Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Fábio Roberto Rodrigues Belo
Passaporte
passeport
porque porta passo pra
poder te ver?
que passatempo fará resistir minha
paciência?
faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte
por onde
o pássaro faz
seupercurso?
preciso ter alegria
paraguerrear...
per fas et nefas
persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.
porque porta passo pra
poder te ver?
que passatempo fará resistir minha
paciência?
faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte
por onde
o pássaro faz
seupercurso?
preciso ter alegria
paraguerrear...
per fas et nefas
persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.
1 005
Fabrício Augusto Souza Gomes
Parte Da Minha Vida(ou Olhos da Noite)
PARTE DA MINHA VIDA
Passa com o tempo
que me reduz
a um só verso . . .
a uma só rima.
A grande aventura da vida
reside no fato
de deixá-la fluir
naturalmente.
São poetas atraídos
pela singela arte
de escrever
coisas da vida,
do passado,
do presente,
do futuro . . .
coisas do coração.
Apesar de tudo,
não tem explicação.
É complicado traduzir
meus leitores . . .
Agora,
tento escrever
parte da minha vida
Mas não é fácil!
A inspiração quer "rabiscar"
minha percepção!
Erro!
Fracasso!
Se não tento,
não experimento o sucesso!
Desconheço a decepção!
Enfim,
minha angústia
é o elo
que me motiva a escrever . . .
Escrever
esperando que alguém
num mundo distante
ainda se emocione
ao me ler
Para ti, leitor,
Torno-me seu cúmplice.
Aquele misterioso amigo,
que não tem rosto,
nem voz,
tampouco corpo!
Sou um pensamento abstrato
que você cria
pura imaginação!
Não tem jeito!
Não consigo falar
o que penso.
As palavras morrem
e meus lábios,
enquanto minha mente viaja
querendo dizer algo
às pessoas que ainda
se interessem em ler . . .
Mas tudo é questão de tempo!
O tempo que seduz o poeta . . .
. . . é o mesmo que dá o ponto ( final?)
a seus sonhos e inspirações.
Sou vítima de uma relação
extremamante intimista
com você,
que me lê agora.
Quero estar com você
o tempo todo.
Com você,
posso dizer tudo que sou,
tudo que penso,
tudo que acredito!
Posso falar das estrelas!
Do belo e triste brilho delas.
Posso falar do som do mar (que se ouve nas conchas!)
Posso falar de poesia . . .
Posso falar do meu coração
Certa vez,
escrevia sobre o dia
em plena escuridão da noite.
Tornei-me cada vez mais confuso . . .
pois a noite estava adormecida
no fundo de um rio
e não conseguia enxergá-lo!
O rio que guardava a noite
era rebelde, agressivo, inesperado.
Mas sincero.
Ele nasceu em mim
e morreu nos meus olhos.
Era a lágrima
que inundava
de tristeza e alegria
PARTE DA MINHA VIDA.
Passa com o tempo
que me reduz
a um só verso . . .
a uma só rima.
A grande aventura da vida
reside no fato
de deixá-la fluir
naturalmente.
São poetas atraídos
pela singela arte
de escrever
coisas da vida,
do passado,
do presente,
do futuro . . .
coisas do coração.
Apesar de tudo,
não tem explicação.
É complicado traduzir
meus leitores . . .
Agora,
tento escrever
parte da minha vida
Mas não é fácil!
A inspiração quer "rabiscar"
minha percepção!
Erro!
Fracasso!
Se não tento,
não experimento o sucesso!
Desconheço a decepção!
Enfim,
minha angústia
é o elo
que me motiva a escrever . . .
Escrever
esperando que alguém
num mundo distante
ainda se emocione
ao me ler
Para ti, leitor,
Torno-me seu cúmplice.
Aquele misterioso amigo,
que não tem rosto,
nem voz,
tampouco corpo!
Sou um pensamento abstrato
que você cria
pura imaginação!
Não tem jeito!
Não consigo falar
o que penso.
As palavras morrem
e meus lábios,
enquanto minha mente viaja
querendo dizer algo
às pessoas que ainda
se interessem em ler . . .
Mas tudo é questão de tempo!
O tempo que seduz o poeta . . .
. . . é o mesmo que dá o ponto ( final?)
a seus sonhos e inspirações.
Sou vítima de uma relação
extremamante intimista
com você,
que me lê agora.
Quero estar com você
o tempo todo.
Com você,
posso dizer tudo que sou,
tudo que penso,
tudo que acredito!
Posso falar das estrelas!
Do belo e triste brilho delas.
Posso falar do som do mar (que se ouve nas conchas!)
Posso falar de poesia . . .
Posso falar do meu coração
Certa vez,
escrevia sobre o dia
em plena escuridão da noite.
Tornei-me cada vez mais confuso . . .
pois a noite estava adormecida
no fundo de um rio
e não conseguia enxergá-lo!
O rio que guardava a noite
era rebelde, agressivo, inesperado.
Mas sincero.
Ele nasceu em mim
e morreu nos meus olhos.
Era a lágrima
que inundava
de tristeza e alegria
PARTE DA MINHA VIDA.
959
Ernani Sátyro
O Canto do Retardatário
Pouco importa que o canto seja tardio.
Se não tinha amadurecido, inda não era canto.
A idade do poeta se mede pelo amadurecimento do canto.
Cantar não é desejar a glória,
É simplesmente cantar.
A gente nasce para viver,
O canto rompe para vibrar.
O resto é com quem ouve,
O poeta não tem nada com isso.
Já houve um santo que falou às aves.
Mas eu sou ave, canto para as árvores.
— Árvores, ouvi-me!
Se não tinha amadurecido, inda não era canto.
A idade do poeta se mede pelo amadurecimento do canto.
Cantar não é desejar a glória,
É simplesmente cantar.
A gente nasce para viver,
O canto rompe para vibrar.
O resto é com quem ouve,
O poeta não tem nada com isso.
Já houve um santo que falou às aves.
Mas eu sou ave, canto para as árvores.
— Árvores, ouvi-me!
1 109
Elisabeth Veiga
A Tinta Seca
Escrevo e a tinta seca,
seca, exacerbada rasga o papel.
Continuo escrevendo embora,
nem eu mesma leia.
Premindo, a caneta
rasga o que já está rasgado.
Continuo escrevendo sem uma palavra,
escrevendo, escrevendo à sombra
da minha mão sobre o papel.
O branco, afinal, me rasga.
seca, exacerbada rasga o papel.
Continuo escrevendo embora,
nem eu mesma leia.
Premindo, a caneta
rasga o que já está rasgado.
Continuo escrevendo sem uma palavra,
escrevendo, escrevendo à sombra
da minha mão sobre o papel.
O branco, afinal, me rasga.
958
Everaldo Ygor
Uma Grande Fenda
Uma grande fenda se abre
Parece que tudo vai desabar
Tudo está rumando para sua direção
Os seres estão caindo
Neste precipício eterno
Lá se vai a escuridão
Lá se vão as trevas
Nem a luz sobrevive
Não existe mais nada
O plano desapareceu
Lá se vai o nada
Lá se vai a poesia
Lá se vai...
Esperem um pouco
O que é aquele pequeno ponto?
Lá embaixo!
Olhem só,
parece uma semente...
Parece que tudo vai desabar
Tudo está rumando para sua direção
Os seres estão caindo
Neste precipício eterno
Lá se vai a escuridão
Lá se vão as trevas
Nem a luz sobrevive
Não existe mais nada
O plano desapareceu
Lá se vai o nada
Lá se vai a poesia
Lá se vai...
Esperem um pouco
O que é aquele pequeno ponto?
Lá embaixo!
Olhem só,
parece uma semente...
873
Elisa Lucinda
Penetração do Poema das Sete Faces
A Carlos Drumond de Andrade
Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.
Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.
1 870
Eliane Minervina de Castro
O poeta Sotero
R. B. SOTERO é um poeta que segue uma linha regional, com traços de um existencialismo abstrato refletido em seus versos. Poderia comparar algumas de suas estrofes mais com o pensamento de Nietzche do que com o de Paul Sartre, pois existe um pessimismo aparente em seus poemas, um sentimento de angústia e desilusão que são envolvidos por metáforas, hipérboles e outras figuras.
Outra característica fundamental é que seus poemas são carregados de um arcaísmo lírico, herança talvez de algum poeta português que lhe tenha influenciado em algum momento de sua vida. Parece-me que se prende a estes detalhes de aspecto lusitano como vimos em Machado de Assis, o que o torna contraditório no que se refere ao seu caráter regionalista; mescla estas nuances produzindo um texto próprio, particular, de grande representação de seus sentimentos e emoções.
Considero-o um poeta emergente com uma grande tendência aos herméticos; alguns traços de erotismo mesclam-se com uma profunda carga místico-religiosa e depressiva.
Outra característica fundamental é que seus poemas são carregados de um arcaísmo lírico, herança talvez de algum poeta português que lhe tenha influenciado em algum momento de sua vida. Parece-me que se prende a estes detalhes de aspecto lusitano como vimos em Machado de Assis, o que o torna contraditório no que se refere ao seu caráter regionalista; mescla estas nuances produzindo um texto próprio, particular, de grande representação de seus sentimentos e emoções.
Considero-o um poeta emergente com uma grande tendência aos herméticos; alguns traços de erotismo mesclam-se com uma profunda carga místico-religiosa e depressiva.
922
Eliane Pantoja Vaidya
Conta Akutagawa
Conta Akutagawa
que Bashô
o notável mestre
do hai-kai
estava morrendo.
Em seu quarto
reunidos
os mais queridos discípulos.
O silêncio estava presente
nem lua havia
e se distinguiam soluços e suspiros.
O maior poeta daquela Terra
agora morria
cercado de seus amigos.
Ah Quimera, ilusão graciosa
os que choravam o faziam
cada um por si
nenhum por ele.
Bashô olhou em torno
o coração árido
daqueles que o cercavam
— Terra morta —
Só os rostos eram quentes
e as lágrimas naturais.
que Bashô
o notável mestre
do hai-kai
estava morrendo.
Em seu quarto
reunidos
os mais queridos discípulos.
O silêncio estava presente
nem lua havia
e se distinguiam soluços e suspiros.
O maior poeta daquela Terra
agora morria
cercado de seus amigos.
Ah Quimera, ilusão graciosa
os que choravam o faziam
cada um por si
nenhum por ele.
Bashô olhou em torno
o coração árido
daqueles que o cercavam
— Terra morta —
Só os rostos eram quentes
e as lágrimas naturais.
827
Egito Gonçalves
Sobre os Poemas
1
Há poetas que constróem o mundo nos cafés,
outros que o fazem no claro-escuro
entre as prisões e os intervalos.
Há poetas que aguardam cartas de apresentação
nem eles sabem para onde:
para a vida que falhou?, para a manteiga
que lhes foi negada?
Mas todos têm um sonho, todos
se esforçam por valer o pão que amassam
— lançam seu delicado peso na balança.
Eles sabem, esses poetas,
que nada é eterno e imutável.
2
Tal a "Cadeia de Santo Onofre:
Copie o texto: envie a cinco amigos"...
há poetas que se multiplicam, fendem
a vaga limite, impedem o suicídio,
explicam a vida, argamassam
dedicação e raiva.
Girassóis, rodam sobre si mesmos,
indicam o ponto onde a luz se abre.
3
Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
uma canção à cidade, martela
os que dormem alheios, move-se
silenciosamente ao jeito das estátuas.
Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
rosto impreciso solidificando breve;
tênue tinta azul no papel claro ...
Os poetas têm
como os peles-vermelhas do cinema
o seu fumo e os seus cobertores.
4
Há poetas que renegam cartas
de apresentação para o arrivismo;
recusam a mão ao salário da trampa;
não enfeixam o nome e a desonra
nos telegramas do medo.
Enquanto bebem o café um histrião noturno
arenga; executa o seu número; recebe
por nova pirueta uma ajuda de custo.
Há poetas que constróem o mundo nos cafés,
outros que o fazem no claro-escuro
entre as prisões e os intervalos.
Há poetas que aguardam cartas de apresentação
nem eles sabem para onde:
para a vida que falhou?, para a manteiga
que lhes foi negada?
Mas todos têm um sonho, todos
se esforçam por valer o pão que amassam
— lançam seu delicado peso na balança.
Eles sabem, esses poetas,
que nada é eterno e imutável.
2
Tal a "Cadeia de Santo Onofre:
Copie o texto: envie a cinco amigos"...
há poetas que se multiplicam, fendem
a vaga limite, impedem o suicídio,
explicam a vida, argamassam
dedicação e raiva.
Girassóis, rodam sobre si mesmos,
indicam o ponto onde a luz se abre.
3
Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
uma canção à cidade, martela
os que dormem alheios, move-se
silenciosamente ao jeito das estátuas.
Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
rosto impreciso solidificando breve;
tênue tinta azul no papel claro ...
Os poetas têm
como os peles-vermelhas do cinema
o seu fumo e os seus cobertores.
4
Há poetas que renegam cartas
de apresentação para o arrivismo;
recusam a mão ao salário da trampa;
não enfeixam o nome e a desonra
nos telegramas do medo.
Enquanto bebem o café um histrião noturno
arenga; executa o seu número; recebe
por nova pirueta uma ajuda de custo.
1 759
Eunice Arruda
Hora Poética
Para esquecer esta
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
1 017
Dimas Macedo
Palavras
Para me suportar
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
900
Dimas Macedo
Poema
Há uma hora em que nos decompomos
e indefinidamente vagaimos
entre rosas de sangue.
Há uma hora em que nos despimos
e ocultamos o rosto
e velejamos pelas bordas do caos.
Há uma hora em que copiamos o sonho
e tecemos loas ao tempo
e nos rendemos exaustos.
Há uma hora em que não é possível
o compasso do corpo
nem o corpo se quer sua memória.
Há uma hora em que morremos
e uma hora em que o poema
se torna uma necessidade inarredável.
e indefinidamente vagaimos
entre rosas de sangue.
Há uma hora em que nos despimos
e ocultamos o rosto
e velejamos pelas bordas do caos.
Há uma hora em que copiamos o sonho
e tecemos loas ao tempo
e nos rendemos exaustos.
Há uma hora em que não é possível
o compasso do corpo
nem o corpo se quer sua memória.
Há uma hora em que morremos
e uma hora em que o poema
se torna uma necessidade inarredável.
1 066
Eunice Arruda
Um Visitante
Quem escreve
é
um visitante
Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome
Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome
é
um visitante
Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome
Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome
1 173
Dante Milano
Canção Bêbeda
Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.
Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.
E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.
Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.
Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,
Bêbedo, bêbedo, bêbedo,
Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,
Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.
E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.
Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.
E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.
Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.
Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,
Bêbedo, bêbedo, bêbedo,
Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,
Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.
E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.
1 144
Donizete Galvão
Diante de Uma Fotografia
Para Celso Alves Cruz
O Tietê não é o Neva.
E nada no Curtume
lembra a sua Peter.
Galpões de fábricas
estendem-se sem rigor,
sem história ou forma.
Sucessão de chaminés,
caos de telhas de zinco.
Este é o lugar da cadela esquálida,
dos trens que gemem no subúrbio,
dos peões vestidos de azul e graxa,
dormindo ao meio-dia na calçada.
Na fila do almoço, o rebanho todo
estende suas bandejas de plástico.
Há fuligem nas janelas, nos olhos,
na sola dos sapatos. Nos cérebros.
Anna, as sereias do Báltico
não cantam aqui suas cantigas.
No mar das impossibilidades,
deixaram-me uma fotografia.
Vejo você - estrangeiríssima.
A curta franja dos cabelos.
O nariz forte. O desenho da boca.
A mão pousada no pescoço
que Modigliani um dia desenhou.
E no olhar felino, cinza-claro,
pressinto paixão e dor contida.
Anna Ahkmátova.
poeta de nome inventado,
lança sobre mim o claro raio
dos teus olhos líquidos,
para que minha alma não vire pedra.
Não quero morrer de sede,
sem ouvir a voz da língua.
O Tietê não é o Neva.
E nada no Curtume
lembra a sua Peter.
Galpões de fábricas
estendem-se sem rigor,
sem história ou forma.
Sucessão de chaminés,
caos de telhas de zinco.
Este é o lugar da cadela esquálida,
dos trens que gemem no subúrbio,
dos peões vestidos de azul e graxa,
dormindo ao meio-dia na calçada.
Na fila do almoço, o rebanho todo
estende suas bandejas de plástico.
Há fuligem nas janelas, nos olhos,
na sola dos sapatos. Nos cérebros.
Anna, as sereias do Báltico
não cantam aqui suas cantigas.
No mar das impossibilidades,
deixaram-me uma fotografia.
Vejo você - estrangeiríssima.
A curta franja dos cabelos.
O nariz forte. O desenho da boca.
A mão pousada no pescoço
que Modigliani um dia desenhou.
E no olhar felino, cinza-claro,
pressinto paixão e dor contida.
Anna Ahkmátova.
poeta de nome inventado,
lança sobre mim o claro raio
dos teus olhos líquidos,
para que minha alma não vire pedra.
Não quero morrer de sede,
sem ouvir a voz da língua.
1 026
Diamond
Mosaico
Cada uma em seu lugar
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
1 146
Donizete Galvão
O poeta em pânico
" Quem me ouvirá?
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
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Daniela Name
Poeta e fingidor atrás das grades
A balada do cárcere
Bruno Tolentino.
Editora Topbooks
130 páginas • R$ 20
Com quem Bruno Tolentino vai brigar desta vez? Muitos podem estar se fazendo esta pergunta agora, enquanto lêem mais uma reportagem sobre o polêmico autor de "As horas de Katharina".
Faz sentido. Tolentino se especializou em provocar debates inflamados nos jornais. Já discutiu com Caetano Veloso, os irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos, o ensaísta Antônio Paulo Graça e o poeta Ivan Junqueira. Agora, aproveita o lançamento de um novo livro para desenferrujar a metralhadora giratória.
Sentado à mesa de um restaurante no Centro, Tolentino reza para agradecer o peixe grelhado com batatas antes de começar a falar sobre "A balada do cárcere", livro de poemas que narra a sua experiência numa penitenciária de Londres. O poeta foi preso em 1989, por porte de drogas, passou 22 meses detido e acabou organizando um workshop de criação poética para os outros presos - a maioria semi-analfabeta.
- Foi nessa época que percebi que conseguia escrever sem o auxílio da cocaína - conta Tolentino. - Devo isso à cadeia. Achava que era a droga que me inspirava, porque eu tinha que achar uma explicação para tanta inspiração. Tive um longo envolvimento com o "sublime pó" e ficava espantadíssimo de escrever tão bem, mas depois vi que não era a droga que tornava meus versos magníficos: eles já eram muito bons mesmo.
Poeta diz que será compreendido pela próxima geraçãoNo almoço de duas horas, o auto-elogio aumenta à medida em que o peixe e as batatas vão sumindo do prato. Tolentino não parece se incomodar em ser mais conhecido pelo que fala nos jornais do que pelo que escreve nos livros. Perguntado se sua obra terá fôlego para continuar sendo lida daqui a cem anos, ele disse acreditar que muito antes disso os leitores já terão se rendido ao seu talento:
- Fui bonito, rico, gostoso, inteligente e poliglota, enfim, uma obra-prima - afirma. - A vaidade para mim sempre foi uma coisa natural... Quando descobri que eu também escrevia bem, me pareceu um pouquinho demais, mas era verdade. Mas sempre fui mais orgulhoso do que vaidoso. Sei que vai demorar muito menos que cem anos para eu ser lido e aceito, isso já vai se dar na próxima geração. Vão entender que sou o Fernando Pessoa daqui, que eu trouxe universalidade à nossa poesia.
Tolentino se considera um oásis de talento no deserto da poesia nacional. Acredita que as mulheres de sua geração são muito melhores que os homens, e por isso dedica "A balada do cárcere" a Orides Fontela, Adélia Prado e Neide Archanjo. Ele diz que o título de sua "balada" é um clara citação ao livro homônimo de Oscar Wilde, embora acredite que seus versos são menos pessoais que os do autor inglês.
- Dou voz a um preso, Nick, que matou a mulher. Através dele, falo da cadeia e da experiência com minha própria mulher, de quem tinha me separado um pouco antes. Enquanto escrevia, lembrava da imagem dela, belíssima, me olhando através da janela do trem. Oscar Wilde fala de si mesmo mais diretamente.
Também garante que existem diferenças em relação ao conteúdo homossexual do poema de Wilde. Acusado por Antônio Paulo Graça de ter feito um "opúsculo homossexual", Tolentino conta que ficou isolado na cadeia, por isso não recebeu nenhuma cantada:
- O único contato que tinha com os outros era na hora dos seminários de poesia. Mas lá dá vontade de fazer muita coisa, ainda mais porque minha sentença inicial era de 11 anos. Não sei o que aconteceria se eu ficasse com um daqueles homens na mesma cela. Meu poema tem um mesmo ponto de partida que o de Oscar Wilde: um sujeito que matou a mulher. Mas ele é muito mais pessoal do que eu, embora eu use o poema para refletir sobre a relação com minha mulher.
Elogiado pelo poeta Ferreira Gullar, que assina a quarta capa do livro, "A balada do cárcere" mistura a realidade da cadeia e mitologia grega e recebeu o Prêmio Cruz e Souza de 1995. Meio brincando, meio falando a verdade, Tolentino diz que irá à Academia Brasileira de Letras perguntar se vai receber o Prêmio
Machado de Assis este ano ou no ano que vem. Ele acredita que a crítica literária brasileira vive um de seus piores momentos:
- Não consigo achar nenhum crítico bom - diz ele. - São todos uns canalhas, não destaco ninguém, a não ser para o pelotão de fuzilamento. São todos podres, todos vendidos. Prestam mais atenção em Mano Caê e nos Chicos-chicos no fubá da vida do que nos verdadeiros poetas. Há uma menina que está publicando uma tese feita na Sorbonne sobre a solidão na literatura brasileira vista pela obra de Caetano Veloso. Francamente, um ensaio como esse cabe num bueiro de Liliputh. Mas nossos críticos vão dar atenção, porque não estão interessados em literatura.
O peixe já está no fim, sobram as batatas. Tolentino pede barrigas-de-freira como sobremesa, explicando minuciosamente a um espantado garçom que a culpa da "gravidez das freirinhas" não é dele. Enquanto espera, o poeta mostra que não aposentou o veneno da língua. Diz que soube por outras pessoas que tinha brigado com Ivan Junqueira, mas adorou romper relações com o poeta:
- Ele tinha me chamado para ser jurado de um concurso. Aceitei, mas resolvi sair do júri na última hora, para poder me candidatar ao prêmio. Ele ficou magoado. Tudo bem, isso foi uma bênção. Fiquei livre de uma múmia empolada. O fato de eu escrever muito bem milita contra mim, minha briga com Juju-quequeira vem daí.
Os irmãos Campos são o alvo predileto do poeta, que escreveu o ensaio "Os sapos de ontem" com o único intuito de criticar o concretismo. Para Tolentino, o movimento só pôde existir porque São Paulo é uma terra cheia de pensadores e filósofos - como Sérgio Buarque de Holanda e Sergio Milliet - mas sempre foi pobre de poetas.
- Os paulistas só produziram Vicente de Carvalho e Ribeiro Couto, este um poeta menorzinho - avalia. - Cassiano Ricardo nem comento, porque estamos à mesa. E Mario de Andrade me dá vontade de rir. O concretismo está fazendo 40 anos de farsa.
Haroldo e Augusto ainda não conseguiram ser tão bonitos por dentro quanto são por fora.
Bruno Tolentino.
Editora Topbooks
130 páginas • R$ 20
Com quem Bruno Tolentino vai brigar desta vez? Muitos podem estar se fazendo esta pergunta agora, enquanto lêem mais uma reportagem sobre o polêmico autor de "As horas de Katharina".
Faz sentido. Tolentino se especializou em provocar debates inflamados nos jornais. Já discutiu com Caetano Veloso, os irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos, o ensaísta Antônio Paulo Graça e o poeta Ivan Junqueira. Agora, aproveita o lançamento de um novo livro para desenferrujar a metralhadora giratória.
Sentado à mesa de um restaurante no Centro, Tolentino reza para agradecer o peixe grelhado com batatas antes de começar a falar sobre "A balada do cárcere", livro de poemas que narra a sua experiência numa penitenciária de Londres. O poeta foi preso em 1989, por porte de drogas, passou 22 meses detido e acabou organizando um workshop de criação poética para os outros presos - a maioria semi-analfabeta.
- Foi nessa época que percebi que conseguia escrever sem o auxílio da cocaína - conta Tolentino. - Devo isso à cadeia. Achava que era a droga que me inspirava, porque eu tinha que achar uma explicação para tanta inspiração. Tive um longo envolvimento com o "sublime pó" e ficava espantadíssimo de escrever tão bem, mas depois vi que não era a droga que tornava meus versos magníficos: eles já eram muito bons mesmo.
Poeta diz que será compreendido pela próxima geraçãoNo almoço de duas horas, o auto-elogio aumenta à medida em que o peixe e as batatas vão sumindo do prato. Tolentino não parece se incomodar em ser mais conhecido pelo que fala nos jornais do que pelo que escreve nos livros. Perguntado se sua obra terá fôlego para continuar sendo lida daqui a cem anos, ele disse acreditar que muito antes disso os leitores já terão se rendido ao seu talento:
- Fui bonito, rico, gostoso, inteligente e poliglota, enfim, uma obra-prima - afirma. - A vaidade para mim sempre foi uma coisa natural... Quando descobri que eu também escrevia bem, me pareceu um pouquinho demais, mas era verdade. Mas sempre fui mais orgulhoso do que vaidoso. Sei que vai demorar muito menos que cem anos para eu ser lido e aceito, isso já vai se dar na próxima geração. Vão entender que sou o Fernando Pessoa daqui, que eu trouxe universalidade à nossa poesia.
Tolentino se considera um oásis de talento no deserto da poesia nacional. Acredita que as mulheres de sua geração são muito melhores que os homens, e por isso dedica "A balada do cárcere" a Orides Fontela, Adélia Prado e Neide Archanjo. Ele diz que o título de sua "balada" é um clara citação ao livro homônimo de Oscar Wilde, embora acredite que seus versos são menos pessoais que os do autor inglês.
- Dou voz a um preso, Nick, que matou a mulher. Através dele, falo da cadeia e da experiência com minha própria mulher, de quem tinha me separado um pouco antes. Enquanto escrevia, lembrava da imagem dela, belíssima, me olhando através da janela do trem. Oscar Wilde fala de si mesmo mais diretamente.
Também garante que existem diferenças em relação ao conteúdo homossexual do poema de Wilde. Acusado por Antônio Paulo Graça de ter feito um "opúsculo homossexual", Tolentino conta que ficou isolado na cadeia, por isso não recebeu nenhuma cantada:
- O único contato que tinha com os outros era na hora dos seminários de poesia. Mas lá dá vontade de fazer muita coisa, ainda mais porque minha sentença inicial era de 11 anos. Não sei o que aconteceria se eu ficasse com um daqueles homens na mesma cela. Meu poema tem um mesmo ponto de partida que o de Oscar Wilde: um sujeito que matou a mulher. Mas ele é muito mais pessoal do que eu, embora eu use o poema para refletir sobre a relação com minha mulher.
Elogiado pelo poeta Ferreira Gullar, que assina a quarta capa do livro, "A balada do cárcere" mistura a realidade da cadeia e mitologia grega e recebeu o Prêmio Cruz e Souza de 1995. Meio brincando, meio falando a verdade, Tolentino diz que irá à Academia Brasileira de Letras perguntar se vai receber o Prêmio
Machado de Assis este ano ou no ano que vem. Ele acredita que a crítica literária brasileira vive um de seus piores momentos:
- Não consigo achar nenhum crítico bom - diz ele. - São todos uns canalhas, não destaco ninguém, a não ser para o pelotão de fuzilamento. São todos podres, todos vendidos. Prestam mais atenção em Mano Caê e nos Chicos-chicos no fubá da vida do que nos verdadeiros poetas. Há uma menina que está publicando uma tese feita na Sorbonne sobre a solidão na literatura brasileira vista pela obra de Caetano Veloso. Francamente, um ensaio como esse cabe num bueiro de Liliputh. Mas nossos críticos vão dar atenção, porque não estão interessados em literatura.
O peixe já está no fim, sobram as batatas. Tolentino pede barrigas-de-freira como sobremesa, explicando minuciosamente a um espantado garçom que a culpa da "gravidez das freirinhas" não é dele. Enquanto espera, o poeta mostra que não aposentou o veneno da língua. Diz que soube por outras pessoas que tinha brigado com Ivan Junqueira, mas adorou romper relações com o poeta:
- Ele tinha me chamado para ser jurado de um concurso. Aceitei, mas resolvi sair do júri na última hora, para poder me candidatar ao prêmio. Ele ficou magoado. Tudo bem, isso foi uma bênção. Fiquei livre de uma múmia empolada. O fato de eu escrever muito bem milita contra mim, minha briga com Juju-quequeira vem daí.
Os irmãos Campos são o alvo predileto do poeta, que escreveu o ensaio "Os sapos de ontem" com o único intuito de criticar o concretismo. Para Tolentino, o movimento só pôde existir porque São Paulo é uma terra cheia de pensadores e filósofos - como Sérgio Buarque de Holanda e Sergio Milliet - mas sempre foi pobre de poetas.
- Os paulistas só produziram Vicente de Carvalho e Ribeiro Couto, este um poeta menorzinho - avalia. - Cassiano Ricardo nem comento, porque estamos à mesa. E Mario de Andrade me dá vontade de rir. O concretismo está fazendo 40 anos de farsa.
Haroldo e Augusto ainda não conseguiram ser tão bonitos por dentro quanto são por fora.
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Carolina Vigna Prado
Carta a um amigo
Escrevo por impulso.
Talvez isso não faça qualquer sentido, mas decidi correr o risco.
"... Carrega nos seus braços a criança chorosa...
Mas nos seus braços a criança estava morta..."
O despertar de um pesadelo é muitas vezes mais cruel.
É belo o amanhecer, porque é o sorriso
daqueles que me esperaram.
Coloquei o roteiro em uma gaveta, esperando madurar,
como o desenho de
uma música qualquer.
Tenho fôlego.
Johann Wolfgang von Goethe.
A febre foi contida.
A realidade me acalenta.
Ich liebe dich.
Gostaria de acreditar em histórias com começo, meio e fim.
São fantasias que se realizam, outras que nascem,
e a história continua, como um peão de criança em festa junina.
Gostaria de acreditar em destino, mas não consigo.
São idas e vindas que traçamos com absoluta consciência e vontade.
Gostaria de acreditar em paixão, mas não consigo.
O tempo vagarosamente
provou o contrário.
Apenas cúmplices de uma vida.
"Gracias a la vida, perfectamente distingo lo negro del blanco".
Gostaria de acreditar na razão, mas não consigo.
Gostaria de acreditar em sonhos. Felizmente, ainda consigo.
O racional e lógico não me dizem mais nada.
No sonho e no desejo
encontro o que procuro.
Semi-platônicos, ainda não realizados.
Um desejo quase impune por ser autista.
O desejo de um amor que emule a vida, que anule a morte.
O cansaço me vence.
Boa noite.
Talvez isso não faça qualquer sentido, mas decidi correr o risco.
"... Carrega nos seus braços a criança chorosa...
Mas nos seus braços a criança estava morta..."
O despertar de um pesadelo é muitas vezes mais cruel.
É belo o amanhecer, porque é o sorriso
daqueles que me esperaram.
Coloquei o roteiro em uma gaveta, esperando madurar,
como o desenho de
uma música qualquer.
Tenho fôlego.
Johann Wolfgang von Goethe.
A febre foi contida.
A realidade me acalenta.
Ich liebe dich.
Gostaria de acreditar em histórias com começo, meio e fim.
São fantasias que se realizam, outras que nascem,
e a história continua, como um peão de criança em festa junina.
Gostaria de acreditar em destino, mas não consigo.
São idas e vindas que traçamos com absoluta consciência e vontade.
Gostaria de acreditar em paixão, mas não consigo.
O tempo vagarosamente
provou o contrário.
Apenas cúmplices de uma vida.
"Gracias a la vida, perfectamente distingo lo negro del blanco".
Gostaria de acreditar na razão, mas não consigo.
Gostaria de acreditar em sonhos. Felizmente, ainda consigo.
O racional e lógico não me dizem mais nada.
No sonho e no desejo
encontro o que procuro.
Semi-platônicos, ainda não realizados.
Um desejo quase impune por ser autista.
O desejo de um amor que emule a vida, que anule a morte.
O cansaço me vence.
Boa noite.
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Dante Milano
Lagryma Negra
Aperte fortemente a penna ingratta
entre os dêdos nervosos e trementes,
e os versos jórram, claros e estridentes,
numa cascata, numa cataracta!
Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lagrymas de prata
como um collar de pérolas pendentes...
Eu canto o soffrimento, a ancia incontida
de amor, que é a maior ancia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condemna!
E todo o meu sofrer, todo, se pinta
neste pingo de dor -- pingo de tinta,
lagryma negra que me cáe da penna.
entre os dêdos nervosos e trementes,
e os versos jórram, claros e estridentes,
numa cascata, numa cataracta!
Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lagrymas de prata
como um collar de pérolas pendentes...
Eu canto o soffrimento, a ancia incontida
de amor, que é a maior ancia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condemna!
E todo o meu sofrer, todo, se pinta
neste pingo de dor -- pingo de tinta,
lagryma negra que me cáe da penna.
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Carlos Newton Júnior
Pantera
Jamais a vi verdadeira
— o hálito quente e o frio olhar —
para além das rijas barras
que mundo nenhum retém:
encontrei-a nas palavras
precisas, que são ferro e pedra,
sangue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.
E eram tantas as panteras
nas diversas traduções
do mesmíssimo poema.
Em todas, o vulto negro
num silêncio ditirambo
com seus coturnos de seda.
— o hálito quente e o frio olhar —
para além das rijas barras
que mundo nenhum retém:
encontrei-a nas palavras
precisas, que são ferro e pedra,
sangue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.
E eram tantas as panteras
nas diversas traduções
do mesmíssimo poema.
Em todas, o vulto negro
num silêncio ditirambo
com seus coturnos de seda.
960
Carvalho Nogueira
Paula Ney
Era mesmo o poeta Paula Ney:
apareceu-me em sonho. Recordou
horas a fio uma porção de coisas
e leu-me uns versos que escreveu no céu.
Disse que os velhos poetas cearenses
da ingênua Fortaleza do passado
estão pedindo missa. E suas almas
continuam penando de saudade.
Contou também que, certa madrugada,
rogou licença a Deus e veio aqui
para rever a "loira desposada".
Nesse instante, seus olhos marejaram
e, quando quis falar o que faltava,
as palavras morreram de tristeza.
apareceu-me em sonho. Recordou
horas a fio uma porção de coisas
e leu-me uns versos que escreveu no céu.
Disse que os velhos poetas cearenses
da ingênua Fortaleza do passado
estão pedindo missa. E suas almas
continuam penando de saudade.
Contou também que, certa madrugada,
rogou licença a Deus e veio aqui
para rever a "loira desposada".
Nesse instante, seus olhos marejaram
e, quando quis falar o que faltava,
as palavras morreram de tristeza.
824
Camilo Mota
Mantra
torno-me puro
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
961
Cunha Santos Filho
Motel
O mênstruo da aurora em tom vermelho
repete-me abatido na vidraça
minha imagem em dó, ré, mi, coalha no espelho
o sol, lavando o resto, vê e passa
é a manhã, rebento do meu sono, afoito
me mudo para a lâmpada que, acesa,
crava minha sombra sobre a mesa
caneta e eu, poema, eterno coito
saudades dela em mim como estrias
na pele. E como é dura removê-las
devassos nós dormimos quando é dia
que às noites, como cães lassos de orgia
se ela faz suruba com as estrelas
eu vivo em coito anal com a poesia
repete-me abatido na vidraça
minha imagem em dó, ré, mi, coalha no espelho
o sol, lavando o resto, vê e passa
é a manhã, rebento do meu sono, afoito
me mudo para a lâmpada que, acesa,
crava minha sombra sobre a mesa
caneta e eu, poema, eterno coito
saudades dela em mim como estrias
na pele. E como é dura removê-las
devassos nós dormimos quando é dia
que às noites, como cães lassos de orgia
se ela faz suruba com as estrelas
eu vivo em coito anal com a poesia
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