Literatura e Palavras
Nuno Júdice
Extractos
- tal é o sentido actual das minhas palavras.
Voo sobre as linhas semelhantes, as outras asas;
elas dissipam a turbulência dos meus gestos, prevendo
que vou cair. Já não é possível a exploração interior de
[um espírito calcinado.
De cada vez que me impeço de ser preciso
vomito água pelas orelhas. Surgirá um barco?
O monótono enjoo do mar,
a inteligente mecânica do fumo.
Compreenda-se a minha atitude.
Para que é que sirvo durante um tremor de alma?
Para que é que me fecho num canto?
Senti que a obstinação do ritmo romperia algo na vida.
Voei sem asas, sem a vertigem da altitude, sem sentimento para
[o Azul.
Como se a literatura se ficasse pelo chão...
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 78 | Quetzal Editores, 1991
Nuno Júdice
Verbo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca - onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.
Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.
Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.
Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.
Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
Nuno Júdice
A incerteza
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco das ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.
Nuno Júdice
Pedra
do nome. Um banco de pedra serve
de assento a quem escreve,
com esse nome, a pedra. Os lábios
não a atiram quando dizem:
pedra. Nem a pedra rola
na boca, como a palavra.
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
Manuel António Pina
A leitura
ave imortal não nascida para morrer
que imovelmente me fita da lembrança,
alguma voz anterior fala no que posso escrever
e no que posso ler; talvez o anjo cabalístico
tocando-me o lábio superior ao nascer
me tenha condenado ao destino paroxístico
e ocioso de repetir, repetir, repetir,
até, puro de novo, me calar por fim,
eu que, com minhas mãos, matei o albatroz,
que culpa penará então a minha alheia voz
dos meus versos, nos vossos errando sem mim?
Não, não me peçais ainda concordância,
estarei ocupado de mais à minha escuta
no coração e na boca, no oiro e na cicuta,
e na escuridão dos livros, talvez os da minha infância.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 308 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
A mensagem do teu
salta bip o parapeito que nos separa
e habita urgentemente nos meus olhos
e repetidamente e urgentemente convoca os meus olhos
para a saudade publicada na tua cara
com slogans de néon interior
Sei que sabes uma palavra indecente
e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse
a tua roupa de dentro
Sei o que pensas sei o que fazes
sei coisas que tu mesma não sabes
Sabes, por exemplo, que estás noiva? E que o malandrim
afinal de contas é sargento de infantaria?
Mas deixa lá homens é o que há mais
E (sabes?) os oficiais
O morse lábio bip bip noticia:
ATENÇÃO ATENÇÃO ESTOU QUASE SOZINHA
E sei pormenores da tua respiração
concretos, fotografias
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 51 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
O homem de Munique
Manuel António Pina
Silêncio e escuridão e nada mais
Edificarei a minha igreja sobre as tuas ruínas
Tenho um coração mortal um coração
fora de si como um marido irado
Dentro da casa se instala
a descomunal traição.
Eu sou aquele que rouba, o marido,
o caluniador, abri-vos portas de ouro...
Que deus me perdoará os meus erros humanistas?
Quebrada a espada já, rota
a Armadura, a Beleza, a Regra (Ó Ciência! Ó Cólera!)
Como escreverei? Sem que palavras? Quem? Qual?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 20 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Os tempos não
Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.
É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.
Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 11 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Nenhuma coisa
é destruir, aos poucos, tudo o que me lembra.
Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Normalmente regresso a casa tarde, doente.
Desta maneira (e doutras -
a carne é triste, hélas, e eu já li tudo)
ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido
(vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?
Tudo o que acaba e começa.
O que está entre as pernas, mudando de lugar.
(Que fazer e para quê?)
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 17 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Já não é possível
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?
O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem
Todas as coisas são perfeitas de
Nós até ao infinito, somos pois divinos.
Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito a mais e a menos.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 12 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Passagem
é possível estar assim tão perto do fogo,
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?
Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palvras são de mais?
Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,
como diremos ainda margens e como diremos rios?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 378 | Assírio & Alvim, 2012
Raquel Nobre Guerra
É evidente que nos mentem
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
Raquel Nobre Guerra
Pelicano
de universo, uma sensação de seres
colhido pelo camaroeiro do Tejo
alma-ideia de ser antigo entrar em Deus
por mim
Enquanto for semântica na boca, a paixão dos homens
e vier um deles com pedras macias de domínio
não direi
que é inumerável o corpo sendo muitos ou sábio -
que as línguas de fogo hão-de tomar a pele como um texto
e sacro
Manuel António Pina
Que dia? Que olhar?
e já todos se tinham ido embora
restavam paeis velhos, vidas mortas,
identidade, sujidade, eternidade.
Comeram o meu corpo e
beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca;
e escreveram a minha Obra Completa;
sobro, desapossado, eu.
Resta-me ver televisão,
votar, passear o cão
(a cidadania!). Prosa também podia,
e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria.
Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort?
Dar em aforista ou ainda pior?
Mudar de cidade? Desabitar-me?
Posmodernizar-me? Experienciar-me?
Com que palavras e sem que palavras?
Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam
por salões vazios e incendiados
entregando-se a guionistas e aparentados.
Cheira excessivamente a morte por aqui
como no fim de uma batalha cansada
de feridas antigas, e eu sobrevivi
do lado errado e pela razão errada.
"Que dia? Que olhar?"
(Beckett, "Dias felizes")
Que feridas? Que estanda-
te? Que alheias cicatrizes?
Estou diante de uma porta (de uma forma)
com o - como dizer? - coração
(um sítio sem lugar, uma situação)
cheio de palavras últimas e discórdia.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 304 e 305 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Definição I
que sentimento corrompe, ou apenas se o coração
se encontra no vazio da memória? O vento
não percorre a tarde com o seu canto alucinado,
que só os loucos pressentem, para que tu
o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores
te oferece uma sombra para que lhe
fujas com um riso ágil de quem crê
na superfície da vida. Esses são alguns limites
que a natureza põe a quem resiste à convicção
da noite. O caminho está aberto, porém,
para quem se decida a reconhecê-los; e os próprios
passos encontram a direção fácil nos sulcos
que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,
entra nesse campo; não receies o horizonte
que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto
cujos braços te chamam. Apropria-te do calor
seco dos vestíbulos. Bebe o licor
das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios
imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando
o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,
ignorando as nuvens e os astros. O amor
é esse contacto sem espaço
o quarto fechado das sensações,
a respiração que a terra ouve
pelos ouvidos das trevas.
Nuno Júdice
Uma palidez de alma
em formação - e do centro se desprende ile-
gível luz. Com as mãos rasgo o limite, também
eu entro na oca circunferência onde a lira
doente tocou o ocaso.
O silêncio substitui a exuberante vegetação
das vozes. Amortalha o horizote um crepúsculo
de risos. Entre sombras, vagueia ainda o corpo
opaco do mudo mensageiro, cujo regresso saudei
da submarina folhagem.
Na lenta enumeração os meus olhos se fixam.
Do acaso a distante música os atinge; rodam
suspensos da cavidade do rosto. Um jorro
branco irrompe o som,
e da ferida aberta os lábios omitem o verso.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 20 | Na regra do jogo, 1982
José Miguel Silva
Parte Poética
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
Manuel António Pina
Arte poétca
Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 309 | Assírio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Poema com Apólogo Moral
de Los Alamos, do Rapto das Sabinas,
nunca mais se pode escrever com maiúsculas
a palavra "Deus"; que se tornou imoral
a gente queixar-se à lua de uma farpa no dedo,
do infortúnio, do tempo que perdemos na paragem
do autocarro. Quem o diz que não se pode,
não sabe, não entende o que poesia seja.
Era um homem que vivia a profissão de marceneiro.
É conhecida a ligação do marceneiro com as farpas
que lhe entram na pele. Este falava com elas,
contava-lhes casos de sorte e azar, queria-lhes bem.
Entendia que também as farpas são filhas de Deus,
isto é, do amor que sentia pela sua arte.
Um dia um acidente aconteceu na máquina de corte,
esse homem perdeu a mão direita. Não por isso deixou
de sentir farpas alojarem-se na mão perdida,
de falar com elas, de recomendar-lhes
que tivessem juizo, que fossem brincar para outro lado.
José Miguel Silva
Pedras e Morteiros
M.Tsvietaieva
Essa dos poetas, Senhora, com vocação
para apanhar no pelo, tem quase tanta graça
como a outra, de chamar vítimas às vítimas
oficiais do século XX. Como se a história
fosse um prato congelado e a moral
o restaurante onde se come mais barato.
Entretanto, nós somos acusados de atirar pedras.
Mas vede, Senhora, não são pedras, é o que resta
das nossas casas, abatidas por Golias.
Na mão que lhe estendemos deixou-nos esta funda.
Que mais podemos nós, senão utilizá-la?
Razão tem a pedra na conhecida fábula
da Pedra no Sapato quando diz:
todas as pedras são palestinianas.
José Miguel Silva
No Way Back
Diógenes diria "à catanada, vivamente",
Lichtenberg "à gargalhada", se o conheço.
Thomas Bernhard proporia "num rectângulo
de tábuas" e Machado que o caminho de saída
se descobre ao caminhar. Beckett é provável
que dissesse "rastejando".
Diderot aventaria
"pela rua do liceu", Tcheckov "pela viela
mais escura, à tua esquerda". Séneca diria,
muito sonso, "pelo passeio das Virtudes",
Vaneigem "pelo jardim das Belas-Artes".
Bashô responderia (e eu com ele) "é muito cedo,
fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa".
Nuno Júdice
Explicação
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", contracapa | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice
O brilho das cinzas
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. "Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo." Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 157 | Quetzal Editores, 1999