Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
José Maria de Barros Pinho
O Retrato nas Paredes
As casas como as pessoas
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.
Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.
As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.
De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.
São Luis / junho 1997
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.
Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.
As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.
De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.
São Luis / junho 1997
1 151
Batista de Lima
Só
O que faz mais dura a solidão
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
1 046
Artur Eduardo Benevides
Dos Caminhos e Descaminhos da Solidão
I
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
1 544
Armindo Trevisan
Nudez Septenária
A primeira nudez
é a nudez apressada,
a nudez que cobre
a Amada.
A segunda nudez
é a nudez demorada,
a nudez que enfeita
a pausa.
A terceira nudez
é a nudez quase fixa,
a nudez que se insere
entre os amantes.
A quarta nudez
é a nudez extática,
a nudez que ingora
o Amor.
A quinta nudez
é a nudez sem espaço,
a nudez que divide
o enlace.
A sexta nudez
é a nudez sem tempo,
a nudez que sustenta
a memória
A sétima nudez
é a nudez eterna,
a nudez que acaba
em Deus.
é a nudez apressada,
a nudez que cobre
a Amada.
A segunda nudez
é a nudez demorada,
a nudez que enfeita
a pausa.
A terceira nudez
é a nudez quase fixa,
a nudez que se insere
entre os amantes.
A quarta nudez
é a nudez extática,
a nudez que ingora
o Amor.
A quinta nudez
é a nudez sem espaço,
a nudez que divide
o enlace.
A sexta nudez
é a nudez sem tempo,
a nudez que sustenta
a memória
A sétima nudez
é a nudez eterna,
a nudez que acaba
em Deus.
1 215
Batista de Lima
A casa de meu avô
A casa de meu avô
tem histórias que o vento
esqueceu nas cumeeiras
Traços traçam
amarelo de tempo
nas pessoas dos retratos
No chapéu de meu avô
o peso do esperar
pendurou-se nas abas
O último cachorro
deixou seu jeito no canto da porta
seu grito no longe da serra
e no susto dos bichos
Nos varais as marcas dos panos
se envergonham de nudez
Nos baús o cheiro dos lençóis
espera a vida
que se esvaiu pelas frechas
A casa de meu avô
é uma dor sem jeito
tem histórias que o vento
esqueceu nas cumeeiras
Traços traçam
amarelo de tempo
nas pessoas dos retratos
No chapéu de meu avô
o peso do esperar
pendurou-se nas abas
O último cachorro
deixou seu jeito no canto da porta
seu grito no longe da serra
e no susto dos bichos
Nos varais as marcas dos panos
se envergonham de nudez
Nos baús o cheiro dos lençóis
espera a vida
que se esvaiu pelas frechas
A casa de meu avô
é uma dor sem jeito
1 059
Aymar Mendonça
A Casa
A casa era de seda
sorrisos e alecrim
Na casa ecoavam
cantigas de roda
tinir de talheres
arrastar de chinelos
vozes de bichos
Tinha quadros de santos
retratos sisudos
miado de gatos
moringa de barro
A casa era tépida
cheirava a pêssego
amora
goiaba
manga-espada
No porão escuro
a casa escondia relíquias:
bordados de renda
passados do tempo,
tempo das moças
hoje grisalhas
A casa era um mito
Na mesa da casa
um gosto de festa:
arroz branco, lombo frito
couve-flor, caruru
o melado adoçando lembranças
o leite branqueando a noite
A casa era um livro
de vida e de vidas:
enchendo os espaços
os gritos da infância
o cheiro do café coado
A casa era acesa:
no fogão de lenha
o avô aquecia os pés frios,
mãos quentes de proteção
A casa prendia verdades
dentro do aconchego:
gradeava afetos
segredos
desafetos
medos
A casa não era estática
viajava conosco
Que saudade da casa
com portões de madeira
e de ferro
trancando risos mágoas
escondendo o pudor da família
......................................
A casa não é mais a casa
é uma casa
e eu sou uma saudade
da casa.
sorrisos e alecrim
Na casa ecoavam
cantigas de roda
tinir de talheres
arrastar de chinelos
vozes de bichos
Tinha quadros de santos
retratos sisudos
miado de gatos
moringa de barro
A casa era tépida
cheirava a pêssego
amora
goiaba
manga-espada
No porão escuro
a casa escondia relíquias:
bordados de renda
passados do tempo,
tempo das moças
hoje grisalhas
A casa era um mito
Na mesa da casa
um gosto de festa:
arroz branco, lombo frito
couve-flor, caruru
o melado adoçando lembranças
o leite branqueando a noite
A casa era um livro
de vida e de vidas:
enchendo os espaços
os gritos da infância
o cheiro do café coado
A casa era acesa:
no fogão de lenha
o avô aquecia os pés frios,
mãos quentes de proteção
A casa prendia verdades
dentro do aconchego:
gradeava afetos
segredos
desafetos
medos
A casa não era estática
viajava conosco
Que saudade da casa
com portões de madeira
e de ferro
trancando risos mágoas
escondendo o pudor da família
......................................
A casa não é mais a casa
é uma casa
e eu sou uma saudade
da casa.
947
Anízio Vianna
leitmotiv
a seda do luar na veia
o sedativo
onde pousei meu desejo
tua mão varreu o piso
deixo
no AR
como
que por alívio
o perfume desse filme
não cessa de passar
lento
na tela
da música
meu leitmotiv
falo:
- é feminino cantar
o sedativo
onde pousei meu desejo
tua mão varreu o piso
deixo
no AR
como
que por alívio
o perfume desse filme
não cessa de passar
lento
na tela
da música
meu leitmotiv
falo:
- é feminino cantar
1 176
Beatriz Alcântara
Tiradentes
O perfume da dama da noite apouca
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.
1 006
Arthur Fortes
Esfinge
Fico-me só, horas mais horas, triste,
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
755
Antonio Roberval Miketen
Oitava Cantiga de Amigo
Junto às vagas do mar de Vigo,
venho ao relembrar de um amigo.
Aves põem plumas no horizonte
e as plumas, águas de uma fonte,
em Vigo, nas algas do mar,
do amigo, trazem-me o tardar.
Do além-mar vem, leve por plumas,
a dor que não quero chorar.
Porém as gaivotas põem brumas,
no profundo de meu penar,
onde, às margens do mar de Vigo,
venho ao relembrar de um amigo.
venho ao relembrar de um amigo.
Aves põem plumas no horizonte
e as plumas, águas de uma fonte,
em Vigo, nas algas do mar,
do amigo, trazem-me o tardar.
Do além-mar vem, leve por plumas,
a dor que não quero chorar.
Porém as gaivotas põem brumas,
no profundo de meu penar,
onde, às margens do mar de Vigo,
venho ao relembrar de um amigo.
1 102
Antonio Roberval Miketen
Noche
Un viento ondula
hojas inmensas
en los más profundo
de mi silencio.
Una onda inunda
mi consciente
que se ahonda
en el agua intensa.
Memorias brillan
de una estrella
jamás descrita.
Brama, aquí dentro,
el eterno grito
de la tierra en tinieblas.
hojas inmensas
en los más profundo
de mi silencio.
Una onda inunda
mi consciente
que se ahonda
en el agua intensa.
Memorias brillan
de una estrella
jamás descrita.
Brama, aquí dentro,
el eterno grito
de la tierra en tinieblas.
634
Antonio Roberval Miketen
Night
A breeze ripples
huge leaves
in the depth
of my silence.
A wave floods
my conscience
that submerges
in the tense waters.
Memories shine
from a star
at no time traced.
Deep inside
roars the eternal scream
of earth covered by darkness.
huge leaves
in the depth
of my silence.
A wave floods
my conscience
that submerges
in the tense waters.
Memories shine
from a star
at no time traced.
Deep inside
roars the eternal scream
of earth covered by darkness.
888
Antonio Roberval Miketen
Octava Cantiga de Amigo
Junto a las olas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
854
Anderson Braga Horta
Poeminha Súbito
Mas que sabemos nós de toda essência?
Do beijo que se foi fica um perfume;
do que não foi, também.
O beijo estava em nós antes do beijo!
Somos o que já éramos? Terrível
o futuro.
Do beijo que se foi fica um perfume;
do que não foi, também.
O beijo estava em nós antes do beijo!
Somos o que já éramos? Terrível
o futuro.
1 275
Antonio Roberval Miketen
Noite
Um vento ondula
folhas imensas
no mais profundo
do meu silêncio.
Uma onda inunda
meu consciente
que se afunda
na água intensa.
Memórias brilham
de uma estrela
jamais descrita.
Brama, cá dentro,
o eterno grito
da terra em trevas.
folhas imensas
no mais profundo
do meu silêncio.
Uma onda inunda
meu consciente
que se afunda
na água intensa.
Memórias brilham
de uma estrela
jamais descrita.
Brama, cá dentro,
o eterno grito
da terra em trevas.
859
Álvares de Azevedo
Tarde de Outono
Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
Alfred de Musset
O Poeta:
Oh! Musa, por que vieste,
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?
A Saudade:
De um puro amor a lânguida Saudade
É doce como a lágrima perdida
Que banha no cismar um rosto virgem,
Volta o rosto ao passado, e chora a vida.
O Poeta:
Não sabe o quanto dói
Uma lembrança quye rói
A fibra que adormeuceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minha alma viveu.
A Saudade:
Pálidos sonhos no passado morto
É dove reviver mesmo chorando.
A alma refez-se pura. Um vento aéreo
Parece que de amor nos vai roubando.
O Poeta:
Eu vejo ainda a janela
Onde à tarde junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d’enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!
Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair ?
A Saudade:
A casa está deserta. A parasita
Das paredes estala a negra cor.
Os aposentos o ervaçal povoa.
A porta é franca... Entremos, trovador!
O Poeta:
Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me prantos, ó meu Deus!
Eu quero chorar aqui!
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!
Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em Saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.
A Saudade:
Sonha, Poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.
O Poeta:
Minha alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperaçança,
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!
Ali amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi.
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!
Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!
Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver!
Tão doce, que em mim sentia
Que minhalma se esvaía
E eu pensava ali morrer!
A Saudade:
É berço de mistério e dharmonia
Seio mimoso de adorada amante.
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.
Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem,
E a vida foge ao peito ... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.
Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E a voz dela é um hino.
Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.
Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do Poeta
Doira a amante de nova formosura!
O Poeta:
Que gemer! não me enganava?
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas,
As venturas tão choradas
Que vibram meu coração?
É tarde, amores, é tarde;
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
.........................................
.........................................
Plus vrai que le bonheur.
Alfred de Musset
O Poeta:
Oh! Musa, por que vieste,
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?
A Saudade:
De um puro amor a lânguida Saudade
É doce como a lágrima perdida
Que banha no cismar um rosto virgem,
Volta o rosto ao passado, e chora a vida.
O Poeta:
Não sabe o quanto dói
Uma lembrança quye rói
A fibra que adormeuceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minha alma viveu.
A Saudade:
Pálidos sonhos no passado morto
É dove reviver mesmo chorando.
A alma refez-se pura. Um vento aéreo
Parece que de amor nos vai roubando.
O Poeta:
Eu vejo ainda a janela
Onde à tarde junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d’enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!
Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair ?
A Saudade:
A casa está deserta. A parasita
Das paredes estala a negra cor.
Os aposentos o ervaçal povoa.
A porta é franca... Entremos, trovador!
O Poeta:
Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me prantos, ó meu Deus!
Eu quero chorar aqui!
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!
Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em Saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.
A Saudade:
Sonha, Poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.
O Poeta:
Minha alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperaçança,
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!
Ali amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi.
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!
Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!
Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver!
Tão doce, que em mim sentia
Que minhalma se esvaía
E eu pensava ali morrer!
A Saudade:
É berço de mistério e dharmonia
Seio mimoso de adorada amante.
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.
Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem,
E a vida foge ao peito ... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.
Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E a voz dela é um hino.
Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.
Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do Poeta
Doira a amante de nova formosura!
O Poeta:
Que gemer! não me enganava?
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas,
As venturas tão choradas
Que vibram meu coração?
É tarde, amores, é tarde;
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
.........................................
.........................................
3 148
Anísio Melhor
O Tempo e a Memória
Fica-te aí, parado na memória,
Reveste de outono a luz de tua face
Oh Sempre Adormecida, que a Vitória
Do Amor é conservar consigo a face.
E, assim, vencer o tempo na memória
E atingir o eterno no traspasse
Fatal. Trazendo adiante na Memória,
A visão emblemática da face.
Na ilha de agosto, faze tua morada
E em setembro hás de surgir do Nada
Se estática ficares na memória.
Que nunca apareceste na jornada,
Ou houveres sido, existirás Amada
Se ficares presente na memória.
(Sanatório Bahia — 22.3.1960)
Reveste de outono a luz de tua face
Oh Sempre Adormecida, que a Vitória
Do Amor é conservar consigo a face.
E, assim, vencer o tempo na memória
E atingir o eterno no traspasse
Fatal. Trazendo adiante na Memória,
A visão emblemática da face.
Na ilha de agosto, faze tua morada
E em setembro hás de surgir do Nada
Se estática ficares na memória.
Que nunca apareceste na jornada,
Ou houveres sido, existirás Amada
Se ficares presente na memória.
(Sanatório Bahia — 22.3.1960)
1 011
Alexandre Marino
Avoagem
o velho guerreiro avoava sobre a vida
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
972
André Ricardo Aguiar
Ancoradouros
lembrança boa
um mar maior
maior que um oceano
vou lendo ilhas
frequentemente distantes;
Kafka, Borges, Pessoa...
um mar maior
maior que um oceano
vou lendo ilhas
frequentemente distantes;
Kafka, Borges, Pessoa...
954
Alfredo José Assunção
Lembranças
Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
1 055
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Poema das Vinte Horas
Vinte horas...
E te quedas jogado no meio da estrada,
Livre do corpo
Morto.
Vinte horas...
A lua estática e longíqua
As estrelas, os brilhos, os sonhos
E te quedas alí
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas, vinte minutos
Vinte séculos
Eternidade.
Não verás mais o sol
Ou já chegaste ao centro dele?
Mas teu corpo jogado
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas....
Vinte amigos, vinte irmãs, vinte mães,
Vinte santos, vinte vidas, vinte mortos,
Vinte, vinte, vinte...
E no meio da estrada
Jogado o corpo morto.
E tua memória nas memórias dos que ficam.
Um momento às vinte horas
E trocaste teu corpo morto
Pela eternidade de tua alma?
Ou lembranças nos homens que ficam?
Dos que fica à espera...
À espera apenas
De suas próprias vinte horas!
E te quedas jogado no meio da estrada,
Livre do corpo
Morto.
Vinte horas...
A lua estática e longíqua
As estrelas, os brilhos, os sonhos
E te quedas alí
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas, vinte minutos
Vinte séculos
Eternidade.
Não verás mais o sol
Ou já chegaste ao centro dele?
Mas teu corpo jogado
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas....
Vinte amigos, vinte irmãs, vinte mães,
Vinte santos, vinte vidas, vinte mortos,
Vinte, vinte, vinte...
E no meio da estrada
Jogado o corpo morto.
E tua memória nas memórias dos que ficam.
Um momento às vinte horas
E trocaste teu corpo morto
Pela eternidade de tua alma?
Ou lembranças nos homens que ficam?
Dos que fica à espera...
À espera apenas
De suas próprias vinte horas!
971
Adailton Medeiros
Cucu
(No maranhão: faz tanto tempo
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
1 182
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Nem é esta a mesma rua que passo
Nem é esta a mesma rua que passo
A mesma rua por onde passava.
Nem é o mesmo eu que carrego
O antigo eu que antes carregava.
A rua é a mesma, eu sei...
Mesmas árvores ( só que mais frondosas )
Mesmas pedras ( só que mais usadas )
Mesma distância entre uma e outra calçada.
O que está comigo parece o mesmo eu...
Mesma ânsia de viver, mesmas dores,
Mesmos sonhos de criança, ardores,
Mesmo jovem que caminhava em ilusão,
Mesmo deslumbramento imaginoso em solidão.
Mas sinto como uma pressão no sangue
Que nem é a mesma rua que agora passo
E nem é o mesmo quem que hoje comigo carrego,
Os de outrora....
Aconteceram tantas quedas, tantos silêncios
E o vento...
A mesma rua por onde passava.
Nem é o mesmo eu que carrego
O antigo eu que antes carregava.
A rua é a mesma, eu sei...
Mesmas árvores ( só que mais frondosas )
Mesmas pedras ( só que mais usadas )
Mesma distância entre uma e outra calçada.
O que está comigo parece o mesmo eu...
Mesma ânsia de viver, mesmas dores,
Mesmos sonhos de criança, ardores,
Mesmo jovem que caminhava em ilusão,
Mesmo deslumbramento imaginoso em solidão.
Mas sinto como uma pressão no sangue
Que nem é a mesma rua que agora passo
E nem é o mesmo quem que hoje comigo carrego,
Os de outrora....
Aconteceram tantas quedas, tantos silêncios
E o vento...
786
Antônio Girão Barroso
As Três Pessoas
Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
1 145