Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Herberto Helder
Os Ritmos 1
Vejo-lhes o rosto sem sombras, um pequeno rosto branco que tem raízes em águas lisas.
A peste neles é uma tarefa tranquila.
As raízes bebem-na na própria paz, e o sono não dá conta.
Sólido sono que nenhum pavor atravessa.
Um dia hei-de falar melhor deste sono, desse distraído e falso equilíbrio que regras estéreis secretamente alimentam.
Eu via esses rostos, esse sono, e não tinha paz.
Sabem como é?
Começamos por reconhecer aí os seres do nosso amor e gentileza — sei lá — a mãe, as irmãs, a rapariga cujas altas ancas atravessavam os quartos obscuros, atravancavam corredores, e onde a luz viva se quebrava.
Nas fotografias antigas, com forma oval e uma cor ambígua, a três quartos, de frente, de perfil — sim, reconhecemos isso.
São rostos brancos, e dormem.
Dormem o sono onde a lepra estremece: a tenebrosa semente.
Depois vemos que tudo era vazio, lá dentro: era uma casca — e, precisamente, nada significava.
Mãe — dizemos nós.
Mas a mãe fora tomada por aquela grande desatenção.
E chamamos pela jovem tremendamente irradiante e íntima.
Mas nada há, além de um nome inventado pelo nosso tempo e colocação, o nosso próprio mistério.
Fazemos um apelo aos retratos, cercamo-los de uma quente expectativa, e temos sobre eles uma teoria emocionante.
Contudo, é forçoso deixá-los: dormem daquele sono.
Estou rodeado por dezenas de cabeças assim — calmas e vazias.
Vou para os lugares do norte — é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastante, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.
Escutem vocês.
Não temos família, nem amor, nem paz, nem casa, nem país, nem fraternidade, nem.
Realmente nem isso.
Nem projecto.
Quando eu disse muito baixo: mãe.
Sabem vocês o que aconteceu?
Veio aquela mulher muito velha, sonâmbula, que sorria estupidamente, que deveria estar a dormir.
Aposto em que era oca, igual ao ovo de avestruz que havia na horrível sala de jantar.
Bem sei: a minha versão era outra.
Uma mulher silenciosa, sentada junto a uma janela com cortinas brancas onde batia o vento marinho.
A criatura gentil e atenta, cuja melancolia era uma espécie de inteligência subterrânea que todas as coisas, e uma memória oculta, ajudavam no silêncio.
Mas a velha oca sorria, e a inteligência dela era apenas andar pela casa.
Uma galinha.
Vejo-a a esgravatar a terra, a morrer da sua peste, com a cabeça dormente sobre as curtas asas.
O que eu digo é bastante simples: a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer.
Aí é que se vive.
Não é junto de fotografias amarelas, de mães empestadas, de raparigas esplêndidas guardando com ignorância o seu cancro fatal.
Onde é bom para morrer, não há perigo.
Está limpo, é definitivo.
Oh, deixemo-nos de invenções menores.
Já somos puros e responsáveis, depois de tudo o que sucedeu: as pessoas que dormem embrulhadas em volta da sua tenebrosa doença, os retratos oblíquos, inclinando o seu suspeito sorriso e a sua seriedade gramatical.
Merda para os espantalhos.
Estamos sós, libertos dos bons sentimentos, das pequenas grandezas de alma, das vozes solícitas.
Fomos ao norte ou, se não fomos, havemos de ir — isso é o menos.
E aquela dos pés descalços sobre a neve, o diabo tece-as.
Pode bem vir a ser uma verdade.
Não seria assim uma coisa como que heróica, hein?
Uma espécie de santidade, martírio, ou crime exemplar?
Às vezes penso mesmo que é necessário assassinar alguém, ter as mãos cobertas de sangue.
Não que isto possa vir a ser o começo de uma ressurreiçãozinha, mas apenas porque há a necessidade de algo bastante concreto.
Temos contas a liquidar, e o sangue continua a ser, vindo da simbologia antiga, um sinal indiscutível.
Não melhoraria coisa alguma, não senhores.
Mas — enfim — havíamos actuado, tínhamos esse acto como reserva de consciência.
Afinal a mãe estava morta, e a avó que empestava a casa estava morta, e morta estava aquela extraordinária rapariga de ancas altas, a que andava pela obscuridade, essa tinha a sua doença repugnante e estava morta.
Chegámos aqui a um ponto importante.
A minha teoria é a seguinte.
Matá-los não era possível, pois eles estavam todos mortos, sorrindo nos corredores, nas janelas, nos retratos.
Mas nós devíamo-nos sentir os executores.
A sua justa morte, posterior, deveria ter sido obra nossa, milagre, violência nossa.
E então partíamos para a neve, com uma alegria feroz, uma essência pura — libertos por nossas próprias mãos.
Que esplêndidos pés marcados.
Mas afinal sentamo-nos a uma mesa e escrevemos as palavras ambíguas para que haverá todos os sentidos, aqueles mesmo por onde escapará a pequena parte de nobreza que era a nossa intenção.
E agora, para mais, assaltam-me imagens de uma beleza terrível e degradante para o que tenho pela minha alta vocação: o esquecimento.
Sabem o que vejo?
Mãos quentes e seguras que fazem desenhos sobre a mesa, no ar, na conversa.
Irmãs, primas, mulheres que atravessam um frio e nítido pomar de laranjeiras anãs, o cabelo húmido, o rosto grande aberto, o olhar muito vivo.
Enquanto sufoco com tanta beleza, eu, criança comovida, pequeno monstro sensível entregue às ciladas da falsa memória.
Na realidade, eu deveria estar no deserto, de pé, porque tudo é impiedoso, e eu sou impiedoso.
É preciso deitar fogo às ervas, as ervas altas, estar sobre areia, sobre cal.
Há uma pureza, decerto.
E não será feita com detritos, emoções fáceis, figuras repetindo gestos a que nos aplicámos a dar uma virtude — e que constituem depois o exemplo do tempo, do lugar, do acto.
A história que eu conto é esta.
Houve um engano nos nossos pensamentos, e do engano fizemos a alegria e a tristeza, chegámos a fazer a nossa força.
A pureza não deve ser a ingenuidade e a segurança com que a podemos ter.
Por isso falo de uma viagem onde é possível perder o próprio nome, e morrer disso.
E então viver.
Não dormindo, como as nossas bestas respeitáveis.
Viver — digo eu.
E que o nosso afastamento, o silêncio vibrante, a grande morte pensada e amada nas profundidades — fossem bastante para vergar as bestas todas, empurrá-las pelo seu próprio sono abaixo, afundá-las até ao inferno.
Gostaria de cantar quando o ar estivesse completamente límpido.
Mas não passo de um fraco — nem sequer matei os prestigiosos monstros do meu tempo: todas essas criaturas que me entregam uma velhice pecaminosa, essas obscenas figuras de retórica que são as descobertas da intimidade.
Todos os dias os mortos ressuscitam e bebem o meu sangue de homem, e eu sorrio-lhes, cheio de gratidão e amor.
Grande filho de puta.
A peste neles é uma tarefa tranquila.
As raízes bebem-na na própria paz, e o sono não dá conta.
Sólido sono que nenhum pavor atravessa.
Um dia hei-de falar melhor deste sono, desse distraído e falso equilíbrio que regras estéreis secretamente alimentam.
Eu via esses rostos, esse sono, e não tinha paz.
Sabem como é?
Começamos por reconhecer aí os seres do nosso amor e gentileza — sei lá — a mãe, as irmãs, a rapariga cujas altas ancas atravessavam os quartos obscuros, atravancavam corredores, e onde a luz viva se quebrava.
Nas fotografias antigas, com forma oval e uma cor ambígua, a três quartos, de frente, de perfil — sim, reconhecemos isso.
São rostos brancos, e dormem.
Dormem o sono onde a lepra estremece: a tenebrosa semente.
Depois vemos que tudo era vazio, lá dentro: era uma casca — e, precisamente, nada significava.
Mãe — dizemos nós.
Mas a mãe fora tomada por aquela grande desatenção.
E chamamos pela jovem tremendamente irradiante e íntima.
Mas nada há, além de um nome inventado pelo nosso tempo e colocação, o nosso próprio mistério.
Fazemos um apelo aos retratos, cercamo-los de uma quente expectativa, e temos sobre eles uma teoria emocionante.
Contudo, é forçoso deixá-los: dormem daquele sono.
Estou rodeado por dezenas de cabeças assim — calmas e vazias.
Vou para os lugares do norte — é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastante, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.
Escutem vocês.
Não temos família, nem amor, nem paz, nem casa, nem país, nem fraternidade, nem.
Realmente nem isso.
Nem projecto.
Quando eu disse muito baixo: mãe.
Sabem vocês o que aconteceu?
Veio aquela mulher muito velha, sonâmbula, que sorria estupidamente, que deveria estar a dormir.
Aposto em que era oca, igual ao ovo de avestruz que havia na horrível sala de jantar.
Bem sei: a minha versão era outra.
Uma mulher silenciosa, sentada junto a uma janela com cortinas brancas onde batia o vento marinho.
A criatura gentil e atenta, cuja melancolia era uma espécie de inteligência subterrânea que todas as coisas, e uma memória oculta, ajudavam no silêncio.
Mas a velha oca sorria, e a inteligência dela era apenas andar pela casa.
Uma galinha.
Vejo-a a esgravatar a terra, a morrer da sua peste, com a cabeça dormente sobre as curtas asas.
O que eu digo é bastante simples: a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer.
Aí é que se vive.
Não é junto de fotografias amarelas, de mães empestadas, de raparigas esplêndidas guardando com ignorância o seu cancro fatal.
Onde é bom para morrer, não há perigo.
Está limpo, é definitivo.
Oh, deixemo-nos de invenções menores.
Já somos puros e responsáveis, depois de tudo o que sucedeu: as pessoas que dormem embrulhadas em volta da sua tenebrosa doença, os retratos oblíquos, inclinando o seu suspeito sorriso e a sua seriedade gramatical.
Merda para os espantalhos.
Estamos sós, libertos dos bons sentimentos, das pequenas grandezas de alma, das vozes solícitas.
Fomos ao norte ou, se não fomos, havemos de ir — isso é o menos.
E aquela dos pés descalços sobre a neve, o diabo tece-as.
Pode bem vir a ser uma verdade.
Não seria assim uma coisa como que heróica, hein?
Uma espécie de santidade, martírio, ou crime exemplar?
Às vezes penso mesmo que é necessário assassinar alguém, ter as mãos cobertas de sangue.
Não que isto possa vir a ser o começo de uma ressurreiçãozinha, mas apenas porque há a necessidade de algo bastante concreto.
Temos contas a liquidar, e o sangue continua a ser, vindo da simbologia antiga, um sinal indiscutível.
Não melhoraria coisa alguma, não senhores.
Mas — enfim — havíamos actuado, tínhamos esse acto como reserva de consciência.
Afinal a mãe estava morta, e a avó que empestava a casa estava morta, e morta estava aquela extraordinária rapariga de ancas altas, a que andava pela obscuridade, essa tinha a sua doença repugnante e estava morta.
Chegámos aqui a um ponto importante.
A minha teoria é a seguinte.
Matá-los não era possível, pois eles estavam todos mortos, sorrindo nos corredores, nas janelas, nos retratos.
Mas nós devíamo-nos sentir os executores.
A sua justa morte, posterior, deveria ter sido obra nossa, milagre, violência nossa.
E então partíamos para a neve, com uma alegria feroz, uma essência pura — libertos por nossas próprias mãos.
Que esplêndidos pés marcados.
Mas afinal sentamo-nos a uma mesa e escrevemos as palavras ambíguas para que haverá todos os sentidos, aqueles mesmo por onde escapará a pequena parte de nobreza que era a nossa intenção.
E agora, para mais, assaltam-me imagens de uma beleza terrível e degradante para o que tenho pela minha alta vocação: o esquecimento.
Sabem o que vejo?
Mãos quentes e seguras que fazem desenhos sobre a mesa, no ar, na conversa.
Irmãs, primas, mulheres que atravessam um frio e nítido pomar de laranjeiras anãs, o cabelo húmido, o rosto grande aberto, o olhar muito vivo.
Enquanto sufoco com tanta beleza, eu, criança comovida, pequeno monstro sensível entregue às ciladas da falsa memória.
Na realidade, eu deveria estar no deserto, de pé, porque tudo é impiedoso, e eu sou impiedoso.
É preciso deitar fogo às ervas, as ervas altas, estar sobre areia, sobre cal.
Há uma pureza, decerto.
E não será feita com detritos, emoções fáceis, figuras repetindo gestos a que nos aplicámos a dar uma virtude — e que constituem depois o exemplo do tempo, do lugar, do acto.
A história que eu conto é esta.
Houve um engano nos nossos pensamentos, e do engano fizemos a alegria e a tristeza, chegámos a fazer a nossa força.
A pureza não deve ser a ingenuidade e a segurança com que a podemos ter.
Por isso falo de uma viagem onde é possível perder o próprio nome, e morrer disso.
E então viver.
Não dormindo, como as nossas bestas respeitáveis.
Viver — digo eu.
E que o nosso afastamento, o silêncio vibrante, a grande morte pensada e amada nas profundidades — fossem bastante para vergar as bestas todas, empurrá-las pelo seu próprio sono abaixo, afundá-las até ao inferno.
Gostaria de cantar quando o ar estivesse completamente límpido.
Mas não passo de um fraco — nem sequer matei os prestigiosos monstros do meu tempo: todas essas criaturas que me entregam uma velhice pecaminosa, essas obscenas figuras de retórica que são as descobertas da intimidade.
Todos os dias os mortos ressuscitam e bebem o meu sangue de homem, e eu sorrio-lhes, cheio de gratidão e amor.
Grande filho de puta.
637
Herberto Helder
Os Ritmos 3
Uma mulher está sentada junto à sua janela.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
1 059
Eduardo Pitta
Hesitas quanto à natureza
Hesitas quanto à natureza do travo na língua,
a boca sempre vulnerável ao bitterness
do chilled pineapple-moscato zabaglione,
ou só o frio a arder de Union Square para Central Park West.
Até que os elefantes olham para ti
com um garbo irreprimível.
(Nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.)
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada,
também não sabia.
Mas foi lá que tudo começou,
entre torcidos manuelinos e calções de caqui
com ravina e mar ao fundo.
Trinta anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto.
Desvias o olhar e corres para o clarão do gelo
e o ziguezague dos batedores.
A tarde cai do outro lado mundo.
a boca sempre vulnerável ao bitterness
do chilled pineapple-moscato zabaglione,
ou só o frio a arder de Union Square para Central Park West.
Até que os elefantes olham para ti
com um garbo irreprimível.
(Nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.)
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada,
também não sabia.
Mas foi lá que tudo começou,
entre torcidos manuelinos e calções de caqui
com ravina e mar ao fundo.
Trinta anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto.
Desvias o olhar e corres para o clarão do gelo
e o ziguezague dos batedores.
A tarde cai do outro lado mundo.
508
Eduardo Pitta
Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz
Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos
iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita
afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro
de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos
iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita
afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro
de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.
652
Matilde Campilho
We Never Did Too Much Talking Anyway
Por exemplo
esqueça Coney Island
e as trezentas peças
de metal que compõem
o jogo mágico de Coney
Island no mês de agosto
Lembre da palavra sushi
sendo gritada no metrô
quando tudo o que alguém
queria gritar era sua devoção
por pedacinhos de prata
Lembre de meu fascínio
profundo por desportistas
noturnos que sincronizam
a respiração com o batimento
dos dedos da amante morta
Esqueça o comprimido
composto de estearato
de magnésio e macrogol
receitado por doutor Roberto
quando o pobre doutor Roberto
não sabia mais o que tentar
ou então tinha mais o que fazer
naquela tarde de quarta-feira
na emergência de São Vicente
Lembre que quarta-feira
é dia de jogo de pebolim
e sobre isso não tem discussão
Lembre do quanto me iluminam
os animais talhados no marfim
principalmente aquela baleia
de oito centímetros e meio
minha única herança
minha única esperança
Esqueça talvez
a manobra repetida
de lamber envelopes
no silêncio de um quarto
quando já faz sol nas praças
Somos feitos para o relento
Lembre que por vezes
você tem muita razão
e que outras vezes não
Esqueça vá esqueça
o inverno em Ipanema
e o tubarão nadando
nas veias da besta
de Ipanema gelada
Lembre de meu desejo
muitas vezes certo
muitas vezes não
Lembre a descoberta
daquele excerto que dizia
nós subimos os degraus
a correr e saímos do frio
brilhante para o frio escuro
E se puder não esqueça
o rosto calmo do tigre
que está parado na porta
esperando para entrar
e para depois nos atravessar.
esqueça Coney Island
e as trezentas peças
de metal que compõem
o jogo mágico de Coney
Island no mês de agosto
Lembre da palavra sushi
sendo gritada no metrô
quando tudo o que alguém
queria gritar era sua devoção
por pedacinhos de prata
Lembre de meu fascínio
profundo por desportistas
noturnos que sincronizam
a respiração com o batimento
dos dedos da amante morta
Esqueça o comprimido
composto de estearato
de magnésio e macrogol
receitado por doutor Roberto
quando o pobre doutor Roberto
não sabia mais o que tentar
ou então tinha mais o que fazer
naquela tarde de quarta-feira
na emergência de São Vicente
Lembre que quarta-feira
é dia de jogo de pebolim
e sobre isso não tem discussão
Lembre do quanto me iluminam
os animais talhados no marfim
principalmente aquela baleia
de oito centímetros e meio
minha única herança
minha única esperança
Esqueça talvez
a manobra repetida
de lamber envelopes
no silêncio de um quarto
quando já faz sol nas praças
Somos feitos para o relento
Lembre que por vezes
você tem muita razão
e que outras vezes não
Esqueça vá esqueça
o inverno em Ipanema
e o tubarão nadando
nas veias da besta
de Ipanema gelada
Lembre de meu desejo
muitas vezes certo
muitas vezes não
Lembre a descoberta
daquele excerto que dizia
nós subimos os degraus
a correr e saímos do frio
brilhante para o frio escuro
E se puder não esqueça
o rosto calmo do tigre
que está parado na porta
esperando para entrar
e para depois nos atravessar.
863
Eduardo Pitta
Duramente aprendemos
Duramente aprendemos.
O caos e a memória
delida.
Palavras poucas, e gastas.
O caos e a memória
delida.
Palavras poucas, e gastas.
656
Eduardo Pitta
Temos das coisas a lembrança das viagens
Temos das coisas a lembrança das viagens
ignotas. E o sentido delas estilhaça
no primeiro espelho da memória.
Como aquelas noites muito brancas
povoadas de crimes inenarráveis.
Também as nossas mãos, vorazes,
tacteiam um percurso de sangue:
o de inquestionáveis desígnios do amor.
ignotas. E o sentido delas estilhaça
no primeiro espelho da memória.
Como aquelas noites muito brancas
povoadas de crimes inenarráveis.
Também as nossas mãos, vorazes,
tacteiam um percurso de sangue:
o de inquestionáveis desígnios do amor.
512
Bernardo Pinto de Almeida
Melancolia
Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
677
Bernardo Pinto de Almeida
O Deus da minha infância
O Deus da minha infância
era verde
verde como um fruto
amargo como um campo extenso
alargando-se até para lá do horizonte
corria montanhas e rios
descia suave pelas colinas
detinha-se nas ervas
nos riachos
anunciava nas árvores jovens
o rebentar da primavera.
O Deus da minha infância
era loiro
como trigo sereno ondulante
cavava fundo a terra
adormecida e as cigarras
cantavam nela ao fim da tarde:
explodia vivamente
em cada sol
nascia pela manhã e velava de noite
o meu sono
a solidão tranquila
do rosto moldado na almofada.
O Deus da minha infância
era azul
estava em todo o céu como o azul
era as gotas de orvalho
sobre as folhas
o ar muito fino e respirável
que a cada hora atravessava a folhagem
os ramos muito altos
e os enaltecia de verde.
O Deus da minha infância
era breve
colhia-se na tarde
ao calor
sob as árvores generosas como frutos
e apertava-se frio contra os dentes
imaturos
tornando-os rijos e brancos
luminosos
passando em cada gesto
como um sinal intenso.
O Deus da minha infância
ao descer da voz
ouvida ao longe
era um cavalo de prata
junto à minha janela
era um olhar fugaz
que se voltava para a sombra
e que julgava ver nela
todo o mistério do mundo
toda a violência das tardes
toda a ordem plasmada no cosmos
muito amplo
acima de todos
de cada um de nós.
O Deus da minha infância
brincava
com os gatos que saltavam dos telhados
com os cães que adormeciam ao sol
com as crianças
que rodopiavam em rodas
em torno do pião
que rodava.
O Deus da minha infância
era pobre
escutava as vozes das lareiras
comia a broa âzima
pousava sobre a mesa de castanho velho
e detinha-se nas linhas
fundas da madeira
nos seus nós escurecidos:
assomava às janelas
de vidro barato
coalhadas da humidade
descia pela garrafa de azeite espesso
misturava-se com o vapor acre do vinho
crepitava nas brasas entre castanhas e fumo
afundava-se nas rugas dos velhos
de mãos encarquilhadas
pelo frio e pela usura.
O Deus da minha infância
se acaso me visita
fala-me das vezes temerárias
em que me aventurava nas águas agitadas
de um rio
em que afundava o corpo
na terra ainda quente
e abraçando-me a ele
leva-me de volta ali
a esse lugar remoto de onde nunca parti
a essa funda origem
aonde O conheci.
era verde
verde como um fruto
amargo como um campo extenso
alargando-se até para lá do horizonte
corria montanhas e rios
descia suave pelas colinas
detinha-se nas ervas
nos riachos
anunciava nas árvores jovens
o rebentar da primavera.
O Deus da minha infância
era loiro
como trigo sereno ondulante
cavava fundo a terra
adormecida e as cigarras
cantavam nela ao fim da tarde:
explodia vivamente
em cada sol
nascia pela manhã e velava de noite
o meu sono
a solidão tranquila
do rosto moldado na almofada.
O Deus da minha infância
era azul
estava em todo o céu como o azul
era as gotas de orvalho
sobre as folhas
o ar muito fino e respirável
que a cada hora atravessava a folhagem
os ramos muito altos
e os enaltecia de verde.
O Deus da minha infância
era breve
colhia-se na tarde
ao calor
sob as árvores generosas como frutos
e apertava-se frio contra os dentes
imaturos
tornando-os rijos e brancos
luminosos
passando em cada gesto
como um sinal intenso.
O Deus da minha infância
ao descer da voz
ouvida ao longe
era um cavalo de prata
junto à minha janela
era um olhar fugaz
que se voltava para a sombra
e que julgava ver nela
todo o mistério do mundo
toda a violência das tardes
toda a ordem plasmada no cosmos
muito amplo
acima de todos
de cada um de nós.
O Deus da minha infância
brincava
com os gatos que saltavam dos telhados
com os cães que adormeciam ao sol
com as crianças
que rodopiavam em rodas
em torno do pião
que rodava.
O Deus da minha infância
era pobre
escutava as vozes das lareiras
comia a broa âzima
pousava sobre a mesa de castanho velho
e detinha-se nas linhas
fundas da madeira
nos seus nós escurecidos:
assomava às janelas
de vidro barato
coalhadas da humidade
descia pela garrafa de azeite espesso
misturava-se com o vapor acre do vinho
crepitava nas brasas entre castanhas e fumo
afundava-se nas rugas dos velhos
de mãos encarquilhadas
pelo frio e pela usura.
O Deus da minha infância
se acaso me visita
fala-me das vezes temerárias
em que me aventurava nas águas agitadas
de um rio
em que afundava o corpo
na terra ainda quente
e abraçando-me a ele
leva-me de volta ali
a esse lugar remoto de onde nunca parti
a essa funda origem
aonde O conheci.
572
Fernando Fitas
Havia um barco
Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
655
Fernando Fitas
Deitado foi teu corpo
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida
E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida
E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
715
Fernando Fitas
Tivemos os silêncios vigiados
Tivemos os silêncios vigiados
e os passos proibidos,
o caminho encarcerado
antes de esboçarmos o caminhar
E cercado o murmúrio
e cercados os olhares
nos gélidos muros
a dor tamanha que carregámos.
e os passos proibidos,
o caminho encarcerado
antes de esboçarmos o caminhar
E cercado o murmúrio
e cercados os olhares
nos gélidos muros
a dor tamanha que carregámos.
640
Matilde Campilho
Gnomon
Eu queria tudo como
no livro monogramado
A musa
As crianças
A discussão à chuva
que nos obrigaria a perceber
a circularidade mística
de algumas árvores
O choro
O recado escondido de Chillida
Queria tudo como
no lenço das aparições
O gengibre assustando-nos
de vez em quando os pratos
O morro da Lopes Quintas
que você nunca chegaria a ver
Mas que certamente verá
Só não mais por meus olhos
(como você ainda disse:
o caleidoscópio através
do qual sucedia o mundo)
Queria tudo sobre o pano
de um chapéu de tirolês
Tudo tão importante quanto
a descoberta grega
do ângulo de noventa graus
Queria tudo em jeito de promessa
de um acontecimento que mudaria
a perceção da sombra humana
Mas você insistiu em morrer
Você sempre insistia em morrer
e finalmente conseguiu
Acontece que agora
Mil anos depois
do enterro de sua bandeira
Depois do choro
Depois da impressionante mudança
nas ocorrências diárias do mundo
Você fica se queixando
Sobre a queda da musa
Sobre a saudade das crianças
Sobre a reprodução profícua
de certas árvores no jardim.
As coisas que a gente aprende
depois dos 30 anos: sempre achei
que os mortos fossem mudos
E afinal os mortos se descontrolam
no exercício alto da sintaxe.
no livro monogramado
A musa
As crianças
A discussão à chuva
que nos obrigaria a perceber
a circularidade mística
de algumas árvores
O choro
O recado escondido de Chillida
Queria tudo como
no lenço das aparições
O gengibre assustando-nos
de vez em quando os pratos
O morro da Lopes Quintas
que você nunca chegaria a ver
Mas que certamente verá
Só não mais por meus olhos
(como você ainda disse:
o caleidoscópio através
do qual sucedia o mundo)
Queria tudo sobre o pano
de um chapéu de tirolês
Tudo tão importante quanto
a descoberta grega
do ângulo de noventa graus
Queria tudo em jeito de promessa
de um acontecimento que mudaria
a perceção da sombra humana
Mas você insistiu em morrer
Você sempre insistia em morrer
e finalmente conseguiu
Acontece que agora
Mil anos depois
do enterro de sua bandeira
Depois do choro
Depois da impressionante mudança
nas ocorrências diárias do mundo
Você fica se queixando
Sobre a queda da musa
Sobre a saudade das crianças
Sobre a reprodução profícua
de certas árvores no jardim.
As coisas que a gente aprende
depois dos 30 anos: sempre achei
que os mortos fossem mudos
E afinal os mortos se descontrolam
no exercício alto da sintaxe.
990
Eduardo Pitta
Ocupamos a paisagem
Ocupamos a paisagem
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.
Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.
Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
— todo lâminas.
Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.
Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
— as mais sazonadas
as menos polidas.
Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.
Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.
Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
— todo lâminas.
Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.
Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
— as mais sazonadas
as menos polidas.
Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.
474
Bernardo Pinto de Almeida
Os mortos 1
Murmura-se pela casa
as crianças são afastadas para quartos
onde brincam e lhes pedem silêncio
graves criadas murmuram e restolham aventais
rangem as tábuas nos soalhos. Os mortos são assim
a tudo impõem sua regra de espanto
a morte é uma sucção de tudo à volta
como se a todos apontasse um dedo acusador.
Da sala para o quarto, do quarto para a cozinha
os passos avançam como se envergonhados. Morreu?
ainda está vivo? Ninguém sabe ao certo
quando as agulhas do relógio designam pontiagudas
horas que arrefecem nos cristais
sobre a toalha.
A mesa estava posta, os convidados próximos
vieram irmãos e familiares de longe
para saudar outra vez aquele que parte
não têm que dizer-se nesse encontro perplexo
que o tempo não ajustou senão por cerimónia
e olham-se uns aos outros numa vertigem cega
de se sentirem apoiados num qualquer sentimento,
um consentimento que os ligue a si, aos outros, ao seu tempo
porque aquele que morre os suga para dentro de outro tempo.
Assim a morte vai enchendo as nossas vidas
nem melhores nem piores, cada vez mais vazias,
vazias de si mesmas vazias de sentidos
que nos outros prolonguem o que já antes fomos:
numa fotografia entre laços, a infância,
nesta outra a correr e uma bola fugindo,
numa outra ainda um triciclo, depois no acampamento,
uma carta de curso, entre outros no quartel.
Mas inexorável o tempo nos apaga esses rostos
onde o espanto se fixava onde tudo era branco
nada se escrevia senão um gesto atento
uma delicadeza para com um outro olhar:
a mãe que se afastava, a namorada frágil
ou num grupo de amigos junto a um carro polido
um cigarro pendendo negligente dos lábios
um pull-over que ficou a preto e branco e
ela a sorrir ainda, a tia que se suicidou
antes do tempo.
Agora o morto está deitado sobre a cama
dir-se-ia que respira, dir-se-ia a sorrir,
mas no rictus imóvel ele já não está ali
partiu para qualquer lado deixa-nos de sobreaviso
vagos de nós mesmos como quartos devolutos
numa pensão de província que já ninguém frequenta.
Entre os vestidos pretos há um rosto que soluça
em que o silêncio faz de fogo cada lágrima
sob uma madeixa branca uma saudade traz
um qualquer suplemento a todo este vazio:
um filho que aproxima o corpo do pai ido
beijo que se troca de luto partilhado
abraço que ressoa do casaco apertado
da gravata com mofo no fundo de um armário.
A todos os convoca o morto neste dia
em que a todos dispensa silêncio por igual
pois todos se lhe tornam familiares na morte
mesmo o que passa ao acaso para entregar uma carta.
E uma porta se abre, uma janela que passa
deixa entrever um breve clarão de azul
um sol que cai a pique na hora do meio dia
faz destas horas graves um tempo quase esférico
de tão redondo, tão vazio,
tão, para sempre, inapreensível.
as crianças são afastadas para quartos
onde brincam e lhes pedem silêncio
graves criadas murmuram e restolham aventais
rangem as tábuas nos soalhos. Os mortos são assim
a tudo impõem sua regra de espanto
a morte é uma sucção de tudo à volta
como se a todos apontasse um dedo acusador.
Da sala para o quarto, do quarto para a cozinha
os passos avançam como se envergonhados. Morreu?
ainda está vivo? Ninguém sabe ao certo
quando as agulhas do relógio designam pontiagudas
horas que arrefecem nos cristais
sobre a toalha.
A mesa estava posta, os convidados próximos
vieram irmãos e familiares de longe
para saudar outra vez aquele que parte
não têm que dizer-se nesse encontro perplexo
que o tempo não ajustou senão por cerimónia
e olham-se uns aos outros numa vertigem cega
de se sentirem apoiados num qualquer sentimento,
um consentimento que os ligue a si, aos outros, ao seu tempo
porque aquele que morre os suga para dentro de outro tempo.
Assim a morte vai enchendo as nossas vidas
nem melhores nem piores, cada vez mais vazias,
vazias de si mesmas vazias de sentidos
que nos outros prolonguem o que já antes fomos:
numa fotografia entre laços, a infância,
nesta outra a correr e uma bola fugindo,
numa outra ainda um triciclo, depois no acampamento,
uma carta de curso, entre outros no quartel.
Mas inexorável o tempo nos apaga esses rostos
onde o espanto se fixava onde tudo era branco
nada se escrevia senão um gesto atento
uma delicadeza para com um outro olhar:
a mãe que se afastava, a namorada frágil
ou num grupo de amigos junto a um carro polido
um cigarro pendendo negligente dos lábios
um pull-over que ficou a preto e branco e
ela a sorrir ainda, a tia que se suicidou
antes do tempo.
Agora o morto está deitado sobre a cama
dir-se-ia que respira, dir-se-ia a sorrir,
mas no rictus imóvel ele já não está ali
partiu para qualquer lado deixa-nos de sobreaviso
vagos de nós mesmos como quartos devolutos
numa pensão de província que já ninguém frequenta.
Entre os vestidos pretos há um rosto que soluça
em que o silêncio faz de fogo cada lágrima
sob uma madeixa branca uma saudade traz
um qualquer suplemento a todo este vazio:
um filho que aproxima o corpo do pai ido
beijo que se troca de luto partilhado
abraço que ressoa do casaco apertado
da gravata com mofo no fundo de um armário.
A todos os convoca o morto neste dia
em que a todos dispensa silêncio por igual
pois todos se lhe tornam familiares na morte
mesmo o que passa ao acaso para entregar uma carta.
E uma porta se abre, uma janela que passa
deixa entrever um breve clarão de azul
um sol que cai a pique na hora do meio dia
faz destas horas graves um tempo quase esférico
de tão redondo, tão vazio,
tão, para sempre, inapreensível.
687
Eduardo Pitta
Nada de muito óbvio
Nada de muito óbvio mas havia
qualquer coisa de refractário
no seu nomadismo.
Alguém um dia referiu
episódios escabrosos de antiquíssima
factura.
Sempre a espessura de um canalha
haverá de misturar urzes
com o delito oculto de algumas
quimeras. Vivia em paz quando
a desordem chegou
mas o plot mudara a personagem.
qualquer coisa de refractário
no seu nomadismo.
Alguém um dia referiu
episódios escabrosos de antiquíssima
factura.
Sempre a espessura de um canalha
haverá de misturar urzes
com o delito oculto de algumas
quimeras. Vivia em paz quando
a desordem chegou
mas o plot mudara a personagem.
910
Matilde Campilho
Não É Cair: É Voar Com Estilo
I was going to right to a poem but then I didn’t. A week ago I wrote to you a tiny telegram que dizia: “I’ll be home soon! Do not cry princess.” Foi duro pra caramba essa distância, mas é bom saber que você se fez rainha e que o afastamento de dois corpos a muito contribuiu para isso. Doeu, mas foi. E os santos padroeiros ajudaram. Sebastião, Antônio, Jorge e as multidões revolucionárias que andam ascabuçadas com a crise econômica. Às vezes, penso na fazendo do meu pai. É como aquela imagem do rosto do tigre que me vem as barbas, mas depois passa. Também escuto as canções do Tim Maia, mas nada resolve muito bem. Só sei da fazenda do pai, da fronha do tigre, do choro do mendigo e… vá lá vai. Já é lucaraça. Fiz-me poeta para dizeres okay. “Don’t you understand?” Como dizia o rapaz na chuva: “Don’t you?”. Isto não ouviria comigo, esquece! Alguns monges andam procurando mirra nas extremidades dos grãos da terra, mas já sabemos que isso é um valente estado de ilusão. Ou então é fé, sabe se lá. Tu deves saber. Tu sabes muito sobre escavação e horas são. Esta noite escrevi outro sério pedido de casamento, mas acho que já não vais na conversa. Faz tripas coração, mas sei muito bem que me amas pelos olhinhos e nunca pelas coisas que um dia morrem de podres, zonas internas e tal. Poemas. Bá. Andas bem empenhado em saber porque raios é que escrevo em inglês, mas nem eu sei. Deve ser só mais fácil mentir à estrangeiro. Desde que este da poesia era tudo verdade, mas não sei não. Também achei que o amor tinha muito menos mutação que um plátano e agora fica aqui sentado na minha fazenda assistindo a transição das estações. Alguém fez disso uma enorme ilusão. E olha que nem sei o que é a morte. My bad or my luck. Os olhos da avó ainda são azuis. Está tudo igual naquela sala é só puxar os sofás um pouco mais pra frente. É da crise, sei lá. Europa não parece querer ter outra palavra. Vi que na cidade o homem se suspende a troco de dinheiro e que fica na praça por horas e horas. Faz uns cento e tal euros por mês. Saudade do Rio all, my friend. Saudade de tudo aqui que a gente foi um dia, mas agora só existem os poemas. A mentira dos poemas. E a tradução dos poemas feitas por heróis que julgam, sei lá, amar a história que já morreu. Guarda nuns sessenta mil. Pode ser que te dê sorte.
741
Matilde Campilho
Época da Colheita de Lã
Faz hoje um ano e meio que inundaram o canal de Danesdale para dar passagem à procissão dos castores. Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa. Tenho-me recusado a falar sobre aquelas coisas habituais, como o coração de Deus, a corrida dos gaiatos, a visão macroscópica que incide sobre a dobra dos calções do atleta, o cílio do peixe preto que todos os dias roça o peito do mergulhador das manhãs, o resultado da partida de baseball no Connecticut ou a forma mais correcta de escrever baseball. Acho que o esporte é uma coisa reconfortante porque se realiza sempre sobre um solo fértil e também porque o posso abandonar a qualquer instante ou voltar a ele em qualquer instante. Fred ainda está vivo, ainda limpa o balcão do bar com o pano encardido e sei que sempre que regressar à cidade posso entrar no bar, sentar-me ao balcão e perguntar-lhe sobre a performance de Hank Aaron. Fred sabe tudo sobre o voo. Descobri inúmeros elementos transformadores da vontade, mas também não vou distender-me aqui em palavrões ou frases demasiado compostas só para encontrar um sentido no decorrer da sentença. O melhor pianista do país morreu esta tarde e tinha os cabelos iluminados de fogo. Sônia diz que ele fazia lembrar erupções de querubins no asfalto, Eric não para de chorar. A amendoeira do canal foi rasgada a canivete mas o desenho gravado não é de todo a tatuagem mais feia do mundo. Etc. Etc. Etc.
1 015
Matilde Campilho
Piscinão Blue
the real reason why we never jumped into the pool was
well freddy never was a good jumper betty never was a
good sport aunt amy always talked about tea pots and
tea plates and spoons and her lost loving pomegranates
and dad kept drawing leopards on every wall of our house
please don’t ask about mom or mom’s dress made of flowers
made of silk made of every shade of desmond’s fears
little timmy sang a song about our only friend kazakalim
whose skin was dark whose blood was dim whose chest
was shiny as the wooded flute that father used to clean
every morning every midday every night and every dawn
as mother danced around the oak tree which surely did
contain a bird contain a whale contain a stack of all our tears
well freddy never was a good jumper betty never was a
good sport aunt amy always talked about tea pots and
tea plates and spoons and her lost loving pomegranates
and dad kept drawing leopards on every wall of our house
please don’t ask about mom or mom’s dress made of flowers
made of silk made of every shade of desmond’s fears
little timmy sang a song about our only friend kazakalim
whose skin was dark whose blood was dim whose chest
was shiny as the wooded flute that father used to clean
every morning every midday every night and every dawn
as mother danced around the oak tree which surely did
contain a bird contain a whale contain a stack of all our tears
1 182
Matilde Campilho
Golpe de 7 Graus
Há aquele poema que fala de renas
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
1 250
Matilde Campilho
We’Ve Changed, Honey Boo
Como estava previsto nos registos, agora você é muito mais dada à astrologia e eu ao estudo dos cafés servidos nas beiras de estrada. A polícia não nos procura mais. O tribunal dos seiscentos dias resolveu que a misturada que fizemos com os nomes dos pássaros já não é uma questão para a segurança interna. Mensagens encriptadas na bula dos medicamentos, aromas desleais enfiados à socapa nos pacotinhos de sorvete, assobio nos ouvidos do sinaleiro- tudo parou. Quase nos prendiam por tráfico de influências, mas agora as urbanizações andam muito sossegadas. Daniel, entretanto, está morto. Walter emudeceu no caminho da composição e os jornais usam datas estranhas em seus cabeçalhos. Junto àquelas figuras de aviões e homens fardados aparece o nome do décimo sexto mês. Mudou tudo, honey, e a distância entre nós não foi certamente a causa para toda a explosão. Existem mais de trinca e nove marcas diferentes de café, isso sem contar as misturas solúveis. As professoras de Westbridge preferem-no forte. Os astronautas fora de missão bebem cafezinho claro, não vá acontecer uma emergência qualquer — quem entende de gravidade está muito consciente da ligação entre leveza e sono. Antes do horóscopo e dos mapas você prestava alguma atenção ao despertar do soldado. Acho que tinha qualquer coisa a ver com luz ou com melancolia, tinha certamente tudo a ver com crença. Quero dizer, tu trabalhavas na tipografia e eu ainda guardo a revista onde plantaste o retrato do barcalhão fazendo a vênia à alvorada. Falávamos muito de príncipes nessa época, e os príncipes pertencem às manhãs. Cada motel serve um café diferente, raios. Distingo os ares da China do vento do Cazaquistão num minuto. We’ve changed, honey boo, mas os climogramas permanecem.
1 028
Matilde Campilho
O Aparecimento Das Caveiras No Lençol da Via Láctea
Minha cara está se envelhecendo
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
1 000
Pero da Ponte
Que Mal S'este Mundo Guisou
Que mal s'este mundo guisou
de nulh'home per el fiar!
Nem Deus non'o quis[o] guisar,
pero o fez e o firmou;
ante o quise destroir,
pois que dom Telo fez end'ir,
que sempre bem fez e cuidou
des quando naceu, e punhou
sempr'em bondade gaanhar
e em seu bom prez avantar,
e nunca se d'al trabalhou.
E quem sas manhas bem cousir
pode jurar, por nom mentir,
que tôdalas Deus acabou.
Mais a mim já esto leixou
com que me posso conortar:
que hei gram sabor de contar
do bem que fez, mentre durou;
e tod'home que mi oir,
sempr'haverá que departir
em quanto bom prez del ficou.
E a dom Telo Deus x'o amou
pera si e x'o quis levar;
e nom se quis de nós nembrar,
que nos assi desemparou.
E mailo fez por se riir
deste mal mund'e escarnir,
que sempre com aleiv'andou.
E quen'a bem quiser oir,
que forte palavra d'oir:
"Dom Tel'Afons'ora finou!"
de nulh'home per el fiar!
Nem Deus non'o quis[o] guisar,
pero o fez e o firmou;
ante o quise destroir,
pois que dom Telo fez end'ir,
que sempre bem fez e cuidou
des quando naceu, e punhou
sempr'em bondade gaanhar
e em seu bom prez avantar,
e nunca se d'al trabalhou.
E quem sas manhas bem cousir
pode jurar, por nom mentir,
que tôdalas Deus acabou.
Mais a mim já esto leixou
com que me posso conortar:
que hei gram sabor de contar
do bem que fez, mentre durou;
e tod'home que mi oir,
sempr'haverá que departir
em quanto bom prez del ficou.
E a dom Telo Deus x'o amou
pera si e x'o quis levar;
e nom se quis de nós nembrar,
que nos assi desemparou.
E mailo fez por se riir
deste mal mund'e escarnir,
que sempre com aleiv'andou.
E quen'a bem quiser oir,
que forte palavra d'oir:
"Dom Tel'Afons'ora finou!"
369
João Soares Coelho
Quem Diz de Dom 'Stêvam Que Nom Vê Bem
Quem diz de Dom 'Stêvam que nom vê bem
dig'eu que mente, ca diz mui gram falha;
e [eu] mostrar-lh'-ei que nom disse rem
nem é recado que nulha rem valha;
pero mostrado devia seer
ca nom pode, per nulha rem, veer
mal home que nom vêe nemigalha.
E quem lho diz, sei que lhe nom diria
ca vêe mal, se migo falass'ante,
ou se o visse andar fora da via,
como o eu vi, junt'a Amarante,
que nom sabia, sair d'um tojal;
por en vos digo que nom vêe mal
quem vêe de redo quant'é deante.
dig'eu que mente, ca diz mui gram falha;
e [eu] mostrar-lh'-ei que nom disse rem
nem é recado que nulha rem valha;
pero mostrado devia seer
ca nom pode, per nulha rem, veer
mal home que nom vêe nemigalha.
E quem lho diz, sei que lhe nom diria
ca vêe mal, se migo falass'ante,
ou se o visse andar fora da via,
como o eu vi, junt'a Amarante,
que nom sabia, sair d'um tojal;
por en vos digo que nom vêe mal
quem vêe de redo quant'é deante.
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