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Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Filipa Leal

Filipa Leal

Estátua da liberdade

E ali estava - nós a atravessarmos de barco
a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho,
a mãe de óculos e écharpe, a Marta que em breve seria mãe também
mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro,
o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não doessem
de tantas avenidas, e o João Pedro, tão recém-casado, tão recém-feliz,
tão quase pai também sem o saber;
nós ao sol, de costas para ela, de frente uns para os outros, pressentindo
que Nova Iorque só interessaria por ali termos estado muito juntos,
e que na passagem dos anos apenas isso importaria, apenas isso:
termos ali estado distraídos, sentadíssimos, confortáveis
como os nossos corações.

E de repente ali estava ela a imitar os montes, de um verde indecifrável,
ali estava a imitar os homens invadidos, pesada, com picos na cabeça,
de braço esticado a tentar a luz, de livro pendurado,
ali estava séria, muda, quieta,
toda feita de pausa como um susto, como se jogássemos mímica,
como se a seguir nos pregasse uma partida, um grito,
e desfizesse a pose e risse de boca muito aberta à brincadeira,
livre então dos curiosos que empunhavam câmaras como se vê-la
assim, parada e incapaz, fosse espectáculo digno de registo.

Nós a chegarmos à ilha, a desembarcarmos do alheamento,
nós do tamanho familiar, todos de cabeça ao alto na inacessível sombra,
nós a rirmos das pessoas que lhe descobríamos na cabeça,
eles literalmente à varanda da cabeça, os visitantes,
ignorando que um futuro dia de Setembro inibiria aquela subida aos céus.

E ali estava ela de nariz empinado, recusando o gesto de anfitriã:

alta e ofendida
estátua
que era preciso limpar.

688
Herberto Helder

Herberto Helder

(Vox)

O que está escrito no mundo está escrito de lado
a lado do corpo — e tu, pura alucinação da memória,
entra no meu coração como um braço vivo:
o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem —
e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações
dos membros abertos: e irrompe o sangue
das imagens ferozes:
as rótulas unidas aos dentes e,
como um sexo trilhado:
a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura
de uma paisagem — uma
paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas
de luz
que se despenharam: porque não há lembrança
dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas
fotostáticos
levitando — a loucura está tão próxima que o meu braço
se entranha na água, e este atelier onde escrevo
sobe
dos precipícios curvos, forte desde o fundo:
aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela
à púrpura das madeiras, aos lençóis
ofuscantes cheios de sangue, de água
magnetizada — e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,
e em baixo a queimadura
dos intestinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto
plantado
em sua estaca de sangue como uma grande veia animal —
eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se
no remoinho da garganta — e levanto a mão e explode
cinematograficamente
a imagem da própria mão
afogada
— porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra
do corpo cerra-se
sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre
como uma chama
por toda a casa — ceifem-me os cabelos à luz
panorâmica: e nas raízes sangrentas
a cabeça queima-se como a lua queima as roupas
levantadas — o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce
dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra
aumenta
exposta às mãos como outra mão
de carne larga — esse
osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam
como se corta a noite
com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,
na terra, num incêndio completo, enquanto
ceifam: porque há uma cabeça no centro
do choque
do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias
sem fracturas: a cabeça
que vê e cheira e que se abre e fecha
e ouve e refulge e morde
e come depressa e respira para dentro e para fora —
e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas
— a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade
entre as unhas,
labaredas, um puro génio mundial — tudo como uma forma límpida,
sutura
do coração, uma leveza tremenda
no poder: quando o dia é muito perto, uma estrela comprida
— as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam
na queimadura da paisagem: uma visão
cerrada pela força: e um cometa desentranha-se
da branca carnagem das memórias, fervendo
entre axilas e falangetas como
um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras —
o que se lembra e pulsa: fibras
vivas
de uma vara embrenhada no meio da água,
e à volta os planetas oscilam como folhas cantando
desde o abismo —
os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem
profundamente
o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os selos, outros, últimos

as imagens de palavras (João Vieira) — as pessoas das imagens das coisas (Manuel de Castro)

1
Se mexem as mãos memoriais as mães
transmudam
o mundo. Sabem ponto
a ponto forte o quotidiano estelar das matérias: aço, louça
— atrás do ramo
dos ouros a fruta iluminada nos sítios
onde lhe pegam. Elas
sabem como se enxameiam as coisas como vão de umas às outras ou
se intensificam na limalha
por uma risca eléctrica. Eu exponho-me ao seu trabalho
assombroso e aprendo e
purifico. O braço irrompe desde a raiz aos dedos
em acção de rosa. Às luas nos meandros nos laços
vermelhos — o ensino
dos elementos. Vejo tanta seiva escoando-se pelos orifícios
aquela matriz crispada nas partes
virgens, nome
banhado. Depois a linha de células ardendo. Cada criança
arranca-se à criança lustral com as pratas eriçadas na cabeça, a quín
floração trazida acesa. Todo o fenómeno
fêmea
de mover-se no apoio das palavras das coisas.
Com esse romper de rosa pelas unhas.
Elas põem as centelhas nas jarras ao meio das massas
puras: carne,
o pão que ainda fermenta, o açúcar
agudo, tão fria a água
enredada: Nós que desatam com tanto poder tanta
delicadeza. Se a mão apanha os botões de sal entre os idiomas negros
fica viva nas cicatrizes. Toca
na testa da criança primeira: e todas as crianças sucessivas principiam e
aumentam nas rosas transmitidas.
O vagar magnifica. Como no alongamento dos ofícios, atenção, os ritmos
— e se a bebida é tão íntima numa infusa
que
em mente e sede se torna
acto
absoluto, aliança, poesia. A mão que vem da lenta loucura
e carrega com todo o peso terrestre
criança a criança profunda a lembrança
— e o ouro misterioso: a mão
empurra pela brancura fora, entre, até onde? como chegam sombrias
às suas rosas
essas vidas pequenas. Um dia elas mesmas hão-de ser abundantes, erguer
extremamente os dedos, brilhar, doar
como heranças leves
as cicatrizes. São palavras maternas abrem-se
em ferida. Nos espelhos centrais com as pancadas de ar as pessoas
nas palavras assistem à vertigem
da sua imagem:
cabeça contra dedos, a exaltação das rosas —


2
Alguns nomes são filhos vivos alguns ensinos de memória e dor
— a sua carne despedaçada, o sangue encharca os filhos vivos.
Tão fundo a lume e sal a massa ardida.
Na memória às vezes filhos
macios bafo a bafo ou violentos com os dedos
cravados no coração
na cabeça.
Como passar-lhes tanta força, meter as mãos no idioma
torcer as tripas como soprar nos sacos quentes, transferir
o segredo? São químicos, suados, astrofísicos, dão uma luz primei]
em cima das coisas, têm
um peso. A sua
gramática bárbara. Devoram-me enquanto morro
até aos núcleos do ouro
na sombra.
Um dia tocaram-me nos centros doces e abrasados vi
que os espelhos
se moviam entre os pólos, os rostos
enfeixavam-se no meu rosto arco a arco
numa única matéria.
E a dor? À noite bebo água quieta, durmo,
as chamas desatam-se.
E é com isso que sonho, imagem às faíscas, o sítio
selvagem mas
suavíssimo, absoluto,
a imagem inabitável que eu habito, um dom.
Se abro os braços e rodo a toda a volta da luz. Se
a melodia. Se o copo freme na minha boca.
Se o vidro queima.
Se uma chaga.
Uma estrela que me calcina onde sou misterioso,
parado, leve.
Que a linha então com a agonia tão alto transcreve a música.
Porque são os filhos vivos da minha água
vibrante, do meu fôlego, mão a mão dos raios
de quando adormeço. Fibras que latejam
ao arrancarem-se. Com que varejo
trançadas em paus varejo
a árvore astral defronte com as bagas no escuro.
Áureos galhos onde friso as consoantes do canto abalado. Se o canto
perde o ouro.
Não perde o canto munificente o arrepio o baptismo
filho a filho
crispados com um cordão negro. Glóbulos
brilham pelas palavras dentro.
Esse tecido em sangue e incandescência que um hausto enche
filhos — a frase escrita em mim
amargamente às vezes
um tubo de flúor estua e fulgura na substância púrpura
onde se geram os filhos pulsando sem anéis nos dedos —


3
Um nome simples para nascer por fora dormir comer subir
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —


4
Dançam segundo o ouro quer dizer fazem da fieira de estrelas africar
uma oficiação dos fogos. Trouxeram-nas para as paredes da caverna,
empurram-nas, uma
ignição floral, arqueadas, amarelo,
espigam nos abismos.
Eles dão luz com os braços e as pernas até que o vento tudo
sopra nessa lição até que
o irradiante os gestos magnificam
as formas do ar no ouro: a seara astronómica.
Primeiro como pessoas depois são animais que o sangue ata na garga
O mundo é numeroso.
O corpo, a dança devora-o vivo.
Alguém remoto sabia de outra escola disse:
este movimento no chão responde em labaredas.
Mas eles traziam à pedra a obra alumiada. Isto mantém em baixo
os organismos, coisas, cadeias
dos elementos.
Quando alguém abre o ar quando entra sideralmente a árvore a luz
consome-a folha a folha. Eles arrastam
em vagas paus queimados desde a medula
estrelas desde a medula eles
entalharam
na árvore
o seu nome vibrante a seiva enche o nome todo
que nome? estrelas é um nome
quem dança é um nome largo
o cordão de células pintado nos recessos,
a terra é o nome que a seiva irriga até aos nós profundos.
Como quem trança fibras — coração fechado
nas palavras, máquina, dentro. Então os espaços dança
a dança ininterruptos, a pedra cardiacamente escrita.
Os dedos tocam, atravessam-na.
Isto electrifica-se isto é um poder que vem
não das câmaras do sangue apenas mas
de uma aliança. Os corpos movem as estrelas.
Essa árvore das chamas essa
constelação inoxidável circundada pelo vento.
Eles brilham entre as folhas que brilham. O mundo — e
colocam pés e mãos, brilha. Colocam os raios das coisas, arrancam
à massa compacta a risca limpa.
Oh cingir tudo, uma
a uma as matérias com as estrelas sísmicas e
— o ar dentro das faúlhas
— as faúlhas dentro da pedra: manchas de tanto amarelo repetido.
Alguém disse: outro
verbo, outra vida, outra floração que as mãos ao rodeá-la
acendessem.
A dança ensina ao alto a astronomia —


5
Ele disse que
quando
lhe tocava nas zonas quentes a luz do vento abria as searas profundas
encapelava o ouro, os corredores do ar
através das palavras — perguntou:
porquê? O sangue bate mão na mão, perguntou se aquilo era tocar em tudo
disse: toco num objecto ele brilha
objectos que se crispam perguntou se os objectos eram espasmos
do espaço. Disse, os corpos são varas de ouro plantadas.
A seiva rutila nelas. Tocava, abalava organismos, elementos
límpidos, varas vivas.
O ar sem fundo erguia-se de dentro dos sítios. Disse:
o génio ininterrupto de multiplicares
o teu espaço luminoso — e
cada vara brilha de si mesma e da outra vara próxima.
Em que recessos te queimo, virgens, em que
inexplicáveis redes de imagens
buracos
de vento nas searas eriçadas varas com força?
Tu de onde o ar se levanta
se te afastas do teu nome até seres inominável quando toco
o teu nome se
te aproximas com o nome que tu és, essa abundância.
Ele disse: o remoinho da estrela na sua clareira.
Porque se fundem com os dedos as matérias selvagens, ah
como refulge o bocado de carne, que chegue
devagar à boca, refulja
ela também aquela que devora.
Células terríveis, como vibram, células das coisas que trazes
à sua pulsação. O mover
dos dedos move o mundo, disse que era o nexo oculto na arte
de cada coisa.
A leveza da mão desequilibra a chama, a atmosfera dá-lhe
tanta potência. Se te
toco, disse. Se
te devasto no recôndito empunhando as unhas contra a cabeça
coroada quando te deslocas a fôlego
e peso, as translações radiais de ti a mim. Toda
a electricidade
corre pelas fibras dos substantivos, acende-os, trança-os, transforma-os
numa
constelação vergada. Tu
transformas-te — alargas os braços apanhando a claridade onde
os longos arcos
reflexos:
o garfo na boca, a labareda cortada na testa, os laços de carne sob o vestido
com uma cor olhada instantânea.
Disse que a mão compõe a sintaxe de botões luzindo que
quando lhe tocava
o nome do mundo crescia tanto —


6
São escórias queimadas tocas ao negro. Com seus anéis de chumbo é a
carne humana. Como brilham violentamente as cicatrizes.
Tão fundo
o fundamento: tocas forte bebes leve pensas louco. Deténs
as areias acesas
o ar enflorado entre os cometas sobre montanhas e a sua água a uma
velocidade
branca. Ficas alumiado da espuma da tua corola.
Se as mães irradiam
— leite, fôlego, fosforescência
dos botões pequenos: por umbigo te alimentas entre gengivas e líng
os mamilos dulcíssimos. A idade desta arte é a da prata aberta
idade de quando se espalha. Tudo em nome
apenas: árvore, cobra redonda. Isto foi dito às fêmeas flor
das coisas o tratamento
dos nexos ordem
a operação da rosa,e nada
é oculto. Que se ilumine o galho onde o ferro talha — e entre espelho
e espelho aparta as luzes pelas riscas que sangram.
Corres aos nós de glóbulo em glóbulo
as tuas linhas de pérolas, ramais, a tua
seiva rútila.
Arranca das madres frias uma fruta cheia fende-a
a faca ou dedos
até ao âmago: batam-lhe relâmpagos
um halo a mantenha.
Quando a substância apure e arrefeça que inunde 
a boca a estrela
te inunde todo. Danças às vezes nas voragens — pelo poder desse
arrebatamento movem-se: a cobra enrolada e
a laranjeira ao meio dos meteoros e
as mães nos tronos dos territórios silenciosos
áureas
mães aracnídeas ferrando os ganchos nos tecidos suaves 
rasgando nos tecidos os orifícios
vermelhos. As mães devoram-te nos imos, como as devoras às cegas 
e as laranjas na boca profundamente 
com seu nome pleno a ouro
bravio. Águas agrestes minam-te até à transparência e ergues-te
obra o torso
vibrando
com as rosas das cicatrizes. E essa coisa que fazes
obscuramente — se um dia és lenha suada ardes
da tua própria resina se
torneias o vaso dás-lhe pela cinta quieta
uma pancada salgada um donaire
de onda, e tocas na curva da bilha: e ficas harmonioso —


Novembro-dezembro, 1990.

1 140
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas do Velho Testamento - Saltério

SALMOS 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139
(Segundo montagem de Jean Grosjean)

Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.

Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.

Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!

E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.

Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!

Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!

De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.

Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?

Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?

Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.

Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.

Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.

Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.

Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.

A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?

Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.

— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?

Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?

Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.

Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!

Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!

Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.

Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.

Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.

Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.

Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.

Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.

Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.

Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.

Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.

Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
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