Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Edmir Domingues
Recado ao eleitor
A mão que lavra esta terra
de carinho e de perdão,
a mão que levanta as casas
do barro duro do chão,
a mão que pega do lápis
e que faz planos em vão,
a mão ferida da agulha,
a mão da repartição,
a mão suja do operário
(do operário em construção)
a mão que aprende na escola
a fugir da escravidão,
a mão que tece nos fusos
os fios que vêm e vão,
a mão que trabalha e sofre,
que é irmã de nossa mão,
a mão que se eleva à boca
que cospe aos pés do vilão,
a mão como a mão de Cristo
na sua crucifixão,
a mão que não vende o voto
(se o voto é revolução)
irá votar na certeza
contra as coisas como estão,
dizendo ao Povo que “sim”,
dizendo ao Dinheiro: “não”!
Para a alvorada dos dias
plenos de paz que virão.
de carinho e de perdão,
a mão que levanta as casas
do barro duro do chão,
a mão que pega do lápis
e que faz planos em vão,
a mão ferida da agulha,
a mão da repartição,
a mão suja do operário
(do operário em construção)
a mão que aprende na escola
a fugir da escravidão,
a mão que tece nos fusos
os fios que vêm e vão,
a mão que trabalha e sofre,
que é irmã de nossa mão,
a mão que se eleva à boca
que cospe aos pés do vilão,
a mão como a mão de Cristo
na sua crucifixão,
a mão que não vende o voto
(se o voto é revolução)
irá votar na certeza
contra as coisas como estão,
dizendo ao Povo que “sim”,
dizendo ao Dinheiro: “não”!
Para a alvorada dos dias
plenos de paz que virão.
765
Ruy Belo
Laboratório (2)
Não foi aquela a cara a quem a morte
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Tão pura sorte
noutro céu se cumpriu que não no meio-
dia do pão partido no recreio?
Ou outrem conheceu o súbito transporte
do convívio dos dias para alheio
olhar os gestos de que foi suporte?
Envólucro quebrado contra a crista
do antigo cipreste, ó fantástica festa
das coisas que se tocam pela vista
esta daquela como aquela desta
E há país aonde Deus assista
a hora entreaberta como esta?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 135 e 136 | Círculo de Leitores, Dez 2000
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Tão pura sorte
noutro céu se cumpriu que não no meio-
dia do pão partido no recreio?
Ou outrem conheceu o súbito transporte
do convívio dos dias para alheio
olhar os gestos de que foi suporte?
Envólucro quebrado contra a crista
do antigo cipreste, ó fantástica festa
das coisas que se tocam pela vista
esta daquela como aquela desta
E há país aonde Deus assista
a hora entreaberta como esta?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 135 e 136 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 016
Edmir Domingues
De profundis II
Aqui venho, Senhor, magoado e triste.
Nu e só, em penhor de vassalagem.
Nada sei. Nada sou. Nem rei nem pagem,
na pobreza total que sempre viste.
Mas fizeste-me assim. A leve aragem
é mais forte que sou. Teu dedo em riste,
as recriminações de Sumo Antiste,
o medo que desfaz qualquer coragem.
Onde o prêmio da Vida? Onde o afago
Daquele que criou? Porquanto trago
a fé da insegurança deste estado.
Que nunca me abandona, e sempre fica,
como o aço do castigo ensanguentado
de Quem dispõe. E impõe. E nada explica.
1992.
Nu e só, em penhor de vassalagem.
Nada sei. Nada sou. Nem rei nem pagem,
na pobreza total que sempre viste.
Mas fizeste-me assim. A leve aragem
é mais forte que sou. Teu dedo em riste,
as recriminações de Sumo Antiste,
o medo que desfaz qualquer coragem.
Onde o prêmio da Vida? Onde o afago
Daquele que criou? Porquanto trago
a fé da insegurança deste estado.
Que nunca me abandona, e sempre fica,
como o aço do castigo ensanguentado
de Quem dispõe. E impõe. E nada explica.
1992.
633
Edmir Domingues
Um causo no céu
Um dia destes dias
o manso Padre Eterno
chamou São Pedro e disse:
“Eis façamos um censo
a ver quantos são hoje
os anjinhos do céu”.
Contaram-se os anjinhos
e logo foi notado
que havia muitos deles
negrinhos ou morenos
quando no último censo
quase os anjinhos todos
tinham pálidas jaces,
como restou provado
nas pinturas antigas.
Inquiriu-se o motivo
do causo acontecido
ficando constatado
que nos últimos tempos
crescera o contingente
de anjinhos africanos
hindus e brasileiros.
Vieram logo queixas
contra os ditos anjinhos
nunca porém movidas
por qualquer preconceito.
Mas é que os brasileiros,
incontáveis pelés,
(gastando a eternidade)
jogavam futebol
e quebravam vidraças
das janelas do céu.
Entanto qual a causa
dos anjinhos morenos?
De que morreram tantos
no tempo ultimamente?
Ah! Morreram de fome
dessa doença terrível
que não tem causa orgânica
mas tem causa social.
E o manso Padre Eterno
tomado de ira justa
deu ordens a São Pedro
(as ordens mais severas)
para que os governantes
dos países da fome,
e dos outros países,
industriais da fome,
(não só executivos
como parlamentares),
fossem presto jogados
nas caldeiras do inferno.
o manso Padre Eterno
chamou São Pedro e disse:
“Eis façamos um censo
a ver quantos são hoje
os anjinhos do céu”.
Contaram-se os anjinhos
e logo foi notado
que havia muitos deles
negrinhos ou morenos
quando no último censo
quase os anjinhos todos
tinham pálidas jaces,
como restou provado
nas pinturas antigas.
Inquiriu-se o motivo
do causo acontecido
ficando constatado
que nos últimos tempos
crescera o contingente
de anjinhos africanos
hindus e brasileiros.
Vieram logo queixas
contra os ditos anjinhos
nunca porém movidas
por qualquer preconceito.
Mas é que os brasileiros,
incontáveis pelés,
(gastando a eternidade)
jogavam futebol
e quebravam vidraças
das janelas do céu.
Entanto qual a causa
dos anjinhos morenos?
De que morreram tantos
no tempo ultimamente?
Ah! Morreram de fome
dessa doença terrível
que não tem causa orgânica
mas tem causa social.
E o manso Padre Eterno
tomado de ira justa
deu ordens a São Pedro
(as ordens mais severas)
para que os governantes
dos países da fome,
e dos outros países,
industriais da fome,
(não só executivos
como parlamentares),
fossem presto jogados
nas caldeiras do inferno.
220
Ruy Belo
Tempora nubila
Chove há muito no mundo sobre o homem
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos
Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos
Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)
E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu
Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos
Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos
Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)
E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu
Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 323
Ruy Belo
No tumulo de sardanapalo
Umas dezenas de anos boa idade
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar
Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia
Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar
Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar
Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia
Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar
Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 333
Nuno Júdice
Lume
Acordei com um anjo na cabeça. Batia
as asas para sair de dentro de mim; e
ia deixando cair as suas penas,
enquanto procurava uma saída.
Quando se cansou, e se encostou à
minha alma, falei-lhe: «Por que não
ficas comigo?» E não me respondeu,
como se não me tivesse ouvido.
Depois, começou a arder; e
fiquei com o fogo dos seus cabelos
na minha memória, como se fossem
a resposta à pergunta que lhe fiz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 104 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
as asas para sair de dentro de mim; e
ia deixando cair as suas penas,
enquanto procurava uma saída.
Quando se cansou, e se encostou à
minha alma, falei-lhe: «Por que não
ficas comigo?» E não me respondeu,
como se não me tivesse ouvido.
Depois, começou a arder; e
fiquei com o fogo dos seus cabelos
na minha memória, como se fossem
a resposta à pergunta que lhe fiz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 104 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 230
Ruy Belo
Haceldama
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 294
Ruy Belo
O último inimigo
A pêra após a pêra entretanto amadurece
a uva após a uva após o figo o figo
E eu que canto? Canto talvez a lua vagabunda e os eclipses do sol
ou a rota do âmbar escalando os entrepostos do mar Báltico
talvez o fim (ou o princípio) dos homens e dos seres
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
ao peso de todos os anos que teriam
os mortos se houvessem morrido
Nenhuma outra idade lhe convém
e distraidamente eu o convoco
por cada criança que perdeu a inocência
E dir-me-à: "Esquece o teu nome a casa dos teus pais
pelo que não é teu terás um nome novo
Também Pilur
outrora recebeu o nome de Nilur"
Alguém - Febe, Cloé, Ápia, Lídia, Priscila... quem? -
se move repentinamente nas derramadas casas
aonde é mais real a sucessão das estações
e nem o filho pródigo nos vem já redimir
de tudo quanto tem uma cidade que se preza
se não nos esquecermos da carreta funerária
por cada voz extinta na garganta da cidade
O corpo é superior a vítimas e oblações
Não vem à flor do sonho o símbolo mulher
e há um ramo de oliveira e luz e campos entre dois ou vários rostos
e o fumo em que se esvaem tantos dias
e as crianças e as árvores e o mar
Como haveremos de salgar o sal?
Eu sempre fui estrangeiro nesta terra
eu não fiz mal a Deus por nada deste mundo
Só vi cair as árvores em julho
e conheci também a extrema solidão do vento
cravada como um escrúpulo na carne
A muitos anos-luz da infância inverosímil
enquanto nada acabou de todo ainda
nem no solo de Tróia cresce a sombra de uma lança
preparo cuidadosamente a minha morte
seguindo a linha norte-sul do litoral do medo
e acompanhando a progressiva imposição de línguas mais que indo-europeias
a noroeste das penínsulas do sonho
Volto-me para a morte e chamo como só Deus se chama
A morte é um vizinho que se ama
Não és ainda tu
Nunca nenhum de nós
É que não há ninguém
Deus é distante como o vento ou a vida
e no cúmulo da sede nenhuma fonte nasce
Naqueles que morreram confiávamos
mas não mais se erguerão no dia a dia desta terra
onde se colhe em cada rosto a flor imperecível do instante
Afunde então a melhor mão na mais profunda dor
entre as convulsas caravelas do teu pranto
e não mais saberás onde a haverás de pôr
Eu digo-te que é Jonas o único sinal
e Argos afinal a cidade onde devíamos voltar
levando em cada mão as tácteis flores de Santa Maria
para vivermos lá como dez anos antes
Não choraremos com as filhas de Jerusalém?
Permanecer sentados tantos dias sem nenhuma ideia
ou distraído olhar para a mosca de súbito importante
à frente um simples prato Moscavide e a manhã
sereno mundo líquido num copo
contrário desacordo com o corpo
e as árvores de pé como um insulto
ou na areia de qualquer perdida e pequenina praia ousar o gesto de imolar
às planas e quebradas mãos do mar a flor do que sabemos
e assim à líquida embaixada ensinar a soletrar
a orla do país que nesse instante fomos
talvez a ocidente do melhor que somos
- que as palavras remirão estes ou outros movimentos do olvido?
O inverno veio e não o recebemos
havia tanta coisa a receber
talvez nem fosse propriamente o inverno
mas tu, o grande distraído, que nos ouves
Quare ergo rubra vestimenta tua,
vindo de vestes rubras desde Bosra
na sempre repetida impiedade de Jacob?
Generationem eius quis narrabit?
A tua face, ó meu amigo, é alta como as coisas que se perdem
e demoramos nela os nossos melhores olhos
Aonde estás, Emmanuel, aonde?
Eu tive-te na boca e não te conhecia
e desejava ter aquilo que mais tinha
no próprio acto de o ter (e de o perder),
ó alegria inerente ao começo das coisas
Como desceste, ó desejado, das colinas eternas
para quebrares as pernas contra tantas portas fechadas sobre ti?
Que vieste fazer a Elsenor?
Perder-te nos passinhos insistentes miudinhos
usados nos caminhos das modernas praias
entre risos e lágrimas locais?
Ó grande distraído, que fizeste esta manhã?
Alguma coisa é a casa mais séria da vida
Não mais outras palavras que punhais
cravados como rios no flanco do mar
lá onde for mais íntimo o abraço
que gera o horizonte e sacrifica o espaço
Curae non ipsa in morte relinquimus
O homem é ainda o maior erro
e que melhor vingança que estender
a sua ausência toda sobre a terra devastada
O homem é um homem derrotado
um ser para chorar e nunca assaz chorado
um ser para cair excessivamente levantado
e Roma continua sobre as veias de Lucano
A morte é a verdade e a verdade é a morte
Ao homem não foi dado nenhum outro dia
e a vida é qualquer coisa como nunca mais chegar
É humano nascer
é humano tomar e apodrecer
oculta e lentamente
qualquer pedra última pedra
duobus duabus crianças diabos
pequeno almoço grande belt pequeno lord
o túnel Dante pace este relógio não anda
Coimbra onde é inumerável pedra
O homem Adão vindo do chão é um animal doente
ser permanentemente moribundo
coisa para esconder sob um pouco de terra
- em que lar faltará esta mulher? -
e vale a pena chorar
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 120 a 123 | Círculo de Leitores, Dez 2000
a uva após a uva após o figo o figo
E eu que canto? Canto talvez a lua vagabunda e os eclipses do sol
ou a rota do âmbar escalando os entrepostos do mar Báltico
talvez o fim (ou o princípio) dos homens e dos seres
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
ao peso de todos os anos que teriam
os mortos se houvessem morrido
Nenhuma outra idade lhe convém
e distraidamente eu o convoco
por cada criança que perdeu a inocência
E dir-me-à: "Esquece o teu nome a casa dos teus pais
pelo que não é teu terás um nome novo
Também Pilur
outrora recebeu o nome de Nilur"
Alguém - Febe, Cloé, Ápia, Lídia, Priscila... quem? -
se move repentinamente nas derramadas casas
aonde é mais real a sucessão das estações
e nem o filho pródigo nos vem já redimir
de tudo quanto tem uma cidade que se preza
se não nos esquecermos da carreta funerária
por cada voz extinta na garganta da cidade
O corpo é superior a vítimas e oblações
Não vem à flor do sonho o símbolo mulher
e há um ramo de oliveira e luz e campos entre dois ou vários rostos
e o fumo em que se esvaem tantos dias
e as crianças e as árvores e o mar
Como haveremos de salgar o sal?
Eu sempre fui estrangeiro nesta terra
eu não fiz mal a Deus por nada deste mundo
Só vi cair as árvores em julho
e conheci também a extrema solidão do vento
cravada como um escrúpulo na carne
A muitos anos-luz da infância inverosímil
enquanto nada acabou de todo ainda
nem no solo de Tróia cresce a sombra de uma lança
preparo cuidadosamente a minha morte
seguindo a linha norte-sul do litoral do medo
e acompanhando a progressiva imposição de línguas mais que indo-europeias
a noroeste das penínsulas do sonho
Volto-me para a morte e chamo como só Deus se chama
A morte é um vizinho que se ama
Não és ainda tu
Nunca nenhum de nós
É que não há ninguém
Deus é distante como o vento ou a vida
e no cúmulo da sede nenhuma fonte nasce
Naqueles que morreram confiávamos
mas não mais se erguerão no dia a dia desta terra
onde se colhe em cada rosto a flor imperecível do instante
Afunde então a melhor mão na mais profunda dor
entre as convulsas caravelas do teu pranto
e não mais saberás onde a haverás de pôr
Eu digo-te que é Jonas o único sinal
e Argos afinal a cidade onde devíamos voltar
levando em cada mão as tácteis flores de Santa Maria
para vivermos lá como dez anos antes
Não choraremos com as filhas de Jerusalém?
Permanecer sentados tantos dias sem nenhuma ideia
ou distraído olhar para a mosca de súbito importante
à frente um simples prato Moscavide e a manhã
sereno mundo líquido num copo
contrário desacordo com o corpo
e as árvores de pé como um insulto
ou na areia de qualquer perdida e pequenina praia ousar o gesto de imolar
às planas e quebradas mãos do mar a flor do que sabemos
e assim à líquida embaixada ensinar a soletrar
a orla do país que nesse instante fomos
talvez a ocidente do melhor que somos
- que as palavras remirão estes ou outros movimentos do olvido?
O inverno veio e não o recebemos
havia tanta coisa a receber
talvez nem fosse propriamente o inverno
mas tu, o grande distraído, que nos ouves
Quare ergo rubra vestimenta tua,
vindo de vestes rubras desde Bosra
na sempre repetida impiedade de Jacob?
Generationem eius quis narrabit?
A tua face, ó meu amigo, é alta como as coisas que se perdem
e demoramos nela os nossos melhores olhos
Aonde estás, Emmanuel, aonde?
Eu tive-te na boca e não te conhecia
e desejava ter aquilo que mais tinha
no próprio acto de o ter (e de o perder),
ó alegria inerente ao começo das coisas
Como desceste, ó desejado, das colinas eternas
para quebrares as pernas contra tantas portas fechadas sobre ti?
Que vieste fazer a Elsenor?
Perder-te nos passinhos insistentes miudinhos
usados nos caminhos das modernas praias
entre risos e lágrimas locais?
Ó grande distraído, que fizeste esta manhã?
Alguma coisa é a casa mais séria da vida
Não mais outras palavras que punhais
cravados como rios no flanco do mar
lá onde for mais íntimo o abraço
que gera o horizonte e sacrifica o espaço
Curae non ipsa in morte relinquimus
O homem é ainda o maior erro
e que melhor vingança que estender
a sua ausência toda sobre a terra devastada
O homem é um homem derrotado
um ser para chorar e nunca assaz chorado
um ser para cair excessivamente levantado
e Roma continua sobre as veias de Lucano
A morte é a verdade e a verdade é a morte
Ao homem não foi dado nenhum outro dia
e a vida é qualquer coisa como nunca mais chegar
É humano nascer
é humano tomar e apodrecer
oculta e lentamente
qualquer pedra última pedra
duobus duabus crianças diabos
pequeno almoço grande belt pequeno lord
o túnel Dante pace este relógio não anda
Coimbra onde é inumerável pedra
O homem Adão vindo do chão é um animal doente
ser permanentemente moribundo
coisa para esconder sob um pouco de terra
- em que lar faltará esta mulher? -
e vale a pena chorar
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 120 a 123 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 245
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (IV)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrependida, a ser possível, seja
invisível a Deus, torrão para uma igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 119 e 120 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrependida, a ser possível, seja
invisível a Deus, torrão para uma igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 119 e 120 | Editorial Presença Lda., 1984
762
Nuno Júdice
Anjo da guarda
O anjo que desce do espírito com a tarde,
que queima o chão da página, que
mancha de orvalho os campos do inverno,
onde a erva insiste em manter-se,
tem o olhar cansado do infinito. Pego-lhe
na mão, ouvindo o arrastar de asas
por trás de mim, enquanto avançamos
pelo alcatrão. É certo que um anjo não
foi feito para andar; e que os seus passos
desenham um voo desajeitado na hesitação
bêbeda de um rumo. Mas sento-o na
cadeira da taberna; ponho à sua frente
o amargo cálice da aguardente matinal; e
vejo-o engolir até ao fundo as gotas de
fogo do inferno, saboreando o sol que
desponta, por um instante, de entre as
nuvens que o expulsaram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 19 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que queima o chão da página, que
mancha de orvalho os campos do inverno,
onde a erva insiste em manter-se,
tem o olhar cansado do infinito. Pego-lhe
na mão, ouvindo o arrastar de asas
por trás de mim, enquanto avançamos
pelo alcatrão. É certo que um anjo não
foi feito para andar; e que os seus passos
desenham um voo desajeitado na hesitação
bêbeda de um rumo. Mas sento-o na
cadeira da taberna; ponho à sua frente
o amargo cálice da aguardente matinal; e
vejo-o engolir até ao fundo as gotas de
fogo do inferno, saboreando o sol que
desponta, por um instante, de entre as
nuvens que o expulsaram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 19 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 146
Nuno Júdice
Cassandra
Sonhou ler o destino; e desejou nunca
o ter feito. Deixou de olhar para os homens,
quando adivinhou a sua morte; e desafiou
o céu, quando descobriu que nada existe
para além do azul. Percebo, pela
contracção da sua coxa, que esboça
o desejo de se erguer; mas os braços
caem para trás das costas,
como se não tivesse já para
onde ir. No entanto, o fogo
que arde no altar ilumina-lhe
o rosto, condenando-a a ver
tudo o que acontece: os incêndios
que devastam a terra, um massacre
de mulheres, a inutilidade
das súplicas. E entrega-se a todos
os que passam à sua frente,
pedindo-lhes que apaguem a chama
para que um manto de treva
lhe cubra o corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 71 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o ter feito. Deixou de olhar para os homens,
quando adivinhou a sua morte; e desafiou
o céu, quando descobriu que nada existe
para além do azul. Percebo, pela
contracção da sua coxa, que esboça
o desejo de se erguer; mas os braços
caem para trás das costas,
como se não tivesse já para
onde ir. No entanto, o fogo
que arde no altar ilumina-lhe
o rosto, condenando-a a ver
tudo o que acontece: os incêndios
que devastam a terra, um massacre
de mulheres, a inutilidade
das súplicas. E entrega-se a todos
os que passam à sua frente,
pedindo-lhes que apaguem a chama
para que um manto de treva
lhe cubra o corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 71 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 183
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (II)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
O pátio gira, a mão que pega no pião
disputará um dia o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Levanta o braço a prumo, arrisca nessa roda
riscada nesse chão a tua infância toda
tudo é redondo e volta ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que a vida que esqueço - a ser possível - seja
coberta de torrão, que Deus mesmo a não veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 118 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
O pátio gira, a mão que pega no pião
disputará um dia o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Levanta o braço a prumo, arrisca nessa roda
riscada nesse chão a tua infância toda
tudo é redondo e volta ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que a vida que esqueço - a ser possível - seja
coberta de torrão, que Deus mesmo a não veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 118 | Editorial Presença Lda., 1984
1 135
Ruy Belo
Miséria e grandeza
Nem uma só pegada nos deixaste
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos
Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos
Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
880
Ruy Belo
Andamento final de poema
o civil e redondo sacrifício de quem raivosamente tem
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
822
Ruy Belo
Imóvel viagem
Coisas gloriosas se têm dito de ti
árvore mais verde de quantas há não há na vida
praia prometida no fundo dos mais belos
dos menos intencionais dos mais
inexplorados olhos
E só para ti senhor não haver
lugar na cidade nem mãos com que te ungir
Servissem-te ao menos meus dias de espaço
não tenho nada já para morrer
abrir-te os braços é tudo o que faço
Passaste numa nuvem pelos costumados gestos
qual onda que recusa roubaste-mos ao dia
aí teve princípio toda a salvação
Havia-me colinas prometidas
e lagos redondos como a minha sede de cervo
Mas reduzi-me à tua irregular geografia
ó foz deste rio irrequieto
Não há nenhuma outra paisagem
mais do que a tua cruz simplificada
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 27 | Editorial Presença Lda., 1984
árvore mais verde de quantas há não há na vida
praia prometida no fundo dos mais belos
dos menos intencionais dos mais
inexplorados olhos
E só para ti senhor não haver
lugar na cidade nem mãos com que te ungir
Servissem-te ao menos meus dias de espaço
não tenho nada já para morrer
abrir-te os braços é tudo o que faço
Passaste numa nuvem pelos costumados gestos
qual onda que recusa roubaste-mos ao dia
aí teve princípio toda a salvação
Havia-me colinas prometidas
e lagos redondos como a minha sede de cervo
Mas reduzi-me à tua irregular geografia
ó foz deste rio irrequieto
Não há nenhuma outra paisagem
mais do que a tua cruz simplificada
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 27 | Editorial Presença Lda., 1984
921
Ruy Belo
Rua do Sol a Sant'Ana
Entretanto, num ano, na cidade em construção
que dos gestos emerge num cessar de mãos
e é confiada à noite pelo dia
numa assembleia de olhos temporariamente mortos
e trabalhada ao lume e ao relento
para poder então ser transmitida ao sol mais próximo do dia
no princípio das ruas devassadas pelo vento
através das profanas novidades de palavras
da floresta dos braços pertencentes à imensa multidão
e de muitos corações condescendentes
coleccionadores de meigos sentimentos
entre cartas que vão de mão em mão em alegre comércio
lá onde a vida multiplica a paisagem
e a natureza aceita muda humanos movimentos
sob altos céus propícios mas distantes
aí precisamente aí os santos são crucificados lentamente longas tardes]
e há quem consiga vê-los através dos vários rostos
que nos risos avultam ou nas ruas ou nos rios
exactamente quando o telefone afere a força de uma voz
a par dos gestos estritamente necessários
da dignidade da mulher no parto
dos pequeninos e apeninos passos que se dão dentro de casa
Porém nenhum rasto desiste ou renasce distante
ou talvez nalgum reino isto seja importante
Este é o tempo das grandes descobertas
se soubermos seguir os preciosos passos dos turistas
o sacristão sagaz que sabe o sítio de minúsculos objectos
respeitáveis senhoras que transpiram leque e caridade
Não é tão agradável ser católico
saber se nos havemos de sentar ou levantar
quem condenar quem absolver com magnanimidade
entre quem com que cuidados ratear a culpa pelo mais tímido gesto]
ou como converter à nossa imaculada vida Deus?
Quase tão agradável como no inverno introduzir os pés frios na cama]
e ouvir pela manhã resfolegar o caterpillar número seis
e acordar os funcionários do sindicato em frente
Tão modestos subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento]
Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora
Inúmeras possibilidades há nesta ou em qualquer manhã
Há consultas marcadas nos dentistas
há saltos que se prendem nas calçadas
orçamentos familiares prédios de rendimento óculos de publicidade]
e calças que já vão ficando curtas
Importantes assuntos passam nas agendas de ano para ano
e muitas outras coisas fazem as pessoas infelizes
Há vários subsecretários sem emprego
uma mulher depois um ministério assim a vida inteira
o que é preciso é termos qualquer coisa
Consta que há uns generais suicidando-se
e outros as memórias publicando
um singular olhar que se perdeu durante a conferência
e a nespereira tão intensamente seca num quintal
e o mar inacessível impossível de saudar
e não amarmos Cristo de maneira inalterável
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo por tudo e designadamente]
por um olho vazado por esta minha mão que nunca mais conheço
pelo que há de matinal na voz da vendedeira de jornais
É bom saber que há revolução lá longe
recebê-la ainda quente das máquinas dos dedos
para tudo morrer na boca que se abre (de sono ou no dentista)
Lavam de inúmeras questões as mãos os mais prudentes
imerecidamente vão secando flores
e os filhos protegendo os braços nus das mães
que por mais um verão os mostrarão ainda
Das casas das melhores famílias da cidade
sobe ao cair da tarde o complexo perfume
das orações transpirações dejectos
É no entanto de notar o nobilíssimo costume
segundo o qual as mulheres não vão à guerra
E apesar disso luta-se à entrada da cidade
e há a considerar os êxitos contemporâneos
e a imbecil camaradagem dos colegas de repartição
e o mal que por trás das nossas persistentes caras
depositamos nos vizinhos alicerces
Somos vistos por fora temos corpos
resgatam-se os chapéus nos restaurantes
a tarde cola-se viscosamente à pele
e nem os bons chefes de família sabem já a conta certa
de todos os domingos vindos pelas persianas
e das vozes insólitas às portas do sol-pôr
Pelas janelas já os edifícios como que nos fitam
diminuem na arca os cobertores
e vão as últimas crianças demorando a voz
naquela eternidade azul que a hora lhes concede
antes do sono sobre os mais humanos pensamentos
Ensinam-nos os velhos a não temer a noite
e o amor dá-nos os braços com que vamos
a quanto amamos (mais que ao que animamos)
Mais débil veste basta que cruzar a tarde
el polvo roba el dia y le escurece
e nasce o fruto mais insólito nos lábios
quando algumas cidades conhecidas (e até desconhecidas) se nos cruzam na memória]
e as farmácias começam a fazer negócio
e crescem muitas vezes nalgum pátio assustadoras vozes
e descem das montanhas elefantes brancos todos os rebanhos
e partem por nós dentro todos os caminhos
e a noite enfuna as árvores de vento
e unge em suas assombrosas mãos o corpo da cidade
esmaga-lhe a boca arquiva-lhe os cabelos
mata-lhe os olhos dá-lhe nas esquinas cotovelos
precisamente porque há um caminho para o mar
e em certos gestos nascem coisas muito grandes
e é dia lá onde o olhar dos loucos abre
Levanto-me dos olhos para o meu poema
regulo o vento evito-lhe as esquinas
e levemente o levo pela mão à noite
e dou-lhe a calculada dose em minha provisória morte
Levantam-se nas casas todas as mulheres
as menos belas olham as mais belas
as da Jónia passeiam levemente nuas
as de Tarso veladas e Paulo morto há pouco
E a esperança, quando o sol afasta as nuvens
com róseos dedos sobre Esparta ou a arenosa Pilos,
que o tempo para sempre haja mudado
E houve uma tarde e uma manhã primeiro último dia
Ó homens há séculos erguidos e caídos
magnanimi heroes nati melioribus annis
vindos no lombo dos meses menos habitáveis
de hirtas mãos abertas entre a vida
talvez vos não receba o coração
de uma grande cidade em construção
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 73 a 76 | Editorial Presença Lda., 1984
que dos gestos emerge num cessar de mãos
e é confiada à noite pelo dia
numa assembleia de olhos temporariamente mortos
e trabalhada ao lume e ao relento
para poder então ser transmitida ao sol mais próximo do dia
no princípio das ruas devassadas pelo vento
através das profanas novidades de palavras
da floresta dos braços pertencentes à imensa multidão
e de muitos corações condescendentes
coleccionadores de meigos sentimentos
entre cartas que vão de mão em mão em alegre comércio
lá onde a vida multiplica a paisagem
e a natureza aceita muda humanos movimentos
sob altos céus propícios mas distantes
aí precisamente aí os santos são crucificados lentamente longas tardes]
e há quem consiga vê-los através dos vários rostos
que nos risos avultam ou nas ruas ou nos rios
exactamente quando o telefone afere a força de uma voz
a par dos gestos estritamente necessários
da dignidade da mulher no parto
dos pequeninos e apeninos passos que se dão dentro de casa
Porém nenhum rasto desiste ou renasce distante
ou talvez nalgum reino isto seja importante
Este é o tempo das grandes descobertas
se soubermos seguir os preciosos passos dos turistas
o sacristão sagaz que sabe o sítio de minúsculos objectos
respeitáveis senhoras que transpiram leque e caridade
Não é tão agradável ser católico
saber se nos havemos de sentar ou levantar
quem condenar quem absolver com magnanimidade
entre quem com que cuidados ratear a culpa pelo mais tímido gesto]
ou como converter à nossa imaculada vida Deus?
Quase tão agradável como no inverno introduzir os pés frios na cama]
e ouvir pela manhã resfolegar o caterpillar número seis
e acordar os funcionários do sindicato em frente
Tão modestos subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento]
Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora
Inúmeras possibilidades há nesta ou em qualquer manhã
Há consultas marcadas nos dentistas
há saltos que se prendem nas calçadas
orçamentos familiares prédios de rendimento óculos de publicidade]
e calças que já vão ficando curtas
Importantes assuntos passam nas agendas de ano para ano
e muitas outras coisas fazem as pessoas infelizes
Há vários subsecretários sem emprego
uma mulher depois um ministério assim a vida inteira
o que é preciso é termos qualquer coisa
Consta que há uns generais suicidando-se
e outros as memórias publicando
um singular olhar que se perdeu durante a conferência
e a nespereira tão intensamente seca num quintal
e o mar inacessível impossível de saudar
e não amarmos Cristo de maneira inalterável
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo por tudo e designadamente]
por um olho vazado por esta minha mão que nunca mais conheço
pelo que há de matinal na voz da vendedeira de jornais
É bom saber que há revolução lá longe
recebê-la ainda quente das máquinas dos dedos
para tudo morrer na boca que se abre (de sono ou no dentista)
Lavam de inúmeras questões as mãos os mais prudentes
imerecidamente vão secando flores
e os filhos protegendo os braços nus das mães
que por mais um verão os mostrarão ainda
Das casas das melhores famílias da cidade
sobe ao cair da tarde o complexo perfume
das orações transpirações dejectos
É no entanto de notar o nobilíssimo costume
segundo o qual as mulheres não vão à guerra
E apesar disso luta-se à entrada da cidade
e há a considerar os êxitos contemporâneos
e a imbecil camaradagem dos colegas de repartição
e o mal que por trás das nossas persistentes caras
depositamos nos vizinhos alicerces
Somos vistos por fora temos corpos
resgatam-se os chapéus nos restaurantes
a tarde cola-se viscosamente à pele
e nem os bons chefes de família sabem já a conta certa
de todos os domingos vindos pelas persianas
e das vozes insólitas às portas do sol-pôr
Pelas janelas já os edifícios como que nos fitam
diminuem na arca os cobertores
e vão as últimas crianças demorando a voz
naquela eternidade azul que a hora lhes concede
antes do sono sobre os mais humanos pensamentos
Ensinam-nos os velhos a não temer a noite
e o amor dá-nos os braços com que vamos
a quanto amamos (mais que ao que animamos)
Mais débil veste basta que cruzar a tarde
el polvo roba el dia y le escurece
e nasce o fruto mais insólito nos lábios
quando algumas cidades conhecidas (e até desconhecidas) se nos cruzam na memória]
e as farmácias começam a fazer negócio
e crescem muitas vezes nalgum pátio assustadoras vozes
e descem das montanhas elefantes brancos todos os rebanhos
e partem por nós dentro todos os caminhos
e a noite enfuna as árvores de vento
e unge em suas assombrosas mãos o corpo da cidade
esmaga-lhe a boca arquiva-lhe os cabelos
mata-lhe os olhos dá-lhe nas esquinas cotovelos
precisamente porque há um caminho para o mar
e em certos gestos nascem coisas muito grandes
e é dia lá onde o olhar dos loucos abre
Levanto-me dos olhos para o meu poema
regulo o vento evito-lhe as esquinas
e levemente o levo pela mão à noite
e dou-lhe a calculada dose em minha provisória morte
Levantam-se nas casas todas as mulheres
as menos belas olham as mais belas
as da Jónia passeiam levemente nuas
as de Tarso veladas e Paulo morto há pouco
E a esperança, quando o sol afasta as nuvens
com róseos dedos sobre Esparta ou a arenosa Pilos,
que o tempo para sempre haja mudado
E houve uma tarde e uma manhã primeiro último dia
Ó homens há séculos erguidos e caídos
magnanimi heroes nati melioribus annis
vindos no lombo dos meses menos habitáveis
de hirtas mãos abertas entre a vida
talvez vos não receba o coração
de uma grande cidade em construção
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 73 a 76 | Editorial Presença Lda., 1984
1 972
Ruy Belo
Efeitos secundários
É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
o outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes
Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?
Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento
E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 106 e 107 | Editorial Presença Lda., 1984
o outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes
Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?
Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento
E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 106 e 107 | Editorial Presença Lda., 1984
1 562
Ruy Belo
Sexta-feira sol dourado
Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
1 471
Ruy Belo
Figura jacente
Meu rosto nasce desta condição horizontal
de quem tem a cobri-lo todo o seu cansaço
Deus teve para mim morte mais rasa
do que a morte que o sol encontra entre as águas
Desfez-se a curva última da estrada
nada ficou após meus gastos passos
Ninguém morrera ainda tanto como eu
só tive de estender um pouco mais o corpo
Sobre o meu rosto passam uma a uma as gerações
e vem lavar-me a água os velhos pés
E diz-me Deus, tão acessível como o mar nas praias:
-- Tu és cada vez mais aquilo que tu és
Há entre as oliveiras sítio para o sol
e a brisa da infância canta rindo nos ramos
entre o cheiro do giz e as canções da escola
Deus é perto de mim como uma árvore
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 94 | Editorial Presença Lda., 1984
de quem tem a cobri-lo todo o seu cansaço
Deus teve para mim morte mais rasa
do que a morte que o sol encontra entre as águas
Desfez-se a curva última da estrada
nada ficou após meus gastos passos
Ninguém morrera ainda tanto como eu
só tive de estender um pouco mais o corpo
Sobre o meu rosto passam uma a uma as gerações
e vem lavar-me a água os velhos pés
E diz-me Deus, tão acessível como o mar nas praias:
-- Tu és cada vez mais aquilo que tu és
Há entre as oliveiras sítio para o sol
e a brisa da infância canta rindo nos ramos
entre o cheiro do giz e as canções da escola
Deus é perto de mim como uma árvore
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 94 | Editorial Presença Lda., 1984
1 453
Ruy Belo
Para dizer devagar
Pelo menos que ao fim teus sacramentos cubram de coragem
igual à de enviar-te, ao ver-se então de pé na tua frente,
aquele que nem sempre soube ser bastante transparente
para dele imprimir nos dias nada mais que a tua imagem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
igual à de enviar-te, ao ver-se então de pé na tua frente,
aquele que nem sempre soube ser bastante transparente
para dele imprimir nos dias nada mais que a tua imagem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 149
Ruy Belo
O jogador do pião
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos - tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível de maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
E Abril traz o Senhor e até esse esquece
o operário inútil imolado à messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 117 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos - tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível de maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
E Abril traz o Senhor e até esse esquece
o operário inútil imolado à messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 117 | Editorial Presença Lda., 1984
1 484
Nuno Júdice
Beatitude
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade de ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 16 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade de ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 16 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 166
Ruy Belo
Nós os vencidos do catolicismo
Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana
Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos
Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana
Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
"Meu deus meu deus porque me abandonaste?"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana
Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos
Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana
Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
"Meu deus meu deus porque me abandonaste?"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
1 916