Literatura e Palavras
Manuel António Pina
[Tudo à minha volta ]
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira
o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.
A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.
Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,
como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?
É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.
Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.
Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
As coisas
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Então acorda e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 356 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
A carta com cinco anos de atraso (ou mais)
É o primeiro dos "meus" dois poetas por aqui, a viver um aniversário de vida/morte desde que estou com eles. E estou com os "meus" poetas desde o principio da manhã do dia 28 de Agosto deste ano.
Não tenho por hábito assinalar/comemorar a morte, apenas as datas de nascimento. Mas esta situação é especial. E o Pina é muito especial para mim. Por várias razões. E sobressai uma: o ter aprendido a gostar dele, que foi e é uma luta boa.
Foi um poeta que me passou mais ou menos despercebido até à data em que se soube da doença que o matou.
Nessa altura aparecera-me como alguém tímido, discreto e triste. (Os poetas serão todos tristes ou carregarão mais tristeza? Ou talvez se importem menos que a tristeza se note... Não sei.)
Mas não sabia se esse quadro que eu lhe colara se devia à doença ou se o Manel já era assim. Sei que nessa época comecei a sentir imensa pena de não o ter conhecido pessoalmente, o que continuo a sentir, mas agora em dobro.
De vez em quando subia-me a vontade de ir à procura de mais um texto e aos poucos fui construindo a ideia de que a poesia pode ser o equivalente a 'um sítio onde pousar a cabeça', uma expressão muito feliz do Manel. E agora estou a pensar nas razões de eu gostar de poesia... Uma, quando sou eu a rabiscar, é a de me permitir dizer coisas que não posso nem consigo dizer de outra forma. Outra razão, e esta tem que ver com o chegar-me aos poetas, é poder rever-me e reencontrar-me naquilo que outros escreveram. O bonito, o belo, o beber 'só' porque é bonito e belo, é outra razão; o estético pela palavra ou na palavra. A reinterpretação do mundo, também. E outros motivos haverá, que direi depois.
Quase a meio de Julho de 2016, mais precisamente no dia 12, na Lisboa à beira rio que me encanta, ofereceram-me uma antologia do Pina. "Todas as palavras - poesia reunida: 1974 -2011", numa lindíssima capa revestida a mar, que é uma pintura de Ilda David.
Essa foi a grande oportunidade de mergulhar mais fundo na poesia do Manel e de começar a entender melhor o estilo, os temas favoritos - escreveu muito para gatos e sobre gatos, por exemplo... tal como o geninho, que até lhes dedicou um livro... o que estes animais terão de tão especial para os poetas? - as cartas/poemas que escreveu para os amigos poetas.
E em boa parte foi este livro que me levou a propor ser "editora" (isto soa a tão sério!) do Manuel António Pina. Recordo-me de dizer no mail de adesão que era uma boa forma de rentabilizar o material que tinha, ao mesmo tempo que confessava não ser um dos meus poetas favoritos. Hoje já não diria isso porque as muitas leituras que tenho feito da obra e sobre a vida dele, fizeram com que o perspectivasse de outra forma. Há nele uma sensibilidade que eu desconhecia e que tem sido muito bom descobrir.
Tenho-me detido na forma do Manel interpretar a solidão e este é um dos lados surpreendentemente bons da poesia dele. E é também por isto que tenho pena que não tenha vivido mais anos. É que depois de ter lido muitos dos seus escritos, há em mim uma sensação muito forte de que o "meu" poeta tinha ainda muito para escrever sobre a solidão e que esta fase da vida lhe iria permitir fazê-lo de uma forma ainda mais apurada e talvez dizer muito do que ainda não tinha conseguido dizer. E esta é uma ideia muito forte que tenho.
Isabel Pires | 19 Outubro 2017
Manuel António Pina
Alguém atrás de ti
na mão fechada de Deus o que passou.
É cada vez mais tarde
onde o que eu fui sou.
Que coisa morreu
na minha infância
e está lá a ser eu?
A lâmpada do quarto? A criança?
Em quem tudo isto
a si próprio se sente?
Também aquele que escreve
é escrito para sempre.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 115 | Assirio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Sob o tampo do poema
do cipreste. O vento frio puxava-lhe os cabelos para cima
do chapéu negro. Punha os óculos, apoiava-se ao muro.
Do outro lado um sinistro oceano impunha-lhe a vocação,
o sonho; bebia os pequenos barulhos terrestres
como quem se despede. Começou, finalmente, a reparar
na espessura das suas próprias mãos. O trabalho de segurar
a caneta sobre o papel gastara-lhes a pele. Levantou-as
à altura dos olhos e, através delas, viu o escuro traçado
do horizonte. Ficou assim, foi assim que o encontraram
os vorazes animais da morte. Mas a boca mexeu-se ainda
durante dias e noites sucessivas: "Poesia... poesia."
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 188 | Quetzal Editores, 1999
Manuel António Pina
Coração, sombras de quem?
e me falta sob as palavras
é o que me falta também onde
o coração verdadeiro falta?
A voz que fala,
a minha verdadeira voz de alguém,
é o silêncio que em
isto se cala?
E eu, ou quem?
O de mim, as palavras,
os gestos, o espaço?
Onde me pesas, cansaço?
Voz, a quem me falas?
Coração, sombras, de quem?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 114 | Assirio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Nocturno
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.
Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.
Nuno Júdice
O movimento do mundo
se olha para o mundo; as coisas revelam-se
naquilo que imaginação alguma a supôs; e
o centro desloca-se de onde estava, desde
a origem, obrigando o pensamento a rodar
noutra direção. O poema, no entanto, não
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua
essência reside no fragmento de um absoluto
que algum deus levou consigo. Olho para
esse vestígio da totalidade sem ver mais
do que isso - o desperdício da antiga
perfeição - e deixo para trás o caminho
da ideia, a ambição teológica, o sonho do
infinito. De que eternidade me esqueço,
então, no fundo da estrofe?
Bruno Kampel
Dizer
Sem Palavras
Amar
sem vírgulas
Sofrer
sem sintaxe
Viver
sem Parêntese
Sublinhando
o gesto
Acentuando
o tempo.
Conjugando
o resto.
Nuno Júdice
Écloga
das palavras que escrevo, e tenho medo.
Talvez nos campos imensos onde o lírio floresce,
na margem de rio que abriga, de manhã cedo,
os teus pés de ninfa, num engano de idade,
me tenhas visto à sombra de um rochedo,
e se os teus lábios, entreabertos num torpor
de romã, me tocaram num sonho bêbedo,
deles só lembro, imprecisos, fluxos
de incêndio numa hipótese de amor.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 46 | Na Regra do Jogo, 1982
Nuno Júdice
Poesia
o fogo de que eu precisava - mesmo que esse fogo ardesse
no lume brando da imaginação. As árvores, os pássaros,
os rios, eram imagens que não passavam da literatura,
como se fossem apenas as árvores do poema, os
pássaros de um canto melancólico, os rios por onde
corre o tempo da filosofia. Agora, ao lembrar-me
de tudo isso, enquanto bebo devagar este copo de
solidão, não reconheço o cenário: como se um vento
tivesse varrido as árvores, um outono tivesse expulso
os pássaros, um inverno tivesse desviado os rios. O
que vejo, neste espaço em que entro pela porta que
me abriste, é mais simples do que tudo isso: tu, com
o rosto apoiado nas mãos, e os olhos que me trazem
todas as certezas do mundo. Guardo comigo, então,
a tua imagem. Vivo cada instante que me deixaste. E
no tempo que nos separa voltam a crescer árvores,
cantam outros pássaros, correm os rios do amor.
Nuno Júdice | "Teoria Geral do Sentimento", pág. 125 | Quetzal Editores, Lisboa, 1999
Al Berto
Cromo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem
o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel
enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar
o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar
Nuno Júdice
Crença Outonal
ventos que arrastam as insónias do levante e incendeiam
as planícies, erguem-se nas mãos de um deus morto
os mastros de mármore de um navio antigo. A que porto
se dirigia a sua viagem? Em que recifes projectou o seu
naufrágio? Nos seus lábios, que os vermes do absoluto
devoram, leio as contas do tempo que ele imaginou
para o seu percurso clandestino, como se um deus
coubesse no porão. «Dizei-me», murmurou no instante
da agonia, «que ave seguirá o rasto do barco até
onde irei chegar?» Mas os homens confundiram
a sua voz com um distante anúncio de tempestade,
e abrigaram-se do céu, fugindo ao seu grito.
De manhã, recolhi os vestígios da noite
nesse cais abandonado: tábuas apodrecidas
pelo sal, as mantas que enrolaram os moribundos
antes que a morte os recolhesse, gemidos
apanhados nos rochedos do molhe, no instante
em que a onda se retira. Mas que fazer
com os despojos do sagrado? Por vezes, era
como se o corpo divino aparecesse à minha frente;
de outras vezes, entoava o louvor do nada, e cada sílaba
me arranhava a boca na dicção ácida de um fardo
de maldições. E o mar crescia na minha memória,
corria pela minha pele como os insectos dos trópicos,
e devorava cada imagem como se, no seu furor,
quisesse apagar o passado e restituir aos olhos
o horizonte branco da origem.
Porém, também as fontes secaram no limite do estio,
e os peixes sufocaram sobre o lodo do fundo. Apanhei-os
no meu saco, para os distribuir pelos bairros do norte,
pelos pórticos de onde espreitam as mulheres pálidas
e os homens de cabelo húmido pela maresia, e
assisti à sua refeição de carne doce, enquanto os pedintes
se juntavam atrás de mim para recolher os restos, sem
que eu tivesse alguma coisa para lhes dar a não ser essa
palavra que deus me ensinara ao dizer-me: «Dá aos que
nada têm o Ser que eu inventei.» E eles respondiam: «De
que nos serve o Ser? Que faremos com ele, nós, os que nada
temos?» E empurrei-os para os armazéns vazios, onde
as suas palavras ecoariam de encontro à cúpula
metálica que as chuvas enferrujaram num inverno
da infância. Mas eles recusavam, e insultavam-me,
como se a dádiva de um deus fosse uma ofensa.
Então, disse-lhes, juntemo-nos na grande mesa da comunhão;
partilhemos o ódio, como se parte o pão; e bebamos
o vinho da ira, já azedo, ficando com a garganta
amarga para que os gritos se tornem roucos; e deixemos
de nos ouvir uns aos outros. Como cegos, partiremos,
um em cada direcção, levando como único troféu
o desespero. E quando chegarmos ao limite da praia,
ao oceano em que deveríamos embarcar, perguntaremos
onde está esse navio prometido, esse mapa que nos daria
a resposta, e o azul do céu que nos abriria o desejo
de beleza, e nos faria ver o corpo anunciado de deus sobre
as águas. Mas ficámos sem ter aonde regressar, e só
nos alimenta um pedaço do pão da desventura,
ressequido do sol, com a consistência da pedra,
doendo na boca como as palavras do poema.
Por fim, sem mais nada, resta-nos deus. Está morto
dentro de nós. Mas ainda o podemos tirar da cabeça
e estendê-lo na areia, como o corpo de uma baleia
que tivesse dado à costa. «Não lhe toquem com os pés»,
diz o guardião da costa. «Se estiver podre, a sua podridão
pega-se à nossa pele. «Mas já andei com ele dentro de mim»,
respondi ao homem. «Já me pegou a doença do sagrado,
a lepra de uma crença infinita, o desejo de um além
que nunca verei.» O guardião da costa riu-se. «Sei
muito bem onde vêm dar estas baleias. Os seus ossos
estendem-se ao longo do litoral, e ao seu lado sentam-se
os inúteis, repetindo com as suas bocas mórbidas
as frases que aprenderam no contacto com a sua carne
putrefacta. Alguns, abriram-lhes os ventres e entraram
neles, como se ainda os pudessem fecundar. E o seu
esperma foi devorado pelos caranguejos da ria.»
Deixei-o a falar sozinho, como se faz a todos os que
perderam a fé. E subi pelo dorso da baleia, até onde
acreditei que poderia tocar o céu, enterrando-me
na sua carne movediça até me confundir com
o corpo de deus.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 14, 15 e 16 - Lisboa, Outubro 2015
Nuno Júdice
Aparição num dia de inverno
o amor falou através dele. Ouvirás no seu ritmo
a voz que tantas vezes desejaste; reconhecerás
nos seus versos o corpo que encheu
a tua vida; tocarás em cada uma das suas palavras
os dedos que te ensinaram a medir os dias
pelas suas contas de ternura. E o tempo
entrará por ti como esse rio que alagou os campos
do inverno. Olharás à tua volta, vendo a desolação
de uma paisagem inundada. Algures, porém,
uma árvore antiga sobressai; e os seus ramos
verdes dar-te-ão a esperança de uma nova
primavera, em que voltes a ouvir a voz
que o poema te trouxe com os seus dedos
de música.
Nuno Júdice
Epigrama gastronómico
Nuno Júdice
Apenas
Nuno Júdice
Carta de outono
consome a energia da alma com um apetite solar; e
porque as tempestades do crepúsculo incendiaram as
palavras com o rápido fogo aéreo. No entanto, eu
ouço aquelas aves que gastaram as asas na travessia
do Espírito, cujos olhos viram o que havia de duvidoso
nas traseiras do invisível, onde um deus culpado
se esconde e se ouvem as vozes sem nexo dos
anjos enlouquecidos. Essas aves deixaram de saber voar;
agarram-se aos ramos dos arbustos e, ao fim da tarde,
gritam em direcção às nuvens com os olhos secos e
sem medo. Abri-lhes o peito: e encontrei as entranhas
verdes como as folhas perenes do norte. Então,
ouço-te bater por dentro de mim, embora estejas morto;
e os teus dedos tenham perdido a força antiga que
desafiava a sombra. Procuro uma entrada no átrio
desabrigado da página; avanço entre sílabas e versos
perdendo-me do silêncio na insistência dos passos.
O passado é todo o dia de ontem; a vida coube-me
neste bolso do infinito onde guardei os últimos cigarros;
o teu amor gastou-se com um breve brilho de
isqueiro. Saio sem desejo dos desertos de outubro
e novembro, arrastando o outono com os pés, nas planícies
provisórias de um esquecimento de estações.
Nuno Júdice | "A Condescendência do Ser", págs. 50 e 51 | Quetzal Editores, 1988
Al Berto
Senhor da Asma
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se percebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão.
mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução
mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados
ando há uma semana arrumando livros - comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma
por hoje é tudo
Nuno Júdice
Leio o amor
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
Al Berto
Mais Nada se Move em Cima do Papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Fernando Pessoa
P-HÁ
Hoje, que tenho a inteligência sem saber o que querer,
Quero escrever o meu epitáfio: Álvaro de Campos jaz
Aqui, o resto a Antologia grega traz...
E a que propósito vem este bocado de rimas?
Nada... Um amigo meu, chamado (suponho) Simas,
Perguntou-me na rua o que é que estava a fazer,
E escrevo estes versos assim em vez de lho não saber dizer.
É raro eu rimar, e é raro alguém rimar com juízo.
Mas às vezes rimar é preciso.
Meu coração faz pá como um saco de papel socado
Com força, cheio de sopro, contra a parede do lado.
E o transeunte, num sobressalto, volta-se de repente
E eu acabo este poema indeterminadamente.
Fernando Pessoa
E eu que estou bêbado de toda a injustiça do mundo...
— O dilúvio de Deus e o bebé loirinho boiando morto à tona de água,
Eu, em cujo coração a angústia dos outros é raiva,
E a vasta humilhação de existir um amor taciturno —
Eu, o lírico que faz frases porque não pode fazer sorte,
Eu, o fantasma do meu desejo redentor, névoa fria —
Eu não sei se devo fazer poemas, escrever palavras, porque a alma —
A alma inúmera dos outros sofre sempre fora de mim.
Meus versos são a minha impotência.
O que não consigo, escrevo-o;
E os ritmos diversos que faço aliviam a minha cobardia.
A costureira estúpida violada por sedução,
O marçano rato preso sempre pelo rabo,
O comerciante próspero escravo da sua prosperidade
— Não distingo, não louvo, não (...) —
São todos bichos humanos, estupidamente sofrentes.
Ao sentir isto tudo, ao pensar isto tudo, ao raivar isto tudo,
Quebro o meu coração fatidicamente como um espelho,
E toda a injustiça do mundo é um mundo dentro de mim.
Meu coração esquife, meu coração (...), meu coração cadafalso —
Todos os crimes se deram e se pagaram dentro de mim.
Lacrimejância inútil, pieguice humana dos nervos,
Bebedeira da servilidade altruísta,
Voz com papelotes chorando no deserto de um quarto andar esquerdo...
Fernando Pessoa
Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
Fernando Pessoa
Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gosto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De coisas que não chegou a haver,
Há gente que nunca é adulta sem [...]!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta — pouca —
E a que chega a ser adulta de facto morre sem dar por nada.
Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá som ao dia e ao desleixo
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loura débil, feliz porque não és inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena.