebro foi retirado de modo a
abrir espaço para o seu.
só que o custo para isso será mais
proibitivo
pois eles terão de localizar um corpo,
um corpo vivo em algum lugar
num hospício digamos ou numa prisão ou
nas ruas em algum lugar – talvez um sequestro –
e embora esses corpos venham a ser melhores,
mais realistas, eles não vão durar tanto quanto
o corpo sem carne que pode funcionar por uns
500 anos antes de exigir troca.
então é tudo uma questão de escolha, daquilo que
você gosta, ou daquilo que você pode bancar.
quando você entra no corpo ele não vai
durar tanto assim – eles dizem uns 110 anos lá por
2020 d.C. – e aí você terá de encontrar
uma reposição de corpo vivo (de novo) ou optar por um
dos trecos sem carne.
em geral, como dão a entender nesse artigo que eu li
no consultório do meu dentista, se você não for tão rico
você pega o treco sem carne mas
se continuar muito bem de capital você
vai pegando o corpo-vivo repetidas vezes.
(os modelos de corpo-vivo têm certas vantagens
pois você será capaz de enganar a maioria do pessoal
da rua e também
a vida sexual é mais realista embora
mais curta.)
Carl, não estou passando a coisa exatamente como
estava escrita mas estou traduzindo todo aquele
lero-lero médico em algo que nós
possamos entender,
mas você acha que dentistas deveriam ter esse tipo de
merda
repousando em suas mesas?
de todo modo, provavelmente quando você receber esta carta
a sua patroa estará de volta com você.
de todo modo, Carl, continuei lendo
e o cara depois dizia que
em ambos os transplantes de cérebro no
corpo vivo e no corpo sem carne
outra coisa ocorreria com as pessoas que
tivessem dinheiro suficiente pra fazer os truques de transferência:
o computadorizado conhecimento dos séculos seria
introduzido no cérebro – e pra onde quer que você quisesse ir
você poderia ir – você seria capaz de pintar como
Rembrandt ou Picasso,
conquistar como César. você poderia fazer todas as coisas
que esses e outros como eles haviam feito
só que melhor.
você seria mais brilhante do que Einstein –
haveria pouquíssimo que você não poderia fazer
e talvez o corpo mais próximo de você
pudesse fazê-lo.
nesse ponto a coisa fica um tanto desconcertante –
o cara prossegue
ele é tipo um daqueles caras em seus
Maseratis cheirados; ele prossegue dizendo
numa linguagem um tanto técnica e obscura que
isso não é Ficção Científica
isso é a abertura de uma porta de horror e assombro
nunca antes especulada e ele diz que a
Última Guerra do Homem se dará entre os ricos
transplantados computadorizados e os não ricos que são
os Muitos
que afinal se ressentirão da sacanagem de terem sido excluídos da
imortalidade
e os ricos vão querer proteger o que é deles
para sempre
e
que
no final
os ricos computadorizados vão ganhar a última
Guerra do Homem (e da
Mulher)
depois ele diz que a subsequente Nova
Guerra tomará forma com os
Imortais lutando contra os Imortais
e o que sucederá será um
acontecimento
exemplar
de modo que o Tempo tal como o conhecemos
entrega os pontos.
mas que bela loucura, não é mesmo,
Carl?
eu gostaria de dizer
que à luz de tudo isso
que a sua esposa fugir não significa
grande coisa
mas eu sei que significa
só pensei em te mostrar
como outras coisas poderiam acontecer.
enquanto isso, as coisas não estão boas aqui
tampouco.
seu amigão,
Hank
não se preocupe por sua esposa ter fugido de você
ela simplesmente não te entendia.
um pneu me furou hoje na autoestrada
e tive que trocar a roda com uns cheira-
dores voando em seus Maseratis soprando vento na minha
bunda.
o principal é você simplesmente tocar sua vida
e seguir fazendo aquilo que você precisa fazer, ou melhor –
aquilo que você quer fazer.
eu estava no consultório do dentista esses dias
e li uma publicação médica
e ela dizia
que você só precisa
viver até o ano 2020 d.C. e aí
se você tiver dinheiro suficiente
quando seu corpo morrer será possível transplantar seu
cérebro num corpo sem carne que te dá
visão e movimento – tipo você pode pedalar uma
bicicleta ou qualquer coisa do tipo e você também
não perderá tempo urinando ou defe-
cando ou comendo – você só ganha um
tanquinho de sangue no alto da cabeça pra encher
mais ou menos uma vez por mês – é uma espécie de óleo
pro cérebro.
e não se preocupe, tem até sexo, dizem,
só que é um pouco diferente (haha) você pode
ficar metendo até ela implorar pra você parar!
(ela só vai te largar por não aguentar mais
em vez de querer mais.)
esse é o lance do transplante sem carne.
mas tem outra alternativa: eles podem
transplantar o seu cérebro num corpo vivo
cujo cérebro foi retirado de modo a
abrir espaço para o seu.
só que o custo para isso será mais
proibitivo
pois eles terão de localizar um corpo,
um corpo vivo em algum lugar
num hospício digamos ou numa prisão ou
nas ruas em algum lugar – talvez um sequestro –
e embora esses corpos venham a ser melhores,
mais realistas, eles não vão durar tanto quanto
o corpo sem carne que pode funcionar por uns
500 anos antes de exigir troca.
então é tudo uma questão de escolha, daquilo que
você gosta, ou daquilo que você pode bancar.
quando você entra no corpo ele não vai
durar tanto assim – eles dizem uns 110 anos lá por
2020 d.C. – e aí você terá de encontrar
uma reposição de corpo vivo (de novo) ou optar por um
dos trecos sem carne.
em geral, como dão a entender nesse artigo que eu li
no consultório do meu dentista, se você não for tão rico
você pega o treco sem carne mas
se continuar muito bem de capital você
vai pegando o corpo-vivo repetidas vezes.
(os modelos de corpo-vivo têm certas vantagens
pois você será capaz de enganar a maioria do pessoal
da rua e também
a vida sexual é mais realista embora
mais curta.)
Carl, não estou passando a coisa exatamente como
estava escrita mas estou traduzindo todo aquele
lero-lero médico em algo que nós
possamos entender,
mas você acha que dentistas deveriam ter esse tipo de
merda
repousando em suas mesas?
de todo modo, provavelmente quando você receber esta carta
a sua patroa estará de volta com você.
de todo modo, Carl, continuei lendo
e o cara depois dizia que
em ambos os transplantes de cérebro no
corpo vivo e no corpo sem carne
outra coisa ocorreria com as pessoas que
tivessem dinheiro suficiente pra fazer os truques de transferência:
o computadorizado conhecimento dos séculos seria
introduzido no cérebro – e pra onde quer que você quisesse ir
você poderia ir – você seria capaz de pintar como
Rembrandt ou Picasso,
conquistar como César. você poderia fazer todas as coisas
que esses e outros como eles haviam feito
só que melhor.
você seria mais brilhante do que Einstein –
haveria pouquíssimo que você não poderia fazer
e talvez o corpo mais próximo de você
pudesse fazê-lo.
nesse ponto a coisa fica um tanto desconcertante –
o cara prossegue
ele é tipo um daqueles caras em seus
Maseratis cheirados; ele prossegue dizendo
numa linguagem um tanto técnica e obscura que
isso não é Ficção Científica
isso é a abertura de uma porta de horror e assombro
nunca antes especulada e ele diz que a
Última Guerra do Homem se dará entre os ricos
transplantados computadorizados e os não ricos que são
os Muitos
que afinal se ressentirão da sacanagem de terem sido excluídos da
imortalidade
e os ricos vão querer proteger o que é deles
para sempre
e
que
no final
os ricos computadorizados vão ganhar a última
Guerra do Homem (e da
Mulher)
depois ele diz que a subsequente Nova
Guerra tomará forma com os
Imortais lutando contra os Imortais
e o que sucederá será um
acontecimento
exemplar
de modo que o Tempo tal como o conhecemos
entrega os pontos.
mas que bela loucura, não é mesmo,
Carl?
eu gostaria de dizer
que à luz de tudo isso
que a sua esposa fugir não significa
grande coisa
mas eu sei que significa
só pensei em te mostrar
como outras coisas poderiam acontecer.
enquanto isso, as coisas não estão boas aqui
tampouco.
seu amigão,
Hank
1 062
Charles Bukowski
Língua Cortada
ele mora nos fundos e aparece na minha porta
carregando a espingarda numa das mãos.
“escuta”, ele diz, “tinha um cara sentado
no seu sofá na varanda enquanto você estava
fora. agindo estranho. perguntei o que ele
queria, ele disse que queria falar com você.
falei que você não estava. você conhece um
negro alto chamado ‘Dave’?”
“não conheço ninguém assim...”
“vi esse cara na rua depois e
perguntei o que ele estava fazendo na vizi-
nhança.”
“não conheço nenhum negro alto chamado ‘Dave’.”
“andei vigiando sua casa. botei pra correr um par
daqueles alemães. você não quer saber de alemão nenhum,
quer?”
“não, Max, não gosto de alemães, franceses e sobretudo
não gosto de ingleses. os mexicanos e os gregos são
ok mas tem algo que me desagrada na expressão que eles têm no
rosto.”
“tem aparecido mais alemães do que qualquer outro tipo.”
“bota pra correr...”
“tá bom, pode deixar... quando você viaja de novo?”
“amanhã.”
“amanhã...?”
“amanhã, sim, e se você encontrar um filho da puta sentado no
meu sofá da varanda, pode estourar a porra da cabeça dele...”
“tá bom, pode deixar...”
“obrigado, Max...”
“sem problema...”
ele volta para o pátio dele nos fundos com sua
espingarda e
entra.
“meu deus”, diz Linda Lee, “sabe o que você
fez?”
“sim”, eu digo.
“ele acredita em você. quando a gente voltar vai ter
um cadáver na varanda.”
“tudo bem...”
“você não lembra quando eu tirei meu dia de silêncio?
você disse pra ele que tinha cortado minha língua... e ele
levou a sério...”
“Max é o único amigão de verdade que eu
tenho...”
“você é um cúmplice...”
“não gosto de caras não convidados sentados no meu sofá
da varanda esperando por mim...”
“digamos que seja um poeta, um cara que admira a sua
obra?”
“como eu disse, ‘Max é o único amigão de verdade que eu tenho.’
vamos fazer as malas...”
“o que houve com meu vestido verde?”,
ela pergunta.
carregando a espingarda numa das mãos.
“escuta”, ele diz, “tinha um cara sentado
no seu sofá na varanda enquanto você estava
fora. agindo estranho. perguntei o que ele
queria, ele disse que queria falar com você.
falei que você não estava. você conhece um
negro alto chamado ‘Dave’?”
“não conheço ninguém assim...”
“vi esse cara na rua depois e
perguntei o que ele estava fazendo na vizi-
nhança.”
“não conheço nenhum negro alto chamado ‘Dave’.”
“andei vigiando sua casa. botei pra correr um par
daqueles alemães. você não quer saber de alemão nenhum,
quer?”
“não, Max, não gosto de alemães, franceses e sobretudo
não gosto de ingleses. os mexicanos e os gregos são
ok mas tem algo que me desagrada na expressão que eles têm no
rosto.”
“tem aparecido mais alemães do que qualquer outro tipo.”
“bota pra correr...”
“tá bom, pode deixar... quando você viaja de novo?”
“amanhã.”
“amanhã...?”
“amanhã, sim, e se você encontrar um filho da puta sentado no
meu sofá da varanda, pode estourar a porra da cabeça dele...”
“tá bom, pode deixar...”
“obrigado, Max...”
“sem problema...”
ele volta para o pátio dele nos fundos com sua
espingarda e
entra.
“meu deus”, diz Linda Lee, “sabe o que você
fez?”
“sim”, eu digo.
“ele acredita em você. quando a gente voltar vai ter
um cadáver na varanda.”
“tudo bem...”
“você não lembra quando eu tirei meu dia de silêncio?
você disse pra ele que tinha cortado minha língua... e ele
levou a sério...”
“Max é o único amigão de verdade que eu
tenho...”
“você é um cúmplice...”
“não gosto de caras não convidados sentados no meu sofá
da varanda esperando por mim...”
“digamos que seja um poeta, um cara que admira a sua
obra?”
“como eu disse, ‘Max é o único amigão de verdade que eu tenho.’
vamos fazer as malas...”
“o que houve com meu vestido verde?”,
ela pergunta.
1 195
Charles Bukowski
Viciado Em Cavalo
nós trabalhávamos em banquetas lado a lado.
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
1 172
Charles Bukowski
A Massa Solar: Alma: Gênese E Geotropismo:
permitam-me agora tentar
atenuar a grandeza laríngea de Veechy:
pois que homem do tempo poderia ter
dito:
“Espiões, Espadas, Espinhos – externo extrapsino.
Oósporo aguilhão do ofito opino.”
Bigorna!
e isso foi antes de
Pound, Olson, Williams, John
Muir.
“Planos planímetros planifólios!”, certa vez ele me
escreveu.
“Pelas barbas da rocha quinquangular”, retorqui
eu, “acertou em cheio!”
eu o visitei na Itália no Dia de Todos os Tolos
e sua autoridade nos pulvilos pontilhados
nunca me deixou em dúvida
umbrosa.
“Trépano”, ele disse, “ode – uíste! – fragrantes astrágalos.”
foi a última vez. que. o vi. Veechy tinha
embocaduras brasonadas, criptônimos, drosômetros;
que o favoso favor dele
ressoe pela ruma,
rubefaciente, causando também o ruído na
rutabaga.
atenuar a grandeza laríngea de Veechy:
pois que homem do tempo poderia ter
dito:
“Espiões, Espadas, Espinhos – externo extrapsino.
Oósporo aguilhão do ofito opino.”
Bigorna!
e isso foi antes de
Pound, Olson, Williams, John
Muir.
“Planos planímetros planifólios!”, certa vez ele me
escreveu.
“Pelas barbas da rocha quinquangular”, retorqui
eu, “acertou em cheio!”
eu o visitei na Itália no Dia de Todos os Tolos
e sua autoridade nos pulvilos pontilhados
nunca me deixou em dúvida
umbrosa.
“Trépano”, ele disse, “ode – uíste! – fragrantes astrágalos.”
foi a última vez. que. o vi. Veechy tinha
embocaduras brasonadas, criptônimos, drosômetros;
que o favoso favor dele
ressoe pela ruma,
rubefaciente, causando também o ruído na
rutabaga.
715
Charles Bukowski
Eddie E Eve
você sabe
sentei no mesmo banco de bar por 5 anos na
Filadélfia
eu bebia álcool etílico e o vinho mais barato
apanhava nos becos de caminhoneiros bem-alimentados
apenas para diversão de
senhoras e senhores da noite
nada lhe direi da minha vida de criança
é doentiamente
irreal
mas o que quero dizer
é que fui enfim ver meu amigo Eddie
depois de 30 anos
ele continuava na mesma casa
com a mesma esposa
deixo você adivinhar:
ele parecia bem pior do que eu
não conseguia se levantar da cadeira
uma bengala
artrite
o que restava a ele de cabelo havia
embranquecido
meu deus, Eddie, eu disse.
eu sei, ele disse, me fodi, não
consigo respirar.
então sua esposa apareceu. aquela que uma vez fora a magra
Eve com quem eu costumava flertar.
95 quilos
me olhando de soslaio.
meu deus, Eve, eu disse.
eu sei, ela disse.
ficamos todos bêbados. muitas horas depois
Eddie me disse,
vá para a cama com ela, faça-lhe algum bem,
eu já não sirvo para nada
mais.
Eve deu um risinho.
não posso, Eddie, eu disse, você é meu
chapa.
bebemos um pouco mais.
infinitas garrafas de
cerveja.
Eddie começou a vomitar.
Eve lhe trouxe uma bacia
e ele vomitou dentro da
bacia
me dizendo entre os espasmos
que nós éramos homens
homens de verdade
sabíamos as coisas de fato
por deus
esses moleques
não sabiam de nada.
levamos ele para a cama
tiramos sua roupa
e ele logo apagou,
roncando.
me despedi de Eve.
fui embora e entrei no meu carro
e fiquei ali sentado olhando para a casa.
então dei a partida.
era só o que me restava fazer.
sentei no mesmo banco de bar por 5 anos na
Filadélfia
eu bebia álcool etílico e o vinho mais barato
apanhava nos becos de caminhoneiros bem-alimentados
apenas para diversão de
senhoras e senhores da noite
nada lhe direi da minha vida de criança
é doentiamente
irreal
mas o que quero dizer
é que fui enfim ver meu amigo Eddie
depois de 30 anos
ele continuava na mesma casa
com a mesma esposa
deixo você adivinhar:
ele parecia bem pior do que eu
não conseguia se levantar da cadeira
uma bengala
artrite
o que restava a ele de cabelo havia
embranquecido
meu deus, Eddie, eu disse.
eu sei, ele disse, me fodi, não
consigo respirar.
então sua esposa apareceu. aquela que uma vez fora a magra
Eve com quem eu costumava flertar.
95 quilos
me olhando de soslaio.
meu deus, Eve, eu disse.
eu sei, ela disse.
ficamos todos bêbados. muitas horas depois
Eddie me disse,
vá para a cama com ela, faça-lhe algum bem,
eu já não sirvo para nada
mais.
Eve deu um risinho.
não posso, Eddie, eu disse, você é meu
chapa.
bebemos um pouco mais.
infinitas garrafas de
cerveja.
Eddie começou a vomitar.
Eve lhe trouxe uma bacia
e ele vomitou dentro da
bacia
me dizendo entre os espasmos
que nós éramos homens
homens de verdade
sabíamos as coisas de fato
por deus
esses moleques
não sabiam de nada.
levamos ele para a cama
tiramos sua roupa
e ele logo apagou,
roncando.
me despedi de Eve.
fui embora e entrei no meu carro
e fiquei ali sentado olhando para a casa.
então dei a partida.
era só o que me restava fazer.
1 147
Charles Bukowski
Agora
eu tinha bolhas do tamanho de tomates
me cobrindo todo
eles me enfiaram cânulas
lá no hospital do condado,
e
tão logo o sol se punha
a cada dia
havia um homem no leito ao lado
que começava a urrar por seu amigo Joe.
JOE! ele urrava, Ô, JOE! JOE! J O E!
VENHA ME BUSCAR, JOE!
Joe nunca apareceu.
nunca tinha escutado lamentos como
esses.
Joe devia estar em cima de um
rabo qualquer ou
tentando completar umas palavras cruzadas.
eu sempre disse
se você quer descobrir quem são seus amigos
vá parar no hospício ou na
cadeia.
e se você quiser descobrir onde o amor não está
seja um perpétuo
perdedor.
tive bastante sorte com minhas bolhas
sendo perfurado e torturado
contra o pano de fundo das montanhas de Sierra Madre
enquanto aquele sol se punha;
enquanto aquele sol se punha eu sabia o que eu viria a fazer
quando finalmente tivesse aquela cânula em minhas mãos
como acontece
agora.
me cobrindo todo
eles me enfiaram cânulas
lá no hospital do condado,
e
tão logo o sol se punha
a cada dia
havia um homem no leito ao lado
que começava a urrar por seu amigo Joe.
JOE! ele urrava, Ô, JOE! JOE! J O E!
VENHA ME BUSCAR, JOE!
Joe nunca apareceu.
nunca tinha escutado lamentos como
esses.
Joe devia estar em cima de um
rabo qualquer ou
tentando completar umas palavras cruzadas.
eu sempre disse
se você quer descobrir quem são seus amigos
vá parar no hospício ou na
cadeia.
e se você quiser descobrir onde o amor não está
seja um perpétuo
perdedor.
tive bastante sorte com minhas bolhas
sendo perfurado e torturado
contra o pano de fundo das montanhas de Sierra Madre
enquanto aquele sol se punha;
enquanto aquele sol se punha eu sabia o que eu viria a fazer
quando finalmente tivesse aquela cânula em minhas mãos
como acontece
agora.
1 161
Charles Bukowski
Uma Abelha
suponho que como qualquer garoto
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
1 527
Charles Bukowski
Gêmeos
ei, disse o meu amigo, quero que você conheça
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
1 223
Charles Bukowski
Danação E Hora da Sesta
meu amigo está preocupado com a morte
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
993
Charles Bukowski
Uma Aposta Perdida
ela não é pra você, cara,
não faz o seu tipo,
ela foi maltratada
foi usada
adquiriu todos os maus
hábitos,
ele me disse
entre um páreo e outro.
vou apostar no cavalo 4,
eu lhe disse.
bem, é que eu gostaria apenas
de tentar tirá-la
da correnteza,
salvá-la, pode-se dizer.
você não conseguirá, ele disse,
você tem 55, precisa de gentileza.
vou apostar no cavalo 6.
você não é o cara para
salvá-la.
e você pode? perguntei.
não acho que o 6 tenha
chance, prefiro o 4.
ela precisa de alguém que lhe desça a mão,
que a jogue na parede, ele disse,
que lhe chute o rabo, ela vai adorar.
ficará em casa e
lavará a louça.
o cavalo 6 vai estar na
disputa.
não sou bom nesse negócio de bater em mulher,
eu disse.
então tire ela da cabeça, ele disse.
não é fácil, respondi.
ele se levantou e foi no 6
e eu me levantei e fui no 4.
o cavalo 5 ganhou
por 3 corpos
pagando 15 para um.
os cabelos dela são ruivos
como relâmpagos vindos do paraíso,
eu disse.
tire ela da cabeça, ele disse.
rasgamos nossos bilhetes
e olhamos para o lago
no centro da pista.
aquela ia ser
uma longa tarde
para nós dois.
não faz o seu tipo,
ela foi maltratada
foi usada
adquiriu todos os maus
hábitos,
ele me disse
entre um páreo e outro.
vou apostar no cavalo 4,
eu lhe disse.
bem, é que eu gostaria apenas
de tentar tirá-la
da correnteza,
salvá-la, pode-se dizer.
você não conseguirá, ele disse,
você tem 55, precisa de gentileza.
vou apostar no cavalo 6.
você não é o cara para
salvá-la.
e você pode? perguntei.
não acho que o 6 tenha
chance, prefiro o 4.
ela precisa de alguém que lhe desça a mão,
que a jogue na parede, ele disse,
que lhe chute o rabo, ela vai adorar.
ficará em casa e
lavará a louça.
o cavalo 6 vai estar na
disputa.
não sou bom nesse negócio de bater em mulher,
eu disse.
então tire ela da cabeça, ele disse.
não é fácil, respondi.
ele se levantou e foi no 6
e eu me levantei e fui no 4.
o cavalo 5 ganhou
por 3 corpos
pagando 15 para um.
os cabelos dela são ruivos
como relâmpagos vindos do paraíso,
eu disse.
tire ela da cabeça, ele disse.
rasgamos nossos bilhetes
e olhamos para o lago
no centro da pista.
aquela ia ser
uma longa tarde
para nós dois.
1 174
Manuel Bandeira
Saudação a Murilo Mendes
Saudemos Murilo Medina Celi Monteiro Mendes que menino invadiu o céu na cola do cometa de Halley.
Saudemos Murilo
Grande poeta
Conciliador de contrários
Incorporador do eterno ao contingente
Saudemos Murilo
Grande amigo da Poesia
Da poesia em Cristo
E em Lúcifer
Antes da queda
Saudemos Murilo
Grande amigo da Música
Especialmente grande amigo de Mozart
Que lhe apareceu um dia
Vestido de casaca azul
Saudemos Murilo
Grande amigo das Belas-Artes
Descobridor do falecido Cícero
(Hoje reencarnado num pintor abstracionista que vive em Paris onde o chamam Diás).
Saudemos Murilo
Para quem a amizade é também uma das Belas-Artes
Murilo grande amigo de seus amigos
Delicado fiel atento amigo de seus amigos
Saudemos Murilo
Grande marido dessa encantadora Maria da Saudade
Portuguesa e brasileira
Como seu nome
Invenção de dois poetas
Saudemos Murilo
Antitotalitarista antipassadista antiburocratista
Anti tudo que é pau ou que é pífio
Saudemos o grande poeta
Perenemente em pânico
E em flor.
Saudemos Murilo
Grande poeta
Conciliador de contrários
Incorporador do eterno ao contingente
Saudemos Murilo
Grande amigo da Poesia
Da poesia em Cristo
E em Lúcifer
Antes da queda
Saudemos Murilo
Grande amigo da Música
Especialmente grande amigo de Mozart
Que lhe apareceu um dia
Vestido de casaca azul
Saudemos Murilo
Grande amigo das Belas-Artes
Descobridor do falecido Cícero
(Hoje reencarnado num pintor abstracionista que vive em Paris onde o chamam Diás).
Saudemos Murilo
Para quem a amizade é também uma das Belas-Artes
Murilo grande amigo de seus amigos
Delicado fiel atento amigo de seus amigos
Saudemos Murilo
Grande marido dessa encantadora Maria da Saudade
Portuguesa e brasileira
Como seu nome
Invenção de dois poetas
Saudemos Murilo
Antitotalitarista antipassadista antiburocratista
Anti tudo que é pau ou que é pífio
Saudemos o grande poeta
Perenemente em pânico
E em flor.
1 198
Manuel Bandeira
Resposta a Alberto de Serpa
Saber comigo como é Poesia?...
saber comigo como é Bondade?...
Pois quem mais sabe como é Poesia,
pois quem mais sabe como é Bondade
do que tu mesmo, bom e grande Alberto
de Serpa, amigo de peito aberto
para os amigos de longe ou perto,
querido Alberto, fraterno Alberto?
saber comigo como é Bondade?...
Pois quem mais sabe como é Poesia,
pois quem mais sabe como é Bondade
do que tu mesmo, bom e grande Alberto
de Serpa, amigo de peito aberto
para os amigos de longe ou perto,
querido Alberto, fraterno Alberto?
1 059
Manuel Bandeira
À Maneira de E.e. Cummings
Thank you for the exquisite jam
Th
an
k you
too
) or also (
for the
71
Cumm
ings"
po? e! ms!!
An
d now —
get into this brazilian hammock and
let me sing for you:
"Lullaby
"Sleep on and on..."
Xaire, Elisabeth.
Th
an
k you
too
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for the
71
Cumm
ings"
po? e! ms!!
An
d now —
get into this brazilian hammock and
let me sing for you:
"Lullaby
"Sleep on and on..."
Xaire, Elisabeth.
1 204
Manuel Bandeira
Saudação a Vinícius de Moraes
Marcus Vinícius
Cruz de Moraes,
Eu não sabia
Que no teu nome
Tu carregavas
À tua cruz
De fogo e lavas.
Cruz da poesia?
Cruz do renome?
Marcus Vinícius
Que em tuas puras,
Tuas selvagens
Raras imagens
Da mais pungente
Melancolia
Ficaste ardente
Para jamais:
Quais são teus vícios,
Vinícius, quais,
Para os purgares
Nas consulares
Assinaturas?
Marcus Vinícius,
Eu já te tinha
(E te ofereço
Esta tetinha)
Como um dos marcos
De maior preço
Do bom lirismo
Da pátria minha.
Mas não sabia
Que fosses Marcus
Pelo batismo.
Hoje que o sei,
Te gritarei
Num poema bem,
Bem, não! no mais
Pantafaçudo
Que já compus:
— Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
(Mello também),
De cruz a cruz
Eu te saúdo!
Cruz de Moraes,
Eu não sabia
Que no teu nome
Tu carregavas
À tua cruz
De fogo e lavas.
Cruz da poesia?
Cruz do renome?
Marcus Vinícius
Que em tuas puras,
Tuas selvagens
Raras imagens
Da mais pungente
Melancolia
Ficaste ardente
Para jamais:
Quais são teus vícios,
Vinícius, quais,
Para os purgares
Nas consulares
Assinaturas?
Marcus Vinícius,
Eu já te tinha
(E te ofereço
Esta tetinha)
Como um dos marcos
De maior preço
Do bom lirismo
Da pátria minha.
Mas não sabia
Que fosses Marcus
Pelo batismo.
Hoje que o sei,
Te gritarei
Num poema bem,
Bem, não! no mais
Pantafaçudo
Que já compus:
— Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
(Mello também),
De cruz a cruz
Eu te saúdo!
1 505
Manuel Bandeira
Cartão-postal
Paris encanta. Londres mete medo.
Paris é a maior... ninguém se iluda.
Por intermédio meu, amigo Lêdo,
a Coluna Vendôme te saúda!
Paris é a maior... ninguém se iluda.
Por intermédio meu, amigo Lêdo,
a Coluna Vendôme te saúda!
1 167
Manuel Bandeira
Dedicatória de Opus 10
A Tiago e Pomona
A Tiago e Pomona ofereço
Meu Opus 10, exemplar A.
E com este voto ofereço:
Deus bem-fade a vida em começo
Do opus 1 deles, meu xará.
— Meu imprevisível xará.
A Tiago e Pomona ofereço
Meu Opus 10, exemplar A.
E com este voto ofereço:
Deus bem-fade a vida em começo
Do opus 1 deles, meu xará.
— Meu imprevisível xará.
618
Manuel Bandeira
Agradecendo Doces a Stella Leonardos
1. Doces de açúcar e gemas
São teus versos, e teus doces
Sabem a poemas: não fosses
Toda doce em cada poema!
2. Pouco e coco rimam, sim,
Mas quando o coco é o seu coco,
Que, por mais que seja, é pouco
(Pelo menos para mim!).
3. Não veio doce, mas veio
Verso seu, que me é tão doce
Como se doce ele fosse:
Mais que doce: doce e meio!
São teus versos, e teus doces
Sabem a poemas: não fosses
Toda doce em cada poema!
2. Pouco e coco rimam, sim,
Mas quando o coco é o seu coco,
Que, por mais que seja, é pouco
(Pelo menos para mim!).
3. Não veio doce, mas veio
Verso seu, que me é tão doce
Como se doce ele fosse:
Mais que doce: doce e meio!
1 430
Manuel Bandeira
A Guimarães Rosa
Não permita Deus que eu morra
Sem que ainda vote em você;
Sem que, Rosa amigo, toda
Quinta-feira que Deus dê,
Tome chá na Academia
Ao lado de vosmecê,
Rosa dos seus e dos outros,
Rosa da gente e do mundo,
Rosa de intensa poesia .
De fino olor sem segundo;
"Rosa do Rio e da Rua,
Rosa do sertão profundo!
Sem que ainda vote em você;
Sem que, Rosa amigo, toda
Quinta-feira que Deus dê,
Tome chá na Academia
Ao lado de vosmecê,
Rosa dos seus e dos outros,
Rosa da gente e do mundo,
Rosa de intensa poesia .
De fino olor sem segundo;
"Rosa do Rio e da Rua,
Rosa do sertão profundo!
1 547
Manuel Bandeira
A Afonso
Recebi o seu telegrama,
Afonso. Obrigado, obrigado:
Sempre é bom ganhar um agrado
Dos amigos a quem mais se ama.
Gastão gentil como uma dama,
Esse merece ser chamado
Pinheiro, como você o chama.
E Otávio, nunca assaz louvado.
Não me sinto pinheiro, Afonso,
Eu velho bardo, entre mil vários,
À espera da hora do responso.
Sou apenas um setentão
Adido à estranha legação
Dos pinheiros septuagenários.
Afonso. Obrigado, obrigado:
Sempre é bom ganhar um agrado
Dos amigos a quem mais se ama.
Gastão gentil como uma dama,
Esse merece ser chamado
Pinheiro, como você o chama.
E Otávio, nunca assaz louvado.
Não me sinto pinheiro, Afonso,
Eu velho bardo, entre mil vários,
À espera da hora do responso.
Sou apenas um setentão
Adido à estranha legação
Dos pinheiros septuagenários.
1 190
Manuel Bandeira
Dedicatórias da Primeira Edição
A MOUSSY EJO
Malungo, malungulungo,
Malungo, malungulô.
Com todo o amor do malungo
Para Moussy e para Jo.
A RACHEL
À grande e cara Rachel
Mando este livro, no qual
Ruim é a parte do Manuel,
Ótima a do João Cabral.
A SANTA ROSA
Quem é malungo, malunga.
Se não presta este Mafuá,
Ponha, meu Santa, um calunga
No ante-rosto, e prestará.
A VINÍCIUS
Penico é também cabungo,
Ma foi! São tais exercícios
Cabungagens que o malungo
Envia ao caro Vinícius.
A PRUDENTE
Malungo Manuel envia
Isto ao malungo Prudente.
Sei que é mofina a poesia,
Mas que papel excelente!
A ALFONSO REYES
No es Pegaso, sino un matungo
El caballo de mi poesía:
Simple homenaje del malungo
Al maestro de Cortesia.
A MURILO E SAUDADE
Murilo de olhos de santo,
Saudade de olhos de mel,
Pode não ter grande encanto,
Mas é vosso este Manuel.
A CARPEAUX
Malungo, malungulungo,
Malungo, malunguló.
Homenagem do malungo
A Otto Maria Carpeaux.
A LAURO ESCOREL
Maus versos em bom papel,
Aqui vai, Lauro Escorel,
O mafuá do Manuel.
A MARIA
Malungo Manuel envia
Isto à malunga Maria.
A MURILO MIRANDA
Bandeira manda a Miranda,
Ao fino, ao raro editor
Esta versalhada, e manda-a
Pela edição, que é um primor.
A HOMERO ICAZA SÁNCHEZ
— Are you Homer?
— Oh no! Pm Icaza Sánchez.
— Then a malungo?
— Definitely!
— Well, here you are!
A LÊDO IVO
Lêdo, amor com amor se
paga. Por isso, neste quarteto, retribuo com o Mafuá
o Acontecimento do Soneto.
Malungo, malungulungo,
Malungo, malungulô.
Com todo o amor do malungo
Para Moussy e para Jo.
A RACHEL
À grande e cara Rachel
Mando este livro, no qual
Ruim é a parte do Manuel,
Ótima a do João Cabral.
A SANTA ROSA
Quem é malungo, malunga.
Se não presta este Mafuá,
Ponha, meu Santa, um calunga
No ante-rosto, e prestará.
A VINÍCIUS
Penico é também cabungo,
Ma foi! São tais exercícios
Cabungagens que o malungo
Envia ao caro Vinícius.
A PRUDENTE
Malungo Manuel envia
Isto ao malungo Prudente.
Sei que é mofina a poesia,
Mas que papel excelente!
A ALFONSO REYES
No es Pegaso, sino un matungo
El caballo de mi poesía:
Simple homenaje del malungo
Al maestro de Cortesia.
A MURILO E SAUDADE
Murilo de olhos de santo,
Saudade de olhos de mel,
Pode não ter grande encanto,
Mas é vosso este Manuel.
A CARPEAUX
Malungo, malungulungo,
Malungo, malunguló.
Homenagem do malungo
A Otto Maria Carpeaux.
A LAURO ESCOREL
Maus versos em bom papel,
Aqui vai, Lauro Escorel,
O mafuá do Manuel.
A MARIA
Malungo Manuel envia
Isto à malunga Maria.
A MURILO MIRANDA
Bandeira manda a Miranda,
Ao fino, ao raro editor
Esta versalhada, e manda-a
Pela edição, que é um primor.
A HOMERO ICAZA SÁNCHEZ
— Are you Homer?
— Oh no! Pm Icaza Sánchez.
— Then a malungo?
— Definitely!
— Well, here you are!
A LÊDO IVO
Lêdo, amor com amor se
paga. Por isso, neste quarteto, retribuo com o Mafuá
o Acontecimento do Soneto.
645
Manuel Bandeira
Nossa Senhora de Nazareth
Jantando uma vez em casa de Odylo,
Seu amigo Couto, na animação
Do papo — papo que é um deleite ouvi-lo —
Subitamente perdeu a razão
(Só assim se pode explicar aquilo)
E fez o clássico gesto vilão,
O obsceno gesto que a Vênus de Milo
Jamais poderia fazer, pois não?
Desaprovei a licença de Couto
Diante de Nazareth. Que afoito (ou afouto)!
Pois a intemerata piauiense é
A mulher que já encontrei até agora
Mais parecida com Nossa Senhora:
É Nossa Senhora de Nazareth.
Seu amigo Couto, na animação
Do papo — papo que é um deleite ouvi-lo —
Subitamente perdeu a razão
(Só assim se pode explicar aquilo)
E fez o clássico gesto vilão,
O obsceno gesto que a Vênus de Milo
Jamais poderia fazer, pois não?
Desaprovei a licença de Couto
Diante de Nazareth. Que afoito (ou afouto)!
Pois a intemerata piauiense é
A mulher que já encontrei até agora
Mais parecida com Nossa Senhora:
É Nossa Senhora de Nazareth.
1 194
Manuel Bandeira
Votos de Ano-bom
A Murilo e Saudade
Que a Murilo e Saudade vás
Levar, cartão, num grande abraço,
Meus votos de saúde e paz.
(Paz sem a pomba de Picasso.)
Que a Murilo e Saudade vás
Levar, cartão, num grande abraço,
Meus votos de saúde e paz.
(Paz sem a pomba de Picasso.)
1 228
Manuel Bandeira
Carinho Triste
A tua boca ingênua e triste
E voluptuosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e chorar em meio das alegrias,
A tua boca ingênua e triste
É dele quando ele bem quer.
Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência,
Teus seios, que são como os seios intatos das virgens,
São dele quando ele bem quer.
O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza da linha de mar e céu ao pôr do sol,
É dele quando ele bem quer.
Só não é dele a tua tristeza.
Tristeza dos que perderam o gosto de viver.
Dos que a vida traiu impiedosamente.
Tristeza de criança que se deve afagar e acalentar.
(A minha tristeza também!...)
Só não é dele a tua tristeza, ó minha triste amiga!
Porque ele não a quer.
1913
E voluptuosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e chorar em meio das alegrias,
A tua boca ingênua e triste
É dele quando ele bem quer.
Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência,
Teus seios, que são como os seios intatos das virgens,
São dele quando ele bem quer.
O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza da linha de mar e céu ao pôr do sol,
É dele quando ele bem quer.
Só não é dele a tua tristeza.
Tristeza dos que perderam o gosto de viver.
Dos que a vida traiu impiedosamente.
Tristeza de criança que se deve afagar e acalentar.
(A minha tristeza também!...)
Só não é dele a tua tristeza, ó minha triste amiga!
Porque ele não a quer.
1913
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